03 agosto 2016

Resenha Crítica: "Fargo" (1996)

  Realizado com enorme mestria, criatividade e classe pelos irmãos Coen, "Fargo" coloca-nos diante de um rapto rocambolesco e uma investigação peculiar, sempre com algum humor negro e violência à mistura. Os cenários pontuados pela neve transmitem uma certa frieza e exacerbam as características inóspitas de alguns locais onde se desenrola o enredo, embora "Fargo" seja um filme que desperta os sentimentos mais quentes, enquanto nos deleita com alguns elementos típicos das obras cinematográficas realizadas por Joel e Ethan Coen. Não falta um rapto, os personagens que procuram obter dinheiro fácil, o papel relevante do destino, os diálogos bem escritos, um sentido de humor afiado, a capacidade de Joel e Ethan Coen conseguirem extrair boas interpretações por parte do elenco principal, a procura de explorar espaços muito próprios dos EUA, os nomes bizarros, a violência, entre outros exemplos. Um desses personagens com nomes peculiares é Jerry Lundegaard (William H. Macy), um vendedor de automóveis aparentemente panhonha, algo trapalhão e pouco competente no cumprimento das actividades em que se envolve. Jerry orquestra um plano para raptarem a sua esposa, tendo em vista a dividir a verba do resgate com os criminosos que contratou para efectuarem essa tarefa, embora tudo fuja rapidamente do seu controlo. O verdadeiro alvo de Jerry é Wade Gustafson (Harve Presnell), o seu sogro, um empresário financeiramente abastado e poderoso, com o protagonista a tentar extorquir o familiar a todo o custo, mesmo que isso implique simular o rapto da esposa. Jean Lundegaard, a esposa de Jerry, não tem conhecimento do plano do marido, com Kristin Rudrüd a incutir um tom apagado e ingénuo a esta dona de casa que dedica boa parte do seu tempo ao esposo e ao filho. Se William H. Macy introduz um tom aparentemente confiável a Jerry, que aos poucos se desfaz quando este comete actos como planear o rapto da esposa, enganar clientes e efectuar uma fraude, já Harve Presnell não tem problemas em assumir com gosto a personalidade rude, arrogante e peculiar de Wade, um fã de hóquei no gelo, que despreza por completo o genro. Este desprezo de Wade em relação a Jerry torna-se latente quando o segundo propõe um negócio ao sogro, embora este último ironize com as pretensões megalómanas do genro. Jerry necessita de obter fundos quer para esconder uma fraude financeira que cometeu no local de trabalho, quer para efectuar um investimento num parque de estacionamento, com William H. Macy a interpretar um dos vários personagens peculiares que marcam a narrativa de "Fargo", um thriller neo-noir que contém elementos de comédia negra, com um rapto a trazer uma série de consequências imprevisíveis e a envolver uma miríade de figuras. Entre essas figuras encontram-se Carl Showalter (Steve Buscemi) e Gaear Grimsrud (Peter Stormare), os criminosos contratados por Jerry, com este último a dirigir-se inicialmente à cidade de Fargo, localizada na Dakota do Norte, tendo em vista a acertar os últimos pormenores relacionados com o rapto de Jean. Jerry entrega um carro a Carl e Gaear, nomeadamente, um Oldsmobile Cutlass Ciera, de 1987 (o ano em que decorre a narrativa), prometendo ainda pagar quarenta mil dólares aos raptores, ou seja, metade do preço do resgate. Diga-se que o protagonista pretende ainda enganar Carl e Gaear, com a dupla a não saber que o plano envolve uma verba muito mais elevada, ou o primeiro não salientasse ao sogro que os raptores pediram um milhão de dólares.

Carl e Gaear apresentam características bastante distintas mas igualmente ameaçadoras, com Steve Buscemi e Peter Stormare a conseguirem expor aquilo que une e separa estes dois criminosos. Steve Buscemi incute um estilo falador e extrovertido ao personagem que interpreta, com Carl a não conseguir estar em silêncio, mesmo quando promete o contrário, com o actor a aproveitar o bom argumento da autoria dos irmãos Coen para compor uma figura deveras peculiar. A agressividade de Gaear fica paradigmaticamente demonstrada quando este assassina um polícia e dois transeuntes que viram o crime a ser cometido, com Peter Stormare a não precisar de grandes diálogos para exibir a personalidade violenta e lacónica do personagem que interpreta. O assassinato ocorre numa estrada de Brainerd, com o cenário a encontrar-se coberto de neve, uma característica que permite exacerbar a violência e a tensão inerente ao triplo homicídio, enquanto Carl e Gaear demonstram paradigmaticamente que tanto apresentam características patéticas como perigosas, que o digam aqueles que se envolvem no seu caminho. Carl e Gaear envolvem-se com prostitutas, encontram-se numa casa isolada com a refém, deixam pistas pelos locais por onde circulam, enquanto aguardam ansiosamente pelo dinheiro, embora a relação profissional de ambos seja problemática. O próprio rapto é marcado pela falta de subtileza dos assaltantes, bem como por uma queda aparatosa e caricata, com o futuro de Jean a estar em jogo, embora Jerry apenas esteja preocupado é com o dinheiro que pode embolsar com esta jogada, enquanto o filho do protagonista teme pela vida da progenitora. Em paralelo com estes episódios, temos ainda a investigação que se encontra a ser protagonizada por Marge Gunderson (Frances McDormand), a chefe do departamento da polícia de Brainerd, o território onde ocorre o assassinato de um agente e de mais dois elementos às mãos de Carl e Gaear. Se Jerry, Carl e Gaear surgem como figuras que cedem ao desejo de dinheiro fácil, já Marge mantém os seus fortes valores morais intactos, com a polícia a apresentar um sentido de justiça e dever acima de qualquer suspeita. Marge trabalha em Brainerd, um espaço citadino relativamente pequeno, com esta representante das autoridades a parecer estar quase sempre à frente dos seus colegas no que diz respeito a reunir pistas. A personagem interpretada por Frances McDormand encontra-se grávida de Norm (John Carroll Lynch), o esposo, um indivíduo com pouco sucesso a nível profissional, com o casal a contar com uma relação pouco calorosa, marcada por alguma frieza de parte a parte na exposição dos sentimentos, bem como por alguns momentos de silêncio constrangedores, embora o casamento esteja bastante seguro. A intrujice de Jerry e a investigação de Marge acabam por se cruzar num determinado momento da narrativa, com esta mulher a surgir como uma figura intrépida, que se desloca a uma miríade de locais, enquanto procura encontrar os dois criminosos, qual detective dos filmes noir que se envolve numa investigação intrincada.

Marge não sabe inicialmente que a esposa de Jerry foi raptada, enquanto este procura que a polícia se afaste da sua loja de automóveis, algo que parece improvável, ou a dupla de criminosos não utilizasse um veículo com a matrícula do estabelecimento do protagonista. A representante das autoridades envolve-se numa série de peripécias, tais como encontrar um antigo colega de escola que apresenta problemas do foro psicológico, enquanto Frances McDormand brinda o espectador com uma interpretação notável. A actriz incute um tom simultaneamente simples e inteligente a esta polícia que enceta uma investigação com contornos caricatos e perigosos, com Marge a ser mais competente do que aparenta, enquanto Frances McDormand tem um desempenho muito recomendável quer nos trechos mais sérios, quer naqueles que contam com algum humor. Veja-se a dinâmica muito própria de Frances McDormand e John Carrol Lynch, com ambos a exacerbarem o estranho desconforto que a espaços parece pontuar a relação dos personagens que interpretam, ou a habilidade da primeira a incutir um tom deliciosamente peculiar às falas de Marge, sobretudo quando esta surpreende tudo e todos com aquilo que tem para dizer. Esse estilo muito próprio de Marge é visível quando esta resolve mudar repentinamente de assunto, trocando as voltas aos seus interlocutores e ao espectador. Veja-se quando Marge resolve perguntar se uma loja está aberta, tendo em vista a comprar minhocas para o esposo, ou pedir informações a um colega de trabalho sobre a localização de um restaurante barato, após um diálogo sobre a investigação. O argumento dos irmãos Coen é dotado de criatividade e um conjunto de diálogos que sobressaem com facilidade, enquanto a dupla aproveita para explorar sagazmente este universo narrativo dotado de figuras peculiares, situações bizarras e imensa violência. Essa criatividade dos Coen torna-se notória logo no início do filme, em particular, quando é salientado que "Fargo" aborda um caso verídico, algo que contrasta com os créditos finais onde é exposto que os personagens são ficcionais, com os realizadores e argumentistas a procurarem jogar com a percepção do espectador em relação aos episódios apresentados, enquanto realizam um filme neo-noir dotado de uma estrutura narrativa onde as tramas e as subtramas contam quase sempre com algum interesse, mesmo quando não se encontram directamente relacionadas com o caso do rapto. Os eventos que marcam o filme apresentam características rocambolescas que figurariam que nem uma luva num tablóide, com os irmãos Coen a explorarem sagazmente um universo narrativo onde a violência e o humor negro andam lado a lado e uma mala recheada de dinheiro se pode perder diante de um destino nem sempre agradável.

O dinheiro surge como um dos grandes estímulos de diversos personagens, seja Jerry ou a dupla de criminosos, algo que tolda muitas das vezes o discernimento dos mesmos. O próprio sogro de Jerry também apresenta um interesse indelével no dinheiro e no lucro fácil, algo latente quando descura inicialmente um negócio do genro que parece trazer água no bico, pelo menos até perceber que a proposta é rentável, embora não tenha problemas em tirar o protagonista da jogada. Esta miríade de personagens secundários, aliada à qualidade do argumento, permite que alguns intérpretes se destaquem ao longo do enredo de "Fargo", tais como John Carroll Lynch como o estranho esposo de Marge, um indivíduo que pouco comunica; Steve Park como Mike Yanagita, um antigo colega da protagonista, um tipo perturbado que é conhecido pela sua faceta de stalker; Shep Proudfoot (Steeve Reevis), um mecânico violento que forneceu o contacto de Grimsrud a Jerry, bem como os já mencionados Peter Stormare, Steve Buscemi e Harve Presnell. No entanto, William H. Macy e Frances McDormand são os principais destaques do elenco de "Fargo". Macy pela capacidade de explorar quer o lado mais maldoso de Jerry, quer a personalidade mais ingénua e idiota do protagonista, enquanto os elogios a McDormand já foram efectuados ao longo do texto embora mereçam sempre ser reforçados. McDormand transmite o sentido de dever da personagem que interpreta, bem como a personalidade muito própria desta representante das autoridades, com a actriz a apresentar ainda uma habilidade notável para controlar os timings dos momentos de humor, uma situação notória quer nas suas expressões, quer na forma como expõe os diálogos. Recheado de personagens peculiares, eventos rocambolescos, episódios dotados de alguma violência, algum humor negro e tensão, uma cinematografia aprimorada e uma banda sonora que contribui para incrementar a narrativa, "Fargo" surpreende, agarra a nossa atenção e delicia-nos, enquanto os irmãos Coen realizam uma das grandes obras cinematográficas da década de 90.

Título original: "Fargo". 
Título no Brasil: "Fargo - Uma Comédia de Erros".
Realizadores: Joel Coen e Ethan Coen.
Argumento: Joel Coen e Ethan Coen.
Elenco: Frances McDormand, William H. Macy, Steve Buscemi, Harve Presnell, Peter Stormare.

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