02 agosto 2016

Resenha Crítica: "The Postman Always Rings Twice" (1946)

 A loira fatal, tão frágil e ao mesmo tempo tão sedutora. O tipo imoral, que é seduzido, tenta seduzir e deixa-se levar pelo destino e pela femme fatale, procurando despertar a atenção da mesma. As sombras que envolvem os cenários e as almas. O fumo dos cigarros que desaparece com tanta facilidade como a felicidade ou os valores morais de alguns personagens. A atmosfera de malaise. Os personagens de carácter ambíguo. O crime, as reviravoltas e as traições. A narração do protagonista na primeira pessoa a expor o seu estado de espírito. O desejo que se acerca da alma e parece inebriar os sentidos. Tudo isto está presente em "The Postman Always Rings Twice", uma obra cinematográfica realizada por Tay Garnett, tendo como base o livro homónimo da autoria de James M. Cain, com o cineasta a brindar o espectador com um filme noir magnífico que conta com diversas características deste subgénero, algo assinalado nos exemplos mencionados no início do texto. O destino dos personagens principais não é o melhor, nem esperaríamos outra coisa, ou estes não se envolvessem por caminhos labirínticos onde a imoralidade e o medo começam a consumir as suas almas. A cinematografia é sublime, bem como a banda sonora e até o guarda-roupa, com a personagem interpretada por Lana Turner a tanto surgir com vestes brancas que lhe dão um falso ar de loira angelical como aparece de vestimentas negras no último terço, algo que praticamente nos leva a conseguir prever o seu destino e o seu estado de alma. Tay Garnett seduz-nos para o interior deste universo narrativo negro, consegue que partilhemos a imoralidade da sua dupla de protagonistas e os seus medos, faz com que sejamos seduzidos por Lana Turner e compelidos a acreditar que a personagem que esta interpreta também foi seduzida. Turner dá vida a Cora Smith, a femme fatale, uma mulher que se encontra presa a um casamento sem amor com Nick (Cecil Kellaway), um indivíduo mais velho do que a protagonista. Nick sabia que esta não se encontrava apaixonada, embora essa situação não o tenha impedido de contrair matrimónio com a loira sensual, misteriosa e ambiciosa. É fácil perceber as razões para Cora conseguir encantar Nick, com Lana Turner a atribuir características de femme fatale à personagem que interpreta. O seu olhar é hipnotizador e magnético. A sua beleza é visível ao olhar da maioria dos homens, com as suas vestes a contribuírem para adensar todo o encanto que desperta nas figuras masculinas. Inicialmente surge de roupas brancas (o que não deixe de ser irónico, já que transmite uma falsa ideia de pureza), mais tarde estará de luto, com as tonalidades negras a surgirem como um indicador que permite prever o destino de Cora. Se esta é uma mulher sem grandes escrúpulos, já Nick, o seu esposo, é um indivíduo de personalidade afável, algo castiço, beberrão, sempre pronto a cortar nas despesas a não ser que estas sejam para o bem estar de Cora. Nick é um indivíduo pouco ambicioso, que evita arriscar nos seus negócios, um restaurante e um posto de gasolina, embora a contratação de Frank Chambers (John Garfield) traga toda uma dose de intrigas e traições para o seio da sua habitação, um espaço situado no interior do local de trabalho. O personagem interpretado por John Garfield é um indivíduo sem grandes objectivos de vida, que anda de local em local, sem se estabelecer muito tempo num emprego, pelo menos até se deparar com Cora.

 Frank não encara o anúncio de emprego do restaurante de Nick com seriedade, pese a simpatia do dono do estabelecimento. No entanto, quando observa um rolo de batom a ir em sua direcção, Frank logo olha com atenção para o local de onde surgiu este objecto. A câmara aproxima-se das pernas de Cora, a face de espanto de Frank é exposta, até a personagem interpretada por Lana Turner ser exibida pela primeira vez em corpo inteiro. Deslumbra o protagonista e o espectador, preparando-se para fazer com que o primeiro fique com "a cabeça à roda". A banda sonora, o trabalho de montagem e a cinematografia contribuem para incrementar este momento de enorme impacto onde Cora e Frank evidenciam ter sentido uma atracção mútua. Cora surge com uma touca ou toalha a tapar os seus belos e cuidados cabelos loiros, uma camisola atada que lhe permite ter a barriga destapada e uns calções deveras curtinhos. Frank pega no rolo do batom e entrega a Cora. A iluminação proveniente dos estores não engana, Frank já está preso a esta mulher e ainda nem sabe da "missa a metade". A loira vai dar a volta à cabeça deste indivíduo, enquanto o personagem interpretado por John Garfield também procura seduzi-la, com ambos a parecerem "farinha do mesmo saco", protagonizando um perigoso jogo de sedução onde é notório que não conseguem ficar indiferentes à presença um do outro. O close-up no rosto de Lana Turner, no momento em que Cora se depara com Frank pela primeira vez, permite transmitir imenso sobre esta personagem que tanto tem de frágil como de sedutora e maliciosa, com a actriz a ter uma interpretação sublime como esta mulher que decide tomar medidas drásticas para se livrar do marido. A dinâmica entre John Garfield e Lana Turner é assinalável (consta que na vida real também tiveram um affair), com ambos a contribuírem para nos convencerem em relação à atracção mútua que é sentida pelos personagens que interpretam, duas figuras hábeis na arte da sedução e dissimulação. John Garfield atribui um estilo meio durão a Frank, típico dos protagonistas dos filmes noir, embora, tal como estes, seja facilmente seduzido pela femme fatale, apesar de também procurar despertar o interesse desta. A relação entre Cora e Frank mescla o mais puro dos venenos com o mais fervilhante dos desejos, com os instintos primitivos a parecerem levar muitas das vezes a melhor sobre a racionalidade, com o argumento de Harry Ruskin e Niven Busch (marcado por falas típicas dos noir) a explorar esta situação de forma exímia. Cora procura desprezar Frank, embora não consiga ficar indiferente em relação a este indivíduo. Frank procura inicialmente controlar-se, embora o esforço não seja muito, surgindo como um indivíduo bem falante, capaz de vender facilmente a "banha da cobra", roubando um beijo a Cora pouco tempo depois de a conhecer. No meio destes dois surge Nick, o esposo de Cora e dono deste restaurante e gasolineira, um indivíduo que sabe que a esposa contraiu matrimónio devido a interesse, embora procure zelar pelo bem estar desta. Cecil Kellaway consegue fazer com que Nick desperte a nossa simpatia, com o actor a contar com uma interpretação eficaz como este indivíduo demasiado compreensivo, embora o intérprete seja quase sempre abafado pelas chamas emanadas por John Garfield e Lana Turner, com a dupla a incendiar o ecrã como este casal explosivo. Ele é impulsivo, decidido e não conta com grandes objectivos profissionais, com o seu maior plano para o imediato a passar sobretudo por conseguir conquistar Cora. Ela é ambiciosa, quer mandar no restaurante e ser a dona do mesmo, embora também ceda ao desejo, apesar de não ter problemas em travar uma fuga por não querer viver na incerteza. Quando estão na praia, durante a noite, Frank e Cora parecem soltar alguns dos seus sentimentos, com o regresso a casa a ser marcado por mais um beijo e a certeza que o interesse é mútuo. O avançar da relação entre Frank e Cora conduz a que esta resolva pensar num plano para eliminar o esposo, uma situação que promete trazer problemas a ambos os personagens, com as consequências deste acto a incitar uma divisão entre o casal adúltero.

Não vão faltar ainda elementos de filme de tribunal a "The Postman Always Rings Twice", algo que permite a personagens como Kyle Sackett (Leon Ames), o promotor do Ministério Público, e Arthur Keats (Hume Cronyn), o advogado de Cora, sobressaírem. Sackett é um indivíduo aparentemente sagaz e duro, que suspeita dos protagonistas desde a primeira tentativa, ainda que falhada, de assassinato a Nick. Keats é um advogado que se insere na perfeição no meio da imoralidade que rodeia o enredo, com Hume Cronyn a conceder a este personagem uma safadeza típica de alguém que é inteligente o suficiente para saber as leis ao pormenor para contornar as mesmas e utilizá-las com a minúcia de um jogador de xadrez. Tay Garnett explora este universo narrativo negro com enorme minúcia e atenção aos pormenores. Desde o desenvolvimento da tensão sexual entre Frank e Cora, passando pela inquietação em volta da tentativa de assassinato, até ao último terço onde a atmosfera de malaise toma conta de todos os poros do filme, tudo parece funcionar, com o cineasta a alicerçar-se ainda no magnífico trabalho de Sidney Wagner na cinematografia. Os close-ups são aproveitados e arquitectados de forma exímia, o jogo entre luz e sombras é utilizado com enorme simbolismo e sapiência, com tudo a parecer funcionar de forma imaculada ao longo desta obra cinematográfica onde o destino tem um papel importante e os actos dos seres humanos nem sempre são os mais recomendáveis. A atmosfera é muitas das vezes tensa, tal como o jogo de sedução entre Frank e Cora, com John Garfield e Lana Turner a atribuírem credibilidade aos actos dos personagens que interpretam, com esta jogatana com os sentimentos a desembocar numa teia de crimes e mentiras. Frank passa a viver na casa de Cora e Nick, situada no interior do restaurante, parecendo formar amizade com este último embora esteja é interessado na esposa do seu patrão. A espaços a relação entre Frank e Cora traz à memória o enredo de "Double Indemnity" (também inspirado num livro de James M. Cain), onde a protagonista também procurou convencer Walter Neff (Fred MacMurray), o amante, a eliminar o esposo, numa obra onde também não faltam traições, a femme fatale, a utilização do chiaroscuro, entre outros elementos associados aos noir. A tensão também faz parte da narrativa de "The Postman Always Rings Twice", seja devido à preparação de um assassinato, ou à atmosfera associada a um julgamento, ou inerente a um gato que sobe umas escadas no pior dos momentos, com Tay Garnett a conseguir inquietar-nos em alguns trechos desta magnífica obra cinematográfica. Com um enredo tão sedutor como a personagem interpretada por Lana Turner, "The Postman Always Rings Twice" prende-nos a este universo narrativo negro, marcado por mentiras, traições, mortes, actos imorais, sedução e uma atmosfera de malaise tão típica deste subgénero, com Tay Garnett a realizar um dos bons exemplares do mesmo.

Título original: "The Postman Always Rings Twice".
Título em Portugal: "O Destino Bate à Porta".
Realizador: Tay Garnett.
Argumento: Harry Ruskin e Niven Busch.
Elenco: Lana Turner, John Garfield, Cecil Kellaway, Hume Cronyn.

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