14 setembro 2016

Resenha Crítica: "Captain Fantastic" (Capitão Fantástico)

 Num determinado momento de "Captain Fantastic", a segunda longa-metragem realizada por Matt Ross, encontramos Rellian (Nicholas Hamilton), um dos seis filhos de Ben (Viggo Mortensen), a citar Noam Chomsky, um dos ídolos do progenitor: "If you assume that there is no hope, you guarantee that there will be no hope. If you assume that there is an instinct for freedom, that there are opportunities to change things, then there is a possibility that you can contribute to making a better world". "Captain Fantastic" pode não ter o poder de mudar o Mundo, mas contribui para que este se torne num espaço mais agradável, sobretudo quando o espectador dedica cerca de uma hora e cinquenta minutos da sua vida a apreciar esta obra cinematográfica estranhamente terna, peculiar, sensível, ingénua e melancólica. A citação efectuada por Rellian, um rapaz que conta com cerca de dez anos de idade, não foi obra do acaso, com Ben, o protagonista do filme, a educar os filhos de forma muito própria, uma situação da qual nos podemos aperceber logo nos momentos iniciais de "Captain Fantastic". É no início do filme que ficamos diante de Ben e dos seus seis filhos, Bodevan (George MacKay), Kielyr (Samantha Isler), Vespyr (Annalise Basso), Rellian, Zaja (Shree Crooks) e Nai (Charlie Shotwell), com todos a habitarem numa floresta situada no nordeste do Pacífico, um território afastado dos grandes espaços citadinos, uma decisão tomada pelo primeiro e por Leslie (Trin Miller), a sua esposa. Apesar de nunca terem frequentado uma escola tradicional, os jovens foram ensinados pelos pais com grande rigor e primor, com os rapazes e as raparigas a contarem com horários para aprenderem a caçar, fazerem exercício físico, arrumarem a habitação, tocarem instrumentos musicais e estudarem, com todos a serem estimulados para desenvolverem um pensamento crítico. Nesse sentido, os jovens estão liminarmente proibidos de utilizarem adjectivos vagos na análise a livros, com o termo "interessante" a surgir praticamente como uma palavra maldita, para além de não poderem incluir resumos meramente descritivos, algo que podemos comprovar quando Kielyr fala sobre "Lolita" (é comum encontrarmos os filhos do protagonista a lerem livros que parecem inadequados para as suas idades). Ben pretende que os filhos saibam pensar por si próprios, tenham espírito crítico, questionem os poderes instituídos, dominem diversas línguas e aprendam a sobreviver num mundo recheado de adversidades. É certo que inicialmente o modo de vida destes personagens provoca uma certa estranheza, com Ben a escolher métodos pouco habituais para educar e cuidar dos filhos e prepará-los para o futuro. Veja-se quando encontramos os jovens a caçarem um cervo, com todos a terem sido treinados para eliminarem e eviscerarem animais, tendo em vista a consumirem as presas, com Ben a procurar que os rebentos evitem a superficialidade dos espaços urbanos. Ben e Leslie criaram uma espécie de fortaleza na floresta onde os jovens crescem de acordo com regras muito próprias, embora estejam completamente distantes da vida no espaço citadino, algo que promete ser problemático, sobretudo quando tiverem de se deslocar para fora da sua zona de conforto. Matt Ross tem o mérito de fazer com que acreditemos neste universo narrativo peculiar, naïf e questionador que nos é apresentado, com o cineasta a manter quase sempre um pé na realidade e outro na fantasia, embora os sentimentos e as temáticas abordadas sejam bem reais. Não faltam temas como a paternidade, o luto, os laços familiares, os conflitos entre gerações, o crescimento e educação dos jovens, a necessidade de estimular o espírito crítico, a oposição entre a cidade e um espaço florestal, com Matt Ross a abordar os mesmos de forma muito própria, sempre com algum humor, drama e melancolia à mistura (quase a trazer à memória Wes Anderson, embora com as devidas diferenças - apesar da carrinha do protagonista parecer ter saído de uma obra deste cineasta), enquanto nos transporta para um universo narrativo pontuado por alguma excentricidade e imenso sentimento. "Captain Fantastic" estabelece o quotidiano destes personagens de forma relativamente convincente, com Matt Ross a "vender" bem as suas ideias e a transportar-nos para o interior deste espaço simultaneamente belo e selvagem, onde Ben e a sua família contam com rotinas bem definidas.

 Será possível educar os filhos desta forma? Será possível afastar os jovens dos espaços citadinos? Esta educação é a mais eficaz para preparar os jovens para o futuro? O contacto com o espaço citadino parece inevitável, sobretudo a partir do momento em que Ben e os rebentos recebem a notícia de que Leslie cometeu suicídio. A notícia abala por completo a vida destes sete personagens e o rumo da narrativa, sobretudo quando estes elementos decidem deslocar-se até ao espaço citadino para participarem no funeral e impedirem o enterro da falecida. Leslie não apreciava as grandes instituições religiosas, era budista e deixou em testamento que pretendia ser cremada. Diga-se que Leslie acrescentou ainda que pretendia que as suas cinzas fossem despejadas numa sanita, algo que não é aceite por Jack (Frank Langella) e Abby (Ann Dowd), os pais da falecida. Leslie padecia de distúrbio bipolar, tendo cortado os pulsos, com este acto a abalar por completo o quotidiano destes personagens, com Ben a deparar-se com a situação delicada de ter que educar os filhos por sua conta e risco, enquanto procura cumprir os últimos desejos da esposa. Este é também um filme sobre a paternidade, com um pai a ter de fazer as escolhas consoante aquilo que considera ser melhor para os seus filhos, mesmo que isso implique um desvio em relação aos planos iniciais ou agir de forma que parece inicialmente peculiar ao olhar daqueles que estão de fora. O argumento explora a temática da paternidade com enorme acerto e algumas doses de saudável loucura, com "Captain Fantastic" a deixar-nos diante das dificuldades inerentes a este papel, com Ben a tentar manter a estabilidade do lar, embora não consiga evitar os célebres conflitos entre gerações. De barba farta, um estilo de se vestir peculiar, completamente anti-capitalista, anti-establishment, pouco dado a apreciar os espaços citadinos e as novas tecnologias, Ben é uma figura carismática e inteligente que pensa muitas das vezes estar a fazer o melhor para os seus filhos, embora entre em choque com alguns dos seus rebentos. Os choques entre gerações, bem como entre pais e filhos são temos abordados de forma amiúde em "Captain Fantastic", com Viggo Mortensen a interpretar um pai muito peculiar, que não tem problemas em dizer palavrões à frente dos filhos, colocá-los de forma directa e dura perante as informações relacionadas com a morte da progenitora, ou dialogar com os rebentos sobre assuntos que envolvem relações sexuais, política, religião, alimentação, entre outros exemplos. Viggo Mortensen tem uma interpretação de nível elevado como Ben, com o actor a transmitir credibilidade, sinceridade e emotividade como este personagem que se rege por valores muito próprios. Diga-se que o actor está num dos planos mais marcantes do filme, em particular, quando as lágrimas de tristeza de Ben se reúnem com as longas fileiras de água que escorrem numa cascata. Ficamos diante da união entre o Homem e a natureza, entre as lágrimas de tristeza e uma correnteza, com o trabalho de Stéphane Fontaine na cinematografia a contar com um momento de fino recorte. A própria exposição inicial do território, como um espaço recheado de árvores verdejantes e um ambiente aparentemente paradisíaco, permite que o espectador perceba algumas das razões para Ben e a esposa se terem apaixonado por este local. Essa relação entre Ben e a natureza é temporariamente quebrada quando este e os filhos decidem viajar até ao Novo México, o território onde vai decorrer o funeral de Leslie. Ben e os seus filhos iniciam uma jornada até ao Novo México, enquanto ficamos a conhecer um pouco mais sobre a personalidade destes personagens, bem como aquilo que os une e separa. Diga-se que esta viagem atribui características de road movie a "Captain Fantastic", com os personagens a efectuarem paragens por diversos locais, tais como um supermercado onde roubam comida, um restaurante onde Ben exibe o seu desprezo para com a comida fast-food e descreve a Coca-Cola como "água tóxica", visitam Harper (Kathryn Hahn) e Dave (Steve Zahn), passam algum tempo num parque de campismo, até chegarem ao funeral, bem como à habitação dos sogros de Ben. A viagem conta com alguns percalços, feridas no corpo e na alma, imensas peripécias e situações que prometem marcar os personagens principais, com Matt Ross a aproveitar para expor as dicotomias entre o espaço citadino e o florestal, para além de desenvolver o choque dos filhos de Ben com a nova realidade.

 Os momentos na casa de Harper e Dave, a irmã e o cunhado do protagonista, permitem expor desde logo essas dicotomias, com os filhos de Ben a exibirem um enorme saber enciclopédico, embora pouco ou nada saibam sobre os produtos que estão na moda ou associados à cultura de massas (veja-se quando não sabem o que é a Nike ou a Adidas). Os filhos de Harper e Dave parecem mais superficiais e desinteressados em relação à vida política, social e cultural do país, mas os rebentos de Ben pouco ou nada sabem sobre o funcionamento dos espaços urbanos ou aquilo que é necessário para manter uma conversa mais leve. Apesar de procurar fugir a maniqueísmos na exposição dos prós e contras dos diferentes modos de vida e educação, Matt Ross deixa sempre em evidência que parece existir uma certa artificialidade no espaço citadino. A violência de uma escalada na montanha é trocada por um jogo de computador ultra-violento, a pureza da comida efectuada na floresta contrasta com a artificialidade da ida a um restaurante, entre outros exemplos. No entanto, os filhos de Ben, sobretudo Bodevan e Rellian, percebem que a sua educação foi deficitária. Veja-se quando Bodevan tenta conversar com uma jovem da sua idade (Erin Moriarty) e o diálogo revela-se um momento completamente desastroso, com o primeiro a não saber conviver com jovens da sua idade, conhecendo apenas aquilo que aprendeu nos livros. O problema não está apenas no jovem, ou a sua interlocutora não revelasse uma falta de conhecimento notória, embora o momento entre Bodevan e a personagem interpretada por Erin Moriarty ganhe características simultaneamente cómicas, trágicas e caricatas. A maioridade de Bodevan foi comemorada com um ritual que envolveu o consumo do coração de um cervo, algo que evidencia a estranheza do quotidiano destes personagens quando se encontram na floresta, mas também o ideal de vida que Ben preconizou para a sua família, com o primeiro a admirar o progenitor, apesar de começar a questionar os métodos de educação do mesmo. Bodevan não é o único filho de Ben e Leslie a questionar a educação proporcionada pelos progenitores. Rellian assume uma postura arisca e agressiva, com o jovem rapaz a culpar o pai pela morte da mãe e a expor por diversas vezes que pretende um estilo de vida "normal". Diga-se que Rellian é uma surpresa desde o início, seja quando encontramos o jovem a ler "Os Irmãos Karamazov", ou a disparar palavrões com uma faca na mão. Aos poucos, as virtudes e defeitos da educação preconizada por Ben surgem ao de cima, sobretudo quando este contacta com os sogros, com Jack a não ter problemas em criticar o modo de vida do genro. Frank Langella é mais um dos actores do elenco secundário que tem espaço para compor um personagem com alguma relevância e pertinência, com Jack a aparecer como uma figura conservadora que pretende ficar com a guarda dos netos. As expressões do rosto de Frank Langella e a colocação de voz do actor surgem como argumentos suficientes para Jack surgir como um personagem que tanto pode apresentar uma postura ponderada como exibir um lado menos agradável, algo notório quando ameaça o protagonista. Ben teme perder a guarda dos filhos, embora, a partir de um determinado momento de "Captain Fantastic", comece a colocar em causa as suas ideias para a educação dos mesmos. Viggo Mortensen transmite essas dúvidas, com o momento em que Ben corta a barba a parecer trazer um peso muito próprio (a fazer recordar a cena em que o personagem interpretado por Owen Wilson retira as ligaduras em "The Darjeeling Limited" - perdoem mais uma referência a Wes Anderson). O corte da barba parece simbolizar um corte com o passado, embora isso pareça uma tarefa quase impossível de acontecer. Ben é um indivíduo peculiar e carismático, que não tem problemas em travar um funeral, ou comemorar a existência de Noam Chomsky ao invés de celebrar o Natal. Esta celebração da existência de Noam Chomsky remete para o modo de vida de Ben e para o seu estilo anti-autoridade, com o protagonista a evitar ser engolido pela superficialidade e pelo consumismo que a espaços marcam a nossa sociedade, algo que tenta transmitir para os filhos. Os rebentos de Ben contam com idades distintas, com Bodevan a ser o mais velho, enquanto Nai é o mais novo, com todos a contarem com características muito próprias, algo adensado pelo guarda-roupa.

 O trabalho de Courtney Hoffman na selecção do guarda-roupa é merecedor de toda uma panóplia de elogios. Veja-se o fato vermelho que Ben utiliza quando aparece no funeral da esposa, algo que atribui todo um impacto acrescido à sua entrada no evento (a própria utilização do fato remete ainda para uma fotografia na casa do protagonista onde podemos perceber que este utilizou a mesma fatiota quando contraiu matrimónio com Leslie), ou as roupas dos rebentos do protagonista, com Zaja a encontrar-se quase sempre acompanhada por uma pele de animal a cobrir a parte superior da cabeça. As roupas de Zaja adequam-se praticamente na perfeição à atmosfera peculiar do filme, com Ben e a sua família a viverem num mundo muito próprio que aos poucos é dado a conhecer ao espectador e àqueles que os rodeiam. A atmosfera do filme, simultaneamente cómica e dramática, quase que poderia ser descrita a partir do cover de "Sweet Child of Mine", com este a começar de forma melancólica, até ganhar um tom mais alegre e emotivo, enquanto ficamos diante de um dos momentos de maior impacto de "Captain Fantastic". A dor provocada por uma perda é sempre difícil de superar, bem como os cortes abruptos com o passado, mesmo quando percebemos que algumas mudanças são necessárias, com esse crescimento a ser feito à base de episódios positivos e negativos. Os personagens de "Captain Fantastic" começam a perceber que esse crescimento vem acompanhado por alguns episódios dolorosos, ou decisões difíceis. Veja-se o caso de Bodevan, com este a ter de optar entre ficar com os familiares ou ir para a universidade, ou escolher outro rumo para a sua vida, com o jovem adulto a perceber que precisa de aplicar o seu saber a lidar no dia-a-dia com outras pessoas que não sejam elementos da sua família. Temos ainda casos como Nai, um jovem inocente que apresenta uma expressividade desarmante e uma curiosidade que é capaz de despertar um sorriso ao mais sisudo dos espectadores (Charlie Shotwell é uma agradável surpresa). A juntar a tudo isto, "Captain Fantastic" coloca-nos ainda diante da complicada questão: qual o melhor método para educar um filho? Ben e Leslie escolheram um caminho, enquanto Harper e Dave seleccionaram outro, embora os dois métodos distintos de educar os filhos estejam longe de se encontrarem livres de defeitos e virtudes. Educar um filho é uma tarefa complicada, com parte do futuro dos rebentos a estar em jogo, algo que Ben percebe, com o protagonista a procurar que os descendentes estejam aptos para enfrentarem o maior dos desafios: a vida adulta. Diga-se que a ideia do argumento para o filme partiu de uma pergunta que Matt Ross colocou a si próprio: “Am I being a good parent?”. Ou seja, o cineasta partiu das suas dúvidas interiores, até criar uma narrativa que nos coloca diante de um pai que criou uma espécie de "paraíso" para viver e educar os filhos, com o filme a assumir um tom tragicómico quando estes entram em contacto com os espaços citadinos. Diga-se que é praticamente impossível olharmos para estes personagens e não pensarmos que os ideais de Ben têm alguma razão de ser, com este personagem a surgir muitas das vezes como um incorformado que estimula os filhos a aprenderem, a pensarem por si próprios, a terem espírito crítico e a desafiarem o poder instituído (o lema desta família parece ser: "O povo é quem mais ordena, que se dane a autoridade"). Ficamos diante de um universo narrativo muito peculiar, onde a existência de Noam Chomsky é celebrada, a imaginação e o espírito crítico são elogiados e estimulados, bem como os laços familiares, com Matt Ross a deixar-nos perante uma família peculiar que conquista merecidamente a nossa atenção. Ben e Leslie procuraram escolher nomes únicos para os seus filhos, com mais ninguém no Mundo a ser chamado de Bodevan, Kielyr, Vespyr, Rellian, Zaja e Nai. Os nomes podem parecer estranhos, tal como diversos momentos do filme, mas as relações destes personagens, os seus comportamentos e características, bem como os seus dilemas e ansiedades fazem que estes surjam como figuras plenas de humanidade, com Matt Ross a realizar uma obra cinematográfica estranha, estimulante e de grande sensibilidade.

Título original: "Captain Fantastic".
Título em Portugal: "Capitão Fantástico".
Realizador: Matt Ross.
Argumento: Matt Ross.
Elenco: Viggo Mortensen, George MacKay, Annalise Basso, Nicholas Hamilton, Samantha Isler, Shree Crooks, Charlie Shotwell, Frank Langella, Kathryn Hahn, Steve Zahn, Ann Dowd, Erin Moriarty.

Sem comentários: