09 setembro 2016

Resenha Crítica: "Demon" (2015)

 O final de "Demon" desperta uma sensação de estranheza, com algumas peças a encaixarem-se, outras a ficarem soltas, com a última obra cinematográfica realizada por Marcin Wrona a ter a capacidade de nos deixar atordoados. Primeiro estranha-se, depois entranha-se, inclusive uma homenagem descarada a "The Shining" (a presença de Krzysztof Penderecki na banda sonora é outro dos elementos a ligar os dois filmes), com Marcin Wrona a realizar uma obra cinematográfica que tende a crescer junto do espectador. O terror, o humor, o absurdo, o misticismo, o suspense, surgem bastante presentes em "Demon", bem como diversos elementos da cultura judaica, com uma festa de casamento a revelar-se simultaneamente hilariante e desastrosa, enquanto Marcin Wrona se prepara para fazer a vida negra a Piotr (Itay Tiran), o protagonista do filme. O provérbio português "casamento molhado, casamento abençoado" não se aplica a Piotr e Zaneta (Agnieszka Zulewska), um casal que namora à distância e vê o seu matrimónio ser conspurcado pela chegada de uma entidade demoníaca. O facto do Sol praticamente não dar um ar da sua graça já seria por si só um sinal de aviso bastante negativo, com a chuva e o cinzentismo a dominarem os cenários exteriores de "Demon", com Marcin Wrona e Pawel Flis (director de fotografia) a aproveitarem os elementos naturais para exacerbarem o pessimismo que a espaços toma conta do enredo. A própria presença notória do nevoeiro, quando o filme já vai no seu terceiro acto, transmite a instabilidade e o quão incerto parece ser o futuro dos personagens que ficamos a conhecer em "Demon". A instabilidade parece estar na ordem do dia de Piotr, o protagonista do filme, sobretudo a partir do momento em que regressa à Polónia para casar com Zaneta. Esta é filha de Zygmunt Jasinski (Andrzej Grabowski), um proprietário relativamente abonado, que conta com um vasto conjunto de terrenos num espaço rural da Polónia, com o veterano a apresentar algumas reservas em relação ao matrimónio. Piotr e Zaneta namoravam à distância, com o primeiro a encontrar-se a viver e a trabalhar em Inglaterra, enquanto a segunda habita na Polónia, com as características deste envolvimento a parecerem desagradar a Zygmunt Jasinski, um homem conservador no que diz respeito às relações amorosas. Quem recebe Piotr de braços abertos é Jasny (Tomasz Schuchardt), o irmão de Zaneta, um indivíduo beberrão e extrovertido que já conhecia o primeiro há algum tempo. Já Ronaldo (Tomasz Zietek), uma figura misteriosa que trabalha como escavador para o pai da protagonista, apresenta uma atitude ambígua em relação a Piotr, com este personagem a contar com uma relevância surpreendente no seio da narrativa. Ronaldo representa paradigmaticamente o mistério que a espaços invade o enredo, com Tomasz Zietek a exprimir a estranheza desta figura que nunca chegamos a conhecer totalmente. O mistério e a bizarria também se aplicam ao quotidiano de Piotr neste espaço rural, com a serenidade a ser rompida pela chegada de um espírito que não sossega enquanto não encontrar um corpo onde se instalar. Piotr fica instalado numa casa que necessita de algumas modificações, pontuada por tonalidades frias e uma decoração pouco acolhedora, que outrora pertencera aos avós de Zaneta. O território que pertence a Zygmunt Jasinski parece contar com as condições ideais para o protagonista efectuar planos a longo prazo, com este a pensar reformular o terreno e a habitação onde pretende viver com Zaneta. É precisamente a pensar nestas mudanças que Piotr decide efectuar uma escavação num terreno dos familiares da esposa, um acto que se revela desastroso, com o protagonista a encontrar um esqueleto humano. O esqueleto encontra-se em ampla decomposição, consumido pela terra e pela passagem do tempo, com esta descoberta a surgir como um momento de mudança para o protagonista. Piotr desenterrou não só um esqueleto mas também um dybbuk, um espírito humano que vagueia até encontrar refúgio no corpo de uma pessoa que se encontre viva. A partir desse momento, os comportamentos de Piotr começam a mudar, com Itay Tiran a transmitir o tom mais agressivo e bizarro do protagonista, com este indivíduo a exibir uma faceta que Zaneta e Jasny desconheciam.

A loucura e a paranóia parecem tomar conta da mente de Piotr, com Itay Tiran a evidenciar isso mesmo, enquanto o argumento de Pawel Maslona e Marcin Wrona permite que o actor sobressaia, sobretudo a partir do momento em que o protagonista começa a sofrer ataques aparentes de epilepsia e o seu corpo parece ser controlado por uma entidade externa. Inicialmente crescem as dúvidas se Piotr está mesmo possuído ou se está demente, embora Marcin Wrona esclareça rapidamente a situação, com o protagonista a parecer entrar num beco sem saída. O casamento surge como um momento de festa, mas também de desgraça e consternação, com a música, a dança e o álcool a darem lugar ao desespero, com Piotr a deixar a sua noiva estarrecida. Ninguém encontra o dito esqueleto humano com que Piotr se deparou, embora Zaneta acredite no esposo, algo que se torna notório quando a personagem interpretada por Agnieszka Zulewska coloca mãos à obra e decide averiguar o terreno. Agnieszka Zulewska exprime a convulsão sentimental de Zaneta, com esta mulher a amar o noivo e a procurar fazer de tudo para que este recupere. Por sua vez, Itay Tiran protagoniza momentos de grande intensidade, com o actor a saber tirar partido do corpo e da voz para expor o estado emocionalmente desequilibrado de Piotr. O protagonista depara-se por diversas vezes com a imagem de uma estranha mulher (um espírito que vagueia "docemente"), sangra do nariz, perde a aliança e o controlo do corpo, discute com o sogro, enquanto este último parece estar em ampla negação. A forma completamente desregulada como o personagem interpretado por Andrzej Grabowski tenta esconder o genro e distrair os convidados com álcool exibe tanto o desespero de um homem que não sabe como reagir a tamanha adversidade, como a personalidade peculiar deste indivíduo. Nesse sentido, chega a ser quase tragicómico encontrar o pai da noiva a tentar entorpecer os convidados com álcool, ou a procurar que tudo seja esquecido, embora pareça difícil deixar de lado tudo aquilo que estes personagens estão a presenciar. Ao longo de "Demon", temos ainda um conjunto de personagens secundários que sobressaem em bom nível, com Marcin Wrona e a Pawel Maslona a criarem um argumento cuidado, que sabe balancear os momentos mais tensos com as situações mais surreais e cómicas do enredo, embora a tragédia surja muitas das vezes ao lado do humor. Wlodzimierz Press é um dos actores que beneficia da qualidade do argumento da dupla, com o intérprete a dar vida a um professor com um conhecimento notório deste espaço polaco e da cultura judaica, servindo quase como uma ponte de ligação entre o passado e o presente (ao mesmo tempo que ajuda a explicar as raízes de alguns episódios que ocorrem). Temos ainda casos como Adam Woronowicz, com o actor a destacar-se como um médico beberrão, que inicialmente pensa estar diante de um caso de epilepsia, embora o problema de Piotr esteja longe de se resolver com medicação. Não falta ainda a presença de um padre (Cezary Kosinski), fenómenos sobrenaturais e a noção de que o futuro do protagonista não parece muito risonho, sobretudo a partir do momento em que é possuído.

 O ambiente que rodeia o enredo é muitas das vezes pesado, embora Marcin Wrona não descure o humor, com alguns momentos de "Demon" a contarem com características que roçam a tragicomédia. O humor está presente em alguns trechos do filme, seja devido ao excesso de álcool que é consumido (tudo parece servir de desculpa para "virar" mais um copo ou uma garrafa), ou inerente a situações completamente surreais, com o pai de Zaneta a estar muitas das vezes no cerne destes episódios. Andrzej Grabowski evidencia que o personagem que interpreta está numa situação delicada. Zygmunt Jasinski procura proteger a honra da filha e da família, mas os planos que este veterano efectuou para o casório foram completamente arrasados pelo destino. Tenta efectuar uma cerimónia num dia de Sol, mas a chuva teima em contaminar todos os espaços exteriores, enquanto o palco do evento, um celeiro da família, conhece episódios que variam entre o sobrenatural, o macabro, o surreal e o cómico. Veja-se o discurso do protagonista diante dos convidados, com Itay Tiran a expor as dificuldades que Piotr enfrenta para tentar manter a noção da realidade quando algo está a consumir a sua alma e o seu ser. Num determinado momento de "Demon", Piotr encontra-se preso no interior do espaço fechado do porão, longe de todos os convidados, embora esteja acompanhado por alguns personagens relevantes. O cenário é paradigmático do cuidado colocado no design dos espaços interiores, com o porão a encontrar-se praticamente isolado, recheado de humidade e tonalidades cinzentas, enquanto a desesperança é sentida e adensada. Preso a um demónio e aos seus problemas, Piotr surge como uma figura trágica que sente na pele os efeitos provocados pelo espírito de alguém que outrora foi enterrado sem respeito ou cuidado, com o passado e as tradições a parecerem contar com uma relevância inegável para diversos personagens. Veja-se o caso do professor, um indivíduo vetusto que se lembra do passado do território e do quão mudado este se encontra nos dias de hoje, ou a propriedade que pertence à família de Zaneta, com o presente e o passado a encontrarem-se mais unidos do que esperávamos. No final, uma fotografia surpreende e causa burburinho. É a audácia e o descaramento de Marcin Wrona a surgirem em grande estilo, com o cineasta a não ter problemas em imitar Stanley Kubrick, com a própria banda sonora a trazer ecos de "The Shining" (a participação de Krzysztof Penderecki surge como outro elo de ligação entre os filmes). Simultaneamente intenso, surreal e emocionalmente violento, "Demon" consegue crescer junto do espectador, com Marcin Wrona a criar algo capaz de nos deixar atordoados, que não causa indiferença e desperta uma multitude de sentimentos.

Título original: "Demon".
Realizador: Marcin Wrona.
Argumento: Marcin Wrona e Pawel Maslona.
Elenco: Itay Tiran, Agnieszka Zulewska, Tomasz Schuchardt, Andrzej Grabowski, Adam Woronowicz, Wlodzimierz Press, Tomasz Zietek, Cezary Kosinski.

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