11 setembro 2016

Resenha Crítica: "Le goût des merveilles" (O Sentido do Maravilhoso)

 "Le goût des merveilles" (em Portugal, "O Sentido do Maravilhoso") não procura enganar o espectador ou "vender" uma ideia errada daquilo que tem para apresentar, com Éric Besnard a realizar uma "dramédia" pontuada por algum romantismo, simples nos seus propósitos e execução, que sabe utilizar os lugares-comuns ao serviço da narrativa, embora esteja longe de surpreender, inovar ou apresentar ambição. A história é relativamente simples, as reviravoltas mais do que esperadas e previsíveis, a banda sonora surge quase sempre pronta a adensar o tom poético ou melancólico do filme, o desfecho parece anunciado desde o início, embora Virginie Efira e Benjamin Lavernhe, a dupla de protagonistas, contribuam para elevar a obra cinematográfica. Efira e Lavernhe formam uma dupla de protagonistas capaz de despertar empatia, algo que contribui para a criação de um sentimento de simpatia em relação ao filme, com os intérpretes a contarem com uma dinâmica convincente. Virginie Efira interpreta Louise Legrand, uma viúva de trinta e sete anos de idade, que ainda não ultrapassou por completo a morte do esposo, tendo dois filhos desta união, nomeadamente, Emma (Lucie Fagedet), uma adolescente que "cresceu cedo demais", e Félix (Léo Lorléac'h), um jovem que gosta de jogar nas consolas e escapulir-se aos trabalhos de casa. Louise possui uma vasta propriedade, situada na Provença, que pertencia à família do esposo, com este local a contar não só com a habitação da protagonista e dos filhos, mas também com longos terrenos onde a personagem interpretada por Efira cuida de diversas plantações. A habitação conta com uma decoração que mescla um estilo rústico e moderno, algo que evidencia a longevidade da propriedade, enquanto o espaço exterior parece praticamente perfeito para quem adora a vida no campo. O espaço campestre é exposto e utilizado de forma inspirada ao longo do filme, surgindo praticamente como um personagem de relevo, com as suas cores, as suas especificidades e a sua atmosfera radiante a serem captadas com alguma lirismo e acerto. Veja-se os planos bem abertos que nos colocam diante dos tons roxos da Lavanda, ou os espaços verdes que pontuam o território, ou a miríade de árvores imponentes, com Philippe Guilbert a ter um trabalho competente na cinematografia, conseguindo transportar o espectador para o interior deste espaço dotado de enorme beleza e poesia (algo que se torna notório quando ficamos diante de alguns planos que procuram exacerbar a sensibilidade muito particular do protagonista). No entanto, a vida de Louise está longe de atravessar uma fase pontuada pela tranquilidade transmitida por este espaço aparentemente bucólico e capaz de despertar paz interior. Louise procura continuar com o negócio que pertencia ao esposo, embora esteja a lutar contra uma série de adversidades difíceis de contrariar: o banco exige o pagamento de um empréstimo num curto espaço de tempo; Paul (Laurent Bateau), um pretendente, procura aproveitar-se da fragilidade financeira da viúva para comprar um terreno desta a baixo custo; a personagem principal tarda em receber uma verba referente à produção de pêras. A protagonista conta com uma banca no mercado onde vende pêras, damascos, tartes, coscorões, mel, entre outros produtos, embora as receitas das vendas não cheguem para cobrir as despesas. Diga-se que Louise parece apresentar algumas incertezas em relação à sua habilidade e gosto por esta actividade profissional, apesar de tentar manter o negócio que outrora pertenceu ao marido. Absorta nos seus problemas e pensamentos, Louise distrai-se quando se encontra a conduzir e atropela Pierre (Benjamin Lavernhe), naquele que se revela um estranho mas feliz acaso. O casal que se conhece de forma improvável, ou caricata é algo que está longe de ser inovador na Sétima Arte ou na literatura, embora Éric Besnard consiga abordar esta situação de forma relativamente eficiente, com a relação de proximidade que se forma entre Pierre e Louise a crescer de forma relativamente natural ao longo da narrativa.  

 Benjamin Lavernhe consegue transmitir as dificuldades de Pierre em comunicar (é bastante directo a dialogar, mas isso não implica que seja um indivíduo comunicativo), bem como a incapacidade do protagonista para lidar com o cinismo da sociedade contemporânea (não tendo problemas em expor de forma brusca quando não gosta de uma pessoa), com o personagem a contar com Síndrome de Asperger. Pierre tem uma visão peculiar e hipersensível do Mundo (quando está no campo quase que parece entrar num espaço sagrado, algo notório quando contempla o mesmo), teme as multidões e os barulhos (algo exacerbado pelo trabalho de sonoplastia, com o som a ser adensado quando o personagem se encontra em pânico, uma medida simples e eficaz de expor o estado de espírito do protagonista), apresenta uma inteligência notória (veja-se o seu talento para a matemática ou como hacker), um gosto muito particular de colocar autocolantes em diversos locais e uma certa ingenuidade. Diga-se que Pierre não surge como o príncipe encantado que se prepara para salvar a donzela em apuros, bem pelo contrário. O próprio Pierre precisa de ajuda, com Lavernhe a conseguir exprimir as fragilidades emocionais deste indivíduo solitário que apresenta uma visão muito própria do Mundo que o rodeia, uma situação que se torna notória quando está em contacto com a natureza, ou exprime as suas fobias. Veja-se quando Louise decide trazer Pierre para o interior da sua casa, tendo em vista a tratar do mesmo, com este indivíduo a apresentar uma inabilidade latente para a conversação e para mentir, apesar de começar a conquistar a atenção da protagonista e dos rebentos da mesma. Nesse sentido, Pierre consegue melhorar a vida de Louise e vice-versa, com a dinâmica convincente entre Benjamin Lavernhe e Virginie Efira a fazer maravilhas para a narrativa funcionar, mesmo quando o argumento não ajuda e decide enveredar por diálogos excessivamente melosos (tais como o protagonista a prometer que não vai morrer). Se Louise procura tratar dos ferimentos de Pierre, provocados pelo atropelamento, já este último consegue ajudar a primeira a cuidar das plantações, com a habilidade do protagonista para a matemática e para a previsão do tempo a ser essencial para evitar alguns problemas. Pierre encontra no lar de Louise, Emma e Félix um espaço diferente daquele ao qual estava habituado, algo que promete trazer mudanças ao seu quotidiano, bem como ao dia-a-dia daqueles que rodeiam este personagem. O lar de Louise parece trazer diversos ingredientes que faltavam à vida de Pierre, enquanto o estilo peculiar, a inteligência e os talentos deste último trazem uma lufada de ar fresco ao quotidiano da família da protagonista. A relação entre Louise e Pierre conhece uma série de avanços e recuos ao longo do filme. Louise percebe que Pierre está a ganhar um lugar especial no seu lar, embora pareça reticente em deixar este individuo entrar por completo na sua vida, com ambos a surgirem como figuras marcadas por uma miríade de problemas. Pierre perdeu a mãe quando ainda era jovem, tendo sido criado por Jules (Hervé Pierre), um indivíduo que trabalha e habita numa livraria, com a entrada em cena de Louise a acontecer quando o primeiro estava obrigado a apresentar-se a avaliações psicológicas regulares junto de uma médica (Hiam Abbass). Louise ainda não ultrapassou a morte do esposo e evidencia que a sua capacidade de luta contra o destino já conheceu melhores dias. Por sua vez, Emma e Félix começam encarar Pierre como uma espécie de irmão mais velho, ou uma estranha figura paternal, com este indivíduo a procurar ajudar os dois jovens, ainda que à sua maneira, com Lucie Fagedet e Léo Lorléac'h a terem algum tempo para sobressaírem. Temos ainda alguns personagens secundários que contam com alguma relevância na narrativa, tais como Paul, a Dr.ª Mélanie Ferenza e Jules, embora apenas este último seja desenvolvido, enquanto os dois primeiros acabam por cair nos estereótipos.

 Paul aparece como um indivíduo que não desperta a confiança dos filhos da protagonista, com as suas intenções a contarem com um carácter dúbio (tanto parece querer aproveitar-se de Louise como tentar ajudar e demonstrar o seu interesse nesta mulher, com este personagem a surgir como a antítese de Pierre, um indivíduo que não conta com interesses materiais). Por sua vez, Mélanie Ferenza surge como uma médica unidimensional, que raramente tem espaço para crescer na narrativa e apresenta alguma falta de confiança em relação ao protagonista. Já Hervé Pierre interpreta um indivíduo experiente e ponderado que acolheu Pierre quando este ainda era jovem, com a amizade entre Jules e o protagonista a remeter praticamente para as dinâmicas entre um pai e o seu filho. Essa situação é visível no último terço, quando Jules procura aconselhar Pierre, num momento relativamente comum num filme do género, em particular, quando alguém procura avisar o protagonista em relação à relevância que a figura feminina tem na sua vida. O maior destaque de "Le goût des merveilles" vai para Virginie Efira e Benjamin Lavernhe, com a dupla a protagonizar diversos momentos que facilmente despertam a nossa simpatia em relação aos personagens que interpretam. Veja-se quando Pierre ajuda Louise a vender produtos na banca da viúva, com o conhecimento e a franqueza do primeiro a prometer afugentar clientes, ou quando o protagonista belisca a personagem interpretada por Virginie Efira num sinal que gosta de estar junto desta última (o humor também está muito presente ao longo do filme). Efira incute maturidade e experiência a Louise, com a actriz a expor algumas das fragilidades desta mulher que aos poucos começa a perceber a relevância de Pierre na sua vida. Lavernhe expõe as dificuldades que Pierre tem em conviver numa sociedade pragmática e cínica, com este personagem a apresentar uma inteligência indelével e uma personalidade que aos poucos conquista alguns elementos que o rodeiam. Pierre não gosta que lhe toquem, ou coloquem casacos que picam, mas parece começar a sentir algo por Louise que é diferente de tudo aquilo que conhecera, ou não estivéssemos diante de uma figura pouco dada a grandes convívios ou a relações de amizade. Benjamin Lavernhe utiliza regularmente a linguagem corporal para expor o modo diferente de Pierre encarar e sentir o mundo que o rodeia, com "Le goût des merveilles" a abordar os efeitos do Síndrome de Asperger de forma simples e eficaz. Embora a simplicidade e a previsibilidade pareçam ser as palavras de ordem, "Le goût des merveilles" consegue abordar temáticas dotadas de alguma complexidade, tais como as adversidades encontradas pelos elementos que contam com Síndrome de Asperger, a crise financeira de uma família, as dificuldades inerentes à manutenção do lar e de um negócio familiar, a dicotomia entre o campo e a cidade, entre outras, embora tudo seja desenvolvido com enorme leveza. A dinâmica entre Louise e Pierre é relativamente bem trabalhada, apesar de um ou outro diálogo completamente desnecessário, com Éric Besnard a optar quase sempre por um estilo de realização que deixa as atenções recaírem no trabalho dos actores e na beleza natural dos cenários campestres. Com uma abordagem eficaz de situações ligadas aos elementos que contam com Síndrome de Asperger, um tom feel good, algum lirismo, salpicos de romantismo e uma sinceridade notória nos seus propósitos, "Le goût des merveilles" pode contar com um argumento simples e pouco ambicioso mas nem por isso deixa de proporcionar alguns momentos agradáveis e cumprir naquilo a que se propõe, com Virginie Efira e Benjamin Lavernhe a convencerem e a formarem uma dupla que facilmente prende a nossa atenção.

Título original: "Le goût des merveilles".
Título em Portugal: "O Sentido do Maravilhoso".
Realizador:
Éric Besnard
Argumento: Éric Besnard. 
Elenco: Virginie Efira, Benjamin Lavernhe, Hervé Pierre, Lucie Fagedet, Léo Lorléac'h, Hiam Abbass, Laurent Bateau.

Trailer de "O Sentido do Maravilhoso":


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