19 setembro 2016

Resenha Crítica: "Évolution" (Evolução)

  Misterioso, enigmático, pronto a estimular a mente e os sentidos do espectador, "Évolution" tem tanto de indecifrável como de questionador, inebriante, poético, belo, perturbador e assustador, com Lucile Hadžihalilović a abandonar-nos no interior de uma ilha isolada, rodeada pelo mar e povoada por um grupo de rapazes e estranhas mulheres, enquanto o nosso corpo e nossa a mente são consumidos por aquilo que a cineasta tem para apresentar, ou melhor, assombrar. Ficamos perante um território marcado por regras muito próprias, com o mar a transmitir simultaneamente uma sensação de libertação e isolamento, perigo e conforto, lirismo e crueza, com os personagens de "Évolution" a contarem com uma relação muito próxima com as águas que rodeiam a ilha onde habitam. A força das ondas e os seus sons são bem audíveis, enquanto as profundezas do mar transmitem toda uma sensação de mistério e poesia, quase como se estivéssemos diante de algo que tanto evidencia a capacidade de libertar como de aprisionar. O mar é uma presença sentida e relevante, enquanto os homens são uma ausência que nos traz mais dúvidas do que certezas, com o território a contar apenas com rapazes de tenra idade e mulheres. Não existem raparigas, nem homens a povoarem este espaço, com as mulheres a tratarem os jovens de um modo muito peculiar, com quase todos os rapazes a terem como destino um hospital estranhamente assustador, uma espécie de limbo onde o futuro das crianças parece incerto. Será que estão doentes? Quais os propósitos destes tratamentos? Qual o papel das enfermeiras? Estas são algumas das dúvidas que assolam inicialmente a nossa mente, com "Évolution" a conseguir estimular os nossos sentidos, a nossa capacidade de interpretação e de questionamento, enquanto mergulhamos para o interior de uma espécie de sonho bizarro onde os tratamentos efectuados na unidade hospitalar ganham contornos de pesadelo. O hospital surge representado como um espaço opressor, marcado por tonalidades verdes desprovidas de vida, com esta cor a estar longe de transmitir calma, esperança ou serenidade. Diga-se que o cenário do hospital demonstra paradigmaticamente algum do cuidado colocado no design de produção, com este espaço fechado, pontuado por paredes recheadas de marcas de humidade, a adensar a atmosfera misteriosa e inquietante que envolve esta obra cinematográfica estranhamente inebriante. O enredo conta maioritariamente com um jovem como protagonista, em particular, Nicolas (Max Brebant), um rapaz curioso, que gosta de nadar e desenhar. Nicolas mantém uma relação problemática com a mãe (Julie-Marie Parmentier), uma figura enigmática, com os comportamentos desta última a despertarem alguma curiosidade no primeiro. A casa onde Nicolas e a mãe habitam é pontuada por um estilo de decoração frio e austero, com este cenário interior a transmitir desde logo a impessoalidade e a frieza que marca o dia-a-dia neste espaço, bem como a estranha relação entre o protagonista e a progenitora. O quotidiano destes personagens é marcado por situações como a mãe de Nicolas obrigar o jovem a tomar um medicamento misterioso e a ingerir estranhas refeições, com Julie-Marie Parmentier a incutir algum mistério aos actos desta mulher. A frieza da casa de Nicolas contrasta com as cores vivas com que nos deparamos quando os personagens se encontram no fundo do mar, com esta grande extensão de água a trazer uma estranha sensação de liberdade e uma capacidade indelével para estimular a imaginação. No interior das águas marítimas, os jovens tanto podem encontrar uma estrela-do-mar como corais ou simplesmente envolverem-se em situações mais delicadas, com o mar a surgir como um elemento relevante no quotidiano dos moradores desta ilha.

Nicolas gosta de nadar, tendo supostamente descoberto um cadáver, algo que é desmentido pela sua progenitora, embora pareça certo que esta se encontra a esconder alguma coisa deste rapaz. Este efectua actos muito próprios dos jovens da sua idade, com os rapazes a brincarem, a envolverem-se em zangas e a formarem estranhos laços, mesmo quando começam a ser estranhamente internados num hospital, com tudo e todos a parecerem contar com este destino, excepção feita às mulheres. A curiosidade de Nicolas é adensada a partir do momento em que é internado pela progenitora, com este a ser sujeito a diversos tratamentos, tal como alguns rapazes desta ilha. Nicolas não sabe qual é a doença de que padece, nem acredita que conta com alguma maleita, com o jovem a procurar fugir deste espaço, enquanto tenta descobrir os segredos sobre as mulheres deste território. Nesse sentido, Nicolas é surpreendido pela descoberta de uma série de rituais protagonizados pelas mulheres, alguns dotados de erotismo e imensa estranheza, bem como por diversos hábitos das poucas figuras adultas desta ilha. É o despertar do jovem para o mundo dos adultos, para os sonhos e os pesadelos inerentes ao crescimento, com Nicolas a lidar com toda uma realidade que o transcende. Quais são os objectivos destas mulheres? Aos poucos percebemos alguns dos planos destas figuras femininas que contam com estranhas marcas nas costas, com o símbolo recorrente da estrela-do-mar a não ter sido colocado na narrativa ao acaso, ou não estivéssemos diante de algo que se pode reproduzir sexualmente ou de forma assexuada. Diga-se que as próprias luzes de um aparelho do hospital remetem para a forma de uma estrela-do-mar, algo que confirma a possibilidade destes jovens estarem a ser sujeitos a testes que permitam que estes se reproduzam de forma assexual, com o umbigo dos mesmos a surgir como um estranho alvo das experiências e estudos efectuados na unidade hospitalar. Nem tudo é esclarecido, embora "Évolution" forneça algumas pistas ao espectador, sempre sem deixar que este se sinta totalmente confortável, parecendo impossível que a nossa mente sossegue totalmente e se preencha de certezas em relação àquilo que está a acontecer neste hospital. O mistério pontua a narrativa da segunda longa-metragem realizada por Lucile Hadžihalilović, bem como os silêncios e os parcos diálogos, com as próprias interpretações a contribuírem para as características enigmáticas do filme. Veja-se o caso de Julie-Marie Parmentier, com esta a surgir como uma figura austera, que procura cuidar de Nicolas, embora os planos que esta congemina para o jovem contem com uma certa dose de ambiguidade, com a actriz a conseguir transmitir eficazmente essa situação. Esta parece ainda estar a lidar com questões relacionadas com a maternidade, uma situação que se verifica ainda em diversas figuras femininas que povoam a narrativa desta obra cinematográfica, com a maioria a indicar querer travar o crescimento destes jovens e mantê-los sob a sua alçada (com o mar a poder simbolizar o líquido amniótico, ou seja, um elo de ligação entre os jovens e as suas criadoras), enquanto deixam que os rapazes sejam sujeitos a testes peculiares (que a espaços incutem uma faceta de "body horror" a "Évolution"). Outra das intérpretes em destaque é Roxane Duran como Stella, uma enfermeira do hospital, uma mulher que inicia uma estranha relação de proximidade com o protagonista, com a actriz a demonstrar que estamos diante de uma figura que se encontra numa luta interna entre manter os valores do espaço que a rodeia ou ceder à curiosidade do rapaz. Stella é um enigma difícil de compreender, embora partilhe alguns momentos com Nicolas que prometem ficar na memória de ambos e do espectador, ou não estivéssemos diante de uma obra cinematográfica onde os gestos e as sensações contam com enorme significado e relevo. Lucile Hadžihalilović incute uma certa ambiguidade aos episódios que ocorrem ao longo do enredo, com o design sonoro a incrementar o tom intrigante da narrativa, enquanto a cineasta extrai interpretações convincentes por parte do elenco principal e inquieta o espectador.

O grande destaque a nível de interpretações vai para o jovem Max Brebant, um estreante que consegue exprimir as questões que assolam a mente do protagonista, bem como os seus receios, anseios e fraquezas, algo que partilha com outros rapazes e com Stella. "Évolution" é também um filme sobre os medos e as dúvidas de um jovem em plena puberdade, que se depara com todo um mundo novo, quase como se de repente entrasse numa máquina do tempo que o coloca a saltitar entre a infância e a idade adulta, com alguns dos episódios em que este se envolve a serem incompreensíveis até para os mais velhos. A entrada do jovem no hospital adensa essas dúvidas, bem como as descobertas que efectua fora deste cenário fechado. Os testes efectuados nestes jovens contam com características bizarras, com Lucile Hadžihalilović a não ter problemas em jogar com os receios dos personagens e do espectador. Veja-se quando Nicolas sonha que um molusco toca no seu umbigo, ou os estranhos procedimentos que são efectuados no hospital, com "Évolution" a entrar muitas das vezes pelas águas do terror. Os sonhos perturbam a realidade de Nicolas, enquanto este entra num mundo de descobertas no interior de uma ilha capaz de perturbar, encantar, assustar e inebriar os sentidos. Lucile Hadžihalilović deixa-nos diante de imagens marcantes, simultaneamente poéticas e perturbadoras, que teimam em permanecer na nossa mente após a visualização de "Évolution", uma obra cinematográfica que aborda temas como os ritos de passagem, as descobertas efectuadas por um rapaz que se encontra a entrar na puberdade, os medos e os receios dos jovens, a maternidade, a gravidez (seja esta feminina ou masculina), entre outros. A ilha que nos é apresentada surge como um espaço praticamente à parte do Mundo, localizada num território e tempo difíceis de discernir, quase onírico e a espaços assustador, com Lucile Hadžihalilović a criar um universo narrativo que mexe com os nossos sentidos e se apodera da nossa mente, algo incrementado por uma cinematografia capaz de adensar todos estes elementos, com "Évolution" a deixar uma marca bem forte e a teimar em assumir um lugar na nossa memória.

Título original: "Évolution".
Título em Portugal: "Evolução".
Realizadora: Lucile Hadžihalilović,
Argumento: Lucile Hadžihalilović e Alante Kavaite.
Elenco: Max Brebant, Roxane Duran, Julie-Marie Parmentier.

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