22 setembro 2016

Resenha Crítica: "Perfetti sconosciuti" (2016)

 Três casais decidem reunir-se para um jantar de convívio aparentemente inócuo e rotineiro, tendo em vista a trocarem uns "dedos" de conversa, com o sexteto a contar ainda com a companhia de um amigo que mantém uma relação pontuada por algum mistério. No entanto, um jogo promete mudar por completo os planos iniciais destes personagens, bem como a percepção que os protagonistas de "Perfetti sconosciuti" tinham formado em relação aos seus pares, pelo menos até Paolo Genovese, o realizador, puxar o tapete ao espectador e brindá-lo com uma reviravolta inesperada. Paolo Genovese concede espaço para que os intérpretes que integram o elenco principal consigam sobressair, com cada elemento a compor um ou uma personagem que guarda uma série de segredos e conta com uma personalidade muito própria, enquanto o cineasta gere os ritmos da narrativa de forma exímia. Aos poucos, conhecemos os segredos destes personagens, enquanto estes se deparam com factos que desconheciam sobre os seus pares. Tudo começa com um simples jogo, após uma apresentação rápida e eficaz dos personagens, com o desafio a consistir em que cada um dos convidados exiba as mensagens recebidas nos respectivos telemóveis ou receba as chamadas em alta voz. Parecia uma simples brincadeira, ou um jogo relativamente infantil, mas tudo se transforma numa situação incómoda para quase todos os elementos do grupo, com o jantar a trazer um fervilhar de emoções. Se um eclipse lunar contribui para que a Lua deixe de ser temporariamente visualizada pelos protagonistas, já um simples telemóvel permite que imensa informação seja revelada. Não faltam descobertas sobre traições, jogos de cariz sexual, a revelação da verdadeira orientação sexual de um personagem, entre outros exemplos que prometem mexer com as emoções dos protagonistas. No final, Paolo Genovese tira-nos o tapete, deixa-nos desamparados, expõe que tudo aquilo que percepcionámos foi bem mais complexo do que poderíamos esperar e exibe que a metáfora do eclipse não foi colocada na narrativa por mero acaso, com "Perfetti sconosciuti" a fazer justiça ao jogo dos protagonistas e a expor que algumas revelações podem provocar um impacto indelével. Quantos de nós estaríamos dispostos a exibir todo o conteúdo dos nossos telemóveis? Quais os segredos que escondemos daqueles que nos são mais próximos? Será possível manter uma relação estável, seja esta de amizade ou amorosa, contando sempre a verdade? "Perfetti sconosciuti" surge como um retrato relevante e importante sobre as relações contemporâneas, bem como da importância da tecnologia no nosso quotidiano, com um simples telemóvel a poder conter uma bomba atómica capaz de arrasar por completo com um envolvimento amoroso. Paolo Genovese sabe gerir o ritmo das revelações e da narrativa, com os momentos de humor a serem eficazmente rompidos com trechos pontuados pelo mal-estar e tensão, com o drama a envolver um filme que a espaços conta com pequenos salpicos de comédia, enquanto os vários elementos do elenco parecem compreender praticamente na perfeição a necessidade das dinâmicas colectivas estarem completamente afinadas para que o talento individual de cada actor e actriz sobressaia. É como se estivéssemos diante de uma pequena orquestra, conduzida com mestria por Paolo Genovese, com o cineasta a assumir quase o papel de Roman Polanski e a aproveitar de forma exímia as possibilidades de deixar um conjunto restrito de personagens num espaço fechado, enquanto uma miríade de sentimentos e revelações surgem ao de cima numa noite que promete deixar marcas. Alguns elementos de cada casal apresentam maiores afinidades entre si, outros parecem contar com um nível distinto de intimidade, embora seja certo que quase todos guardam segredos dos restantes, com Paolo Genovese a conceder espaço para que cada actor e actriz se destaque e explore a personalidade do personagem que interpreta. O elenco é composto por um conjunto de actores e actrizes de valor insuspeito, com a maioria a ter espaço para sobressair ao longo desta obra cinematográfica que se desenrola maioritariamente na casa de Eva (Kasia Smutniak) e Rocco (Marco Giallini).

Rocco e Eva organizam o jantar, com a segunda a surgir como uma psicóloga incapaz de compreender a filha adolescente, enquanto o primeiro é um cirurgião que mantém uma relação de alguma amizade com a jovem, com o casal a contar com um matrimónio aparentemente estável, apesar de esconderem alguns segredos um do outro. A decoração da habitação de Eva e Rocco é reveladora do estatuto de classe média/alta deste casal, bem como da maioria do grupo de amigos que participa neste jantar. É na casa de Eva e Rocco que se reúnem mais dois casais, nomeadamente, Bianca (Alba Rohrwacher) e Cosimo (Edoardo Leo) bem como Lele (Valerio Mastandrea) e Carlotta (Anna Foglietta), para além de Peppe (Giuseppe Battiston), com este último a não trazer a sua suposta companheira. O jantar é regado a bom vinho, comida e o mencionado jogo, com a narrativa a ganhar contornos gradualmente fervilhantes, enquanto o espaço da casa começa a ser contaminado por uma atmosfera claustrofóbica, com todos os personagens principais a serem obrigados a conviverem com o inevitável: a revelação de diversos segredos que procuravam esconder. O jogo partiu de uma ideia de Eva, embora a própria tenha os seus esqueletos no armário, com o argumento de Paolo Genovese, Filippo Bologna, Paolo Costella, Paola Mammini e Rolando Ravello a apresentar uma coesão latente (algo raro quando estão envolvidos tantos elementos) e a permitir que o cineasta explore estas intrigas entre amigos, bem como entre cônjuges. Como encarar a notícia de que a amante do esposo está grávida? Será uma boa ideia trocar de telemóvel com um amigo com uma rotina aparentemente desprovida de interesse? Como reagir à notícia de que um amigo de longa data é homossexual? A atmosfera torna-se gradualmente mais opressora, com a cinematografia a contribuir para essa sensação, enquanto as revelações contam com o tempo suficiente para serem desenvolvidas e ganharem impacto junto do espectador e dos personagens. Revelar mais do que aquilo foi mencionado ao longo deste texto seria estragar o prazer da primeira visualização de "Perfetti sconosciuti", embora a segunda visualização, após a descoberta das revelações, traga todo um novo conjunto de elementos que permitem valorizar ainda mais esta obra cinematográfica tipicamente italiana onde a tragédia e a comédia se juntam. Junte-se a tudo isto um elenco onde Alba Rohrwacher, Edoardo Leo, Valerio Mastandrea, Anna Foglietta, Giuseppe Battiston, Kasia Smutniak e Marco Giulliani têm espaço para sobressaírem e comporem personagens de relevo e "Perfetti sconosciuti" ganha rapidamente o estatuto de mais uma pérola oriunda de Itália. Alba Rohrwacher como uma veterinária recém-casada, que confia em demasia no esposo e parece apresentar alguma afinidade com o mesmo. Edoardo Leo como um taxista que tarda em encontrar estabilidade nos negócios e nas relações, algo que lhe promete trazer problemas. Valerio Mastandrea e Anna Foglietta destacam-se como um casal que se encontra unido há dez anos, com Lele e Carlotta a contarem com dois filhos e muitos segredos por revelar, bem como diversos problemas que começam a ser exibidos logo na apresentação rápida dos personagens, algo que que ocorre nos momentos iniciais do filme. Diga-se que Paolo Genovese não perde tempo a efectuar um retrato geral dos protagonistas e da intimidade de cada um, até começar a desenvolver gradualmente os personagens e a expor os seus segredos, com esta construção competente dos elementos que povoam a narrativa a contribuir e de que maneira para exacerbar o impacto dos acontecimentos ocorridos. Vale ainda a pena destacar Giuseppe Battiston como Peppe, um professor desempregado que supostamente tem um novo caso amoroso com uma mulher, tarda em encontrar um emprego que lhe agrade e tem uma aplicação específica no telemóvel para efectuar exercícios de X em X minutos, tendo em vista a perder peso.

 Giuseppe Battiston interpreta uma das várias figuras complexas de "Perfetti sconosciuti", com Peppe a permitir abordar temáticas como a homossexualidade, a insegurança em revelar a orientação sexual, a procura de contar com um aspecto que seja bem visto pela sociedade, entre outros exemplos, enquanto o actor tem uma interpretação de relevo. Todos estes elementos mencionados são amigos de longa data, ou conhecem-se há tempo suficiente para não terem problemas em disparar diálogos a espaços inconvenientes, embora o jogo prometa mudar a percepção que têm uns dos outros ou, pelo menos, permite que o espectador descubra alguns segredos relacionados com os protagonistas. Um dos vários méritos de Paolo Genovese passa por conseguir que compremos a ideia de que estes personagens estão a receber a informação ao mesmo tempo que o espectador, com o cineasta a contar com um domínio notório dos ritmos da narrativa, bem como da mise-en-scène, com os cenários, o trabalho dos actores, os planos, a contribuírem para que tudo funcione. Os vários espaços da casa de Eva e Rocco são utilizados, ainda que para objectivos distintos, com a habitação a surgir quase como uma personagem no interior da narrativa. Veja-se a sala de jantar, com os sete convidados a reunirem-se no interior da mesma, enquanto trocam conversas aparentemente inócuas, até o ambiente relativamente aprazível começar a aquecer, ou a forma como a casa de banho serve para Bianca extravasar os seus nervos. Inicialmente quase todos os personagens parecem apresentar uma confiança desmedida de que não contam com segredos comprometedores, pelo menos até estes começarem a ser revelados e a provocarem incómodos. Veja-se quando um dos personagens exibe a sua homofobia, ou uma confusão conduz um elemento a perceber o quão dolorosos podem ser os preconceitos contra os homossexuais, ou a exposição de que hoje em dia, ainda que tenhamos uma miríade de aparelhos e aplicações que permitam facilitar o diálogo, parecemos imensamente afastados daqueles que nos são próximos. Esse afastamento é visível nos segredos que estes personagens descobrem, com tudo e todos a parecerem contar com os seus esqueletos no armário e uma imensidão de receios, com Paolo Genovese a explorar esta situação com classe, inspiração e confiança. Entre o estudo sobre as relações modernas, o drama, a comédia e o comentário contundente sobre a nossa sociedade, "Perfetti sconosciuti" é uma pequena pérola que sabe conjugar um elenco principal composto maioritariamente por sete elementos, com tudo e todos a terem espaço para sobressair, bem como os aparelhos electrónicos que são utilizados, com as novas tecnologias a surgirem como uma fonte de aproximação, afastamento e imensos segredos.

Título original: "Perfetti sconosciuti".
Título em inglês: "Perfect Strangers".
Realizador: Paolo Genovese.
Argumento: Paolo Genovese, Filippo Bologna, Paolo Costella, Paola Mammini, Rolando Ravello.
Elenco: Giuseppe Battiston, Anna Foglietta, Marco Giallini, Edoardo Leo, Valerio Mastandrea, Alba Rohrwacher, Kasia Smutniak.

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