01 agosto 2016

Resenha Crítica: "The Man Who Wasn't There" (O Barbeiro)

 Quase sempre acompanhado pelo seu cigarro, pouco dado a grandes diálogos ou demonstrações de afecto, Ed Crane (Billy Bob Thornton), o protagonista de "The Man Who Wasn't There" é um barbeiro lacónico e fumador, que trabalha para Frank (Michael Badalucco), o seu cunhado, um indivíduo que fala pelos cotovelos. A barbearia onde Frank e Ed trabalham é um espaço de proporções relativamente diminutas, embora seja frequentada por uma miríade de clientes, com o segundo a demonstrar logo no início do filme que domina o seu ofício de forma quase mecânica e impecável. Veja-se quando Ed exibe os cortes de cabelo mais pedidos pelos clientes, num momento que tanto tem de cómico como de deprimente, ou o protagonista não contasse com um quotidiano aparentemente desprovido de interesse. Ed é casado com Doris (Frances McDormand), a contabilista da Nirdlingers, uma loja que vende perfumes, meias, maquilhagem, bem como outros produtos do género, com o matrimónio deste casal a ser marcado por alguma frieza e poucas demonstrações de afecto. Essa frieza é visível quando Ed descreve alguns episódios do dia-a-dia com a esposa, com a relação entre ambos a ser marcada sobretudo pela comodidade e pelo facto dos cônjuges não se chatearem muito um com o outro. Doris mantém um affair com Dave Brewster (James Gandolfini), o seu chefe, um indivíduo que é casado com Ann Nirdlinger Brewster (Katherine Borowitz), uma figura feminina relativamente apática, que não desconfia que se encontra a ser traída e acredita na existência de extraterrestres. Se Ed é um indivíduo lacónico e aparentemente passivo, já Dave aparece como uma figura completamente dicotómica do barbeiro, com James Gandolfini a compor um personagem extrovertido e gabarola, que gosta de contar piadas e dialogar sobre o seu passado como militar. A loja de Dave pertence a Ann, com o primeiro e Doris a procurarem esconder o affair de tudo e todos, embora Ed descubra a traição, algo que expõe junto do espectador, apesar de inicialmente não efectuar nada para resolver o caso. Billy Bob Thornton incute um estilo letárgico a Ed (algo que consegue expor nas suas expressões faciais, bem como na forma de dialogar), o protagonista e narrador de serviço de "The Man Who Wasn't There", com o actor a interpretar um personagem aparentemente pouco dado a aventuras, pelo menos até aparecer um cliente com uma proposta que parece simultaneamente disparatada e sedutora. O cliente é Creighton Tolliver (Jon Polito), um empresário bastante falador, que procura convencer alguém a investir dez mil dólares num negócio relacionado com a lavagem a seco. Tolliver pretende constituir uma sociedade para abrir uma lavandaria especializada na lavagem a seco, considerando que este negócio é o futuro, enquanto Ed ouve a proposta com alguma atenção, embora inicialmente encare a mesma como uma tentativa de venda da banha da cobra. No entanto, Ed decide arriscar e compromete-se a investir os dez mil dólares, com o protagonista a encetar um plano rocambolesco para obter essa quantia. Ed envia uma carta anónima a Dave, tendo em vista a tentar extorquir este último, ameaçando revelar a Ann que o empresário mantém um affair com Doris. Dave fica desesperado e acaba por ceder a quantia, enquanto Ed pensa ter efectuado o plano aparentemente perfeito, com o protagonista a revelar um apreço pela obtenção de dinheiro fácil que é muito típico dos filmes dos irmãos Coen.

"The Man Who Wasn't There" conta com diversos ingredientes dos filmes noir e de conspiração, bem como de thrillers, com os irmãos Coen utilizarem esses componentes de forma muito própria, com a obra cinematográfica em análise a possuir vários elementos transversais aos trabalhos da dupla. Não faltam as traições, a busca pelo dinheiro fácil, um argumento aprumado, a violência, o narrador a expor alguns dos acontecimentos ou o seu estado de espírito em voice-over (de forma bastante pormenorizada), a utilização exímia da banda sonora (novamente a cargo de Carter Burwell), os apelidos estranhos, o destino a imiscuir-se de forma inexorável no quotidiano dos personagens, o estilo de humor muito peculiar, a atenção aos pormenores, um protagonista aparentemente comum que se envolve em situações intrincadas, entre outros exemplos. Temos ainda a procura dos irmãos Coen em abordarem situações muito específicas de territórios e gentes dos EUA, com "The Man Who Wasn't There" a desenrolar-se em 1949, na cidade de Santa Rosa na Califórnia, com a dupla a abordar alguns elementos inerentes a este período (não falta inclusive uma menção ao facto dos russos terem explodido uma bomba nuclear), bem como das obras cinematográficas lançadas nesta década e na seguinte. Veja-se o guarda-roupa de Doris, ou os cigarros utilizados por Ed (Chesterfield, como se fossem da época), ou a decoração da habitação do casal, com Joel e Ethan Coen a exibirem todo um cuidado na representação da época. Diga-se que existe todo um cuidado colocado na decoração dos cenários interiores, com a barbearia onde Ed e Frank trabalham a ser um exemplo paradigmático dessa situação. Este é um espaço que conta com jornais e revistas, diversas cadeiras para os clientes se sentarem enquanto esperam, dois espelhos, imensos pincéis, pentes, tesouras, ventoinhas, algo que atribui credibilidade ao local de trabalho de Ed e ao seu quotidiano a cortar o cabelo de estranhos. Ed tenta manter uma distância notória dos clientes, enquanto Frank apresenta sempre um estilo falador, com ambos a contarem com estilos antagónicos a exercerem o seu ofício no interior desta barbearia, com os irmãos Coen a concederem um tom credível aos episódios protagonizados neste espaço. Não faltam ainda alguns momentos de humor no interior da barbearia, algo notório quando Ed tenta cortar o cabelo de Tolliver, enquanto este último não pára quieto, dialogando de forma demasiado entusiasmada, algo que parece desagradar ao protagonista (as expressões que Billy Bob Thornton incute ao barbeiro conduzem a que muitas das vezes apenas nos apercebamos do estado de espírito do protagonista quando este aborda as situações em voice-over). Quase todos os personagens de "The Man Who Wasn´t There" parecem contar com um gostinho especial para dialogar, algo que a espaços irrita Ed, com Billy Bob Thornton a interpretar um indivíduo preciso e conciso na hora de falar, que traz à memória os protagonistas dos filmes noir. A influência dos filmes noir é latente, algo que vai desde a utilização exímia do chiaroscuro, a fotografia a preto e branco, a escolha de ângulos inusitados e a narração em off por parte do personagem principal, passando pelas figuras de carácter ambíguo e fumadoras, até à personalidade do protagonista e à atmosfera de malaise. Fumador, lacónico, moralmente ambíguo, com uma relação complicada com as mulheres e propenso a envolver-se em confusões, Ed permite que Billy Bob Thornton sobressaia no interior desta narrativa povoada por uma miríade de personagens, com o actor a deixar transparecer o estilo letárgico do elemento que interpreta, enquanto expõe as falas com uma subtileza latente. Veja-se quando encontramos Ed a apresentar uma calma surpreendente quando escuta Dave a evidenciar a sua preocupação devido ao facto de alguém pretender extorqui-lo, com o empresário a desconfiar de Tolliver, um indivíduo que outrora contactara o personagem interpretado por James Gandolfini, ou a impassibilidade do protagonista perante as notícias menos agradáveis sobre a sua esposa. Frances McDormand, uma colaboradora habitual dos irmãos Coen (esposa de Joel Coen), insere-se praticamente na perfeição no interior dos universos narrativos criados pela dupla, com a actriz a incutir um estilo aparentemente distante a esta personagem que mantém um affair com o seu chefe e conta com problemas relacionados com o consumo excessivo de álcool. Doris aprecia jogar bingo, um hobbie que pratica com regularidade, contando muitas das vezes com a companhia de Ed, embora este não seja um entusiasta do jogo, com o casal a raramente parecer estar em sintonia.

A personagem interpretada por Frances McDormand sempre foi bastante meticulosa no cumprimento do seu trabalho, embora um pedido de Dave conduza Doris a contribuir para um desfalque na firma, com este acto a trazer consequências intrincadas para esta mulher, sobretudo quando ocorre um assassinato. A narrativa de "The Man Who Wasn't There" sofre uma série de reviravoltas, com os irmãos Coen a aproveitarem essa situação para surpreenderem o espectador em relação ao rumo do enredo e introduzirem uma série de personagens secundários que têm oportunidade para se evidenciarem ao longo do filme. Veja-se o caso de Rachel (Scarlett Johansson), uma adolescente com algum talento para tocar piano, que surge como uma espécie de "Lolita" que desperta a atenção do protagonista. Scarlett Johansson incute um tom aparentemente ingénuo à personagem que interpreta, enquanto Ed parece ter sentimentos ambíguos em relação a esta jovem. Diga-se que algumas das poucas demonstrações de entusiasmo de Ed acontecem quando o barbeiro se encontra junto desta jovem, uma situação que percebemos de forma paradigmática quando este resolve transportar Rachel para ser avaliada por um conceituado professor de piano. Ed aprecia ouvir a jovem a tocar piano, em particular, as sonatas de Beethoven, com as músicas tocadas neste instrumento musical a pontuarem por diversas vezes o enredo de "The Man Who Wasn't There". Rachel é filha de Walter Abundas (Richard Jenkins), um indivíduo de personalidade calma, que é amigo de Ed. Walter aconselha o barbeiro a procurar um bom advogado para que o protagonista prepare a defesa de uma personagem relevante, algo que proporciona mais um momento mordaz por parte dos irmãos Coen, com Ed a seleccionar um elemento disposto a quase tudo para vencer. O advogado seleccionado é Freddy Riedenschneider (Tony Shalhoub), um profissional conhecido por receber honorários elevados e contar com uma conduta nem sempre recomendável, com Tony Shalhoub a incutir um tom excessivamente confiante e arrogante a este personagem. Diga-se que quase todos os personagens de "The Man Who Wasn't There" não apresentam problemas em dialogar, com excepção do protagonista, algo que é aproveitado pelos irmãos Coen, com estes a explorarem o contraste entre Ed e as figuras que o rodeiam. Veja-se quando Creighton Tolliver procura insinuar-se sexualmente junto de Ed, com este último a apresentar um tom completamente lacónico, mantendo a mesma expressão durante algum tempo, até salientar que o primeiro ultrapassou as marcas. Os timings dos momentos de humor são bem geridos, com um diálogo demasiado pormenorizado, ou a atenção a situações extremamente específicas (os penteados expostos em série, a roda de um carro a girar, a câmara "presa" ao protagonista durante uns segundos para expor o seu desconforto), ou a interacção entre os personagens, a contribuírem para alguns trechos mais leves, com os irmãos Coen a controlarem estas situações de forma exímia. A dupla de realizadores e argumentistas demonstra também uma atenção notória aos pormenores, seja Ed a depilar a esposa, ou o cabelo a ser cortado quando um cliente se mexe em demasia, ou o estilo simpático mas fanfarrão de Dave, ou a infantilidade de Frank, com os detalhes a ganharem uma relevância enorme no interior da narrativa, contribuindo e muito para atribuir dimensão e características muito específicas a diversos personagens.

 Um dos personagens secundários que conta com características muito próprias é Riedenschneider, um advogado que divaga com facilidade, aprecia boa comida e gosta de desfrutar de certos luxos, com Tony Shalhoub a ter espaço para sobressair ao longo de momentos muito específicos do filme. Por sua vez, Michael Badalucco incute um estilo simultaneamente bem intencionado e infantil a Frank, com o actor a transmitir a personalidade extrovertida deste personagem que tanto é capaz de montar um porco e participar num concurso de comida de tartes que decorre numa festa familiar como demonstra um espírito de sacrifício enorme para ajudar Doris, a sua irmã. Outro dos elementos do elenco secundário que tem espaço para sobressair é Jon Polito como um empresário que coloca o capachinho quando é necessário falar de negócios, que procura um sócio "silencioso", ou seja, que invista o dinheiro e não se imiscua em demasia na empresa, com o actor a incutir um tom pouco confiável a este personagem que fala imenso e outrora tentou fazer negócios com Dave. Não podemos ainda deixar de realçar Katherine Borowitz, com a actriz a interpretar uma figura paranóica em relação à presença dos extraterrestres e às teorias da conspiração sobre os mesmos, com estes elementos ligados ao paranormal a marcarem alguns trechos da narrativa, algo que contribui para conceder um tom meio surreal a determinados momentos de "The Man Who Wasn't There". No final, o grande destaque vai para Billy Bob Thornton, com o actor a imprimir um estilo fatalista ao personagem que interpreta, um barbeiro pouco falador, moralmente ambíguo, que se envolve em situações deveras intrincadas e tem de lidar com uma série de reviravoltas na sua vida. Ao longo do filme, o fumo dos cigarros tragados por Ed parece contaminar os cenários e os estados de alma. O fumo emanado pelos cigarros remete para a fugacidade da vida de diversos personagens, bem como para o quotidiano aparentemente banal do protagonista, enquanto "The Man Who Whasn't There" surge como um exemplo paradigmático da criatividade dos Coen, com estes a conseguirem mesclar assertivamente vários elementos de diversos géneros e subgéneros cinematográficos e reuni-los num filme com um tom que muito tem da dupla.

Título original: "The Man Who Wasn't There".
Título em Portugal: "O Barbeiro".
Título no Brasil: "O Homem que Não Estava Lá".
Realizador: Joel Coen e Ethan Coen.
Argumento: Joel Coen e Ethan Coen.
Elenco: Billy Bob Thornton, Frances McDormand, James Gandolfini, Jon Polito, Michael Badalucco, Tony Shalhoub, Scarlett Johansson, Katherine Borowitz, Richard Jenkins.

Sem comentários: