18 outubro 2016

Resenha Crítica: "Avril et le monde truqué" (Abril e o Mundo Extraordinário)

 Num determinado momento de "Avril et le monde truqué", podemos encontrar Darwin (Philippe Katerine), um gato, a salientar que fala devido a ser um projecto falhado dos pais da personagem do título (Marion Cotillard). O projecto remete para as invenções de Gustave Franklin, o bisavô da protagonista, um cientista que trabalhou numa fórmula para criar soldados invulneráveis. Darwin não é um soldado indestrutível, mas sim um gato que fala, conta com uma inteligência acima da média e aparece como o grande companheiro de aventuras de Avril, a personagem principal de "Avril et le monde truqué", a primeira longa-metragem de animação realizada por Christian Desmares e Franck Ekinci. Avril e Darwin vivem numa cidade de Paris distinta daquela que estamos habituados a ver representada, com "Avril et le monde truqué" a colocar o espectador diante de um universo narrativo onde não faltam cientistas desaparecidos, a continuação da Dinastia Napoleónica, um contexto Histórico alternativo, um gato e lagartos que falam, uma capital francesa dominada pelas tonalidades cinzentas e a presença regular do smog. Christian Desmares e Franck Ekinci estabelecem de forma eficaz a conjuntura que rodeia os personagens, enquanto desenvolvem as personalidades dos elementos que povoam a narrativa, com a dupla de cineastas a procurar surpreender o espectador ao mesmo tempo que o transporta para o interior de um contexto histórico alternativo onde os atrasos científicos e a modernidade parecem andar lado a lado. A equipa de animação não poupou esforços na criação de uma miríade de cenários e engenhos que atribuem credibilidade a esta realidade alternativa que nos é apresentada, com "Avril et le monde truqué" a apostar imenso nas tonalidades frias que permitem exacerbar a atmosfera de malaise que contamina a cidade de Paris entre o período da Governação de Napoleão III e 1941 (o período em que se desenrola boa parte da narrativa). Inspirado livremente nos trabalhos de Jacques Tardi, um artista que colaborou no design gráfico do filme, "Avril et le monde truqué" surge como uma obra cinematográfica marcada por influências steampunk (aparelhos a vapor, História alternativa, tecnologia anacrónica, entre outros exemplos), dotada de inteligência, criatividade e emotividade, um universo narrativo bem construído e detalhado, com o contexto histórico alternativo que nos é apresentado a ser explorado com uma eficácia notória. Os animais falantes e o contexto alternativo remetem para as experiências de Gustave Franklin, o bisavô da personagem do título. No prólogo, encontramos Gustave, um cientista jovem e ambicioso, a trabalhar na invenção de um soro que visa a criação de soldados indestrutíveis. A encomenda foi efectuada por Napoleão III, o Imperador de França, que pretende utilizar estes soldados para vencer a Guerra Franco-Prussiana. Gustave elabora um soro que permite que os animais dialoguem com os humanos, mas não consegue inventar a fórmula para a criação de soldados invencíveis, algo que irrita Napoleão III. Nesse sentido, o Imperador dá ordens a Bazaine, um militar, para eliminar Rodrigue (Benoît Brière) e Chimène (Anne Coesens), dois lagartos que falam graças ao soro criado por Gustave, embora os disparos do segundo conduzam à destruição do laboratório e à morte dos três seres humanos que se encontram presentes nesse espaço. Este evento altera o rumo da História, com Napoleão IV a assumir o poder e a assinar um acordo de paz com a Prússia, enquanto um estranho fenómeno conduz ao desaparecimento dos cientistas mais proeminentes, tais como Einstein, Hertz e Marconi. A abdução dos cientistas tem efeitos nefastos para o Mundo, com a população a não poder usufruir de uma série de avanços tecnológicos e científicos proporcionados por estes elementos que desapareceram.

Quando a narrativa avança para 1931, o espectador é colocado diante de um contexto angustiante, marcado por uma atmosfera de malaise e poucos avanços tecnológicos, onde ainda não existem motores de combustão, electricidade, aviões e rádios, com o carvão e a madeira a serem os combustíveis mais utilizados. O aproveitamento excessivo da madeira e do carvão promete conduzir a um desastre de proporções elevadas, com "Avril et le monde truqué" a transmitir uma mensagem clara do foro ambientalista, tendo em vista a expor os perigos da exploração descontrolada dos recursos naturais, com os realizadores, argumentistas e Jacques Tardi (envolvido na criação do universo gráfico do filme) a aproveitarem o facto do enredo se desenrolar no passado para exibirem e denunciarem problemas do presente (troquem carvão por petróleo, ou observem a poluição de diversos espaços citadinos). Perante a escassez de madeira, a França entra em conflito com a Liga das Américas, tendo em vista a obter este recurso natural, embora não tenha armamento moderno que permita uma vitória clara no conflito. Nesse sentido, a França procura reunir os cientistas que não desapareceram, tendo em vista a utilizar os serviços destes homens e mulheres para a construção de armamento moderno, algo que não é aceite por todos os investigadores. Os familiares de Avril, um grupo de cientistas que trabalha de forma clandestina num laboratório pequeno, situado num local recôndito, surgem como alguns dos intelectuais que se recusam a trabalhar para o Imperador. Avril é filha de Paul (Olivier Gourmet) e Annette (Macha Grenon), um casal de cientistas, com o elemento masculino a ser filho de Prosper Franklin (Jean Rochefort), um indivíduo vetusto, que é o rebento de Gustave. Annette apresenta sempre uma faceta mais séria, enquanto Paul conta com uma personalidade menos rígida, com o casal a trabalhar com Prosper no fabrico do soro que supostamente possibilitará a imortalidade e a capacidade de ultrapassar as doenças, embora tardem em acertar na fórmula. Esses testes realizados pelos familiares de Avril conduziram a que Darwin, o gato de família, consiga falar, com o felino a apresentar uma personalidade deveras mordaz e sábia, com o argumento a transformá-lo numa das figuras mais simpáticas e relevantes da narrativa. De olhos bem vivos e arregalados, gestos felinos, um gosto assinalável pela leitura e uma personalidade forte, Darwin é o grande companheiro de aventuras de Avril, apresentando uma inteligência notória e um sentido de humor certeiro, com a equipa de animadores, realizadores e argumentistas a terem aqui uma das várias criações das quais se podem orgulhar. Diga-se que o argumento estabelece de forma eficaz as motivações dos protagonistas, os seus objectivos e as suas relações, bem como as engenhocas elaboradas pelos personagens. Não falta uma casa capaz de se locomover ou deslocar debaixo de água, uma fortaleza subaquática, lagartos mutantes, uma espécie de selva onde são efectuadas experiências que tanto têm de avançadas como de perigosas, com "Avril et le monde truqué" a elaborar um comentário sobre a relevância dos avanços científicos e a necessidade destes serem utilizados de forma responsável. Por um lado, os progressos científicos são essenciais para a Humanidade, por outro podem provocar graves problemas, sobretudo quando são utilizados para uma agenda pouco recomendável, com "Avril et le monde truqué" a apresentar uma abordagem complexa destas temáticas, expondo quer os efeitos positivos, quer o lado negativo dos avanços da ciência. Veja-se que o soro no qual os familiares de Avril trabalham pode contribuir quer para efeitos positivos, quer para situações nefastas, com os planos de um dos antagonistas a indicar isso mesmo (quase a remeter para a Bomba Atómica). No entanto, sem esses avanços, Paris torna-se numa capital dominada pelas tonalidades cinzentas e negras e pela poluição, com o smog a consumir todos os poros desta cidade que conta com a presença de duas Torres Eiffel, tecnologia anacrónica e uma apertada vigilância que reprime o livre pensamento. 

Um dos personagens que procura preservar a sua liberdade criativa é Prosper, um cientista inteligente, peculiar, pronto a desenvolver as invenções mais estrambólicas e a amar a presença da única árvore que consegue visitar. O avô de Avril conta com uma visão positivista da ciência e a espaços opta por algumas decisões destrambelhadas, com Prosper a destacar-se por diversas vezes ao longo da narrativa quer pelas invenções que efectua, quer pela sua personalidade, quer pelo seu papel junto da neta. Prosper é perseguido pelas autoridades, representadas sobretudo por Pizoni (Bouli Lanners), um inspector obstinado e trapalhão, que, em conjunto com os homens sob o seu comando, encetam uma perseguição aos Franklin, algo que resulta numa fuga pontuada por alguns momentos intensos. O avô da protagonista consegue fugir no seu veículo, enquanto Paul, Annette e Avril utilizam um dirigível negro, da polícia, tendo em vista a alcançarem um teleférico a vapor que liga Paris a Berlim. O teleférico a vapor é um dos meios de transporte utilizados pelos personagens, com "Avril et le monde truqué" a colocar o espectador diante de uma série de invenções que mesclam inovação e tecnologia ultrapassada. Veja-se ainda o veículo a vapor de Prosper, ou a casa "móvel" criada por este personagem. No entanto, regressemos aos pais de Avril. Um estranho conjunto de nuvens negras atacam Paul e Annette, com os cientistas a desaparecerem misteriosamente. A protagonista pensa que os pais faleceram, embora o verdadeiro destino deste casal apenas seja revelado um pouco mais tarde. Avril consegue fugir das autoridades, após ter sido praticamente colocada num orfanato, contando com a preciosa companhia de Darwin, enquanto a narrativa avança para 1941. Pizoni, entretanto despromovido para agente, continua obcecado por Prosper e Avril, embora desconheça o paradeiro de ambos. O cientista continua foragido, enquanto a jovem vive com Darwin no interior de uma estátua metálica. Avril procura concluir o soro iniciado pelos seus familiares, tendo em vista a salvar Darwin, com o gato a encontrar-se doente devido à poluição que permeia o ar da capital francesa. A poluição contamina a cidade de Paris, algo notório quando observamos as tonalidades cinzentas deste espaço, ou alguns cidadãos a utilizarem máscaras de gás para evitarem os efeitos negativos de respirarem este ar nocivo para a saúde humana. A protagonista não utiliza máscara, nem roupas caras, com a jovem a apresentar uma personalidade forte, uma enorme simplicidade, inteligência e desenvoltura. O quotidiano de Avril passa por roubar livros para Darwin colocar a leitura em dia, furtar produtos químicos para efectuar invenções, embora a jovem não saiba que se encontra a ser seguida quer por Julius (Marc-André Grondin), um delinquente, quer por Rodrigue e Chimène, com os planos destes dois últimos a serem revelados numa fase mais adiantada da narrativa. Julius é o arquétipo do personagem que inicialmente conta com más intenções mas acaba por mudar e apaixonar-se pela protagonista. Este tinha como missão descobrir o esconderijo de Avril e encontrar Prosper, a mando de Pizoni, embora perceba que os planos do agente contam com uma faceta pouco recomendável. Por sua vez, Rodrigue e Chimène, um casal de lagartos mutantes, apresentam projectos muito próprios para o planeta Terra e para a utilização dos avanços científicos, com "Avril et le monde truqué" a exibir o perigo dos extremismos e dos avanços tecnológicos caírem em mãos erradas.

 A partir de um determinado momento do filme, Avril tem de descobrir a fórmula para criar o soro que os seus progenitores tentaram desenvolver, voltar a contactar com o avô, descobrir o paradeiro dos pais, escapar de Pizoni, ou seja, envolver-se no interior de aventuras recheadas de fugas, reviravoltas e perigos, enquanto forma laços de proximidade com Julius e depara-se com locais e tecnologia que desconhecia. Veja-se quando Avril se envolve por uma selva recheada de tonalidades verdes, imensas medidas de segurança, ar puro, avanços científicos e a certeza que um dos líderes do local congeminou um plano sinistro, com o último terço a colocar-nos diante de um cenário bem distinto em relação à cidade de Paris ("Avril et le monde truqué" não tem problemas em assumir a sua faceta de ficção-científica). Embora os planos de um dos antagonistas estejam longe de serem os mais originais, e Pizoni raramente simbolize uma ameaça, surgindo como uma mistura de Dupont e Dupond, "Avril et le monde truqué" conta com um leque de personagens relativamente interessante de acompanhar, com Avril a surgir como uma figura feminina inteligente, capaz de se desenvencilhar dos perigos e resolver uma miríade de problemas. Esta mantém uma relação de amizade com Darwin que tanto é capaz de contribuir para alguns trechos de humor como proporcionar alguns momentos mais tocantes, com "Avril et le monde truqué" a saber mexer com o espectador. Diga-se que não faltam ainda alguns momentos mais violentos, com algumas perdas a fazerem parte do processo de crescimento da protagonista, bem como alguns reencontros e a relação com Julius, enquanto ficamos diante de uma figura feminina que procura enfrentar uma série de adversidades. Recheado de elementos steampunk, temáticas relevantes sobre o papel da ciência e da utilização dos avanços científicos, mensagens sobre os perigos da poluição, um universo narrativo bastante detalhado, um trabalho de animação adequado à ambição do argumento e um grupo de personagens interessante de acompanhar, "Avril et le monde truqué" aparece como um bom exemplar dos filmes de animação dotados de inteligência que conseguem chegar simultaneamente ao público mais jovem e aos adultos

Título original: "Avril et le monde truqué".
Título em Portugal: "Abril e o Mundo Extraordinário".
Realizadores: Christian Desmares e Franck Ekinci.
Argumento: Franck Ekinci e Benjamin Legrand.
Elenco vocal: Marion Cotillard, Jean Rochefort, Philippe Katerine, Olivier Gourmet, Benoît Brière, Anne Coesens, Marc-André Grondin, Macha Grenon.

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