03 setembro 2016

Resenha Crítica: "The Neon Demon - O Demónio de Néon"

 Num determinado momento de "The Neon Demon", Jesse (Elle Fanning), a protagonista do filme, salienta o seguinte: "I can't sing, I can't dance, I can't write... no real talent. But I'm pretty, and I can make money off pretty". Este diálogo serve para ilustrar paradigmaticamente a superficialidade inerente ao mundo da moda, ou, pelo menos, como Nicolas Winding Refn encara o mesmo e as modelos. O cineasta volta a realizar uma obra cinematográfica pronta a despertar as opiniões mais díspares quer entre os seus defensores, quer entre os seus detractores. Diga-se que Refn não faz por menos, ou não estivéssemos diante de um provocador nato, que gosta de desafiar os limites daqueles que o elogiam ou arrasam. Simultaneamente frio, hipnotizante, superficial, repulsivo, violento, misógino e constrangedor, "The Neon Demon" transporta-nos para um universo narrativo que tem muito de Nicolas Winding Refn, onde estilo e substância se encontram e desencontram, com a visão do realizador sobre o mundo da moda, das modelos e das mulheres a evidenciar o lado provocador de um cineasta que parece não saber viver sem polémicas. O provérbio popular "muita parra, pouca uva" aplica-se praticamente em pleno a "The Neon Demon", sobretudo a partir do último terço, quando o realizador perde definitivamente o controlo e deixa o filme à deriva, enquanto o argumento de Mary Laws, Nicolas Winding Refn e Polly Stenham revela todas as suas fraquezas e incoerências. Estamos diante de um filme de contrastes, que utiliza aquilo que crítica (efectua uma representação mordaz e provocadora do mundo da moda e da futilidade que existe no mesmo, apesar de deixar o espectador diante de um enredo que aborda as temáticas de forma superficial), embora não tenha receios em direccionar as suas mensagens e repetir por diversas vezes os seus comentários sobre a moda e a crueldade que existe neste meio. Veja-se quando encontramos Jesse numa sessão fotográfica onde os cenários são marcados pela impessoalidade, algo transmitido pelas paredes brancas, enquanto o fotógrafo despe o corpo da modelo para um ensaio que a pode lançar para o estrelato. Jesse é uma jovem de dezasseis anos de idade, que chegou a Los Angeles para tentar vingar no mundo da moda. Esta começa a ganhar alguns contactos no local, tais como Ruby (Jena Malone), uma maquilhadora profissional que está sempre pronta para preencher o rosto dos outros e mantém durante algum tempo uma atitude sexualmente ambígua em relação à protagonista (até se transformar numa "predadora", com a abordagem da homossexualidade da personagem interpretada por Jena Malone a ser simplesmente ridícula). Ruby apresenta Jesse a Sarah (Abbey Lee) e Gigi (Bella Heathcote), duas modelos, com o quarteto a participar numa festa que é representada muito ao estilo da estética de Nicolas Winding Refn. Não faltam tonalidades vermelhas e azuis (muito presentes ao longo do filme), um trabalho de som e iluminação pronto a desconcertar e hipnotizar o espectador, enquanto os corpos são colocados em destaque. O momento serve desde logo para Refn expor o seu prazer a sobrepor o estilo em relação à substância, enquanto ficamos a conhecer um pouco mais sobre o quarteto. Sarah e Gigi surgem como os estereótipos das modelos dispostas a tudo para manterem o seu estatuto, com Abbey Lee e Bella Heatchote a terem apenas de expor os seus belos corpos e exibirem a frieza e vacuidade das personagens que interpretam. Nicolas Winding Refn não demonstra a mínima preocupação com Sarah e Gigi, com o desfecho destas personagens a permitir uma mensagem exposta de forma tosca sobre a competitividade do mundo da moda e do desejo excessivo de manter um ideal de beleza que permita continuar relevante neste meio onde as rivalidades são imensas ou, pelo menos, é assim que acontece em "The Neon Demon".

 Se Sarah e Gigi aparecem desde logo representadas como figuras superficiais, já Jesse surge como a jovem virgem e inexperiente, embora seja capaz de despertar a atenção de tudo e todos. Elle Fanning surge como uma espécie de boneca de porcelana de Nicolas Winding Refn, com o cineasta a moldar a actriz para os propósitos que tem para a personagem, enquanto somos bombardeados com diálogos relacionados com a beleza especial de Jesse (apesar do cineasta nem sempre conseguir incutir essa aura quase divina à protagonista). A jovem actriz consegue incutir algum mistério e frieza a Jesse, uma figura aparentemente angelical, de dezasseis anos de idade, que perdeu os pais e vive num quarto barato num motel gerido por um tipo machista e pouco polido (Keanu Reeves num papel bastante secundário). A partir do momento em que é chamada por Roberta Hoffman (Christina Hendricks), a dona de uma agência de modelos, Jesse percebe que está prestes a concretizar o sonho de vingar no mundo da moda. Hoffman compele Jesse a mentir em relação à idade, tendo em vista a conseguir ensaios fotográficos e trabalhos com estilistas de renome, com Refn a efectuar mais críticas ao sector da moda, nomeadamente, ao trabalho de menores e à contratação de modelos excessivamente magras e jovens, embora o próprio conte com Elle Fanning como protagonista, para além de ter um elenco secundário composto por actrizes que poderiam facilmente trabalhar como manequins (o que a espaços torna "The Neon Demon" um filme idiota de seguir já que o cineasta parece tropeçar constantemente nos mesmos elementos que representa de forma crítica ou jocosa). Esta crítica é exacerbada no dito ensaio fotográfico no qual Jesse serve de modelo para Jack (Desmond Harrington), um fotógrafo famoso, que pede para esta se despir, enquanto pinta a adolescente de dourado e a molda à sua medida. Ou seja, estamos diante de uma jovem de dezasseis anos, que participa num ensaio pontuado pela nudez, com Jesse a parecer inicialmente pouco à vontade com a situação, até exibir algum lisonjeio devido a ter sido fotografada por um profissional famoso que raramente aceita trabalhar com estreantes. Jesse parece ser perfeita, ou contar com os atributos perfeitos para esta profissão, com a sua juventude, magreza e tez a serem elogiados por quase tudo e todos, com diversos elementos a considerarem-na especial. A arrogância de Jesse aumenta com o avançar da narrativa, sobretudo quando ultrapassa a concorrência de Sarah e é seleccionada por Robert Sarno (Alessandro Nivola), um estilista que fica fascinado com a jovem. Sarno é mais um personagem secundário pouco desenvolvido, uma figura que representa o estereótipo do estilista superficial, que aparentemente contrasta com Dean (Karl Glusman), um amigo de Jesse que se encontra interessado na adolescente. Dean efectuou uma sessão fotográfica amadora que contribuiu para Jesse ser recebida por Roberta Hoffman, embora a relação entre o primeiro e a segunda nunca deixe o nível platónico. Karl Glusman interpreta um indivíduo relativamente prestável, sempre pronto a dizer "frases feitas" e simpático ao ponto de não levantar problemas quando é descartado da narrativa e da vida da protagonista. É mais um actor secundário que é engolido pela pouca preocupação de Refn em relação à maioria dos personagens, com o cineasta a parecer ter confiado em demasia que a estética e o estilo seriam suficientes para conseguirem esconder tudo aquilo que o filme não tem, ou demonstra ser incapaz de ter. Não é algo novo no cineasta, embora seja problemático quando o conteúdo é demasiado pobre para não servir de muleta ao estilo, algo que descompensa "The Neon Demon".

 O enredo de "The Neon Demon" raramente prima pela subtileza ou pela densidade mas aguenta-se relativamente bem até perto do seu último terço. No entanto, a partir do momento em que Refn assume uma postura de provocar por provocar e repetir a utilização dos mesmos símbolos e temáticas de forma excessiva, "The Neon Demon" perde completamente o rumo e ganha contornos completamente banais, machistas e ridículos. Não faltam situações a envolver canibalismo (para uma metáfora óbvia sobre a moda e as modelos), necrofangia (para mais metáforas óbvias), violência física e psicológica (tais como uma tentativa de violação), enquanto "The Neon Demon" exibe a sua verdadeira face, ou seja, é bem menos irreverente do que parece ou pretende ser. É certo que "The Neon Demon" consegue ser ofensivo, machista, misógino, pueril na abordagem das temáticas e nas metáforas, incoerente e hipócrita, mas está longe de ser irreverente, algo que desilude, sobretudo quando a espaços somos inebriados pela atmosfera criada por Refn e pela interpretação meritória de Elle Fanning. Por sua vez, quase todo o elenco secundário é desperdiçado, com Jena Malone, Bella Heathcoate, Abbey Lee, Karl Glusman, Keanu Reeves, entre outros, a serem completamente desaproveitados ao interpretarem personagens que são construídos sem qualquer ponta de inspiração, com o próprio elenco a não contribuir (é tudo muito artificial, muito encenado, demasiado estilizado para comprarmos a conversa fiada que nos é oferecida). O último terço do filme exibe esse pouco aproveitamento dos personagens secundários. Veja-se o caso de Jena Malone como Ruby. É certo que a actriz nem sempre convence, com a artificialidade do argumento a parecer contaminar as interpretações, com Jena Malone a não contar com um arco que permita desenvolver Ruby. Diga-se que é ridículo (perdoem o spoiler) ver Ruby a procurar tirar a virgindade a Jesse, quase como uma predadora em busca de uma presa, com a situação a parecer saída de um fetiche de um adolescente em busca de vídeos pornográficos sobre lésbicas. Falta mais densidade, irreverência e assertividade a "The Neon Demon", embora não falte "fogo de artifício", néones, luzes, brilhantes, provocações infantis e uma utilização repetitiva da paleta cromática, com Refn a não poupar no aproveitamento do branco, vermelho, azul e rosa, tendo em vista a remeter quase sempre para os mesmos significados. Vermelho para representar a tentação, perigo ou instabilidade emocional. Azul associado a uma certa frieza. Rosa para a suposta pureza de Jesse, uma jovem de dezasseis anos e pele rosada. Branca para expor a impessoalidade de alguns cenários como o estúdio onde é efectuada a primeira sessão fotográfica de Jesse, ou o espaço onde decorre um teste de casting para modelos. Curiosamente, para um filme que supostamente quer abordar temáticas sobre a moda, "The Neon Demon" está longe de explorar afincadamente o trabalho efectuado pelas modelos, com a própria rivalidade e competitividade entre colegas de profissão a parecer ser utilizada mais para Refn expor a sua faceta de provocador do que para aflorar os efeitos nocivos destas querelas. Diga-se que Darren Aronofsky aproveitou de forma bem mais complexa e assertiva a rivalidade no feminino no espaço fechado e competitivo do ballet em "Black Swan" (onde as carreiras também acabam de forma precoce), com a densidade psicológica deste filme a fazer "The Neon Demon" corar de vergonha. Se alguns personagens de "The Neon Demon" pensam que a beleza é tudo, já Refn acredita que basta um filme ter estilo para conseguirmos esquecer a falta de substância do mesmo, ou se preferirem, o descontrolo que assola o terceiro acto da obra cinematográfica em análise. A espaços "The Neon Demon" quase que tem um efeito hipnótico, mas, gradualmente, essa sensação começa a desvanecer até restar simplesmente a desilusão. Nicolas Winding Refn é capaz de mais e melhor do que aquilo que demonstrou em "The Neon Demon".

Título original: "The Neon Demon".
Título em Portugal: "The Neon Demon - O Demónio de Néon".
Realizador: Nicolas Winding Refn.
Argumento: Mary Laws, Nicolas Winding Refn, Polly Stenham.
Elenco: Elle Fanning, Jena Malone, Bella Heathcote, Abbey Lee, Karl Glusman, Christina Hendricks, Keanu Reeves.

1 comentário:

Pablo disse...

Ótima review! Concordo com tudo, apesar de achar estiloso e belo, falta conteúdo.