12 setembro 2016

Resenha Crítica: "Personal Shopper" (2016)

 Olivier Assayas parece ter em Kristen Stewart a sua musa inspiradora, com a relação profissional entre o realizador e a actriz a ter mais um capítulo recomendável em "Personal Shopper", uma obra cinematográfica que comprova que os assobios no Festival de Cannes nem sempre são mau sinal, bem pelo contrário. Diga-se que "Personal Shopper", apesar de um ou outro tropeço, é filme que promete ser reavaliado em alta com a passagem do tempo, com Olivier Assayas a realizar uma obra cinematográfica estranhamente sedutora, assustadora e elegante, que se embrenha pelo mundo do espiritismo, da moda, da formação da identidade por parte de uma jovem que se encontra de luto, enquanto Kristen Stewart continua a exibir que se está a tornar numa das intérpretes mais entusiasmantes, enigmáticas e misteriosas de acompanhar. Depois de trabalhos sólidos em filmes como "Adventureland", "Clouds of Sils Maria", "Still Alice" e "Equals", começa a ser notório que Kristen Stewart já merece que se deixe de a associar pura e simplesmente ao seu trabalho na saga "Twilight". Kristen Stewart conta com uma interpretação praticamente imaculada como Maureen, a "personal shopper" de Kyra (Nora von Waldstätten), uma celebridade de personalidade fria e trato difícil. O trabalho de Maureen consiste em adquirir as roupas e as jóias de Kyra, uma celebridade que se veste com os melhores vestidos, sapatos e acessórios. A personagem interpretada por Kristen Stewart nutre sentimentos antagónicos em relação a esta profissão, com a protagonista a tanto parecer desprezar este mundo supérfluo como admirar as belas roupas e o estilo de vida luxuoso de Kyra. Maureen veste-se muitas das vezes de forma informal, com calças de ganga, ténis e uma camisola banal, algo que contrasta com Kyra e permite expor alguns traços da personalidade da protagonista, uma jovem simples e solitária que tarda em desamarrar-se dos grilhões do passado. Esses gostos dicotómicos não implicam que Maureen despreze por completo o estilo de vestir de Kyra, ou a personalidade da sua patroa, com Kristen Stewart a criar uma personagem complexa, que se encontra em busca de formar a sua identidade e de se afirmar perante o mundo que a rodeia, enquanto procura ultrapassar a dor provocada pela morte do irmão. A própria actriz tem uma ligação especial com o mundo da moda, com Kristen Stewart a surgir como uma intérprete que provoca um apelo nem sempre fácil de descrever, quase como se estivéssemos diante de alguém que se está a lixar para todas as convenções, embora saiba utilizar as mesmas, com Maureen a inserir-se praticamente nesta descrição. Maureen está peremptoriamente proibida de vestir as roupas de Kyra, embora comece a quebrar essas regras, ainda que de forma gradual. O momento em que Maureen aproveita o facto de contar com as chaves de casa de Kyra para utilizar as roupas da celebridade é de libertação e transgressão, mas também de medo e receio, com Olivier Assayas a criar um dos grandes momentos de "Personal Shopper". Kristen Stewart é a pedra de toque para tudo funcionar, com a actriz a tanto conseguir convencer como a jovem informal que se parece estar a borrifar para o mundo de Kyra como deixa marca quando veste as roupas desta última e expõe uma elegância digna das modelos mais elogiadas e assume uma faceta desconhecida. A casa de Kyra é um espaço dotado de enormes luxos, com Maureen a decidir embrenhar-se às escondidas neste espaço para se libertar um pouco das suas amarras, testar os seus medos e abraçar os seus desejos. A sensualidade e o receio permeiam estes momentos na habitação de Kyra, enquanto Kristen Stewart surpreende pela capacidade que tem em transmitir as inseguranças, certezas e ansiedades da personagem que interpreta. Oriunda dos EUA, Maureen encontra-se a viver e a laborar em Paris devido a pretender entrar em contacto com o espírito do irmão, um indivíduo que faleceu devido a um ataque cardíaco, com a protagonista a contar com a mesma malformação no coração do familiar, algo que a preocupa.

 Lewis, o irmão gémeo de Maureen, supostamente tinha poderes de medium, com a irmã a contar com uma habilidade semelhante. Estes prometeram que aquele que morresse primeiro iria dar um sinal ao familiar que permanecesse vivo, um acto que conduz Maureen a deslocar-se até à casa de Lewis, em Paris, tendo em vista a procurar cumprir esse desejo. O mistério e o receio dominam os momentos em que Maureen se encontra na habitação do irmão, com Olivier Assayas a saber jogar com as convenções associadas aos filmes de casas assombradas, embora desperte inicialmente a dúvida se este espaço pode ou não contar com fenómenos sobrenaturais. Não faltam elementos que adensam as dúvidas, a inquietação e os receios dos espectadores e dos personagens. Veja-se a parca iluminação da casa durante a noite, os sons que são adensados pelo design sonoro (tais como passos, portas a rangerem, água que escorre a partir de torneiras que se abrem espontâneamente), o território praticamente deserto que rodeia a habitação, o espaço demasiado vasto para ser habitado apenas por uma pessoa, entre outros elementos que tornam o lar de Lewis num lugar que pode ou não surgir como uma porta para o sobrenatural. Maureen anseia por receber um sinal do irmão, encontrando-se quase sempre em alerta, enquanto Olivier Assayas joga com os receios do espectador ao efectuar um filme de fantasmas enigmático, que desperta uma imensidão de dúvidas e alguma inquietação, com o cineasta a nunca perder o foco no essencial: o desenvolvimento da protagonista. Kristen Stewart tanto transmite a fragilidade de Maureen como a sua resiliência e as incertezas que marcam a sua mente, com a jovem a procurar um sinal que a coloque em contacto com o irmão, embora não tenha totalmente a certeza de que essa situação seja possível. Maureen vive num quarto relativamente barato, pequeno e recheado de livros, com a protagonista a interessar-se por assuntos relacionados com o contacto com os espíritos. Nesse sentido, Maureen começa a estudar as pinturas de Hilma af Klint, uma pioneira radical da Arte Abstracta, uma artista que acreditava que os espíritos comunicam com os vivos, bem como os textos de Victor Hugo, um autor que acreditou ter contactado com os mortos. Victor Hugo supostamente dialogava com os mortos através de um estranho conjunto de sons, com esta informação a não ser inserida ao acaso no enredo de "Personal Shopper", algo comprovado pelo terceiro acto do filme, com Olivier Assayas a jogar com as nossas dúvidas e as questões que envolvem Maureen. A protagonista dialoga com alguma regularidade com Lara (Sigrid Bouaziz), a namorada de Lewis, com esta última a procurar seguir em frente com a sua vida, enquanto a primeira tenta visitar regularmente a casa do irmão. Maureen tanto parece acreditar que é possível entrar em contacto com o irmão, como deixa transparecer algumas reservas em relação a essa possibilidade remota, com Kristen Stewart a exibir os dilemas desta mulher que divide o seu quotidiano entre os locais de luxo onde efectua as compras para a sua chefe e a espera por um contacto do falecido. As rotinas desta jovem são repetitivas, pelo menos até começar a receber estranhas mensagens no telemóvel, com este aparelho a surgir como um elemento fulcral para Olivier Assayas trabalhar um conjunto de situações que envolvem Maureen. Quem é que está a enviar as mensagens? Quais as razões para Maureen continuar a responder às mensagens? Será o irmão a entrar em contacto ou algum stalker? Aos poucos, algumas questões são respondidas, outras abertas, enquanto se inicia um estranho jogo entre Maureen e o elemento que envia as mensagens. Este recurso é utilizado de forma irregular por Olivier Assayas, com o cineasta a tanto permitir que as mensagens facilitem a exposição do estado de espírito, desejos e ansiedades da protagonista como deixa que a espaços esta troca de sms se torne quase caricatural. Maureen anseia que as mensagens estejam a ser enviadas pelo irmão, embora essa situação seja improvável, apesar da mente por vezes pregar algumas partidas, sobretudo quando estamos mais fragilizados.

 É sempre importante realçar que Maureen está a vivenciar um período de luto, ou seja, um momento problemático que é bastante difícil de ultrapassar. "Personal Shopper" aborda eficazmente a temática do luto, com Maureen a pretender receber um último sinal do irmão, embora este aviso tarde em chegar, algo que contribui para as dificuldades sentidas pela protagonista para se desprender das amarras que a prendem ao passado. Maureen é uma jovem solitária, que pouco ou nada convive, encontrando-se muitas das vezes fechada no seu próprio mundo, com a possibilidade de entrar em contacto com o irmão a mexer com sua a mente e a sua alma. A própria maneira como esta se veste inicialmente, quase de forma masculina, pode remeter não só para a personalidade de Maureen, mas também para a tentativa desta personagem emular o estilo do irmão gémeo. Estamos diante de uma protagonista com uma personalidade especial, bem mais complexa do que uma leitura superficial pode dar a entender, com Kristen Stewart a transmitir as diferentes camadas desta personagem. Se o aviso directo e preciso de Lewis tarda em chegar, já as mensagens do desconhecido parecem estar para ficar, pelo menos até ocorrer um estranho assassinato. As trocas de mensagens permitem não só expor as fragilidades emocionais desta figura feminina, mas também o seu desejo em transgredir as regras que envolvem o seu quotidiano, com a protagonista a admitir junto do estranho ou estranha que gostava de ser outra pessoa e a utilizar as roupas de Kyra. É através deste jogo, efectuado com o elemento que envia as sms, que Maureen ganha coragem para testar as roupas de Kyra, com o momento em que coloca um vestido prateado a exibir um lado feminino, elegante e sensual da personagem, bem como a sua capacidade para cometer riscos. O guarda-roupa é essencial para transmitir estas mudanças de Maureen, com o trabalho de Jürgen Doering como figurinista a revelar-se de enorme importância. Veja-se os contrastes nas roupas da protagonista, com esta a apresentar posturas distintas consoante as vestimentas, algo notório quando se encontra no quarto de Kyra. Diga-se que Olivier Assayas rodeou-se de uma equipa competente quer a nível do elenco, quer do figurino, quer na cinematografia, com o cineasta a criar um filme de fantasmas com algum "pedigree". Mérito para Assayas, que sabe mexer os cordelinhos nos tempos certos, seja para criar tensão, ou desenvolver os personagens, mas também para aproveitar o elenco. O foco principal está em Kristen Stewart como Maureen, uma jovem que se desloca de mota ou metro para diversos locais de Paris, visita lojas de luxo, enquanto contacta com uma realidade que despreza e admira, mantendo um namoro à distância com Gary (Ty Olwin). A relação entre Gary e Maureen pouco é aproveitada, um pouco à imagem da dinâmica entre esta e Kyra, com a celebridade a surgir como uma figura relativamente unidimensional. Temos ainda dois personagens que ganham uma relevância surpreendente na narrativa, nomeadamente, Ingo (Lars Eidinger) e Erwin (Anders Danielsen Lie). Ingo trabalha para uma revista relacionada com a moda, sendo amante de Kyra, enquanto Erwin surge como um indivíduo ponderado e sensato, que namora com Lara e permite a Anders Danielsen Lie ter uma presença curta mas relevante no interior da narrativa de "Personal Shopper". No entanto, o grande destaque de "Personal Shopper" é Kristen Stewart, bem como o trabalho de Olivier Assayas na realização, com o cineasta a criar um filme de fantasmas com "nota artística", pontuado por elementos de drama e uma classe indelével.

 O domínio que Olivier Assayas tem da narrativa é visível na forma eficaz como gere as dúvidas do espectador e da protagonista, com o cineasta a saber criar uma atmosfera inquietante que não está dependente de sustos avulsos. Veja-se a presença de Maureen na casa que pertencera ao irmão, ou a cena em que a protagonista se depara com uma figura espectral. Já as mensagens trocadas a partir do telemóvel colocam-nos diante de um estranho jogo que tanto tem de enigmático como de relevante e a espaços quase caricatural. É um recurso utilizado de forma irregular, por vezes até algo repetitiva, embora permita dar a conhecer um pouco mais sobre a protagonista e exacerbe o mistério em volta de um possível contacto entre esta e o irmão. Olivier Assayas decidiu utilizar o telemóvel ao serviço do enredo, um aparelho que a espaços é considerado como um empecilho para os filmes de terror, com o cineasta a parecer levar a sério a ideia de transformar um suposto problema numa oportunidade, enquanto joga com as potencialidades das novas tecnologias, com estas a contribuírem não só para aproximar mas também para criar um sentimento de alienação em relação à realidade que nos rodeia. Nesse sentido, as trocas de mensagens permitem criar uma estranha dinâmica entre Maureen e o elemento com quem esta comunica, algo que mexe com os sentimentos desta jovem. A protagonista não sabe a identidade do elemento que está a enviar as mensagens, mas, a partir do momento em que pergunta se o remetente é Lewis, percebemos qual é o desejo de Maureen, enquanto esta consegue comunicar com alguém, algo que parece ter alguma dificuldade de efectuar quando se encontra directamente com outras pessoas (veja-se o pouco contacto que mantém com Kyra, ou o namoro à distância com Gary). A identidade do elemento que envia as mensagens é revelada no terceiro acto (Olivier Assayas reforçou a identidade do mesmo durante a conferência de imprensa do filme), embora o jogo perigoso e peculiar que se cria entre o remetente e a protagonista permita trazer algum mistério ao enredo, bem como expor a necessidade desta em comunicar. A tentativa de Maureen receber um sinal de Lewis acaba por remeter não só para essa comunicação à distância, mas também para a necessidade que esta tem em acreditar na possibilidade de algo transcendente, que supere a razão e permita atomizar as tormentas que apoquentam a sua mente. Os elementos sobrenaturais não são descurados ao longo do filme, com um copo, uma torneira, um espírito, ou uma mensagem a poderem causar calafrios, embora os actos dos vivos também provoquem imensos estragos, que o diga Maureen quando se depara com uma situação hedionda. A procura desta personagem em contactar com o irmão gémeo é reveladora do apego que ainda sente em relação ao familiar, enquanto se procura libertar dos grilhões que a prendem a uma profissão pouco motivante e a um presente que não lhe parece trazer felicidade. O acto de vestir as roupas de Kyra surge como um gesto de rebeldia, que representa paradigmaticamente a tentativa de Maureen desafiar o presente e o passado, com esta personagem a precisar de encontrar paz interior para seguir em frente com a sua vida. Por vezes desconfiamos das suas hipotéticas habilidades como medium, com a mente a parecer pregar algumas partidas à protagonista, enquanto em outras situações acreditamos nesta figura que protagoniza uma série de episódios que a parecem preparar para uma nova fase da sua vida, com Kristen Stewart a transmitir que estamos diante de uma jovem solitária, que se encontra praticamente presa a um espaço onde não tem grandes contactos ou amigos. Com um desempenho notável de Kristen Stewart, "Personal Shopper" surge como um filme de fantasmas dotado de classe, elegância, doses assinaláveis de inquietação e um guarda-roupa cuidado, com Olivier Assayas a exibir precisão e inspiração na realização, enquanto joga eficazmente com as nossas expectativas e sensações.

Título original: "Personal Shopper".
Realizador: Olivier Assayas.
Argumento: Olivier Assayas.
Elenco. Kristen Stewart, Lars Eidinger, Sigrid Bouaziz, Anders Danielsen Lie, Ty Olwin, Nora von Waldstatten.

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