02 outubro 2016

Resenha Crítica: "Bølgen - Alerta Tsunami"

 Num determinado momento de "Bølgen", a nova longa-metragem realizada por Roar Uthaug, encontramos Kristian Eikfjord (Kristoffer Joner), o protagonista, um geólogo que habita e trabalha em Geiranger, um espaço rural que se encontra situado na comuna de Stranda, a observar uma montanha. As montanhas parecem fascinar e atemorizar este geólogo que ama a sua profissão e a sua família, com Kristoffer Joner a compor um protagonista carismático, competente no cumprimento das suas tarefas, corajoso e altruísta, que teme a possibilidade de ocorrer um desastre natural em Geiranger. A possibilidade desse evento catastrófico acontecer é elevada, com "Bølgen" a evidenciar desde o início que as características de alguns territórios da Noruega são propícias à ocorrência de desastres naturais. No início de "Bølgen" ficamos diante de uma reportagem onde são recordados alguns desastres naturais que ocorreram na Noruega, com Roar Uthaug a dar desde logo o mote ao expor que o fenómeno representado no filme não se encontra assim tão distante da realidade: "Na noite do deslizamento, a 15 de Janeiro de 1905, as pessoas foram surpreendidas enquanto dormiam. A montanha ruiu no vale Lodalen, em Nordfjord. O resultado foi uma onda gigante, que matou 63 pessoas. O tsunami correu por Loenvannet e atingiu 40 metros de altura na costa (...)". Para além desse comentário exibido nessa espécie de reportagem, "Bølgen" coloca-nos ainda diante da seguinte informação: "Actualmente, existem cerca de 300 áreas montanhosas instáveis no país. Todos sabem que é uma questão de tempo até que ocorra a próxima avalanche". Está dado o mote para o pesadelo aguardado, ou melhor para a catástrofe, embora Roar Uthaug surpreenda o espectador e conceda uma lição a alguns dos seus colegas que laboram nos EUA, com o cineasta a realizar um filme-catástrofe que investe imenso no desenvolvimento dos personagens principais e nas suas dinâmicas, até iniciar a destruição e os momentos de cortar a respiração. O argumento é eficaz, dotado de falas relativamente simples mas convincentes, embora não fuja aos lugares-comuns dos filmes do género, entre os quais a morte de personagens que não contam com papel relevante na narrativa, ou um final que desafia o pragmatismo, embora Roar Uthaug consiga que muitos dos acontecimentos pareçam credíveis no contexto da obra cinematográfica. A juntar a tudo isto, Roar Uthaug consegue ainda utilizar eficazmente os cenários montanhosos da Noruega, bem como o contexto do território onde decorre o enredo do filme, com o cineasta a demonstrar que "bebeu" alguma da sua inspiração em cineastas como Roland Emmerich, Michael Bay, entre outros que se envolveram pelo subgénero, embora incuta um cuidado no argumento e na composição dos personagens que fazem corar de inveja as últimas obras cinematográficas dos nomes mencionados. A preocupação com os personagens principais é indelével, com "Bølgen" a procurar que nos identifiquemos com os mesmos, bem como com os traços das personalidades destas figuras, enquanto nos dá a conhecer o espaço que os rodeia e a dinâmicas dos elementos que povoam a narrativa. Um desses personagens é Kristian Eikfjord, um geólogo que habita e labora em Geiranger. Esta é uma região que atrai um número considerável de turistas, sendo dotada de uma enorme beleza, embora o território esteja longe de se encontrar livre de perigos, algo que conduz Kristian a contar com imensos cuidados no cumprimento do seu serviço, mesmo no último dia de trabalho, antes de abandonar o seu emprego de sempre. Kristian e Idun (Ane Dahl Torp), a sua esposa, decidiram mudar-se com os dois rebentos para Stavanger, um território onde esperam dar um novo fôlego à relação e às suas vidas. Diga-se que Kristian e Idun parecem contar com uma relação relativamente saudável, apesar do primeiro descurar imensas vezes a família devido à obsessão pelo trabalho e pelo receio em relação aos perigos inerentes às características de Geiranger. Este zelo e receios de Kristian parecem contar com algum fundamento e razão de ser, algo notório quando os colegas registam pequenas mudanças geológicas no subsolo, com o protagonista a não deixar passar a oportunidade de verificar in loco aquilo que está a ocorrer. Essa obstinação reforça ainda outro elemento da personalidade de Kristian, ou seja, a incapacidade de deixar o trabalho de lado, com este a esquecer-se dos filhos no interior do carro, quando deveria estar a cuidar dos mesmos, um acto que não parece ser novidade.

Kristian e Idun contam com dois rebentos, Sondre (Jonas Hoff Oftebro) e Julia (Edith Haagenrud-Sande). Sondre é um adolescente algo rebelde, que gosta de andar de skate e parece mais próximo da mãe do que do pai, embora mantenha uma relação saudável com os progenitores. Julia é uma rapariga bastante jovem e frágil, que aprecia a presença do pai e da mãe. Idun trabalha num hotel de Geiranger, com esta mulher a apresentar uma personalidade vincada, uma característica que beneficia e muito a narrativa, com o argumento a permitir que Ane Dahl Torp interprete uma figura que está longe de ser a donzela em apuros, algo notório a partir do momento em que um tsunami abala o território. Roar Uthaug começa por nos apresentar ao protagonista e à família do mesmo, bem como às funções de Kristian no local de trabalho, com o cineasta a fazer algo que parece básico, embora seja muitas das vezes esquecido em alguns blockbusters oriundos dos EUA, nomeadamente, mostrar que existem personagens que merecem a nossa preocupação e investimento emocional, algo que adensa a tensão e inquietação dos trechos em que estes elementos se encontram em perigo. Não quer isto dizer que o argumento seja um primor a nível de diálogos, ou imensamente complexo, apesar de ser praticamente impossível deixar de tecer elogios a uma obra cinematográfica que cumpre naquilo a que se propõe, independentemente da sua previsibilidade e da sua banda sonora sempre pronta a insuflar o enredo. Oriundo da Noruega, um país que não é propriamente conhecido pela produção de obras cinematográficas sobre desastres naturais ou "filmes-catástrofe", "Bølgen" sabe mesclar o desenvolvimento dos personagens principais com a acção, a destruição em massa e os efeitos especiais, com Roar Uthaug a utilizar com alguma eficácia as convenções do subgénero, enquanto envolve o espectador para o interior de uma história que tanto tem de emotiva e intensa como de previsível, implausível e convencional. A partir do momento em que os piores receios de Kristian se tornam realidade, a narrativa ganha uma faceta claustrofóbica e intensa, com tudo e todos a perceberem que têm apenas dez minutos para se dirigirem para uma zona elevadíssima para não serem engolidos pelo tsunami. A montanha começa a desmoronar-se, com os rochedos a deslizarem em direcção ao mar, enquanto as águas avançam furiosamente e impiedosamente para o interior de Geiranger. Nessa fase do enredo, Idun encontra-se com Sondre no hotel, enquanto Kristian está com a companhia de Julia, uma decisão narrativa inteligente, que permite explorar a tensão inerente aos momentos que antecedem a chegada das águas ferozes a partir de duas perspectivas distintas. Idun procura evacuar todos os hóspedes do hotel e salvar o filho, embora este último esteja a praticar skate com auscultadores nos ouvidos, num espaço recôndito do estabelecimento, algo que dificulta a tarefa da primeira. Kristian acaba por se ver na contingência de partir para um local alto com a filha, enquanto assistimos a um desfilar de carros e gentes desesperadas. Os planos bem abertos permitem explanar a ferocidade da natureza e a negritude que envolve estes episódios da narrativa, com o trabalho de John Christian Rosenlund na cinematografia a adensar essa atmosfera opressiva. Diga-se que John Christian Rosenlund e Roar Uthaug criam uma atmosfera opressora e claustrofóbica, com a ocorrência do tsunami a revelar-se completamente devastadora quer para o território, quer para a alma dos personagens. 

 A partir do momento em que ocorre o tsunami, a narrativa assume características de filmes de busca e luta pela sobrevivência, embora revelar mais do que estes elementos seja estragar a experiência cinematográfica de quem pretende visualizar "Bølgen" pela primeira vez. No entanto, também é impossível deixar de salientar a capacidade de Roar Uthaug para puxar o espectador pelos colarinhos e agarrá-lo aos acontecimentos do enredo, com os episódios do último terço a contribuírem para que o espaço do hotel adquira características claustrofóbicas. O espaço do hotel é utilizado de forma exímia e prática, com a luta pela sobrevivência a consumir parte do terceiro acto, bem como uma busca desesperada por parte de um personagem. Ane Dahl Torp e Kristoffer Joner surgem como os grandes destaques do elenco no último terço da narrativa de "Bølgen". Torp transmite a força interior e capacidade de superação da personagem que interpreta, bem como o forte instinto maternal de Idun e o amor que nutre pelo esposo. Joner consegue que o espectador se identifique facilmente com Kristian, com o actor a incutir carisma e sinceridade a este indivíduo de características físicas comuns, que procura pura e simplesmente fazer de tudo para salvar e reunir aqueles que ama. O filme conta ainda com alguns elementos secundários que sobressaem, tais como Sondre e Julia, bem como alguns integrantes da equipa que trabalhou com Kristian. Veja-se o caso de Jacob (Arthur Berning), um geólogo espirituoso, sempre pronto para brincar, ou Arvid (Fridtjov Såheim), um colega do protagonista que apresenta uma postura mais calma e receosa em relação ao momento de lançar o alarme de perigo. A interacção entre estes elementos que trabalham no centro de geologia a monitorizar as fendas e as contracções no interior da montanha permite atribuir alguma credibilidade ao grupo, com tudo e todos a procurarem fazer o seu trabalho. A partir do momento em que toca o sinal de alarme, a narrativa assume uma faceta intensa e inquietante, com o som lancinante a trazer consigo o mau augúrio da destruição e das mortes que se avizinham. Embora as destruições, a luta pela sobrevivência e a ferocidade do tsunami convençam, aquilo que contribui para "Bølgen" sobressair é a sua capacidade de efectuar uma construção competente dos personagens e das suas interacções, bem como o aproveitamento eficaz dos espaços montanhosos da Noruega, com Roar Uthaug a não renegar os lugares-comuns do subgénero dos "filmes-catástrofe", embora também não se deixe subjugar totalmente perante os mesmos.

Título original: "Bølgen"
Título em Portugal: "Bølgen - Alerta Tsunami".
Título no Brasil: "A Onda".
Realizador: Roar Uthaug.
Argumento: John Kåre Raake e Harald Rosenløw-Eeg.
Elenco: Kristoffer Joner, Ane Dahl Torp, Jonas Hoff Oftebro, Edith Haagenrud-Sande.

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