28 setembro 2016

Resenha Crítica: "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children" (A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares)

 Tim Burton tem um fascínio indelével pelos personagens que se encontram à parte da sociedade, ou pelas figuras peculiares, algo que "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children" (em Portugal: A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares) volta a confirmar, com o cineasta a realizar uma obra cinematográfica que mescla aventura, fantasia e romance, sempre num tom que varia entre o naïf, o bizarro e o gótico. Não chega a assustar, pelo menos os mais velhos, nem parece ser esse o propósito, embora, a espaços "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children" assuma um tom mais negro, com Tim Burton a criar uma obra cinematográfica essencialmente destinada aos pré-adolescentes e adolescentes ao mesmo tempo que pisca o olho aos adultos, um pouco a fazer recordar aquilo que o cineasta já tinha efectuado em "Frankenweenie". Diga-se que "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children" quase que nos traz à memória uma série de referências distintas que vão desde filmes de aventuras como "The Goonies" ou "Young Sherlock Holmes" (não faltam os jovens que lidam com uma aventura que coloca as suas capacidades à prova, amizades efectuadas ou solidificadas, elementos de investigação, diversas reviravoltas e um tom pontuado por alguma ingenuidade), passando pelas obras cinematográficas de Tim Burton que contam com deslocados da sociedade como protagonistas e uma estética gótica e imaginativa (desde "Edward Scissorhands", passando por "Ed Wood" a "Frankenweenie", entre outras), até a longas-metragens como "Groundhog Day" que lidam com o conceito de viver o mesmo dia repetidamente. Para além dos exemplos mencionados, parece ainda existir uma leve influência da saga X-Men e de Harry Potter, com as crianças peculiares a contarem com habilidades especiais e a viverem numa realidade praticamente à parte dos restantes seres humanos, enquanto a personagem do título surge como uma espécie de Professor Xavier ou Dumbledore. No caso de "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children", Tim Burton bebe inspiração do livro homónimo de Ransom Riggs, enquanto beneficia de contar com um argumento competente, um trabalho inspirado no design de produção e uma escolha certeira do elenco, sobressaindo sobretudo a inevitável Eva Green (a interpretação da actriz vale o preço do bilhete), bem como Asa Butterfield e a surpreendente Ella Purnell. Asa Butterfield interpreta Jake, um adolescente solitário, de tez pálida, algo tímido, que não conta com grandes amizades e trabalha em part-time num supermercado na Florida. Durante boa parte da sua vida, Jake habitou-se a ouvir com atenção as histórias de Abraham (Terence Stamp), o seu avô, um indivíduo considerado demente, de personalidade sonhadora e misteriosa, que viveu na casa da Senhora Peregrine (Eva Green), um espaço destinado a crianças peculiares, tendo formado amizade com esta mulher, bem como com Emma Bloom (Ella Purnell), uma adolescente que tem a capacidade de flutuar e controlar o ar. Terence Stamp incute carisma a Abraham, mais conhecido como Abe, um indivíduo que procurou compelir o neto a acreditar nas figuras que povoam o orfanato da Senhora Peregrine, embora nunca tenha revelado toda a verdade sobre o seu passado. Nem todos acreditam nestas histórias, apesar de Abe contar com uma série de fotos dos habitantes deste orfanato, um grupo heterogéneo que parece saído da mansão do Professor Xavier, com todos os jovens a contarem com uma característica peculiar que é utilizada no terceiro acto do filme. Não faltam elementos como Olive (Lauren McCrostie), uma jovem capaz de controlar o fogo, ou Millard (Cameron King), um rapaz invisível, ou Enoch (Finlay MacMillan - outro dos destaques do elenco secundário), um adolescente que é capaz de atribuir vida, ainda que temporariamente, a objectos ou corpos inanimados, ou Hugh Apiston (Milo Parker), uma criança que tem uma colmeia no interior do estômago, entre outros integrantes deste orfanato liderado pela Senhora Peregrine. Jake é praticamente empurrado a procurar pela Senhora Peregrine a partir do momento em que o avô é violentamente atacado por seres misteriosos, com o protagonista a encontrar Abe quase morto. O jovem depara-se ainda com um monstro bizarro, que mais tarde descobre chamar-se de "sem alma", um ser que não tem olhos, apresenta uma faceta monstruosa e uns braços em forma de lâmina.

 A morte de Abraham deixa o jovem em choque, bem como a descoberta do "sem alma", uma figura monstruosa que apenas é visualizada pelo adolescente e pelo veterano. Ninguém acredita na versão de Jake, inclusive o pai (Chris O'Dowd) e a mãe (Kim Dickens) do protagonista, com o casal a obrigar o filho a efectuar terapia junto de uma psicóloga (Allison Janney). Os progenitores consideram que o rebento padece de problemas do foro mental, enquanto o jovem mantém a sua história, acreditando ter visto um monstro. Jake procura ainda cumprir os últimos desejos de Abraham e comprovar as histórias do veterano, algo que conduz o protagonista a convencer o pai a viajar consigo até ao País de Gales, nomeadamente para Cairnholm, uma ilha onde o passado e o presente se tocam. É nesta ilha que supostamente se encontra localizada a casa da Senhora Peregrine, com Jake a procurar encontrar esta habitação e a personagem do título. Se Chris O'Dowd praticamente não tem espaço para se destacar ao longo do filme, surgindo como o estereótipo do pai que não compreende o filho, já Asa Butterfield consegue sobressair como este adolescente que evidencia alguma curiosidade em relação à possibilidade das histórias do avô serem reais. Asa Butterfield consegue convencer quer como o jovem atrapalhado que não se consegue adaptar no interior da sociedade do seu tempo, quer como o adolescente curioso e imaginativo que é obrigado a assumir a postura de herói improvável. A temática do herói improvável não é nova, nem está longe de estar esgotada, com Tim Burton a saber utilizar a mesma de forma convincente, sobretudo a partir do momento em que o protagonista descobre a casa do título. No início do filme, Jake chega a colocar em causa a relevância dos seus actos, mas a morte do avô, a viagem até Cairnholm e a entrada no mundo da Senhora Peregrine prometem mudar a vida deste adolescente. Os cenários da ilha galesa são pontuados pelo nevoeiro e alguma frieza, com Jake a procurar escapulir-se constantemente do pai, enquanto este último tenta que o filho se integre com os elementos locais. O progenitor do protagonista pensa que o filho se encontra fragilizado do ponto de vista mental e emocional, tendo alguma dificuldade em compreender o adolescente, tal como não entendia as histórias de Abraham. A relação entre Jake e Abraham era de grande proximidade, com o segundo a influenciar e muito o neto, algo que ajuda a explicar esta viagem do protagonista até ao País de Gales. Jake depara-se inicialmente com a mansão em ruínas, completamente destruída e recheada de cinzas, até entrar no vórtice que permite chegar ao tempo e ao espaço onde vivem a Senhora Peregrine e as crianças peculiares, com Eva Green a surgir em grande destaque. A Senhora Peregrine é uma ymbryne, ou seja, tem o poder de controlar o tempo e transformar-se numa ave. Nesse sentido, Peregrine consegue manter a mansão no dia 3 de Setembro de 1943, utilizando o seu relógio para controlar os segundos exactos em que deve recuar no tempo e regressar ao início dessa data. Os jovens, bem como a Senhora Peregrine nunca envelhecem, apesar de se recordarem dos episódios que protagonizaram em cada dia 3 de Setembro de 1943, com Jake a descobrir toda uma realidade distinta, colorida, recheada de figuras peculiares, enquanto somos transportados para o interior deste espaço onde a fantasia e os sentimentos bem reais se misturam. Eva Green é uma das actrizes que dá alma ao filme, com a intérprete a surgir com vestes azuis, cabelo negro e azulado, muitas das vezes acompanhada por um cachimbo, enquanto incute uma personalidade determinada, simpática e misteriosa a Peregrine, uma figura carismática e protectora que guarda imensos segredos sobre o passado de Abe.

 A mansão da Senhora Peregrine evidencia paradigmaticamente o cuidado que foi colocado na decoração de alguns cenários interiores, algo notório quando observamos os objectos decorativos deste espaço, bem como as tonalidades das paredes e as várias divisórias da habitação. Por sua vez, o jardim da habitação é pontuado por um espaço enorme, diversas plantações e um conjunto de plantas esculpidas que parecem ter sido podadas por Edward Scissorhands (este cenário tem muito de Tim Burton), enquanto somos apresentados aos elementos peculiares que habitam no interior da casa da Senhora Peregrine. Todos conviveram com Abe, o avô do protagonista, com o personagem interpretado por Terence Stamp a não ter saído da memória destes elementos, sobretudo de Emma. Com longos e encaracolados cabelos loiros, uma candura desarmante e uma química notória com Asa Butterfield, Ella Purnell consegue destacar-se como Emma Bloom, com os jovens a protagonizarem alguns momentos pontuados por enorme delicadeza, doses assinaláveis de romance e alguma estranheza. Purnell consegue transmitir o encanto despertado pela personagem que interpreta, uma figura feminina capaz de flutuar e controlar o ar quando se encontra debaixo de água, com Emma a despertar a curiosidade de Jake, um sentimento que é mútuo. Parece certo que Emma outrora esteve interessada em Abe, com Jake a despertar uma enorme curiosidade nesta jovem que utiliza botas pesadíssimas para não voar pelos ares. Tim Burton sabe trabalhar a dinâmica entre Jake e Emma, com o estilo meio naïf de ambos a conquistar-nos por completo, bem como os actos protagonizados por estes elementos. Veja-se quando encontramos Emma a pedir para Jake colocar uma corda sobre o seu corpo, tendo em vista a não voar pelos ares, enquanto ajuda um esquilo bebé que caiu de uma árvore, ou o momento belíssimo debaixo de água em que a primeira exibe o seu esconderijo ao protagonista. O momento subaquático tem tanto de terno como de fantasioso e bizarro (não faltam esqueletos no interior do navio, com Tim Burton a encontrar romantismo nos lugares e situações mais peculiares), embora as relações entre Jake e os elementos da casa nem sempre sejam pacíficas. Peregrine recebe o jovem de braços abertos, apesar de não revelar inicialmente todas as informações pretendidas pelo adolescente, embora Enoch tenha quase sempre uma postura arisca em relação ao protagonista, temendo o papel do mesmo no seio do grupo ou os problemas que a sua saída poderá provocar. Os peculiares não podem abandonar estes "loops" temporais, ou viajarem definitivamente para o tempo de Jake, com as ymbryne a criarem vórtices para protegerem os primeiros dos "sem alma" e do grupo de dissidentes liderados por Barron (Samuel L. Jackson). De cabelos e olhos brancos, dentes semelhantes a um tubarão esfomeado, Samuel L. Jackson surge com um visual espalhafatoso e caricatural como este antagonista de gestos exagerados, que não tem problemas em tirar os olhos aos jovens peculiares e comer os mesmos para assumir uma faceta humana, ou tentar capturar as ymbryne para conseguir a vida eterna. Sim, o objectivo do antagonista não é novo, mas aquilo que também sobressai em "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children" é a capacidade que Tim Burton apresenta para jogar com alguns lugares-comuns e adicionar o seu toque pessoal, embora em doses contidas. A própria banda sonora de Mike Higham consegue jogar assertivamente com os episódios da narrativa, tanto apresentando um tom mais calmo e doce como pronto a expor a inquietação, com Tim Burton a utilizar a música com alguma eficácia ao longo do filme. O cineasta junta estilo e substância, enquanto coloca Jake e os peculiares a depararem-se com a ameaça de Barron, um antagonista que nem sempre prima pela inteligência. Barron lidera uma facção de peculiares dissidentes que não quer viver num único dia, procurando caçar as crianças para lhes tirar os olhos e as ymbryne para efectuar uma nova experiência que pode permitir o cumprimento dos seus desideratos. Barron tem ainda o poder de mudar, ainda que temporariamente, a sua fisionomia, um recurso que potencia algumas reviravoltas no enredo. A chegada de Barron à mansão da Senhora Peregrine traz algumas doses de perigo, com Jake a surgir como o líder improvável que poderá contribuir para salvar os peculiares. Jake pensa ser um rapaz completamente normal (Burton aproveita ainda para questionar o que é ser "normal"), embora, mais tarde, descubra que conta com uma habilidade especial, em particular, visualizar os "sem alma". A narrativa ganha assim contornos de aventura, alguma acção e doses consideráveis de tensão, com Tim Burton a conceder espaço para que cada elemento dos peculiares sobressaia e exiba as suas habilidades, algo que comprova o bom trabalho de Jane Goldman na escrita do argumento do filme.

 A aventura é desenvolvida de forma convincente e inspirada, tal como as dinâmicas do grupo e o romance que se forma entre Jake e Emma, com a química entre Asa Butterfield e Ella Purnell a ser fundamental para diversas cenas funcionarem. O romance atribui algumas doses de candura a um filme que assume muitas das vezes um tom ingénuo que nos desarma, enquanto que as cenas de acção contam com uma boa utilização dos efeitos especiais e das especificidades dos personagens, para além de exibirem o lado mais negro de "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children". Barron surge como o representante mais visível do perigo, embora os seus objectivos não sejam os mais originais. Samuel L. Jackson parece divertir-se imenso a incutir gestos claramente exagerados a Barron, efectuando uma homenagem a "The Shining" pelo caminho, enquanto Tim Burton aproveita o elenco e os cenários para os seus propósitos. Veja-se a casa da Senhora Peregrine, um espaço pontuado pela fantasia e pelos elementos peculiares, ou a saída dos personagens para Blackpool, tendo em vista a travarem os planos de Barron. Aos poucos, Jake começa a descobrir mais sobre os peculiares e sobre si próprio, enquanto protagoniza uma série de episódios que prometem mudar a sua vida, ou não tivesse a hipótese de contactar com um mundo que lhe parece dizer mais do que aquele onde viveu durante toda a sua curta existência. É a típica jornada do herói improvável, que aos poucos enfrenta os seus medos e receios e efectua uma série de descobertas, enquanto Tim Burton efectua um elogio à diferença, com os peculiares a contarem quase todos com características distintas, embora o valor destes elementos seja inestimável. Estes encontram-se a viver à parte do Mundo e da sociedade, com "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children" a aproveitar ainda para efectuar um paralelo entre a situação dos jovens e a dos judeus durante a II Guerra Mundial. Veja-se que o avô do protagonista saiu da Polónia quando era jovem devido ao ataque de uns monstros, tendo ido para o País de Gales, onde conheceu a Senhora Peregrine, com a alusão aos "sem alma" a surgir inicialmente como uma alegoria aos nazis e ao Holocausto. A própria procura de Barron em eliminar os peculiares e alimentar-se dos olhos dos mesmos, tendo em vista a criar um grupo de elementos mais aptos, contrasta com os ideais de Peregrine, ou outras ymbryne como Avocet (Judi Dench num papel muito secundário), algo que indica essa mensagem do filme contra a intolerância e a favor da diferença. Pelo meio não faltam olhos degustados, esqueletos que ganham vida, figuras monstruosas e a certeza que Tim Burton não deixou totalmente o seu lado mais negro, embora conjugue essa sua faceta com o tom de aventura do filme. Entre aventuras e descobertas inesperadas, romances e momentos inquietantes, "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children" surge como uma obra cinematográfica marcada por um tom simultaneamente peculiar, negro e naïf, com Tim Burton a desenvolver assertivamente a premissa do filme enquanto permite que viajemos por este universo narrativo que nos conquista com uma facilidade indelével.

Título original: "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children".
Título em Portugal: "A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares"
Realizador: Tim Burton.
Argumento: Jane Goldman.
Elenco: Eva Green, Asa Butterfield, Ella Purnell, Samuel L. Jackson, Terence Stamp, Allison Janey, Lauren McCrostie, Finlay MacMillan, Milo Parker, Judi Dench.

Sem comentários: