17 setembro 2016

Resenha Crítica: "The Nice Guys" (Bons Rapazes)

 A partir de um determinado momento de "The Nice Guys", a investigação protagonizada por Holland March (Ryan Gosling) e Jackson Healy (Russell Crowe) ganha contornos intrincados e rocambolescos, com a dupla de protagonistas a deparar-se com uma miríade de personagens e descobertas que prometem despertar imensas dúvidas e colocar a vida destes elementos em perigo. É o regresso de Shane Black aos filmes que envolvem duplas improváveis, após ter escrito o argumento de "Lethal Weapon" e realizado "Kiss Kiss Bang Bang". Diga-se que é um regresso em grande estilo, recheado de inspiração, sentido de humor, acção, ritmo, doses de saudável loucura, referências aos noir e neo-noir, personagens moralmente ambíguos e uma investigação com ramificações inesperadas, com Shane Black a colocar-nos diante de um enredo que conta com a cidade de Los Angeles como pano de fundo. É o território de Los Angeles em 1977 que é representado em "The Nice Guys", com os cenários interiores (veja-se o estilo da decoração das habitações e os adereços utilizados), o guarda-roupa dos personagens, as festas, os carros, as referências televisivas, as teorias da conspiração e a atmosfera que envolve a narrativa do filme a remeterem para a procura de Shane Black em evocar a década de 70 e algumas das obras cinematográficas da época. Los Angeles transforma-se rapidamente em cidade e protagonista, com Holland e Jackson a deslocarem-se pelos espaços deste território e a dialogarem com o seus habitantes, enquanto procuram resolver um caso intrincado. Black constrói uma dupla de protagonistas dotada de alguma dimensão e imensa personalidade, pronta a convencer quer nos momentos de humor e exuberância, quer nas situações mais sérias, com Ryan Gosling e Russell Crowe a acertarem por completo nas dinâmicas entre os personagens que interpretam, enquanto o cineasta e argumentista sabe aproveitar esta "química" entre os actores. Ryan Gosling dá vida a Holland March, um detective beberrão e fumador, que não perde uma oportunidade de aceitar casos de resolução impossível, tendo em vista a ganhar dinheiro de forma fácil, com os seus valores morais e a sua ética profissional a serem amplamente questionados quer pelo espectador, quer por Holly (Angourie Rice), a filha deste indivíduo, uma pré-adolescente de treze anos de idade. Holly conta com uma maturidade acima da média, com Angourie Rice a surgir como uma agradável surpresa ao conseguir sobressair no meio de elementos com o estatuto de Crowe e Gosling. A actriz convence em relação à curiosidade e maturidade de Holly, bem como naquilo que diz respeito às tentativas efectuadas pela pré-adolescente para que o pai consiga voltar a entrar nos eixos. Holly pretende que o pai seja um exemplo a seguir, embora Holland esteja longe de ser um herói de comportamentos imaculados. A vida de Holland não atravessa um bom momento, com este a aceitar casos manhosos e a parecer preso ao passado, em particular, ao episódio que conduziu à morte da sua esposa. Holland perdeu o olfacto, algo que o impediu de travar uma fuga de gás que provocou um acidente na sua antiga habitação, uma situação que redundou na morte da esposa do detective, com o protagonista a deixar transparecer que ainda não superou totalmente este episódio. Ryan Gosling incute um estilo descontraído e convencido a Holland, um detective em quem nem sempre se consegue confiar, embora o protagonista tenha alguma sorte a "tropeçar" nas pistas e nos elementos que procura, com o actor a contar com um papel onde tem espaço para sobressair.

 Holland não tem problemas em adiar a resolução dos casos, enganar os clientes e tomar atitudes pouco profissionais, com o detective a parecer temer as responsabilidades e a proporcionar alguns momentos de humor, sobretudo quando desafia as nossas expectativas em relação às suas decisões. Veja-se quando encontramos Holland a nadar no interior de uma espécie de aquário, completamente embriagado, quando deveria estar a reunir pistas. Temos ainda o momento em que Holland se reúne com uma cliente que procura encontrar o esposo, um indivíduo que se encontra supostamente desaparecido desde o funeral, com o protagonista a encontrar a urna com as cinzas do falecido no interior da casa e a perceber que a idosa ensandeceu. De bigode cuidado, quase sempre de fato e pronto a beber uns copos e a fumar os seus cigarros, Holland permite que Ryan Gosling exponha a sua habilidade quer para o humor, quer para efectuar a transição para os momentos mais sérios, com o actor a aproveitar os problemas deste detective e a sua "pancada" para criar um personagem dotado de alguma dimensão. Gosling conta com o auxílio do argumento de Shane Black, com o realizador e argumentista a voltar a exibir a sua perícia para este ofício, bem como para desenvolver obras cinematográficas que contam com duplas improváveis. Quem forma uma dupla improvável com Holland é Jackson Healy, um tipo de personalidade dura e implacável, de voz grossa e um corpanzil capaz de intimidar aqueles que se colocam no seu caminho. Crowe incute um estilo duro e intimidatório a Jackson, um indivíduo que não aceita de bom grado que o agridam ou ameacem. A postura física, as expressões, o corpo e a personalidade de Jackson parecem argumentos de peso para colocar em sentido aqueles que se metem no caminho do protagonista. No entanto, a violência e as confusões parecem fazer parte do quotidiano de Jackson, com Shane Black a colocar-nos diante de um personagem moralmente ambíguo, que não tem problemas em utilizar a força física e eliminar um inimigo, embora tenha alguns valores morais e desperte facilmente a nossa simpatia. Se Holland parece levar a sua profissão com alguma ligeireza, já Jackson encara o seu ofício com enorme rigor, embora não seja um detective profissional, com o estilo e personalidade de ambos a diferir imenso, algo notório quando são obrigados a formarem uma dupla improvável para encontrarem Amelia Kutner (Margaret Qualley), uma jovem que desapareceu misteriosamente e é perseguida por criminosos perigosos. A investigação é típica dos filmes noir, com o caso a ser bem mais intrincado do que parece a nível inicial, com os protagonistas a depararem-se com um emaranhado de dúvidas, testemunhas, inimigos, mentiras, traições e reviravoltas que os colocam em perigo. No início de "The Nice Guys" encontramos um carro a despenhar-se contra uma habitação, com a dona do veículo a falecer. A proprietária do carro é Misty Mountains (Murielle Telio), uma actriz pornográfica bastante conhecida, com a sua morte a gerar alguma comoção, embora a tia da artista acredite que esta se encontra viva. A tia de Misty acredita que viu a sobrinha após a notícia da morte da actriz. Nesse sentido, a familiar da estrela de filmes pornográficos contrata Holland para descobrir Misty, com o detective a aceitar o caso, embora não acredite na possibilidade da actriz estar viva. Uma das figuras com quem Holland pretende contactar é Amelia, uma jovem que esteve envolvida em "How Do You Like My Car, Big Boy?", um "filme alternativo" no qual Misty Mountains figurava no elenco principal. Por sua vez, Amelia contrata Jackson para que este último afaste Holland, com o detective a sentir no corpo a força física e a personalidade pouco dada a grandes brincadeiras do personagem interpretado por Russell Crowe.

 Amelia não abriu o jogo todo com Jackson, algo que este percebe quando é atacado por Blue Face (Beau Knapp) e Older Guy (Keith David), dois criminosos que pretendem descobrir o paradeiro da jovem, embora o protagonista não revele informações. O desaparecimento de Amelia e a morte de diversos elementos ligados a "How Do You Like My Car, Big Boy?" conduzem Jackson e Holland a unirem esforços para encontrarem a jovem, uma tarefa que promete ser intrincada. Ao longo do filme, Jackson e Holland deparam-se com uma casa queimada, diversas mortes (inclusive do realizador e do produtor de "How Do You Like My Car, Big Boy?"), um grupo de protestantes que luta contra a poluição (estamos em plenos anos 70, no período após a Guerra do Vietname, ou seja, quando os protestos ainda eram bem vivos), pistas relevantes (tais como aquelas que são dadas por Chet, o projeccionista do "filme alternativo"), frequentam uma festa para encontrarem informações, enfrentam criminosos, entre outros episódios que permitem ajudar a solucionar os mistérios que envolvem este caso e dar a conhecer a personalidade dos personagens interpretados por Russell Crowe e Ryan Gosling. A presença da dupla numa festa financiada por Sid Shattack, um famoso produtor de obras pornográficas, que produziu o "filme alternativo" protagonizado por Misty e Amelia, surge como um exemplo da capacidade de "The Nice Guys" em mesclar momentos completamente alucinados com acção, tensão e perigo. Veja-se quando encontramos Holland embriagado a nadar num aquário recheado de "sereias", ou o momento em que se deparam com Blue Face e Older Guy, duas faces visíveis do perigo que rodeia esta investigação. Outra das faces do perigo é John Boy (Matt Bomer), um assassino frio, letal e lacónico, pronto a eliminar todos aqueles que podem colocar em causa a sua missão. Matt Bomer tem um personagem que é capaz de fazer corar de vergonha diversos antagonistas da saga James Bond, com o actor a incutir um sentido prático e psicótico a este assassino que surge como uma ameaça aos planos dos protagonistas. John Boy tem de eliminar Amelia, com os elementos que o contrataram a surgirem como um mistério durante uma parte do filme, pelo menos até descobrirmos os planos mais obscuros que envolvem alguns sectores contaminados pela corrupção em Los Angeles. A corrupção em Los Angeles remete em certa medida para "L.A. Confidential", uma obra cinematográfica que contou com Kim Basinger e Russell Crowe no elenco principal, com a dupla a reunir-se em "The Nice Guys". Se "L.A. Confidential" é um exemplo paradigmático de um filme neo-noir, já "The Nice Guys" bebe alguma da sua inspiração neste subgénero, com esta cidade que nos é apresentada a estar longe de surgir como um local paradisíaco, com o desaparecimento de Amelia e um problema relacionado com produtores de automóveis de Detroit a estarem mais ligados do que pareciam a nível inicial. Os produtores de automóveis pretendem suprimir a introdução dos catalisadores nos veículos e contam com apoios poderosos, com o caso a contar com estranhas ligações com a história de Amelia. Margaret Qualley interpreta uma figura misteriosa que raramente chegamos a conhecer, embora Amelia apareça como a dinamizadora de boa parte da narrativa de "The Nice Guys", com a actriz a ter pouco tempo para sobressair, apesar da personagem que interpreta contar com uma relevância indelével no enredo. Amelia procura efectuar uma denúncia de forma deveras peculiar, tendo uma relação complicada com a progenitora, uma figura em quem não pode confiar. Judith Kutner (Kim Basinger), a mãe da desaparecida, uma mulher misteriosa que lidera o Departamento de Justiça, contrata os protagonistas para descobrirem o paradeiro da jovem, embora os seus objectivos nem sempre pareçam claros.

 Kim Basinger imprime um certo mistério e charme a Judith, com esta mulher a contar com uma assistente (Yaya DaCosta) que também está longe de despertar confiança, embora os protagonistas confiem inicialmente nestas duas figuras femininas. Quase todos os personagens prometem despertar um sentimento de incerteza junto de Jackson e Holland (com excepção de Holly), enquanto Shane Black coloca a dupla de protagonistas em perigo em plena Los Angeles dos anos 70, com tudo a ser exposto ao estilo do cineasta. Esse estilo de Black é visível não só nos diálogos recheados de vida e nos personagens pontuados por dimensão e personalidade, mas também na capacidade do realizador e argumentista em incutir tons distintos ao enredo, com "The Nice Guys" a tanto abordar situações de forma mais séria, como completamente alucinante, enquanto o humor e a seriedade parecem andar lado a lado ao longo do filme. Não faltam temáticas como a dor provocada por uma perda, ou a corrupção no interior de um espaço citadino, ou a relação entre um pai e a sua filha, mas também situações de humor físico ou de situação, com Russell Crowe e Ryan Gosling a entrarem no jogo e estilo do cineasta. Vale ainda a pena deixar mais umas palavras para Angourie Rice, com a jovem actriz a sobressair, sobretudo quando Holly procura despertar a faceta mais profissional do pai, ou tenta que Jackson não deixe o seu lado mais agressivo à solta, com a intérprete a surgir como uma das grandes revelações do filme. Diga-se que "The Nice Guys" é uma agradável surpresa, com Shane Black a saber utilizar e subverter diversos componentes ligados aos filmes noir, tais como os personagens moralmente ambíguos, a narração em off, as figuras fumadoras, a investigação labiríntica, entre outros elementos que remetem ainda para os neo-noir e para a criatividade do cineasta. Com uma dinâmica electrizante entre Russell Crowe e Ryan Gosling, um caso intrincado que prende a nossa atenção, diversos momentos de humor, acção e tensão, "The Nice Guys" é uma das agradáveis surpresas cinematográficas de 2016, com Shane Black a exibir mais uma vez o seu talento para a escrita de argumentos e para deixar o espectador diante de duplas improváveis e carismáticas. 

Título original: "The Nice Guys". 
Título em Portugal: "Bons Rapazes". 
Realizador: Shane Black.
Argumento: Shane Black e Anthony Bagarozzi.
Elenco: Russell Crowe, Ryan Gosling, Angourie Rice, Kim Basinger, Matt Bomer, Margaret Qualley, Beau Knapp, Keith David, Yaya DaCosta.

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