08 setembro 2016

Resenha Crítica: "Goksung" (The Wailing)

 Entre rituais associados ao misticismo e ao oculto, uma investigação policial intrincada, um japonês misterioso, um agente da autoridade aparentemente pouco dado a grandes esforços, uma figura feminina que aparece em fases cruciais da narrativa, algumas pitadas de humor, uma atmosfera pontuada pelo sobrenatural, possessões, diversos planos de fino recorte e um conjunto de cenários contaminados pela chuva, "Goksung" surge como um thriller marcado por elementos de terror e mistério que ganha contornos gradualmente mais intensos e inquietantes. A ambição e a irreverência parecem ser a palavra de ordem ao longo do filme, com "Goksung" a surpreender e inquietar o espectador, com o humor a permitir uns momentos mais leves para respirarmos de alívio e ganharmos fôlego para os trechos mais pesados, com o ambiente que rodeia a narrativa a ser muitas vezes de "cortar à faca", ou não estivéssemos a ser transportados de mansinho para as entranhas do mal. É filme para permanecer na memória, para se agarrar à nossa mente, ao nosso corpo, à nossa alma, mesmo quando nem tudo faz muito sentido, com Hong-jin Na a exibir uma maturidade notória como cineasta, bem como uma capacidade indelével de arriscar. Essa situação é visível na capacidade do cineasta em mesclar assertivamente os ingredientes de diversos géneros ao longo deste filme de várias facetas. Temos investigação policial. Temos rituais associados ao exorcismo. Temos um pai que procura proteger a sua filha e a restante família. Temos momentos de humor. Temos mistério. Temos a abordagem de temáticas relacionadas com os preconceitos, o misticismo e o ocultismo. Ou seja, "Goksung" surge dotado de uma série de ingredientes que permitem a Hong-jin Na criar uma refeição de luxo para um filme do género. Hong-jin Na volta a exibir um talento latente para inquietar o espectador, algo que já tinha acontecido em "The Chaser" e "The Yellow Sea", embora "Goksung", a terceira longa-metragem realizada pelo cineasta, surja como um filme de terror pontuado por elementos ligados ao sobrenatural e ao misticismo, com a presença de um estranho japonês e uma série de assassinatos violentos a mexerem com a mente de diversos personagens, inclusive de Jong-goo (Do-won Kwak), o protagonista desta obra cinematográfica. Jong-goo é um polícia pouco expedito, que chega quase sempre atrasado ao local de trabalho ou aos territórios onde ocorreram crimes, com este indivíduo a parecer bem intencionado nos seus propósitos, embora nem sempre prime pela eficácia no cumprimento do serviço. Se necessitássemos da ajuda de algum polícia, Jong-goo certamente não seria a nossa primeira escolha, com o protagonista de "Goksung" a revelar um talento inato para tomar más decisões, embora seja bem intencionado e a certa altura da narrativa revele uma enorme coragem, sobretudo quando é colocado à prova e tem de defender o seu lar. Jong-goo vive com a esposa, a filha e a sogra, com o lar do trio a conhecer momentos de convulsão a partir do momento em que a segunda, a jovem Hyo-jin (Hwan-hee Kim), começa a sentir estranhos sintomas que indicam que se encontra possuída. No início de "Goksung" encontramos Jong-goo a ser chamado ao local onde ocorreu um assassinato, apesar de se deparar com um caso ainda mais intrincado. A atmosfera é lúgubre, pontuada pela hostilidade da chuva (quase sempre presente ao longo do filme), a presença de cadáveres, sangue e imensa lama, com os raios solares a parecerem querer escapulir-se a todo o custo deste cenário onde a morte paira por todos os poros.

O sangue permeia o espaço interior da habitação onde jazem os corpos das vítimas, com Jong-goo a ficar chocado com este cenário desolador. Por sua vez, no espaço exterior do local do crime, encontramos um indivíduo que parece em decomposição, aparentemente fatigado, com o corpo recheado de infecções e um semblante semelhante a alguém que aparenta já estar mais morto do que vivo. O mistério em volta deste indivíduo e as razões para ter cometido o assassinato são inicialmente desconhecidas, apesar das culpas para esta estranha conduta serem atribuídas aos cogumelos selvagens ingeridos pelo suposto assassino. Diga-se que existem mais casos do género, com os rumores a apontarem para que a causa desta estranha infecção, ou vírus, não seja os cogumelos, mas sim a presença de um japonês solitário (Jun Kunimura), de nome aparentemente desconhecido e comportamentos capazes de despertarem uma série de questões. Esta estranha epidemia, que provoca degradação corporal e um comportamento violento da parte de quem foi infectado, coincidiu com a chegada deste indivíduo ao espaço florestal de Gokseong, um território praticamente rural que se encontra rodeado por uma série de montanhas que são regularmente exibidas ao longo do filme. As montanhas transmitem uma certa sensação de isolamento, com alguns planos a exibirem a beleza deste território, mas também os perigos que rodeiam o mesmo, com o personagem interpretado por Jun Kunimura a simbolizar esses receios e o medo em relação ao desconhecido. Jun Kunimura não diz praticamente uma única palavra ao longo de cerca de uma hora de duração do filme, com o actor a saber exacerbar o mistério que é criado em volta do personagem que interpreta, embora pareça certo que existe algo bizarro a rodear esta figura. O japonês conta com uma idade relativamente avançada, demonstra pouca habilidade para abrir o jogo em relação à sua personalidade e aos seus objectivos, despertando uma imensidão de dúvidas em volta da sua figura. Será que estas dúvidas dos elementos coreanos em relação ao japonês prendem-se a questões ligadas ao racismo ou à intolerância? Estaremos na presença de um demónio que afecta as mentes de outras pessoas? Será que o japonês é capaz de possuir outros seres humanos? As suspeitas sobre este personagem aumentam cada vez mais, com "Goksung" a não poupar na exposição de casos peculiares, onde o sobrenatural, a bizarria, os delírios e a parvoíce se juntam. Veja-se quando Jong-goo e Seong Bok são chamados para se deslocarem ao local onde decorreu um incêndio (e mais mortes), com este espaço a contar com a presença de uma mulher que apresenta comportamentos deveras estranhos, quase selvagens e irracionais (as vítimas desta "infecção" começam a reagir desta forma). Temos ainda o momento em que Jong-goo e Seong Bok decidem acompanhar Byeong Jae ao vale, tendo em vista a este último expor o local onde se deparou com uma suposta versão demoníaca e animalesca do japonês, embora a queda de um raio anule, ainda que temporariamente, os planos do trio (numa situação recheada de algum humor negro e parvoíce). Jong-goo e Seong Bok formam uma dupla de representantes das autoridades que não prima pela eficácia, ou competência, uma situação que a espaços permite alguns momentos de humor. Diga-se que "Goksung" não é uma obra cinematográfica desprovida de humor, com Hong-jin Na a saber dosear esses momentos mais leves com as situações mais sérias. Veja-se quando encontramos Jong-goo e a esposa a fazerem sexo no carro, com o primeiro a vangloriar-se do seu feito, enquanto a segunda se queixa da rapidez com que o acto foi consumado, apesar do maior problema passar pelo facto do casal ter sido apanhado em flagrante pela filha. Estamos diante de uma família peculiar, com Jong-goo a assumir algumas vezes uma postura irresponsável e temerosa, apesar de ser o primeiro a defender a jovem Hyo-jin quando esta se encontra em perigo. Hyo-jin é afectada, ou possuída, a partir do momento em que adoece e tem um pesadelo que ganha contornos deveras violentos, com Jong-goo a procurar fazer de tudo para travar os problemas que apoquentam a jovem. Do-won Kwak tem uma interpretação segura como Jong-goo com o actor a conseguir expressar a forma intensa como este personagem vive os episódios que o rodeiam, com actor a exibir um timing competente nos momentos de comédia e a convencer nas situações mais sérias. Um desses momentos mais sérios acontece precisamente quando Jong-goo, Seong Bok e Yi San (um diácono que fala japonês) decidem dirigir-se a casa do japonês e inquirir esta figura misteriosa que poderá ou não ser a causa para o vírus que infectou, ou possuiu, parte da população do local do título.

Hong-jin Na consegue despertar o nosso receio em relação às descobertas que poderão ser efectuadas, enquanto exibe um talento notório para criar o suspense em volta do conteúdo que se encontra na casa do japonês, um espaço que exibe mais uma vez o acerto do cineasta no aproveitamento dos cenários ao serviço da narrativa e o cuidado colocado na decoração dos mesmos. Se alguns planos bem abertos permitem explanar o longo território montanhoso que rodeia o espaço praticamente rural onde o protagonista habita e trabalha (o trabalho de Kyung-pyo Hong na cinematografia é um dos pontos positivos a realçar sobre "Goksung"), já o interior da casa do japonês surge como um cenário pouco aprazível, capaz de transmitir uma sensação de claustrofobia, medo e estranheza. A decoração exacerba as características bizarras deste espaço, bem como o mistério em volta deste indivíduo de origem nipónica. Iluminada pela luz das velas, marcada pela presença de várias fotografias de vítimas antes e depois destas serem infectadas pelo suposto vírus, preenchida por cabeças de bode, a casa do japonês contribui para a atmosfera pontuada pelo mistério que rodeia a entrada neste espaço e as descobertas efectuadas no interior do mesmo. A casa do japonês encontra-se localizada num espaço isolado, longe de tudo e todos, algo que lhe atribui características muito específicas que adensam o receio em relação a este indivíduo e ao espaço onde este habita, com Na Hong-jin a saber jogar com os medos do espectador e dos personagens (esse receio conduz Jong-goo a atitudes nem sempre pragmáticas, algo notório quando elimina de forma cruel o cão do japonês, uma situação que irrita o suposto demónio). Os sustos não chegam em doses avulsas, com Hong-jin Na a trabalhar o medo, os receios e as dúvidas que se formam na mente de quem visiona "Goksung", uma situação que se adensa com o avançar da narrativa. Veja-se quando é encontrado um sapato com o nome de Hyo-jin na casa do japonês, com "Goksung" a jogar com os receios de qualquer pai e mãe em relação à possibilidade do filho ou da filha estar em perigo. A piorar toda esta situação, Hyo-jin assume um conjunto de atitudes perturbadoras e agressivas, com a família a perceber que algo de perigoso pode estar prestes a acontecer. A jovem Hwan-hee Kim consegue despertar o receio do espectador e expor o lado mais violento desta rapariga relativamente inocente que tem uma relação peculiar com os seus pais. Os pais da jovem e a avó procuram protegê-la das ameaças externas, enquanto "Goksung" nos coloca diante de uma investigação intrincada, diversas reviravoltas (umas mais convincentes do que outras), xamãs, rituais associados ao misticismo, vinganças, possessões, entre outras situações, com quase tudo e todos a parecerem estar em perigo. Abordar mais sobre a história permitiria efectuar uma análise mais completa do filme, bem como perspectivar algumas teorias em relação ao seu final, mas isso seria retirar o prazer a quem ainda não descobriu esta obra cinematográfica bastante recomendável. É certo que "Goksung" sai valorizada com uma segunda visualização, mas a surpresa inicial em relação a certos episódios e a forma segura como Na Hong-jin assume os riscos, a saudável loucura, as incoerências e as extravagâncias que pontuam a narrativa é meio caminho andado para esta obra cinematográfica nos conquistar à primeira, quando entramos no filme às escuras e tardamos em conseguir soltar-nos do mesmo.

Algumas conclusões podem agradar mais a uns espectadores dos que a outros (nem tudo convence, nem parece ser esse o propósito do realizador, sobretudo quando efectua uma obra cinematográfica pontuada pelo mistério, pelo bizarro, pelos elementos associados ao oculto), mas parece relativamente consensual salientar que Hong-jin Na conseguiu criar um ambiente gradualmente mais intenso em volta do enredo, com o desfecho a permanecer preso ao espectador. Quando salientamos que o desfecho fica preso ao espectador, como algo que teima em não largar a mente com facilidade, convém salientar que o comentário não diz respeito ao facto do filme ser perfeito (isso não existe, embora algumas obras quase que atinjam esse patamar), mas sim pelo impacto que provoca. É como se nos soltássemos de um corpo estranho que nos agarra durante cerca de duas horas e meia, que nos inquieta, arrebata, ultraja, faz sorrir, obriga a questionar a inteligência do protagonista, é capaz de comover e enojar (será possível não contar com esse sentimento quando um indivíduo infectado começa a deixar escorrer sangue para a boca do personagem principal?). A extravagância e os exageros por vezes fazem parte do enredo, bem como o medo, a violência, as más decisões de alguns personagens, o bom aproveitamento dos cenários e dos símbolos utilizados ao longo da narrativa. Não faltam cabeças de bode (a remeter para Baphomet?), corvos (associado ao mal, a presságios, entre outros significados), sacrifícios de cordeiros, supostos fantasmas e figuras monstruosas, com "Goksung" a não poupar nos símbolos, nos rituais, no subtexto que se encontra preso ao texto. O último terço nem sempre tem o mesmo poder do restante filme, embora não deixe de provocar impacto, com diversas dúvidas a serem levantadas, algumas questões a serem respondidas e o amor de um pai pela sua filha a ficar paradigmaticamente representado num momento que tanto tem de violento como de comovente. Até aqui tenho sido injusto para com o elenco secundário, quando este é merecedor de elogios. Veja-se o caso de Woo-hee Chun  como uma jovem mulher que se encontra quase sempre vestida de branco, com os objectivos da mesma a serem uma incógnita ao longo do filme, apesar de esta manter contacto regular com o protagonista. Temos ainda casos como Jung-min Hwang como Il-gwang, um xamã que conduz alguns rituais extravagantes, parecendo praticamente possuído quando se encontra em sessões de exorcismo. Os rituais protagonizados por Il-gwang tanto têm de loucos e extravagantes como de intensos, com Jung-min Hwang a tentar atribuir algum credibilidade a estes momentos onde o misticismo parece tomar conta do filme. Os rituais visam proteger Hyo-jin, com "Goksung" a contar no seu cerne com a procura de um pai em proteger o seu rebento, ou seja, estamos diante de um filme sobre a paternidade, embora a luta contra uma entidade demoníaca, a defesa de um território e diversas outras situações sejam abordadas ao longo desta obra cinematográfica. "Goksung" remete ainda para outros filmes do cineasta como "The Chaser", onde não faltava uma representação da incompetência por parte de alguns elementos das autoridades, os cenários cobertos pela chuva, a violência e a tensão, algo que podemos encontrar na obra cinematográfica em análise. Com um trabalho competente do elenco, uma composição aprumada dos planos, uma atmosfera pontuada pelo mistério e a tensão, diversos cenários marcados pela presença feroz da chuva e da ausência dos raios solares, um pai que procura desesperadamente salvar a sua filha, uma banda sonora pronta a exacerbar o clima que rodeia a narrativa, "Goksung" surge como uma entrada de sucesso de Hong-jin Na pelo universo do terror, com o cineasta a convencer como uma obra cinematográfica que aparece como uma das agradáveis confirmações da programação de 2016 do MOTELx.

Título original: "Goksung".
Título em inglês. "The Wailing".
Realizador: Hong-jin Na.
Argumento: Hong-jin Na.
Elenco: Do-Won Kwak, Hwan-hee Kim, Jun Kunimura, Jung-Min Hwang, Chun Woo-Hee.

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