05 setembro 2016

Resenha Crítica: "Kubo and the Two Strings" (Kubo e as Duas Cordas)

 Belo, sensível, delicado, emocionalmente poderoso, pronto a aquecer o coração do espectador e a exibir o poder da memória, "Kubo and the Two Strings" (em Portugal: "Kubo e as Duas Cordas) é a prova cabal da maturidade da Laika e de toda a sua equipa, com Travis Knight a realizar um dos grandes filmes de animação do ano. A influência da cultura japonesa, do seu misticismo e das suas lendas é latente, bem como das obras cinematográficas de artes marciais, com "Kubo and the Two Strings" a contar com um argumento aprumado, pronto a encher as medidas a miúdos e graúdos, com as suas mensagens a tocarem bem forte e a mexerem com as emoções dos espectadores. No final de "Kubo and the Two Strings" é praticamente impossível não ter vontade de abraçar os nossos pais, de agradecer o facto de estarem connosco, de partilharem as suas memórias e guardarmos imensos episódios que vivemos na companhia dos mesmos. "Kubo and the Two Strings" é também um filme que nos faz recordar aqueles que perdemos, embora permaneçam nas nossas memórias, bem como nas nossas histórias, com os nossos diálogos sobre certos episódios a permitirem que estes tardem a ser esquecidos pelas areias do tempo. Falo pelo exemplo dado por aqueles que me são próximos, com as histórias do meu pai sobre os seus tempos em Moçambique a praticamente transportarem-me para o local, enquanto os relatos da minha mãe permitem a transmissão de uma percepção muito própria do espaço onde esta cresceu, ou seja, todos esses diálogos contribuem para uma aproximação ao passado dos meus pais, quase como se este período temporal tocasse no presente e permitisse que momentos de outrora regressassem temporariamente aos dias de hoje, ainda que filtrados pela memória dos meus progenitores. É o poder das memórias e das histórias contadas, com "Kubo and the Two Strings" a exacerbar a força que ambas exercem para a manutenção da vivacidade das recordações. Serve esta divagação para salientar que o poder da memória é uma das temáticas fulcrais de "Kubo and the Two Strings", bem como o crescimento de um jovem que é colocado diante de uma série de desafios. Esse jovem é Kubo (voz de Francisco Magalhães Ferreira na versão portuguesa), um rapaz que conta apenas com um olho, talentos inatos para a magia e para contar histórias (o poder de uma boa história é outro dos elementos em foco ao longo do filme), que vive com a mãe no topo de uma montanha. Sariatu, a mãe de Kubo encontra-se num estado debilitado, com a alma desta mulher solitária a parecer cada vez mais desprendida do seu corpo, algo que conduz o jovem a procurar cuidar da progenitora. Embora esteja debilitada, Sariatu tenta proteger o filho dos perigos que o rodeiam, um desiderato que é exposto desde o prólogo (a relação entre mãe e filho é muito forte, algo transmitido por diversas vezes ao longo de "Kubo and the Two Strings", com a progenitora a brindar o rebento com algumas histórias sobre o pai do jovem). O pai de Sariatu tirou um olho a Kubo e pretende retirar o outro olho ao jovem, enquanto as duas tias do protagonista encontram-se a perseguir o rapaz, tendo em vista a cumprirem o desiderato do primeiro. Estas são duas gémeas (voz de Jani Zhao) que contam com uma máscara branca a cobrir o rosto, algo que permite esconder as emoções destas figuras aparentemente desprovidas de sentimentos, que não têm problemas em entrarem em confronto com a irmã para cumprirem o seu objectivo. O visual das irmãs de Sariatu permite exacerbar o lado temível da dupla, com as suas vestes negras a transmitirem a negritude que preenche a alma destas figuras poderosas, prontas a utilizarem os seus poderes para o mal, algo que contrasta com a bondade e o amor transmitido pela primeira. No passado, Sariatu foi incumbida de assassinar Hanzo, um samurai poderoso e ambicioso, mas acabou por se apaixonar pelo mesmo, algo que irritou o Rei Lua (João Ricardo), o pai da primeira, bem como as irmãs da mãe de Kubo. Posteriormente, Hanzo, o pai de Kubo, é morto pelo sogro, enquanto Sariatu é obrigada a fugir e a esconder-se para proteger o rebento, uma situação que explica o isolamento ao qual o protagonista e a progenitora se encontram sujeitos.

 Kubo habita de forma aparentemente calma numa pequena cidade japonesa onde é conhecido por contar histórias com recurso a um shamisen e a bonecos de origami que ganham vida graças aos poderes mágicos do jovem. Embora exiba algumas dificuldades para terminar as histórias que começa a contar, Kubo tem um talento inato para este ofício, bem como para "dar vida" aos bonecos de origami, com o grande protagonista dos seus contos a ser uma figura em formato de samurai que representa Hanzo, com o jovem a fantasiar com os feitos lendários do seu pai (algo que remete para as histórias que Sariatu conta a Kubo sobre Hanzo). O personagem do título conta histórias não só para ganhar algum dinheiro, mas também para transmitir as mesmas e mantê-las bem vivas, com "Kubo and the Two Strings" a exibir a relevância do poder da memória e da palavra para que algo perpasse e não desapareça no tempo. Uma das fãs das histórias de Kubo é Kameyo (Simone de Oliveira), uma senhora idosa e simpática, que ensina o jovem contactar com os mortos, em particular, através de uma cerimónia que faz parte do Festival Obon. O cuidado colocado na representação da cerimónia inerente ao Festival Obon transmite mais uma vez a procura de Travis Knight e da sua equipa em exibirem com aprumo alguns rituais associados à cultura japonesa, aos seus mitos e ritos, com as lanternas a povoarem o espaço fúnebre, enquanto a memória dos espíritos é respeitada. Kubo pretendia entrar em contacto com o pai, tendo uma enorme curiosidade em relação ao progenitor. No entanto, nem tudo corre como o esperado, com Kubo a ser atacado pelas tias, algo que conduz a mãe a proteger este jovem que é obrigado a fugir, sendo transportado para as "terras distantes", enquanto o espaço onde habita é invadido. Kubo tem de iniciar uma jornada para encontrar a armadura sagrada que outrora pertencera ao seu pai, com esta a encontrar-se dividida por três locais, sendo constituída por uma espada indestrutível, uma couraça e um capacete. A armadura parece ser o único meio para Kubo poder combater a ameaça representada pelo avô e pelas tias, com o jovem a ter de iniciar uma jornada de enorme responsabilidade na qual a sua personalidade e os seus limites são colocados à prova. Quem se junta a esta jornada épica e recheada de fantasia é Monkey (Vera Kolodzig), uma macaca que outrora era um talismã de Kubo, bem como o origami de papel que correspondia a Hanzo, com este último a indicar o caminho para as peças da armadura. Monkey ganhou vida graças aos poderes mágicos da mãe de Kubo, com esta macaca a exibir uma atitude maternal junto do jovem, procurando que o rapaz ganhe responsabilidade, aprenda a utilizar os seus poderes e atinja o seu desiderato. Durante a missão, Kubo e Monkey deparam-se ainda com Beetle (Paulo Pires), um samurai que apresenta um aspecto semelhante a um escaravelho antropomórfico devido a ter sido amaldiçoado. Beetle supostamente foi um discípulo de Hanzo, embora tenha perdido grande parte da memória devido à maldição que modificou o seu corpo, tendo uma habilidade inata para se envolver em confusões com Monkey, com os dois a formarem uma relação de "amor/ódio" que promete despertar algumas gargalhadas. A missão é pontuada por diversos perigos, bem como por alguns momentos de humor, com estes personagens a formarem laços, descobrirem alguns segredos relacionados com o passado de cada um e a desafiarem os seus limites, enquanto enfrentam uma miríade de contrariedades, sejam estas associadas a um tempo hostil, a figuras demoníacas ou aos familiares de Sariatu. A narrativa de "Kubo and the Two Strings" é pontuada por imensos momentos de aventura (alguns "à la Indiana Jones" - não falta a busca por objectos aparentemente míticos, uma série de ameaças, entre outros exemplos), bem como por diversas cenas de acção que a espaços nos remetem para os filmes de artes marciais e de samurais. Não faltam lutas com espadas que desafiam a gravidade, combates mirabolantes, códigos de honra muito próprios, mas também situações associadas ao misticismo e aos rituais japoneses. A cultura japonesa influenciou e muito o desenvolvimento de "Kubo and the Two Strings", uma obra cinematográfica que comprova a maturidade da Laika e a paixão pelos elementos retratados. Veja-se o ritual fúnebre, a relevância dada aos espíritos, o origami, as temáticas do foro existencialista, o comportamento dos personagens, o valor simbólico de alguns objectos (as duas cordas mencionadas no título), o guarda-roupa, os cenários que povoam a narrativa (a floresta rodeada de bamboos é sublime), entre outros exemplos, com a cultura nipónica a fazer parte de quase todos os poros de um filme de animação belíssimo que parece puramente japonês.

 A própria presença de uma macaca como uma figura quase maternal parece remeter para diversos mitos e lendas associados a estes animais que existem em países como o Japão e a China. Mesmo o escaravelho pode remeter para o símbolo de ressurreição, atribuído no Antigo Egipto, com as histórias de Monkey e Beetle a contarem com reviravoltas que nos surpreendem e permitem atribuir mais densidade a estes personagens secundários. Outra das qualidades do argumento passa pela riqueza dos seus personagens secundários, com Monkey e Beetle a surgirem como exemplos paradigmáticos dessa situação, com a dupla a estar longe de servir como um mero alívio cómico. Beetle é um samurai caído em desgraça, que tanto tem de intrépido como de cómico, que apresenta uma inabilidade latente para se levantar quando cai de costas e conta com uma ligação muito forte com Monkey. Esta é uma macaca cuja identidade é uma surpresa (a verdadeira identidade de Beetle também é uma surpresa), que surge inicialmente quase como uma figura de mestre que procura ensinar o seu pupilo (a fazer lembrar Luke Skywalker e Yoda). O arco do personagem principal também é bem trabalhado, com Kubo a contar com uma evolução notória ao longo da narrativa, com o protagonista a surgir como um jovem que se depara não só com problemas e dúvidas inerentes a um rapaz de tenra idade, mas também com dificuldades que o obrigam a ter de superar as suas capacidades e a controlar os seus poderes mágicos. Kubo é um dos personagens mais carismáticos criados pela equipa da Laika, com Marc Haimes e Chris Butler, a dupla de argumentistas, a contar com um trabalho meritório. O enredo é bem construído, a história promete satisfazer adultos e crianças (existem piadas e mensagens destinadas para públicos distintos, ou que recebem as mesmas de forma relativamente distinta), os personagens contam com dimensão e evolução ao longo da narrativa (veja-se o caso de Kubo, com o filme a ter no seu cerne toda uma questão familiar que a espaços nos faz lembrar as convulsões no interior da família Skywalker na saga "Star Wars"), com a ameaça proporcionada pelo avô do protagonista a ser bastante efectiva, tal como o desfecho dado a este elemento. O avô de Kubo não apresenta uma confiança inabalável na Humanidade, enquanto o jovem acredita na beleza do Mundo que o rodeia e das suas gentes, com o protagonista a ter de aprender a controlar os seus instintos e os seus medos, a utilizar o poder do perdão e a lidar com a perda daqueles que o amam. Diga-se que "Kubo and the Two Strings" não tem problemas em envolver-se por caminhos mais negros ou violentos, expondo que os actos têm consequências, embora tudo seja relativamente adequado ao público mais novo. Esse lado mais negro é visível quando a paleta cromática atinge níveis mais frios e certos confrontos ameaçam colocar alguns personagens em risco, com Travis Knight a fazer com que nos apeguemos a Kubo, Monkey e Beetle ao ponto de recearmos pelo destino destes personagens, enquanto o realizador coloca os mesmos em perigo. O cineasta tem uma estreia de grande nível na realização de longas-metragens, após ter participado no departamento de animação de diversas obras cinematográficas da Laika como "Coraline", "ParaNorman" e "The Boxtrolls", com esta experiência acumulada a parecer ter surtido efeito e resultado num dos melhores filmes deste estúdio (do qual o cineasta é CEO). O trabalho da animação em stop motion é exemplar, com os gestos dos personagens, os cenários, as cenas de acção ou os momentos mais contemplativos a exibirem todo um cuidado digno de nota e uma classe merecedora de uma miríade de elogios. A atenção aos pormenores é imensa, com uma simples corda a contar com um significado especial, com o espectador a praticamente não poder pestanejar para não perder nada, enquanto a banda sonora composta por Dario Marianelli (um colaborador habitual de Joe Wright, tendo trabalhado com o cineasta em filmes como "Pride & Prejudice", "Atonement" e "Anna Karenina") incute ritmos orientais e prontos a adequarem-se eficazmente ao enredo. O papel da memória surge como uma temática fundamental de "Kubo and the Two Strings", uma situação que Travis Knight respeita ao realizar um filme belíssimo e emocionalmente poderoso, que promete permanecer na mente do espectador e ser recordado como um dos grandes filmes da Laika.

Título original: "Kubo and the Two Strings".
Título em Portugal:
Realizador: Travis Knight.
Argumento: Marc Haimes e Chris Butler.
Elenco vocal (Portugal): Francisco Magalhães Ferreira, Vera Kolodzig, Paulo Pires, João Ricardo, Jani Zhao.

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