20 setembro 2016

Resenha Crítica: "Julieta" (2016)

 Melodrama pontuado por uma estrutura narrativa relativamente episódica, cenários prontos a adensarem os estados de espírito dos personagens e boas interpretações por parte de Emma Suárez e Adriana Ugarte, "Julieta" aborda a procura da protagonista em exorcizar alguns dos seus fantasmas interiores, enquanto escreve um diário, ou um livro de memórias, onde expõe diversos episódios sobre o seu passado. A depressão parece consumir o corpo e alma desta personagem que empresta o nome à vigésima longa-metragem realizada por Pedro Almodóvar, com Julieta a surgir como a protagonista, narradora e confidente do espectador. Conhecemos a faceta de Julieta como mulher solteira, namorada, esposa, mãe, filha e amiga, com Emma Suárez (Julieta no presente) e Adriana Ugarte (Julieta no passado) a conseguirem expressar os diferentes estados de espírito desta personagem ao longo do tempo. No presente, Julieta encontra-se a preparar uma mudança para Portugal, contando com a companhia de Lorenzo (Darío Grandinetti), o seu namorado. Lorenzo é um escritor de personalidade ponderada, com Darío Grandinetti a imprimir uma serenidade latente ao personagem que interpreta, uma figura que assume uma importância vital na vida de Julieta, sobretudo no terceiro acto do filme. A casa de Julieta conta com uma decoração relativamente moderna e impessoal (veja-se as tonalidades brancas das paredes, quase como se esta não quisesse deixar uma marca na habitação), uma estatueta com motivos fálicos, uma série de livros, diversos quadros e um espaço vermelho na cozinha que adensa o lado mais inquieto da alma da protagonista. Esse lado inquieto e turbulento surge ao de cima quando Julieta reencontra Beatriz (Michelle Jenner no presente; Sara Jiménez nas cenas do passado), uma amiga de infância da filha da protagonista. Beatriz revela que Antía (Priscilla Delgado durante a adolescência de Antía; Blanca Parés como a personagem aos dezoito anos de idade), a filha de Julieta, tem três rebentos (dois rapazes e uma rapariga), com a protagonista a fingir que se encontra informada sobre a situação, embora não contacte com a descendente há doze anos. Tudo muda radicalmente. A aparente felicidade de Julieta dá lugar a sentimentos como desilusão, tristeza, melancolia e dúvida, com as dores do passado a invadirem o presente, algo que conduz esta mulher a desistir de viajar para Portugal. Lorenzo fica desiludido e surpreendido com toda esta mudança comportamental de Julieta, com a protagonista não revelar inicialmente as razões para ter abandonado a decisão de deixar Madrid. Emma Suárez consegue transmitir a mágoa indelével da protagonista em relação ao afastamento da filha, com Julieta a padecer de uma depressão que teima em dar sinais de vida e exacerba a fragilidade emocional desta figura feminina que opta muitas das vezes por manter uma postura silenciosa e introspectiva. Quais as razões para mãe e filha se terem afastado? Pedro Almodóvar incute algum mistério em relação aos motivos que conduziram a este afastamento entre mãe e filha, enquanto nos dá a conhecer a protagonista e algumas figuras que a rodeiam, com Emma Suárez e Adriana Ugarte a efectuarem uma composição competente da personagem do título. Suárez sobressai desde logo quando contrasta com facilidade a aparente felicidade de Julieta com o sentimento de tristeza que invade a protagonista, quase como se Beatriz tivesse aberto uma cicatriz de uma ferida mal sarada. A alma de Julieta parece tão despedaçada como uma fotografia que esta mulher guarda no interior de um envelope azul. Rasgada em diversos pedaços, a fotografia reúne Julieta e a filha, duas figuras separadas pelo destino e por decisões nem sempre compreensíveis, com a protagonista a decidir escrever um diário onde pretende abordar todos os episódios relevantes da sua vida, tendo em vista a abrir a alma junto de Antía, a destinatária destes escritos. Julieta nem sabe se a filha vai ler o diário, embora esta decisão permita que a protagonista tente exorcizar alguns episódios menos felizes que ocorreram no passado e teimam em assolar a sua mente, enquanto enfrenta os mesmos e um estranho sentimento de culpa.

 Pedro Almodóvar povoa a narrativa com uma série de flashbacks, alguns com alguma pertinência, outros desprovidos de interesse devido ao pouco desenvolvimento dos personagens secundários ou das subtramas, com a narração de Julieta a surgir como o ponto de união entre estes episódios. Julieta surge como a narradora e a protagonista de serviço, com a narração em off a permitir costurar os diferentes episódios da narrativa, embora Pedro Almodóvar utilize excessivamente este recurso, algo que a espaços atribui um tom demasiado expositivo e redundante a alguns momentos do enredo. "Julieta" é livremente inspirado em três contos do livro "Runaway" de Alice Munro, algo que pode ajudar a explicar esta utilização quase literária da narração, como se existisse a necessidade de Julieta relatar tudo aquilo que sentiu e sente. É Julieta quem ficamos a conhecer ao longo do filme, seja quando esta se depara pela primeira vez com Xoan (Daniel Grao), uma das grandes paixões da sua vida, ou quando visita a mãe, uma mulher que se encontra acamada, ou enfrenta uma série de contrariedades profissionais e pessoais. Julieta conhece Xoan numa viagem de comboio, em plenos anos 80, com este episódio a ser exposto com enorme detalhe, bem como os sentimentos quentes que envolvem estes dois personagens. Xoan é um pescador de personalidade galanteadora e afável, que é casado quando se envolve com Julieta, embora a esposa esteja acamada há cinco anos. O personagem interpretado por Daniel Grao desperta facilmente a atenção da protagonista, com Xoan e Julieta a viverem um conjunto de episódios marcantes no interior do comboio onde efectuam uma viagem com destino a Madrid. Pedro Almodóvar aproveita eficazmente o espaço deste meio de transporte, com os momentos que decorrem no interior do comboio a contarem com situações tão díspares como a notícia de uma morte macabra e um jogo de sedução, enquanto um casal expõe os seus sentimentos e desejos. Adriana Ugarte consegue transmitir o lado mais aventureiro de Julieta durante esta fase da sua vida, algo exposto no caso que esta inicia no comboio ou na forma bem viva como a protagonista conduz as aulas de filologia clássica que lecciona temporariamente numa escola de Madrid. A literatura conta com uma relevância indelével na vida de Julieta, bem como o significado das palavras e as tragédias gregas, ou esta não surgisse como uma protagonista com propensão para se envolver em situações dramáticas. Após ter visto o seu contrato como professora substituta terminar, Julieta decide visitar Xoan, com quem inicia uma relação séria e tem uma filha, a jovem Antía. Xoan vive numa habitação com vista para o mar, com a casa deste pescador a transmitir o espírito livre deste personagem pronto a amar loucamente a protagonista e a filha, embora mantenha uma relação ambígua com Ava (Inma Cuesta), uma amiga de longa data. Ava é outra das figuras femininas que têm algum espaço para sobressair, com Inma Cuesta a interpretar uma artista especialista em esculturas com motivos fálicos. Uma das esculturas de Ava é transportada de mãos em mãos, com Pedro Almodóvar a aproveitar para colocar uma representação masculina na palma das mãos das mulheres, enquanto expõe o poder da figura feminina em relação ao homem. É o regresso de Almodóvar aos universos narrativos centrados maioritariamente em mulheres, com o cineasta a compreender as suas personagens, enquanto concede espaço para que as suas actrizes principais sobressaiam. No entanto, regressemos a Ava. Esta forma uma espécie de relação de amizade com Julieta, sobretudo a partir do momento em que uma tragédia conduz à morte de um personagem relevante para ambas as mulheres, com estes revezes a contribuírem e muito para a faceta menos esperançosa e pouco vivaz que Emma Suárez incute à protagonista. 

 Enquanto a narrativa avança, também os personagens amadurecem e protagonizam alguns episódios que moldam as suas vidas, algo notório quando Julieta se muda para Madrid com a companhia de Antía. A relação entre mãe e filha raramente é desenvolvida ao ponto de alcançar a densidade necessária para que a dor de Julieta, provocada pela ausência de Antía, após a jovem ter partido quando completou dezoito anos, seja sentida pelo espectador com a mesma intensidade que é vivida pela protagonista. Percebemos o estado de espírito da protagonista, mas nem sempre o sentimos de forma bem viva, algo inerente ao facto de Pedro Almodóvar apostar numa exposição excessiva dos acontecimentos por parte da narradora de serviço ao invés de desenvolver a relação entre Julieta e Antía de forma intensa e densa. A espaços quase que parece que ficamos diante de uma espécie de bullet points dos episódios que Julieta, ou melhor, Pedro Almodóvar, considera que contam com alguma relevância, embora o cineasta nunca desenvolva assertivamente a dinâmica entre Antía e os pais. "Julieta" quer dar muito ao espectador, embora nem sempre consiga cumprir esse desiderato, parecendo faltar quase sempre algo naquilo que diz respeito ao desenvolvimento das relações entre a personagem do título e as figuras que a rodeiam. O afastamento de Antía provocou uma enorme comoção na protagonista, sobretudo devido à relevância que a jovem teve para que Julieta conseguisse ultrapassar temporariamente uma depressão, com Almodóvar a colocar-nos diante de uma mulher que conta com uma série de relações conturbadas, seja com o pai, a empregada de Xoan, ou a filha. A relação de Julieta com o pai é problemática, sendo apresentada num dos diversos flashbacks que povoam a narrativa do filme, com Pedro Almodóvar a colocar-nos diante de pequenos fragmentos da vida desta mulher, embora nem todos sejam desenvolvidos na justa medida. Os problemas entre Julieta e o pai surgem como alguns dos elementos abordados de forma superficial ao longo do filme, com o argumento a nem sempre investir no desenvolvimento dos personagens secundários. Por sua vez, Marian (Rossy de Palma - na sua sétima colaboração com Almodóvar), a empregada de Xoan, surge como uma figura conservadora, indiscreta e caricatural, que não parece simpatizar com Julieta e raramente é desenvolvida ao longo do enredo. Quem está no centro de quase tudo aquilo que acontece na narrativa é Julieta, uma mulher que procura enfrentar os episódios do passado, após ter tentado esquecer os mesmos, com Pedro Almodóvar a realizar uma obra cinematográfica que, apesar de nem sempre explorar devidamente todas as subtramas e da banda sonora a puxar descaradamente para o melodrama, é relativamente eficaz em alguns dos seus propósitos. Pedaços do presente e do passado de Julieta são dados a conhecer, enquanto os cenários, o guarda-roupa e os penteados parecem contar com uma relevância indelével para adensar determinados estados de espírito. A casa de Xoan surge como um espaço relativamente simples, que permite transmitir a beleza do mar, mas também os seus perigos, com a relação entre Julieta e o amado a contar com alguns tumultos, um pouco à imagem das águas que rodeiam este cenário. O lar de Xoan contrasta com a casa da protagonista quando esta se desloca com a filha para Madrid, após um episódio trágico, com a jovem a surgir como um baluarte que procura evitar que Julieta permaneça enleada nas teias de uma depressão. A casa de Madrid é exposta e descrita como um espaço inicialmente opressivo e angustiante, até ser pintado, com o valor sentimental da primeira habitação de Julieta na capital de Espanha a trazer um peso indelével à narrativa. A procura da protagonista em pintar a casa, tendo em vista a mudar o estilo da mesma, reflecte também todo o cuidado que Almodóvar colocou na utilização das cores, com o cineasta a utilizar assertivamente a paleta cromática ao serviço da narrativa e dos seus devaneios (não faltam tonalidades vermelhas e azuis em doses industriais, muito ao estilo do realizador). Veja-se a casa da protagonista em 2016, com as tonalidades brancas das paredes a expressarem uma certa impessoalidade, ou o espaço do comboio (Julieta com uma camisola azul, as tonalidades vermelhas dos bancos e os tons laranjas da cortinas), entre outros exemplos. 

 Os espaços madrilenos também contam com algum peso dramático e valor simbólico, com a cidade de Madrid a surgir praticamente como uma personagem de relevo. Veja-se quando Julieta perambula por Madrid e se senta no banco de um campo de basquetebol, com este espaço a trazer à memória o período de tempo em que Antía e Beatriz brincavam no local. O passado e o presente tocam-se em episódios distintos, com Julieta a procurar reencontrar os espaços dos quais se afastou a partir do momento em que tentou esquecer a filha, com estes locais a contribuírem para o reavivar de memórias de outrora. Esse jogo de repetições verifica-se desde logo quando Julieta decide voltar a residir no mesmo prédio que habitara quando foi viver com a filha para Madrid, com a protagonista a isolar-se neste espaço para escrever o seu diário e esperar por algo aparentemente impossível, ou seja, que Antía entre em contacto e revele a sua morada. Julieta parece procurar algo que perdeu e tarda em reencontrar, seja a filha, ou a felicidade perdida, com o peso dos episódios que esta mulher viveu a carregarem a sua alma de uma melancolia com a qual não contava na juventude. Os próprios penteados da protagonista dizem muito sobre a sua personalidade (Almodóvar também não perdoa neste quesito). No passado, quando se encontra no comboio, Julieta conta com um penteado curto e moderno para a época, algo revelador da fase mais aventureira e impulsiva da protagonista. Já quando encontramos um momento onde passado e presente se unem, o cabelo de Julieta aparece mais descuidado, algo que contrasta com o corte elegante que apresenta no início do filme, antes de ser "engolida" pelos episódios que marcaram a sua vida. Julieta procurou esquecer a filha, mas este desiderato revelou-se uma tarefa impossível de cumprir, com a dor a parecer contribuir para separar e unir estas duas personagens, bem como um silêncio doloroso que marca a (não) relação de ambas. Este é também um filme sobre a dor, seja esta de uma esposa que se depara com a morte de um ente querido, de uma mãe que lida com o longo afastamento da filha, de um progenitor que procura contactar com uma das familiares mais próximas, de um namorado que não compreende totalmente aquilo que se encontra a ocorrer na mente da cara-metade. "Julieta" aborda temáticas como a perda, o sentimento de culpa por parte de uma mãe, os problemas familiares e a incapacidade de controlar o destino, com o argumento a explorar alguns temas relevantes, embora algumas subtramas sejam desenvolvidas praticamente "a correr", algo que tira uma certa força a uma obra cinematográfica que conta com uma protagonista capaz de despertar o nosso interesse. No presente, Julieta aparece como uma figura mais solitária, isolada e vulnerável, que carrega consigo o peso das diatribes do destino, enquanto em alguns flashbacks podemos encontrar uma faceta mais leve da protagonista, pelo menos até o acaso desferir uma série de pancadas ferozes que deixam diversas cicatrizes que teimam em ser reabertas e contaminam a alma. "Julieta" remete ainda para outros melodramas no feminino de Almodóvar, tais como "Volver". Não falta a utilização bastante expressiva das cores (sobretudo o vermelho e o azul), os problemas familiares e os momentos a puxar ao melodrama, os cenários decorados de forma a exacerbarem a personalidade de alguns personagens, embora "Julieta" não conte com os trechos marcados pelo absurdo como "Volver". A utilização extravagante das cores, os momentos melodramáticos e as interpretações de bom nível também estão presentes em "Todo sobre mi madre", um drama onde Pedro Almodóvar aborda temáticas como a dor de uma mãe que perdeu o seu filho. Em "Julieta", a personagem do título não perdeu a sua filha para sempre, mas não contacta com a mesma há doze anos, com a ausência a afectar e muito a protagonista, algo que é exposto ao longo do filme. Pedro Almodóvar volta a embrenhar-se no interior de um universo narrativo dominado pelas figuras femininas, com a personagem do título a destacar-se acima de todas as outras e a permitir que Emma Suárez e Adriana Ugarte sobressaiam, com as actrizes a compensarem alguns tropeços de "Julieta", tais como os exageros melodramáticos e o parco desenvolvimento de alguns elementos secundários, embora seja de elogiar todo o cuidado colocado no design de produção, bem como a atenção indelével aos pormenores e a capacidade do cineasta em envolver-se na mente de uma mulher que viveu uma série de episódios que a marcaram de forma insofismável.

Título original: "Julieta".
Realizador: Pedro Almodóvar.
Argumento: Pedro Almodóvar.
Elenco: Emma Suárez, Adriana Ugarte, Inma Cuesta, Daniel Grao, Rossy de Palma, Priscilla Delgado, Blanca Parés, Darío Grandinetti.

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