26 setembro 2016

Resenha Crítica: "Deepwater Horizon" (Horizonte Profundo - Desastre no Golfo)

 Acontecimento que marcou a História recente pela negativa, a explosão da plataforma Deepwater Horizon ocorreu no dia 20 de Abril de 2010, no Golfo do México, nos Estados Unidos da América, tendo contribuído para aquele que é considerado o maior derrame petrolífero da História deste país. A Deepwater Horizon era propriedade da Transocean, enquanto a BP operava na plataforma de petróleo, uma parceria que prometia lucros avultados, embora tenha terminado em tragédia para ambas as partes. A plataforma explodiu, onze homens saíram sem vida deste incidente, enquanto uma quantidade assinalável de petróleo foi derramada (calcula-se que tenha sido derramado o equivalente a 4,9 milhões de barris de petróleo) e o habitat de uma série de animais foi prejudicado. "Deepwater Horizon" (em Portugal: "Horizonte Profundo - Desastre no Golfo"), a nova longa-metragem realizada por Peter Berg, aborda os acontecimentos que ocorreram antes, durante e um pouco depois deste incidente, ainda que de forma ficcional (convém não retirar as célebres liberdades históricas da equação), com o filme a inserir-se naquela que o cineasta intitula como a "segunda fase da sua carreira". Nesta segunda fase, o cineasta embrenhou-se em temáticas inspiradas em episódios reais, algo que resultou em filmes como "Lone Survivor", um exemplo da exacerbação do jingoísmo yankee, com "Deepwater Horizon" a também contar com alguns momentos ultra-patrióticos (a bandeira dos EUA a esvoaçar é um exemplo paradigmático desse gostinho de Peter Berg), embora estejam mais contidos. O cineasta não esconde os seus propósitos, nem prima pela subtileza, com "Deepwater Horizon" a surgir como um filme-desastre que exalta o heroísmo de indivíduos aparentemente comuns (dos EUA), expõe a ganância das grandes empresas capitalistas como a BP, exibe a violência da explosão, tenta agarrar a atenção do espectador e procura pelo caminho homenagear aqueles que faleceram. A homenagem é tépida e pueril. É certo que seria impossível desenvolver a história de cada um dos cento e vinte e seis membros da equipa presente na plataforma, mas "Deepwater Horizon" deixa a sensação de que poderia e deveria ter sido atribuída mais dimensão aos personagens secundários que acabam por falecer (ao todo faleceram onze elementos), com este pouco cuidado na representação das figuras secundárias a contribuir para retirar impacto a alguns acontecimentos representados. Veja-se quando ocorre um sacrifício por parte de um personagem que não teve espaço para "crescer" junto do espectador, algo que resulta numa cena que está longe de provocar o efeito desejado, com Peter Berg a parecer bem intencionado nos seus propósitos, embora nem sempre seja competente a transpor os mesmos para o grande ecrã. No entanto, também é impossível manter a indiferença quando somos colocados diante das fotografias dos falecidos, um pouco antes dos créditos finais do filme, sobretudo quando percebemos que este desastre poderia ter sido evitado. Estas mortes aconteceram na realidade, tal como o desastre, algo que contribui para adensar o impacto dramático de alguns episódios expostos ao longo de "Deepwater Horizon". Peter Berg raramente desenvolve a maioria das figuras secundárias, embora evidencie competência quer a apresentar o protagonista e a relação deste com a família, quer a expor o espaço interior e exterior da plataforma (sobretudo antes de ocorrer a explosão), quer a manter a tensão em volta do enredo (é impossível ficar indiferente à explosão e ao pesadelo que passa diante dos nossos olhos, ainda que quase tudo seja exposto no formato de ficção). O protagonista é Mike Williams (Mark Wahlberg), um técnico-chefe da Transocean, responsável pela parte electrónica e eléctrica da Deepwater Horizon, que responde quer aos membros da BP, quer a Jimmy Harrell (Kurt Russell), o elemento responsável por liderar as operações por parte da equipa da primeira empresa mencionada.

Mark Wahlberg convence como o indivíduo aparentemente comum que se depara com uma situação adversa que o transcende, com o actor a ganhar uma barriguinha saliente, pronta a evidenciar que Mike está longe de ter as condições físicas necessárias para superar as dificuldades com que se depara durante a explosão da plataforma. Wahlberg efectua uma composição competente do personagem, com o actor a convencer quer nas cenas de maior leveza, quer quando Mike é colocado perante situações intensas e violentas, com o protagonista a evidenciar uma coragem indelével. Mike é casado com Felicia (Kate Hudson), de quem tem uma filha, a jovem Sydney (Stella Allen), com a relação do trio a ser pontuada por uma afinidade latente, algo exposto nos momentos iniciais de "Deepwater Horizon". Kate Hudson consegue evidenciar a cumplicidade entre Felicia e Mike, com Peter Berg a expor de forma rápida e eficaz a dinâmica do protagonista com a esposa e a filha. Estes momentos iniciais são essenciais para Peter Berg conseguir que o espectador invista emocionalmente em Mike, até transportar o protagonista para o interior da plataforma, com Mark Wahlberg a compor um personagem que desperta facilmente a nossa simpatia (veja-se as conversas do protagonista com a esposa e a relação do mesmo com a filha). A partida para a plataforma é marcada por alguns planos abertos que nos transmitem quer a dimensão do espaço exterior da Deepwater Horizon, quer o isolamento a que esta se encontra sujeita. A plataforma encontra-se rodeada pelo mar, contando com uma parafernália de tubos e aparelhos que são controlados por uma série de trabalhadores, para além de imensas divisórias prontas a albergarem estes homens e mulheres. Como foi anteriormente mencionado, a plataforma conta com cento e vinte e seis trabalhadores, embora aqueles que mais sobressaiam sejam Mike, Jimmy Harrell, Donald Vidrine (John Malkovich) e Andrea Fleytas (Gina Rodriguez). Andrea é uma trabalhadora da plataforma que conta com uma personalidade simultaneamente forte e frágil, que no último terço é obrigada a ultrapassar os seus medos e a demonstrar uma coragem impressionante, algo transmitido por Gina Rodriguez. Kurt Russell imprime carisma, experiência e firmeza a Jimmy Harrell, o indivíduo responsável por liderar a equipa da Transocean e cuidar da segurança das operações. Harrell encara a profissão com enorme responsabilidade e gere a sua equipa como se estivesse a lidar com a família, uma situação particularmente visível na relação de confiança que mantém com Mike. Os elementos da Transocean têm a responsabilidade de efectuarem a perfuração dos poços de petróleo no subsolo marinho, com a extracção a ser efectuada por outra equipa. Jimmy entra desde logo em conflito com os elementos da BP, em particular, Vidrine, um elemento que não esconde os propósitos de poupar o máximo nas despesas e iniciar os trabalhos o mais rapidamente possível. Malkovich incute um tom muito próprio a Vidrine (será que podemos utilizar o termo "personagem malkovichiano"?), um indivíduo que apresenta as suas ideias de forma muito clara, entrando em choque com Jimmy. As razões para este choque são simples. O cronograma de trabalho foi claramente desrespeitado, com o início da extracção de petróleo a estar completamente atrasado, algo que significa custos acrescidos, enquanto que as medidas pedidas por Jimmy custam mais dinheiro e prometem adiar ainda mais os propósitos da BP. Nesse sentido, medidas como a averiguação do estado do perfil de cimento são descuradas, enquanto que os resultados de um teste de pressão negativa são ignorados, com Vidrine a pedir para que este último seja repetido apenas na linha de estrangulamento. Vidrine interpreta que os números preocupantes do primeiro teste foram provocados devido a um efeito bolha de ar, enquanto Jimmy não parece totalmente convencido desta leitura do seu interlocutor. Esta troca de argumentos entre Vidrine e Jimmy é convincente e intensa, bem como o momento em que Mike expõe junto do primeiro as debilidades da plataforma, parecendo mais ou menos certo que estão a ser criadas as condições para a "tempestade perfeita". Perante o facto dos números na zona de estrangulamento terem sido francamente positivos, Jimmy acaba por aceder às pretensões de Vidrine, ainda que relutantemente, uma decisão que se revela catastrófica, com Peter Berg a expor que este desastre contou com uma mescla de ganância (por parte de elementos da BP) e algumas más opções (como Jimmy aceitar avançar com a operação).

Peter Berg procura exibir a colocação dos testes em prática, bem como alguns trechos dos espaços subaquáticos onde podemos perceber, antes dos personagens, que o desastre se está a aproximar a passos largos. Diga-se que existe todo um cuidado por parte do cineasta em dar a conhecer as tarefas efectuadas pelos elementos que trabalham nesta área, sobretudo no período que antecede o infeliz episódio que ficou marcado na vida destes personagens. Berg tenta ainda que o espectador fique ciente de diversos termos utilizados, tendo em vista a expor a complexidade das operações expostas ao longo de "Deepwater Horizon". Veja-se o caso de termos como lama de perfuração, ou outros já utilizados no texto como teste de pressão negativa, efeito bolha de ar, entre outros. A complexidade e o cuidado inerente a estas operações é exposto de forma relativamente eficaz, tal como os efeitos nocivos de tomadas de decisão menos ponderadas. O barato por vezes sai caro, com as piores previsões de Jimmy a acontecerem. A plataforma começa a ceder e sofre uma explosão violenta que consome gradualmente todos os seus sectores e contribui para a morte de alguns elementos que procuram travar os efeitos nocivos deste desastre e salvarem as suas vidas e as dos seus colegas (diga-se que o número de mortos não atingiu um número mais elevado devido ao espírito de entreajuda de diversos colegas, algo exposto por "Deepwater Horizon"). A destruição é exposta de forma intensa por Peter Berg, enquanto o espectador é colocado diante de momentos inquietantes, onde a vida de tudo e todos está em perigo. A violência é sentida, sendo praticamente impossível ficar indiferente às fortes labaredas de fogo que sobem bem alto e consomem a plataforma e as vidas daqueles que trabalham neste espaço. A plataforma torna-se num espaço infernal, um pesadelo do qual parece ser difícil sair com vida, enquanto o espaço exterior, marcado por um céu nocturno bem negro, é consumido pelas chamas e o fumo, com "Deepwater Horizon" a representar eficazmente o pânico e o desespero sentido pelos membros que se encontravam no local. Nestes momentos de dificuldades acrescidas, Mike sobressai com os seus actos de enorme humanidade e heroísmo, com Peter Berg a exacerbar mais uma vez os feitos do indivíduo comum. No entanto, apesar da intensidade destas cenas pontuadas pela violência, fica sempre a ideia de que tudo ganharia outro impacto se Peter Berg tivesse investido no desenvolvimento de mais personagens secundários. Tudo teria mais impacto. Mais intensidade. Mais relevância. Veja-se o choque provocado pelos ferimentos sofridos pelo personagem interpretado por Kurt Russell. Este choque não só remete para os efeitos convincentes, mas também, para não dizer, sobretudo, pelo facto de Peter Berg ter demonstrado alguma preocupação a desenvolver o personagem junto do espectador, com Kurt Russell a ajudar e muito a tarefa do cineasta. Temos ainda um momento intenso, protagonizado por Mike e Andrea, que ganha mais impacto graças à empatia que foi criada entre estes personagens e o espectador, algo essencial num filme do género. Veja-se ainda a forma pueril como são apresentados os acontecimentos que ocorrem após a explosão e a evacuação, algo que está longe de exprimir as implicações complexas do caso, com Peter Berg a utilizar as célebres frases finais para suprir algumas das lacunas do terceiro acto. O cineasta por vezes parece contentar-se com pouco, tal como a dupla de argumentistas, com "Deepwater Horizon" a contar com material de sobra para ambicionar um nível mais elevado, embora raramente consiga alcançar o impacto dos episódios que retrata. Berg apresenta competência a desenvolver o protagonista e a estabelecer a dinâmica do mesmo com a família, bem como a expor o funcionamento da plataforma e a destruição violenta da mesma, embora tropece na falta de desenvolvimento da maioria dos personagens secundários e na incapacidade de abordar a complexidade que envolveu o período após a destruição da Deepwater Horizon. É certo que "Deepwater Horizon" consegue prender a nossa atenção ao longo da sua duração e expõe a violência da destruição de forma convincente e asfixiante, embora seja impossível deixar de sentir o sabor agridoce de nos deparamos com uma obra cinematográfica que se parece contentar com a mediania quando poderia alcançar um estatuto bem superior.

Título original: "Deepwater Horizon".
Título em Portugal: "Horizonte Profundo - Desastre no Golfo".
Realizador: Peter Berg.
Argumento: Matthew Michael Carnahan e Matthew Sand.
Elenco: Mark Wahlberg, Kurt Russell, Gina Rodriguez, John Malkovich, Kate Hudson.

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