24 setembro 2016

Resenha Crítica: "La pazza gioia" (Loucamente)

 "La pazza gioia" não renega as suas origens, com Paolo Virzì a colocar-nos diante uma obra cinematográfica que combina praticamente na perfeição o humor e a tragédia, bem como alguns comentários de foro social e económico, algo que remete para as célebres comédias à italiana de cineastas como Mario Monicelli, Pietro Germi, Dino Risi, entre outros. Diga-se que o próprio Paolo Virzì parece assumir, ainda que indirectamente, essa tradição italiana ao comentar no press kit do filme: "É possível sorrir ou mesmo rir ao narrar o sofrimento, ou isso é visto como indecoroso e escandaloso? Oxalá assim seja, porque é isso que prefiro quando faço um filme, no fundo, é a única coisa que me interessa (...) Todos os filmes são uma terapia. Eles ajudam, não digo a curar, mas ao menos a suportar melhor as coisas da vida, sobretudo se conseguem desencantar a comédia precisamente em pleno drama e tragédia". No caso de "La Pazza Gioia" não ficamos diante de um indivíduo que pretende ser traído pela esposa para aproveitar as leis locais e assassiná-la, tendo em vista a contar com uma curta pena de prisão e casar com a sobrinha ("Divorzio all'italiana"), nem de uma siciliana que viaja em direcção a Inglaterra para se vingar do homem que a desonrou ("La ragazza con la pistola"), ou um mulherengo que apenas consegue colocar a "máquina" a trabalhar quando está em perigo ("Casanova '70"), mas sim perante Beatrice Morandini Valdirana (Valeria Bruni Tedeschi) e Donatella Morelli (Micaela Ramazzotti), duas figuras femininas emocionalmente despedaçadas que se conhecem no interior da Villa Biondi. Esta é uma instituição terapêutica destinada a mulheres que padecem de problemas mentais, sendo habitada por doentes, freiras e médicos. Se Giorgio Lorenzini (Tomasso Ragno), o director da instituição, é um indivíduo calmo e compreensivo, já Beatrice é um vulcão que expõe as suas emoções de forma bem viva, que não parece ter um travão que lhe permita discernir quando está a ser frontal ou inconveniente, enquanto mente, finge ter conhecimentos nos mais altos escalões da sociedade (veja-se a lista de supostos contactos que guarda no telemóvel), comete actos egoístas e atitudes mirabolantes, possui um guarda-roupa extravagante e esconde uma enorme fragilidade. Valeria Bruni Tedeschi arrasa por completo com uma interpretação plena de humanidade, sempre sem cair na caricatura, embora abrace os exageros de Beatrice, bem como a fragilidade desta mulher. As fragilidades de Beatrice apenas são conhecidas com o desenrolar do filme, bem como os problemas que povoam a mente de Donatella. Com o corpo repleto de tatuagens, roupas simples, uma silhueta magra e um rosto que espelha uma miríade de dores e desilusões, Donatella surge como uma figura problemática e deprimida, que inicialmente não parece disposta a formar grandes amizades, embora seja contagiada por Beatrice. A personagem interpretada por Valeria Bruni Tedeschi aparece como uma figura espalhafatosa, pronta a vestir-se com roupas de tonalidades garridas, a mentir e a evitar que alguém fique no seu quarto, uma situação que muda quando conhece Donatella. Beatrice finge inicialmente que é uma médica, tendo em vista a conversar com Donatella e a descobrir informações sobre o passado desta mulher que acabou de chegar à instituição, num momento pontuado por imenso humor, enquanto Valeria Bruni Tedeschi exibe o lado descontrolado da personagem que interpreta. 

 Beatrice padece de distúrbio bipolar, conta com uma personalidade assaz peculiar e um passado problemático, com as suas atitudes descontroladas e extemporâneas a surgirem como uma espécie de capa que permite esconder a fragilidade desta mulher. Muitas das vezes acompanhada por um chapéu para não ser incomodada pelo excesso de raios solares, pouco dada a cumprir os trabalhos destinados aos pacientes da Villa Biondi, Beatrice nem sempre parece ter a consciência dos actos que comete, algo que se torna particularmente notório ao longo do filme, pelo menos até esta começar a exibir as suas fragilidades e a ser confrontada com a realidade. Diga-se que Paolo Virzì aborda eficazmente os traços que marcam quer a personalidade de Beatrice, quer de Donatella, com o cineasta a saber ainda desconstruir algumas ideias pré-concebidas que poderíamos ter em relação a estas mulheres e a explanar que estamos diante de duas protagonistas dotadas de alguma complexidade. Esta situação torna-se particularmente notória quando Beatrice e Donatella entram em fuga e iniciam uma aventura marcada por momentos que variam entre o rocambolesco, o cómico, o dramático e o embaraçoso, enquanto conhecemos mais elementos sobre estas personagens e os episódios que as conduziram à Villa Biondi. Virzì é capaz de utilizar esta faceta aparentemente tresloucada de Beatrice ao serviço do humor, beneficiando e muito do carisma e talento de Valeria Bruni Tedeschi, enquanto a protagonista procura proteger Donatella, ainda que de forma peculiar, com esta relação de amizade a começar de forma conturbada (não poderia ser de outra forma). Donatella é inicialmente representada como uma mulher de personalidade arisca e fechada, pouco dada a grandes demonstrações de alegria ou a fazer amizades, com a sua alma a encontrar-se mais ferida do que o seu rosto. Micaela Ramazzotti compõe uma personagem que aos poucos surpreende o espectador, com a intérprete a conseguir transmitir os problemas que envolvem Donatella e consomem a sua mente. Donatella é desprezada pelo pai (Marco Messeri) e pela mãe (Anna Galiena), conta com tendências suicidas e outrora cometeu um acto que lhe valeu a perda da guarda do filho, com "La pazza gioia" a deixar-nos não só com a noção de que esta mulher cometeu imensos erros, mas também que não foi ajudada ou compreendida por aqueles que a rodeiam. "La pazza gioia" procura que, quando chega o final do filme, tenhamos a perspectiva da complexidade do passado e do presente de Beatrice e Donatella, duas figuras femininas que cometeram muitos erros mas também foram sujeitas a situações capazes de abalar a mais sólida das montanhas. Ou seja, "La pazza gioia" não escamoteia o lado problemático destas mulheres, mas também não despreza que o destino nem sempre foi agradável para com as mesmas, com a dupla a surgir como um livro que é muitas das vezes julgado pela capa ao invés de ser avaliado pelo seu conteúdo. Nesse sentido, o argumento de Paolo Virzì e Francesca Archibugi consegue desenvolver eficazmente a dupla de protagonistas, bem como a dinâmica entre Donatella e Beatrice, com a saída temporária destas mulheres da Villa Biondi a prometer ficar na memória. Diga-se que o melhor que se pode dizer sobre "La pazza gioia" é que honra o legado de alguns do cineastas mencionados, com Paolo Virzì a realizar uma obra cinematográfica puramente italiana, que é capaz de despertar alguns risos através da tragédia, emocionar e a espaços afiar a faca sobre a política e a economia de Itália e da União Europeia. Mario Draghi, Silvio Berlusconi (indirectamente), o actual Governo italiano, as instituições bancárias, as supostas regras de conduta da sociedade são alvo de comentários escarninos, enquanto conhecemos duas figuras peculiares, diagnosticadas como mentalmente instáveis, embora os espaços e as gentes com que contactam também estejam longe de serem exemplares.

 Num determinado momento do livro "Pela Estrada Fora", Sal Paradise salienta o seguinte: "(...) as únicas pessoas autênticas, para mim, são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que não bocejam nem dizem nenhum lugar-comum, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas grinaldas amarelas de fogo de artifício a explodir (...)". Paolo Virzì parece seguir essa cartilha em "La pazza gioia", com a jornada de libertação, confrontação dos demónios interiores e consciencialização por parte destas duas mulheres aparentemente loucas a ganhar características delirantes, dramáticas, prontas a fazer sorrir e comover o espectador. Donatella apresenta quase sempre uma postura mais lacónica, embora o seu passado seja devastador. Beatrice é a loucura em pessoa, apesar de também ter sofrido e feito sofrer imenso. A evasão destas mulheres é marcada por episódios tão distintos como roubo de veículos, compras em centros comerciais, a fuga de um restaurante após terem consumido um belo repasto sem terem dinheiro para pagar a conta, mas também situações completamente dramáticas, com Beatrice e Donatella a perceberem a importância da amizade que formaram ao longo do tempo em que estão juntas. Estas tentam escapulir-se dos elementos da Villa Biondi que procuram capturá-las, embora, a partir de um determinado momento, pareça certo que Beatrice e Donatella apenas estão a adiar o inevitável. Não é que o inevitável seja propriamente mau, com a jornada de Donatella e Beatrice a contribuir para que estas mulheres contactem de perto com os problemas e os erros do passado e do presente, enquanto convivem, discutem e tomam consciência de que precisam de mudar os seus comportamentos perante a vida e aqueles que as rodeiam. Esta fuga permite ainda que "La pazza gioia" ganhe características de road movie, com as personagens principais a deslocarem-se para uma miríade de locais, enquanto contactam com uma série de pessoas que marcaram as suas vidas, algo que dá espaço para o elenco secundário ter algum tempo para sobressair. Veja-se quando Beatrice contacta com Pierluigi Aitiani (Bob Messini), o seu ex-marido, um advogado famoso, com a primeira a ter arruinado a relação ao envolver-se com Renato Corsi (Roberto Rondelli ), um vigarista violento. Beatrice entra na casa de Pierluigi como se o tempo não tivesse passado e ambos continuassem juntos, com Valeria Bruni Tedeschi a exibir o lado extravagante e diva trash desta mulher que não tem problemas em roubar o ex-marido. Já o contacto entre Renato e Beatrice permite expor o lado mais frágil desta mulher, com Tedeschi a conseguir comover-nos com a mesma facilidade com que desperta o nosso sorriso. Donatella também tem os seus encontros marcantes. Esta reencontra a progenitora e o pai, com este último a exibir um descuido enorme para com a filha, apesar de Donatella guardar boas recordações deste indivíduo que a abandonou quando a protagonista ainda era uma criança. Ferida no corpo e na alma, o reencontro de Donatella com Maurizio, o dono do Seven Apples, um clube nocturno onde a primeira trabalhou, permite que Paolo Virzì exponha uma das figuras venenosas do passado da protagonista, bem como alguns dos erros que esta cometeu e as agressões a que foi sujeita. Maurizio é um indivíduo casado que nunca assumiu o filho que teve com Donatella, com esta a ter perdido a guarda do bebé após uma série de episódios devastadores que nos são dados a conhecer. Donatella pretende contactar com o filho, embora a tarefa seja legalmente impossível, enquanto nos deparamos com as forças e fraquezas desta mulher, com Micaela Ramazzotti a conseguir que o espectador compreenda esta figura puramente humana.

 A fuga de Donatella e Beatrice ganha assim uma série de episódios de características distintas, que permite dar a conhecer a personalidade da cada uma das protagonistas. A faceta de diva trash de Beatrice é desfeita quando está na presença de Renato. A depressão de Donatella tem raízes profundas e os seus problemas são bem mais complexos do que poderíamos esperar, com esta mulher a estar longe de poder ser simplesmente catalogada como um perigo para o filho e para a sociedade. É certo que errou imenso, mas existe algo mais complexo a envolver esta personagem. Por um lado queremos culpá-la e achamos que merece estar afastada do filho, por outro sentimos que esta cometeu uma série de erros e enfrentou um furacão de reveses que nem todos são capazes de aguentar. O argumento ajuda a tarefa de Valeria Bruni Tedeschi e Micaela Ramazzotti, com as actrizes a contarem com material de sobra para criarem protagonistas capazes de despertarem um conjunto alargado de sentimentos no espectador. Tanto conseguimos rir com Donatella e Beatrice como recebemos murros no estômago que são desferidos de forma dolorosa, enquanto "La pazza gioia" aborda temáticas como a depressão, o distúrbio bipolar, os problemas entre pais e filhos, para além de desconstruir a imagem das protagonistas e apresentar uma viagem recheada de significado. O humor é encontrado na tragédia, enquanto a tristeza a espaços não conta com espaços para sorrisos, embora "La pazza gioia" seja uma obra cinematográfica que consegue balancear na justa medida a sua faceta dramática com algum optimismo. O argumento é exemplar, tal como o trabalho a nível da escolha do guarda-roupa, com as vestimentas de Donatella e Beatrice a contribuírem para exacerbar as características distintas das protagonistas. Beatrice veste-se quase sempre como se fosse uma diva sem palco para brilhar, enquanto Donatella surge quase sempre com roupas mais simples, informais e de tonalidades mais escuras. Diga-se que Beatrice não tem problemas em criticar o estilo da amiga, com as duas protagonistas a entrarem em algumas discussões, embora formem uma amizade forte e peculiar, surgindo como duas figuras trágicas, que são regularmente estigmatizadas e catalogadas de forma insensível por parte de alguns sectores da sociedade. Temos ainda o momento delirante em que Donatella e Beatrice fingem trabalhar como figurantes de um filme, utilizando as roupas das personagens, enquanto roubam o carro e parecem saídas de "Thelma & Louise". No caso do filme realizado por Ridley Scott, uma viagem iniciada por duas amigas logo se transforma numa fuga às autoridades, enquanto estas se deslocam por uma miríade de locais, contactam com uma série de pessoas e ficamos a conhecer diversos elementos sobre a inesquecível dupla de protagonistas, com "Thelma & Louise" e "La pazza gioia" a partilharem não só a faceta de road movie mas também o facto de contarem com figuras femininas complexas e marcantes como personagens principais. Com uma construção hábil da dupla de protagonistas, duas mulheres que tanto têm de frágeis como de fortes, uma interpretação fulgurante por parte de Valeria Bruni Tedeschi e um desempenho sublime de Micaela Ramazzotti, "La pazza gioia" procura fugir a catalogações fáceis sobre os doentes do foro mental, enquanto nos coloca diante de uma viagem intensa e marcante, dotada de episódios de características díspares e inesquecíveis, com Paolo Virzì a criar uma obra cinematográfica dotada de enorme humanidade, que conta com alguns traços das boas comédias à italiana, ou não estivéssemos diante de um filme que tanto tem de cómico como de dramático, com o humor a ser encontrado muitas das vezes na tragédia.

Título original: "La pazza gioia".
Título em Portugal: "Loucamente".
Título no Brasil: "Loucas de Alegria".
Realizador: Paolo Virzì.
Argumento: Paolo Virzì e Francesca Archibugi.
Elenco: Valeria Bruni Tedeschi, Micaela Ramazzotti, Roberto Rondelli, Bob Messini, Tommaso Ragno, Marco Messeri, Anna Galiena.

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