10 setembro 2016

Resenha Crítica: "Psycho Raman" (Raman Raghav 2.0)

 Pontuado por personagens imorais, uma banda sonora regularmente intrusiva, um conjunto de figuras femininas que apenas parecem constar na narrativa para serem alvo de agressões físicas e psicológicas, uma dupla de protagonistas pronta a repelir o espectador, "Psycho Raman" surge como um thriller de características negras, com a violência e a imoralidade a contaminarem quase todos os poros desta obra cinematográfica realizada por Anurag Kashyap. O cineasta incute um ritmo dinâmico e fluído ao enredo, dividindo o mesmo em oito capítulos e um prólogo, enquanto concede espaço para Vicky Kaushal e Nawazuddin Siddiqui explorarem a faceta negra dos personagens que interpretam. Siddiqui é o elemento do elenco que mais se destaca, com o actor a interpretar um assassino inspirado em Raman Raghav. O enredo de "Psycho Raman" é livremente inspirado na história de Raman Raghav, um assassino em série que cometeu uma miríade de homicídios na cidade de Bombaim durante a década de 60. Anurag Kashyap transporta a história deste assassino para os dias de hoje, com algumas liberdades à mistura, enquanto nos coloca diante de Raghavan Singh (Vicky Kaushal) e Ramanna (Nawazuddin Siddiqui), uma dupla imoral, violenta, incapaz de manter uma relação pacífica com as mulheres ou seguir as leis. Raghavan é um polícia agressivo, misógino, imoral, viciado em cocaína, que comete quase tantos delitos como aqueles que combate. Ramanna é um serial killer sádico, malicioso e cruel, que desenvolve uma obsessão doentia por Raghavan, um representante das autoridades que está longe de apresentar comportamentos recomendáveis. Raghavan e Ramanna parecem duas faces da mesma moeda, com a obsessão do segundo em relação ao primeiro a ser explicada no oitavo e último capítulo de "Psycho Raman", com este sentimento a entroncar num episódio que decorre no prólogo, quando o polícia exibe a sua imoralidade e ferocidade. O personagem interpretado por Nawazuddin Siddiqui comete homicídios devido ao desejo de colocar os mesmos em prática, com este indivíduo a desprezar as regras da vida em sociedade e a lei, enquanto Raghavan utiliza o estatuto de polícia para conseguir escapulir-se às consequências dos delitos que comete. Ou seja, estamos diante de figuras que causam repelência, receio, ansiedade e imensas dúvidas, com Ramanna a ser mais genuíno nos seus propósitos, inclusive na sua admiração por Raman Raghav, enquanto Raghavan utiliza o poder inerente à sua profissão para cometer actos atrozes. Acompanhar esta dupla é uma tarefa assaz hercúlea, com "Psycho Raman" a propor que o espectador siga dois personagens que despertam facilmente o nosso desprezo, com o polícia e o serial killer a não diferirem assim tanto a nível de comportamentos. Diga-se que Ramanna sente que tem no polícia uma espécie de alma gémea, algo que ajuda a explicar a obsessão que forma em relação ao agente da autoridade, com o encontro final entre ambos a deixar marca e a surgir como um dos grandes momentos de "Psycho Raman", com Anurag Kashyap a ser coerente em relação ao rumo da narrativa e deixar-nos perante um pedaço de cinema deliciosamente imoral e violento. Essa imoralidade pontua quer o quotidiano do polícia, quer o dia-a-dia do serial killer. Raghavan consome imensas doses de cocaína (a espaços parece um personagem saído de um filme de Martin Scorsese), surge quase sempre de óculos escuros, bem como com umas olheiras de "caixão à cova", com o protagonista a contar com uma relação conturbada com o progenitor (algo abordado de forma superficial) e um namoro problemático com Smrutika Naidu (Sobhita Dhulipala), uma das várias figuras femininas que não são devidamente desenvolvidas ao longo do filme. Sobhita Dhulipala interpreta uma mulher que é alvo de abusos por parte de Raghavan, sendo ainda seguida por Ramanna, com a actriz a praticamente não ter espaço para compor uma personagem com significado e interesse.

O argumento escrito por Anurag Kashyap e Vasan Bala é de uma pobreza franciscana no que diz respeito ao desenvolvimento das personagens femininas, parecendo que estas apenas se encontram no enredo com o propósito de serem submetidas a maus-tratos. É um dos grandes deslizes de "Psycho Raman", com o argumento de Anurag Kashyap e Vasan Bala a descurar por completo o desenvolvimento das personagens femininas, algo notório no caso de Smrutika. Esta pretende manter uma relação séria com Raghavan, embora o polícia demonstre por diversas vezes que não conta com esse objectivo, tratando-a como um mero objecto, com o relacionamento entre o protagonista e a primeira a ser deveras venenoso e destrutivo. A relação entre Smrutika e Raghavan raramente convence, com a química entre Vicky Kaushal e Sobhita Dhulipala a não funcionar, com o argumento a não ajudar o actor e a actriz, algo que retira impacto a uma cena que deveria provocar uma comoção indelével. Ao invés disso, esse momento causa indiferença, embora permita expor mais uma vez que a violência circula pelas veias do enredo de "Psycho Raman". A violência tanto é exposta de forma directa como é deixada para a imaginação do espectador, com Anurag Kashyap a ser bastante eficaz a jogar com as nossas sensações. Por vezes basta observarmos um objecto a dirigir-se para um corpo para nos apercebermos do impacto provocado pelo embate, enquanto em alguns trechos os efeitos dos actos mais selvagens de Raghavan e Ramanna são expostos de forma bem viva. Ramanna utiliza um cabo de aço com uma curva para eliminar as suas vítimas, com o assassino a não ter problemas em terminar com a vida de quem quer que seja, uma situação que se torna clarividente quando o criminoso se reúne com a irmã (Amruta Subhash), o cunhado (Ashok Lokhande) e o sobrinho. Lakshmi, a irmã de Ramanna, é mais uma das mulheres que apenas parecem constar na narrativa para serem alvo de violência, com Nawazuddin Siddiqui a exibir o lado mais cruel e dissimulado do personagem que interpreta. Veja-se quando Ramanna começa a utilizar os brincos da irmã, após eliminá-la, quase como se estes surgissem como um troféu, ou o momento em que elimina o sobrinho. O triplo homicídio é cometido no segundo capítulo do filme, com o terceiro a dedicar-se à investigação da polícia, com Raghavan a perceber que outrora deixou escapar um serial killer, nomeadamente, Ramanna. Este entregara-se na esquadra da polícia, tendo revelado que cometeu uma série de assassinatos, embora Raghavan não atribua grande importância e credibilidade às histórias de Ramanna, algo que conduz o polícia a enviar o criminoso para um espaço fechado onde é torturado. Ramanna consegue fugir, acabando posteriormente por entrar em contacto com a família, uma situação que exacerba o estado de perturbação deste personagem que outrora violava a irmã. O pânico dos familiares de Ramanna é latente, com os rostos da irmã, do cunhado e do sobrinho do assassino a transmitirem esse sentimento, bem como os diálogos que proferem. A irmã e o cunhado de Ramanna tentam controlar o assassino, embora este pareça uma bomba relógio que se encontra pronta a explodir à primeira palavra mal utilizada. Veja-se a irritação de Ramanna quando percebe que não existe uma fotografia sua no interior da sala, ou a rispidez com que dialoga a partir do momento em que o cunhado revela saber algo sobre o seu passado. Nawazuddin Siddiqui transmite o lado cruel, brutal e selvagem do personagem que interpreta, enquanto Anurag Kashyap cria todo um ambiente de tensão a envolver a reunião familiar, com o cineasta a incutir temporariamente características de filme de invasões a casas a "Psycho Raman". A chegada de Ramanna contribui para que a casa de Lakshmi se transforme num espaço opressor, onde os sentimentos fervilham de forma imparável, parecendo certo que o assassino não é bem-vindo neste local, com o criminoso a exibir o seu lado mais cruel e sádico.

Se a cicatriz que cobre uma parte do rosto de Ramanna permite facilitar a identificação deste indivíduo, já a análise à sua mente e à sua alma é tarefa assaz intrincada de efectuar. O argumento explora o lado negro deste personagem que começa a desprezar o mundo que o rodeia, com Ramanna a ter na morte alheia um modo de vida, para além de formar uma obsessão por um polícia que considera ser o seu "Raghav" (numa referência a Raman Raghav). A obsessão de Ramanna em relação a Raghavan é doentia, embora, gradualmente, pareça certo que tem alguma razão de ser, com o último terço a expor o estranho vínculo que se forma entre estas duas figuras perturbadas. Após o triplo homicídio, a polícia começa a perseguir Ramanna, embora este indivíduo seja bem mais astuto e inteligente do que deixa transparecer para o exterior. Fica particularmente na memória uma cena de perseguição e fuga, em plenas ruas de Bombaim, com estes momentos a exibirem a capacidade de Anurag Kashyap em utilizar e explorar a cidade ao serviço do enredo. Esta cidade surge representada como um espaço superpovoado, com os planos filmados a partir das zonas superiores a deixarem a entender que não existe um local praticamente livre, uma situação que dificulta o trabalho dos representantes das autoridades e facilita a tarefa ao assassino que tanto pretende aparecer como escapulir-se, pelo menos até cumprir a sua "missão". Por sua vez, a perseguição pelas ruas deixa em evidência os espaços estreitos de Bombaim, algo que dificulta a circulação de forma rápida e precisa, com o próprio enredo a assumir as características labírinticas desta cidade, enquanto a câmara de filmar segue avidamente os personagens. A perseguição ocorre em Dharavi, um bairro de Bombaim, com Anurag Kashyap a fazer questão de filmar neste espaço exterior, enquanto a câmara capta este episódio de forma bem viva, contribuindo para a intensidade desta busca e fuga, com Jay Oza  (director de fotografia) a revelar alguma competência. Ramanna desenvolve uma obsessão doentia por Raghavan, algo notório quando observa quase todos os passos deste último, ou tenta reunir-se com o mesmo, com o representante da autoridade a não perceber inicialmente todos os contornos desta espécie de jogo psicológico. O assassino inspirou-se em Raman Raghav, com Nawazuddin Siddiqui a evidenciar o prazer que o personagem que interpreta tem em eliminar as suas vítimas, com Ramanna a libertar-se das barreiras morais e a exibir o seu descontrolo. É impossível ficar indiferente à interpretação de Nawazuddin Siddiqui, sobretudo a malícia que este incute no olhar, nas falas e gestos de Ramanna (será possível esquecer o seu gesto com as mãos a fingir que está a observar algo a partir de uns binóculos que permitem ver a alma), com o a actor a contar com um trabalho digno de atenção. Já Vicky Kaushal exibe que estamos diante de uma figura imponente, pouco dada a grandes demonstrações de afecto, que não consegue estar muito tempo sem consumir cocaína, com Raghavan a assumir uma postura destrutiva que o conduz gradualmente para o abismo. A facilidade com que Raghavan comete crimes sem ser descoberto pelos colegas é algo que surpreende, com o argumento a revelar não só alguns "furos", mas também imensa preguiça no desenvolvimento das subtramas. Os problemas de Raghavan com o pai são abordados de forma superficial, enquanto a relação do primeiro com as mulheres permite apenas exacerbar o lado misógino deste polícia que procura deter um criminoso embora se deixe prender na teia efectuada pelo adversário e a espaços quase que assuma os seus comportamentos.

Ficamos diante de dois protagonistas imorais, que estão dispostos a cometerem crimes, embora um não tenha problema em assumi-los e assinalar os mesmos no seu diário, enquanto o outro utiliza o seu estatuto para fugir às responsabilidades. "Psycho Raman" coloca-nos ainda diante de uma miríade de personagens secundárias que pouco ou nada são desenvolvidas. Veja-se o caso de Ankita, uma mulher com quem o protagonista tenta fazer sexo, em plena casa de Smrutika, embora tudo falhe, com Raghavan a exibir mais uma vez a sua brutalidade, ou a empregada da segunda (Deepali Suryakant Badekar), uma figura feminina que apenas parece constar no enredo para ser assassinada. A subtileza nem sempre é a palavra de ordem em "Psycho Raman", com Anurag Kashyap a exibir isso mesmo naquilo que diz respeito à representação das personagens femininas, bem como na utilização da banda sonora, com esta a revelar-se desastrosa. Esta situação é visível num momento de grande impacto emocional entre Raghavan e o pai, com a banda sonora a entrar em cena e a transformar um episódio relevante num trecho completamente caricato. A relação problemática entre pai e filho, embora seja abordada de forma superficial, permite evidenciar alguns dos elementos que ajudam a explicar os comportamentos negros de Raghavan, com o polícia a surgir como uma figura atormentada pelos seus demónios interiores. Nesse sentido, Ramanna parece estar certo ao pensar que Raghavan é o seu "Raghav", com estes dois personagens a terem bastantes elementos em comum. Ramanna encara o polícia como alguém que se encontra a cair num lado quase tão negro como o seu, enquanto Raghavan lida com um conjunto de tormentas interiores, algo que expõe de forma bem viva. Raghavan e Ramanna são duas figuras que assumem posturas imorais, com Nawazuddin Siddiqui e Vicky Kaushal a elevarem os personagens que interpretam ao longo deste thriller psicológico com traços de policial, enquanto "Psycho Raman" tem o mérito de nos transportar para o interior de uma narrativa negra, onde o crime e o desrespeito pela lei parecem invadir todos os poros do enredo.

Título original: "Raman Raghav 2.0".
Título em inglês: "Psycho Raman".
Realizador: Anurag Kashyap.
Argumento: Anurag Kashyap e Vasan Bala.
Elenco: Nawazuddin Siddiqui, Vicky Kaushal, Sobhita Dhulipala, Amruta Subhash, Ashok Lokhande.

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