15 outubro 2016

Resenha Crítica: "Café Society" (2016)

 Dotado de falas marcantes, diversas traições, frustrações amorosas, imensa música jazz, uma representação muito própria de Nova Iorque, uma mordacidade indelével, um trabalho sublime de Vittorio Storaro na cinematografia, interpretações de bom nível por parte do elenco principal, "Café Society" é mais uma viagem aos fascinantes universos narrativos das obras cinematográficas de Woody Allen, com o realizador e argumentista a dotar o filme de algumas das suas imagens de marca. No caso de "Café Society", Woody Allen transporta-nos para Hollywood e Nova Iorque em plenos anos 30, com os cenários e o guarda-roupa a remeterem para a época, bem como a miríade de referências cinematográficas que o realizador insere no interior do filme. "Café Society" é, também, uma obra cinematográfica sobre os bastidores de Hollywood e um período muito próprio da Sétima Arte, com Allen a não poupar em referências que vão desde filmes como "The Woman in Red" e "Swing Time", passando por menções a intérpretes como Barbara Stanwyck, Errol Flynn (e as suas conquistas amorosas), Greta Garbo, Paul Muni, Ginger Rogers, entre outros exemplos, com o cineasta a exibir mais uma vez a sua cinefilia. O foco do enredo de "Café Society" centra-se sobretudo em Bobby Dorfman (Jesse Eisenberg), um indivíduo oriundo de Nova Iorque, de uma família de origens judaicas, que pretende triunfar em Hollywood, uma pouco à imagem de diversos jovens da sua idade. Jesse Eisenberg consegue expressar o espírito sonhador, meio naïf e sem rumo de Bobby, bem como o pouco à vontade que este personagem apresenta inicialmente com as mulheres, com excepção de Vonnie (Kristen Stewart), a secretária de Phil (Steve Carell), o tio do protagonista. Esse pouco à vontade de Bobby com as mulheres é particularmente visível quando o protagonista contrata os serviços de Candy (Anna Camp), uma prostituta novata, com ambos a demonstrarem uma atrapalhação latente, algo que resulta num dos vários momentos de humor do filme. Não faltam piadas que envolvem as raízes judaicas de Bobby e Candy, as frustrações de cariz sexual, o nervosismo, as falas mordazes, tudo muito ao jeito de Woody Allen, com Jesse Eisenberg a conseguir emular o estilo deste último. Diga-se que Bobby não aprecia a "encomenda" do serviço de prostitutas, embora Ben (Corey Stoll), o irmão mais velho do protagonista, tenha fornecido o contacto ao caçula. Ben é um gangster violento, pouco dado a cumprir a lei, que lidera um bando criminoso e permite a Woody Allen criar um um gag recorrente que passa pelo assassino colocar os corpos das suas vítimas no interior de cimento em estado líquido. Bobby não sabe de todos os negócios ilegais do irmão, com o núcleo familiar do protagonista a ser problemático e fervilhante. Rose (Jeannie Berlin) e Marty (Ken Stott), os pais de Bobby, passam boa parte do tempo a discutir, com ambos a procurarem respeitar a cultura Judaica, sobretudo o segundo, um indivíduo que despreza Phil, o irmão da esposa. Evelyn (Sari Lennick), a irmã do meio de Bobby, é uma professora primária, que se corresponde bastante com o protagonista e é casada com Leonard (Stephen Kunken), um intelectual que gosta de resolver todos os problemas através da via do diálogo, algo que contrasta com o irmão mais velho da esposa. O quotidiano desta família é uma confusão pegada, com Bobby a decidir aventurar-se por Hollywood, pedindo inicialmente apoio a Phil, um indivíduo bem-sucedido, que trabalha como agente de boa parte das estrelas de Hollywood. Steve Carell compõe um personagem intenso na exposição dos sentimentos, com o actor a criar uma figura aparentemente confiante e dinâmica, que mantém uma extensa rede de contactos e participa numa miríade de festas de luxo.

 Phil é casado e pai de filhos, embora mantenha um affair com uma das suas funcionárias, uma situação que promete gerar um triângulo amoroso onde Woody Allen exibe o seu humor negro e a sua capacidade para se envolver nos meandros dos sentimentos humanos. Steve Carell atribui credibilidade quer à faceta mais exuberante, quer mais frágil de Phil, um indivíduo poderoso, que inicialmente procura evitar reunir-se com o sobrinho, uma situação que remete para o afastamento do empresário em relação ao resto da família. Phil acaba por transportar o sobrinho para o interior de festas de luxo em Hollywood, enquanto lhe dá a conhecer uma série de contactos, até integrar o familiar num cargo menor. O personagem interpretado por Steve Carell incumbe Vonnie, a sua secretária, de dar a conhecer diversos espaços de Hollywood a Bobby, com a jovem a formar uma ligação com o protagonista que se torna em algo mais forte. A química entre Jesse Eisenberg e Kristen Stewart é latente, com a actriz a continuar a exibir que está numa fase muito positiva da sua carreira. De roupas inicialmente simples mas cheias de estilo, uma personalidade vincada e pouco fútil, Vonnie parece quase um duplo de Kristen Stewart, com a actriz a contar com uma dinâmica assinalável com Jesse Eisenberg. Diga-se que Stewart e Eisenberg já tinham formado par romântico quer no recomendável "Adventureland", quer no sofrível "American Ultra", com a actriz e o actor a convencerem o espectador em relação aos laços que se formam entre Vonnie e Bobby. O problema é que esta encontra-se envolvida com um homem casado, com Woody Allen a abordar mais uma vez com grande estilo e sentimento as habituais traições e frustrações amorosas que povoam as suas obras cinematográficas. As frustrações de cariz sexual, as traições, o fascínio despertado pela cidade de Nova Iorque, as temáticas do foro existencialista, os elementos da cultura judaica, a música jazz, a presença de um narrador (Woody Allen) bastante activo, os personagens ligados ao meio cultural e artístico, a análise muito própria dos sentimentos humanos aparecem como alguns dos ingredientes que pontuam "Café Society" e diversas obras cinematográficas de Woody Allen, com Vonnie e Bobby a surgirem como mais um par amoroso problemático cuja relação parece fadada ao fracasso. Woody Allen desenvolve a relação de Vonnie e Bobby de forma inspirada e certeira, com os diálogos trocados pelos personagens a beneficiarem não só da habilidade do cineasta para a escrita de argumentos mas também da química entre Kristen Stewart e Jesse Eisenberg. Este romance permite ainda que Woody Allen nos transporte para os bares, os restaurantes (boa decoração dos cenários interiores), os cinemas e as praias como se estivéssemos em plenos anos 30, enquanto explora a faceta intrincada deste envolvimento amoroso. Bobby não sabe, a nível inicial, quem é o amante de Vonnie. Esta namora com alguém muito próximo do protagonista, com o destino a fazer das suas e a implicar uma série de personagens que povoam a narrativa de "Café Society". Num determinado momento de "Café Society", Bobby salienta o seguinte: "Life is a comedy written by a sadistic comedy writer". A frase tem muito de Woody Allen e das obras cinematográficas do cineasta (e da sua genialidade), com "Café Society" a não ter problemas em reflectir sobre a vida e as relações humanas, ou o papel mordaz do destino. Esta frase de Bobby remete para a forma distinta com que o personagem começou a encarar a vida (e a evolução do protagonista ao longo do enredo), com Jesse Eisenberg a transmitir que estamos diante de uma figura que aprendeu que o destino pode ser mordaz e conter doses assinaláveis de humor negro.

 Meio nervoso, incapaz de compreender totalmente as mulheres, capaz de cometer traições e ser traído, Bobby cresce do ponto de vista mental em Hollywood, um espaço onde conhece um amor bastante forte e diversas desilusões. Bobby decide dirigir o clube nocturno adquirido por Ben, com este último a tratar da parte mais violenta, enquanto o protagonista, com o apoio de Rad (Parker Posey) e Steve (Paul Schneider), um casal que conheceu na sua estadia pela Califórnia, consegue transformar este estabelecimento num espaço de referência em Nova Iorque. O clube nocturno permite que Woody Allen transmita como idealiza os espaços do género deste período (e a forma como eram frequentados e o seu tipo de clientela, em particular, a nata da sociedade), enquanto transforma Bobby numa espécie de Rick Blaine que, apesar de ter procurado seguir em frente com a sua vida, não consegue esquecer Ilsa, neste caso, Vonnie. Não falta um episódio em que o protagonista é surpreendido no local de trabalho e fica visivelmente perturbado, com Woody Allen a elaborar o seu "momento Casablanca", enquanto aproveita o cenário do clube nocturno ao serviço da narrativa. Apesar de ter alcançado o estatuto de homem de negócios de sucesso, Bobby continua a lidar com a constante turbulência do seu núcleo familiar explosivo. Veja-se o caso dos episódios protagonizados por Ben, um criminoso inconsciente em relação às consequências dos crimes que comete, parecendo saído de um filme de gangsters dos anos 30, com Corey Stoll a exprimir a violência deste indivíduo pouco recomendável. Woody Allen conta com um elenco competente, com Jesse Eisenberg a surgir como uma espécie de duplo do cineasta, enquanto Kristen Stewart continua a surpreender pela positiva. Stewart expõe habilmente e naturalmente a faceta misteriosa desta personagem inteligente, elegante e inicialmente pouco pedante, que tem de se decidir entre uma das duas figuras por quem se encontra apaixonada (um pouco a fazer recordar o dilema da personagem interpretada por Diane Keaton em "Manhattan"). Kristen Stewart consegue convencer o espectador do dilema de Vonnie, bem como das mudanças desta personagem ao longo do enredo e as dificuldades que esta figura feminina encontra para não sucumbir à futilidade do mundo que a rodeia. Por sua vez, Steve Carell assume com competência o papel de agente de actores com uma carreira bem-sucedida, que se mexe como poucos nos meandros de Hollywood e acaba por se envolver num triângulo amoroso inesperado, embora a dinâmica entre o actor e Kristen Stewart nunca convença ao nível da química emanada por Vonnie e Bobby. Eisenberg consegue transmitir o entusiasmo do personagem que interpreta ao perceber que no interior da sua alma brota algo de muito especial, com Bobby a procurar refazer a sua vida de forma séria em Nova Iorque, embora "Café Society" não poupe nos encontros e desencontros, algo que dificulta a tarefa do protagonista.

 O elenco conta ainda com outros intérpretes que encontram espaço para sobressair, tais como Corey Stoll (a facilidade com que elimina aqueles que se colocam no seu caminho traz à memória o irmão do personagem interpretado por Martin Landau em "Crimes and Misdemeanors"), ou Stephen Kunken como um intelectual pouco expedito, com "Café Society" a contar com um leque alargado de personagens. Diga-se que nem todos os intérpretes conseguem dar um ar da sua graça, que o diga Blake Lively, a intérprete de Veronica, uma loira que tanto tem de bela como de amorfa, que ganha uma relevância notória na vida de Bobby, apesar de Woody Allen raramente conceder tempo para a actriz criar uma personagem que evolua de forma homogénea na narrativa. Já Vittorio Storaro tem espaço de sobra para exibir que é uma adição de peso às equipas de Woody Allen, com o grande mestre da cinematografia a contribuir para alguns planos belíssimos. Veja-se o momento em que Vonnie e Bobby trocam um beijo no Central Park, ou o trecho em que falha a electricidade na casa do segundo quando se reúne com a primeira, com a iluminação proveniente das velas a criar toda uma atmosfera romântica e intimista. Temos ainda a forma luzidia e solarenga como os cenários de Beverly Hills são exibidos, ou a exposição de um crepúsculo belíssimo que envolve Nova Iorque, com Woody Allen a ter em Vittorio Storaro um parceiro de peso. As salas de cinema recebem quase todos os anos um novo filme de Woody Allen, com o cineasta a apresentar uma proficuidade que apenas praticamente é igualada pela sua genialidade, mesmo quando sabemos que aquilo que nos está a apresentar já foi dado com mais classe e vigor, com "Café Society" a não estar ao nível de algumas obras-primas do realizador, embora esteja longe de merecer passar despercebido diante da miríade de estreias que invadem as salas de cinema. Entre traições, frustrações, relações amorosas que se formam e despedaçam, uma banda sonora pontuada por ritmos de jazz e interpretações de bom nível de intérpretes como Jesse Eisenberg, Kristen Stewart e Steve Carell, "Café Society" transporta-nos para o interior de Nova Iorque e Hollywood dos anos 30, ou melhor, para estes espaços como Woody Allen encara os mesmos, ou seja, de forma muito própria e especial, com o cineasta a demonstrar mais uma vez que a sua proficuidade é muito bem-vinda.

Título original: "Café Society".
Realizador: Woody Allen.
Argumento: Woody Allen.
Elenco: Kristen Stewart, Jesse Eisenberg, Steve Carell, Corey Stoll, Stephen Kunken, Parker Posey, Paul Schneider, Jeannie Berlin, Ken Stott, Anna Camp, Blake Lively.

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