07 setembro 2016

Resenha Crítica: "Don't Breathe" (Nem Respires)

 Com a sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge a "rebentar pelas costuras", "Don't Breathe", a segunda longa-metragem realizada por Fede Alvarez, teve a honra de ter sido seleccionada como obra cinematográfica de abertura da décima edição do MOTELx, um festival que se tem revelado um local de culto para quem aprecia filmes de terror ou associados ao fantástico. A falta de oportunidades em espaços citadinos, os problemas de cariz social e a criminalidade surgem como algumas das temáticas abordadas ao longo de "Don't Breathe", uma obra cinematográfica que procura utilizar e subverter os elementos dos filmes de invasão a domicílios e de assalto. "Don't Breathe" coloca-nos diante de Rocky (Jane Levy), Alex (Dylan Minnette) e Money (Daniel Zovatto), três jovens delinquentes que assaltam habitações para ganharem dinheiro de forma rápida e aparentemente fácil. As opções de vida de Rocky não são muitas, com esta a contar com problemas de ordem familiar e a noção de que é praticamente impossível satisfazer as suas pretensões se continuar a viver em Detroit. Money é um indivíduo arisco e pouco ponderado, que namora com Rocky e sabe que Alex está interessado na jovem. Alex evidencia alguma preocupação em relação ao pai, o dono de uma agência de segurança, com o delinquente a utilizar as informações confidenciais do progenitor para planear os furtos. Rocky e Money pretendem viajar para a Califórnia e estabelecerem as suas vidas neste espaço que parece prometer um futuro mais radioso e solarengo, enquanto Alex encontra-se acima de tudo interessado na primeira. O trio escolhe um caminho completamente desastrado e pouco recomendável para atingir o objectivo de ganhar dinheiro rápido, com o futuro dos protagonistas a estar quase sempre em perigo, ou estes não dedicassem uma parte das suas vidas a assaltarem casas alheias. O que acontecerá se algum proprietário se deparar com os ladrões em flagrante delito? Será possível que estes jovens criminosos se consigam escapulir sempre das autoridades? Estamos diante de um trio de protagonistas que está longe de despertar a nossa simpatia, embora seja possível compreender as ansiedades de alguns dos seus elementos. Rocky habita com a mãe e a irmã. A mãe de Rocky mantém uma relação complicada com a filha, com esta última a ter sido alvo de maus tratos por parte da progenitora. A personagem interpretada por Jane Levy tem ainda de cuidar da irmã, com a progenitora a descuidar a educação dos rebentos, uma situação que conduz a primeira a contar com uma postura protectora em relação à petiz. Levy compõe uma personagem relativamente complexa, com Rocky a surgir como uma jovem adulta com uma personalidade muito própria. Esta tanto é capaz de cometer crimes e actos dotados de alguma coragem como evidencia uma fragilidade emocional latente. Essa fragilidade é visível quando Rocky está com a irmã mais nova ou aborda temáticas melindrosas associadas ao passado, com a protagonista a despertar o interesse de Alex e Money. Se Jane Levy capta o nosso interesse como Rocky, já Daniel Zovatto interpreta um indivíduo pouco ponderado, que raramente desperta a nossa simpatia, embora o argumento praticamente não conceda espaço para o actor desenvolver o personagem. Diga-se que o argumento não prima pelo desenvolvimento dos personagens, limitando-se a dar uma primeira pincelada, embora deixe o "quadro" pintado de forma superficial, com Rocky a surgir como a única protagonista digna de interesse, tal como o elemento interpretado por Stephen Lang. Essa superficialidade também afecta o trabalho de Dylan Minnette, com o actor a interpretar um delinquente que aparece muitas das vezes como a voz da consciência do grupo, embora também se envolva em problemas, com Alex a pouco evoluir ao longo da narrativa. O quotidiano destes personagens muda por completo quando decidem efectuar um assalto que promete contribuir para a concretização de diversos sonhos, resolver imensos problemas e possibilitar algumas doses de adrenalina. Este assalto consiste em invadir a casa de Norman Nordstrom (Stephen Lang), um herói de guerra cego, corpulento e lacónico que vive numa habitação de dimensões alargadas numa zona aparentemente desértica. De acordo com as informações recolhidas pelos assaltantes, Norman guarda trezentos mil dólares no interior da sua casa, uma verba que recebeu como indemnização devido ao facto da filha ter sido morta num acidente de automóvel provocado por Cindy Roberts (Franciska Töröcsik).

 A casa de Norman encontra-se protegida por uma série de alarmes, imensas grades e um rottweiler que promete causar alguns calafrios aos assaltantes, embora o planeamento do assalto não pareça deixar margens para dúvidas: a verba está praticamente garantida. Após conseguirem entrar na casa de Norman, tendo adormecido o cão deste indivíduo e gaseado o proprietário da habitação, o trio parte em busca do cofre onde se encontram guardados os trezentos mil dólares. O que o trio não esperava, nem o espectador é que Fede Alvarez utilizasse e subvertesse a premissa de filmes como "Wait Until Dark". Não estamos diante de um invisual com dificuldades em defender-se, bem pelo contrário, com "Don't Breathe" a mudar por completo a sua face e o seu rumo a partir do momento em que Stephen Lang começa a ganhar protagonismo. No caso de "Wait Until Dark", Audrey Hepburn compôs uma protagonista invisual terna, simpática e capaz de se defender, apesar da fragilidade física. Em "Don't Breathe", Stephen Lang cria um personagem ameaçador e perturbador, que não precisa de grandes diálogos para contar com uma aura temível. Lang consegue evidenciar o lado perturbado de Norman, um ex-militar com uma personalidade instável, uma situação que se torna latente quando decide defender a sua propriedade e expor toda a violência que percorre o seu corpo e a sua alma (o actor consegue exprimir imenso através da linguagem corporal). Norman é um personagem que surpreende o espectador e os seus interlocutores, com a cegueira a estar longe de fragilizar totalmente este indivíduo que promete figurar em imensos pesadelos, com este antigo militar a permitir que Fede Alvarez vire o enredo do avesso e altere o rumo do filme. "Don't Breathe" começa por se esgueirar pelas fronteiras dos filmes de assalto e de invasão ao domicilio, até mergulhar pelos elementos das obras cinematográficas que envolvem personagens que lutam pela sobrevivência, enquanto Fede Alvarez demonstra que sabe criar uma atmosfera opressora que permite agarrar o espectador e esconder algumas das limitações do argumento. O trabalho a nível do design sonoro é assinalável e essencial para a criação dessa atmosfera opressora, sobretudo numa cena que decorre praticamente às escuras, com "Don't Breathe" a exibir uma inspiração notória neste quesito. Esse primor no trabalho de som é visível em pequenas situações que permitem incrementar a narrativa e adensar a tensão, tais como a respiração ofegante dos personagens, ou a procura da mesma ser acalmada (o título "Nem Respires" não é obra do acaso), o ranger de uma porta, ou os passos de um indivíduo, ou um vidro que resvala pelo chão, ou o som de um telemóvel a vibrar, enquanto o espaço da habitação de Norman é aproveitado ao pormenor (Fede Alvarez consegue que o espectador fique com a noção dos diferentes espaços deste local). A casa de Norman transforma-se quase numa selva onde as leis dos Homens não têm lugar e apenas os mais aptos serão capazes de sobreviver, com "Don't Breathe" a avançar por caminhos negros, violentos e sinuosos. A habitação surge como uma espécie de personagem secundária de luxo, com Fede Alvarez a saber transformar as limitações orçamentais numa vantagem ao conseguir que a propriedade do antigo militar adquira contornos claustrofóbicos e opressores. Veja-se quando encontramos Rocky a tentar escapulir-se por uma conduta, ou o momento em que os jovens percebem que Norman pode aparecer a qualquer momento e tentar defender-se ou atacar. Fede Alvarez sabe jogar com os nossos medos e dos personagens, com a cinematografia e o design sonoro a exacerbarem os perigos que envolvem Rocky, Alex e Money. A própria banda sonora contribui para essa inquietação, com Fede Alvarez a saber quando deve silenciar a mesma ou deixá-la em evidência. Diga-se que "Don't Breathe" também é um filme de silêncios, sobretudo na segunda metade, quando os diálogos escasseiam e os actos de certos personagens encontram-se inseridos num contexto delicado, ou os predadores não se tornassem nos alvos de um caçador implacável. Os caçadores tornam-se as presas, com "Don't Breathe" a colocar-nos diante de uma situação complicada, ou seja, sentir alguma simpatia para com os assaltantes. Essa decisão é inicialmente difícil de ser tomada, sobretudo quando de um lado da balança está um grupo de delinquentes, enquanto do outro lado encontra-se um cego que se revela uma figura sádica, violenta e completamente imoral, com "Don't Breathe" a jogar com as nossas expectativas em relação aos personagens e a deixar-nos perante uma situação moralmente complicada.

Stephen Lang é a ameaça em pessoa, com o actor a transformar Noman numa figura que inicialmente parece frágil devido a ser invisual, embora prometa figurar em alguns pesadelos, com o actor a saber fazer muito com pouco. Norman pode envolver-se em situações ridículas ou estapafúrdias, mas Lang demonstra estar sempre comprometido com o papel, mesmo quando questionamos o rumo para onde Fede Alvarez decidiu levar "Don't Breathe". Não cabe ao espectador decidir, mas sim a Alvarez, com este a deixar um gancho para uma possível sequela enquanto espreme o argumento até às últimas grainhas. A premissa é simples e eficaz, embora o desenvolvimento da mesma provoque algumas reservas, com "Don't Breathe" a deixar a ideia de que falta um golpe de asa para que o filme seja elevado para um patamar mais honroso do que a mediania. Poderia e deveria ter existido mais consistência no desenvolvimento deste jogo pela sobrevivência que toma conta da narrativa, tal como parece notório que personagens secundários como Money e Alex nunca ganham relevância suficiente para nos preocuparmos com o destino destes elementos. "Don't Breathe" introduz ainda uma personagem secundária numa fase relativamente adiantada da narrativa, embora a entrada em cena desta figura feminina pareça deslocada do rumo que o filme estava a seguir. Se o argumento nem sempre prima pela subtileza ou pela coerência, contando pelo meio com algumas reviravoltas questionáveis e diversas situações que roçam o ridículo, já a capacidade de Fede Alvarez gerir a tensão é notória, bem como a aproveitar o espaço da casa de Norman e as especificidades do território que a circunda. O facto de a habitação de Norman estar situada num território praticamente despovoado permite adensar o sentimento de medo e isolamento em relação aos episódios que decorrem no interior da casa, com o trio de assaltantes a deparar-se com uma série de surpresas indesejáveis. Diga-se que Alvarez demonstra ainda que sabe utilizar o poder dos close-ups a seu favor, algo visível quando foca o rosto de Jane Levy, com a actriz a conseguir transmitir o medo, a raiva, a fúria, o descontrolo, as ansiedades e as fragilidades da personagem que interpreta. Fede Alvarez parece ter estudado relativamente bem aquilo que pretendia para "Don't Breathe": exposição rápida dos personagens e do contexto que os rodeia; preparação e execução do assalto final; reviravolta que deixa os protagonistas em perigo; criar uma atmosfera opressora. Alguns desses pontos foram cumpridos com sucesso, embora Fede Alvarez estenda a narrativa até um ponto onde parece que não existe mais nada para dar, sobretudo no terceiro acto. Com uma atmosfera opressora, uma boa utilização do design sonoro, do trabalho de câmara e da iluminação, "Don't Breathe" nem sempre consegue manter a bitola elevada, embora consiga em diversos momentos inquietar e envolver o espectador, com Fede Alvarez a confirmar mais uma vez que é um nome a seguir com alguma atenção.

Título original: "Don't Breathe".
Título em Portugal: "Nem Respires".
Título no Brasil: "O Homem nas Trevas".
Realizador: Fede Alvarez.
Argumento: Fede Alvarez e Rodo Sayagues.
Elenco: Jane Levy, Dylan Minnette, Daniel Zovatto, Stephen Lang.

1 comentário:

Victor Passos Viictor disse...

Realmente é um dos melhores filmes do género...