08 agosto 2016

Resenha Crítica: "Brutti, sporchi e cattivi" (Feios, Porcos e Maus)

 Entre a comédia à italiana e a tragédia, o drama e a sátira social, "Brutti, sporchi e cattivi" não tem problemas em abraçar os exageros e o grotesco, enquanto nos coloca diante de uma família completamente disfuncional que vive num bairro localizado nas margens da cidade de Roma. Ettore Scola não poderia ser mais claro ao exibir o centro da cidade em pano de fundo, ou, pelo menos, o seu espaço mais desenvolvido, enquanto deixa em primeiro plano as gentes sem grandes perspectivas de vida, empobrecidas, rudes e maioritariamente iletradas, que procuram acima de tudo sobreviver. O plano final assim o indica, ou não ficássemos diante de uma jovem grávida, sem grandes perspectivas de futuro a não ser repetir o estilo de vida dos familiares, enquanto encontramos o centro de Roma como pano de fundo, em particular a Basílica de São Pedro. Ficamos diante do contraste entre centro e periferia, entre esperança e desesperança, enquanto Ettore Scola apresenta tudo num jeito muito italiano, onde o humor e a tragédia se unem e a espaços chamam ainda o grotesco e o drama. Diga-se que não faltam elementos das comédias à italiana em "Brutti, sporchi e cattivi", com Ettore Scola a colocar-nos diante de situações cómicas a partir da tragédia, figuras depauperadas, traições, personagens com um desejo sexual bastante activo, enquanto nos deixa perante uma família de dimensões alargadas que vive num espaço claramente diminuto e degradado (tal como os valores dos elementos que habitam nesta casa). A exposição das margens de Roma como um território marcado pelo lixo, pela falta de condições e gentes empobrecidas é algo que Ettore Scola já tinha efectuado, ainda que num tom mais leve em "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)". Em ambas as obras cinematográficas mencionadas não existe espaço para dúvidas de que o final está longe de transmitir esperança, com Ettore Scola a conseguir despertar uma miríade de sentimentos no âmago do espectador. É fácil sorrir em alguns momentos, mas também sentir desconforto ou simplesmente levar um murro no estômago, ou perceber que estes personagens estão destinados a viver no caos, ou a agredirem-se constantemente, seja a nível físico ou psicológico. A casa do protagonista, onde habita boa parte do núcleo familiar do mesmo, encontra-se claramente degradada, enquanto os elementos que vivem na mesma apresentam comportamentos rudes e violentos, não tendo problemas em disparar ofensas ou partirem para as agressões físicas, com o cadastro destes personagens a ser particularmente conhecido na esquadra local. Nem todos são personagens agradáveis, bem pelo contrário, a começar por Giacinto Mazzatella (Nino Manfredi), o protagonista de "Brutti, sporchi e cattivi", um indivíduo que recebeu uma soma avultada de dinheiro devido a um acidente no trabalho que o deixou cego de um olho.

Giacinto não quer dividir o dinheiro com ninguém, nem mesmo com Matilde (Linda Moretti), a sua esposa, exibindo uma atitude peculiar e avarenta diante dos familiares, encarando os mesmos como inimigos. As noites de Giacinto são passadas praticamente em claro, com o protagonista a dormir acompanhado por uma espingarda, tendo em vista a evitar que furtem o dinheiro que tem escondido no interior da sua casa. Nino Manfredi é o actor que mais sobressai ao longo do enredo ao interpretar um indivíduo que tanto tem de violento como de patético, machista, beberrão e trágico, que agride a esposa e envolve-se com uma prostituta, tendo uma família alargada embora quase ninguém goste de si, com a própria progenitora de Giacinto a não ter problemas em aceitar o plano de envenenar este indivíduo. De cabelos acinzentados a descaírem para o branco, um físico pouco cuidado, tal como o seu visual, Nino Manfredi incute uma presença física notória a este personagem, beneficiando não só de um bom trabalho a nível de caracterização e de um argumento bem escrito, mas também do seu talento para a interpretação. Manfredi eleva Giacinto, conseguindo expressar o estilo agressivo e pouco polido deste personagem que apenas parece despertar a atenção de Iside (Maria Luisa Santella), uma prostituta anafada que o protagonista decide levar para a sua casa, tendo em vista a viver com a mesma, algo que coloca a família em polvorosa. Maria Luisa Santella apresenta uma enorme desenvoltura e capacidade para encarnar esta figura que adensa o lado grotesco da narrativa de "Brutti, sporchi e cattivi", com a intérprete a incutir uma naturalidade notória aos episódios protagonizados por esta mulher de seios avantajados, vestimentas peculiares e um físico robusto. Veja-se quando um pedaço de macarrão cai no seios de Iside e esta não tem problemas em apanhar o mesmo e comê-lo, ou quando um cunhado de Giacinto invade a cama do protagonista e começa a fornicar com a primeira, com Ettore Scola a parecer jogar com os limites dos personagens e do espectador, sempre sem ter receio de abraçar o grotesco. A habitação de Giacinto é uma barraca que se encontra superpovoada e desprovida de condições, contando com a presença dos dez filhos do primeiro e Matilde, para além de outros familiares. O design deste cenário interior é fulcral para adensar a atmosfera abrasiva que envolve estes personagens, com o espaço da casa a apresentar condições diminutas para contar com tantos elementos, algo que ainda piora no último terço. Veja-se a presença de colchões e tralha pelas várias divisórias da casa, enquanto a presença humana é notória, com este espaço habitacional a contar com mais de uma dezena de residentes. O próprio trabalho de Dario di Palma na cinematografia permite exponenciar essa sensação quase claustrofóbica que rodeia o espaço da casa, como se este local não conseguisse albergar todas as emoções que se vivem no seu interior. Diga-se que parece faltar quase tudo a estes personagens, incluindo valores morais e bom senso. Tudo isso está em falta, enquanto ficamos diante deste grupo de personagens peculiares, com quase todos a apresentarem personalidades muito próprias e comportamentos que parecem muitas das vezes serem fruto do meio duro onde habitam.

 Os sentimentos são expostos de forma bem viva, quase sem travão, enquanto a violência parece fazer parte do quotidiano de todos estes personagens, bem como o desejo sexual, com Giacinto a não ter problemas em fazer sexo com a esposa de um familiar, tal como um cunhado do protagonista não exibe grandes tabus ao invadir a cama do mesmo para fornicar com Iside. A maioria dos filhos de Giacinto e os restantes familiares do protagonista não trabalham ou não conseguem arranjar emprego, com quase todos a dependerem deste indivíduo e da sua mãe. A mãe de Giacinto é uma idosa de personalidade peculiar, que se locomove numa cadeira de rodas e passa os seus dias a ver televisão e a procurar aprender inglês através dos programas televisivos (protagonizando gags a falar inglês que a espaços trazem à memória a tentativa da personagem interpretada por Monica Vitti aprender inglês em "Dramma della gelosia"), com boa parte dos personagens a depender da pensão desta figura vetusta. Por sua vez, Linda Moretti interpreta uma personagem intempestiva e vingativa, de buço saliente, que sofre abusos por parte de Giacinto, com a actriz a conseguir expressar a rudeza de Matilde. A relação entre Giacinto e Matilde já conheceu melhores dias, ou pelo menos pensamos que outrora contou com momentos de felicidade. Giacinto não quer dividir as suas finanças com os familiares, enquanto a esposa depara-se com uma situação matrimonial ainda mais degradante quando o primeiro traz Iside para viver com a família, com a cama do casal a ser dividida pelo trio. Temos ainda elementos como Nando (Franco Merli), um dos filhos de Giacinto e Matilde, um jovem que se gosta de vestir de mulher e fornicar com figuras femininas, incluindo com a esposa de um familiar, com as trocas e baldrocas no interior deste espaço habitacional a serem mais do que muitas. A certa altura, Matilde decide organizar um plano para assassinar Giacinto, com a narrativa a ganhar contornos mais negros, embora nem tudo corra como o esperado, enquanto Ettore Scola explora as dinâmicas intrincadas e peculiares destes personagens. A violência parece fazer parte do quotidiano da maioria dos elementos que povoam o enredo de "Brutti, sporchi e cattivi", com quase todos os personagens a parecem incapazes de exibirem grandes demonstrações de afecto. Giacinto ainda exibe alguma estranha ternura para com Iside, embora pareça acima de tudo desejar fisicamente esta mulher, ou o desejo sexual não surgisse como uma das temáticas das comédias à italiana. Não faltam piadas com personagens a mexerem em seios ou traseiros, bem como discussões mais acaloradas ou buscas pelo local onde Giacinto escondeu o dinheiro. Giacinto encontra-se no cerne de quase toda a narrativa, enquanto Ettore Scola coloca-nos diante de um conjunto de personagens que parece ter perdido a habilidade para conviver harmoniosamente em sociedade, se é que estas figuras alguma vez tiveram essa sensibilidade, com o próprio espaço onde habitam a revelar-se algo abrasivo e propiciador destes comportamentos. 

O lixo, os ratos, as poucas condições de saneamento básico parecem fazer parte do espaço onde Giacinto e a sua família habitam, com este território das margens a contar com uma quantidade assinalável de barracas que se encontram longe de garantirem a qualidade de vida destes personagens. Veja-se o espaço onde ficam instalados os jovens durante o dia, transportados por Maria Libera (Marina Fasoli), uma das familiares de Giacinto e Matilde, um parque improvisado que conta com poucas ou nenhumas condições de segurança. As parcas condições dos homens e mulheres que habitam este espaço é uma das temáticas que marca a narrativa, enquanto Ettore Scola não parece apresentar problemas em recorrer ao grotesco e ao humor negro. Não falta um cão perneta, ratos a circularem pelas casas, mulheres com buço, um protagonista que roça o grotesco, casas com poucas condições e gentes com parcas perspectivas de vida, algo latente na figura da jovem Maria Libera. Esta é uma pré-adolescente ou adolescente que trabalha, conta com uma personalidade algo passiva e habita num espaço pouco propício para ganhar bases a nível de escolaridade que lhe permitam almejar um futuro mais risonho. A personagem interpretada por Marina Fasoli é uma das raras figuras que parecem pouco interessadas no dinheiro de Giacinto, enquanto os restantes familiares procuram roubar a quantia que este esconde, algo que adensa a paranóia deste indivíduo peculiar e agressivo. Maria Libera tem em Tommasina (Clarisse Monaco) uma figura que a intriga. Tommasina ganha a vida a despir-se para ensaios fotográficos, algo que orgulha a sua progenitora, embora seja alvo de troça dos jovens locais, ou não estivéssemos diante de um espaço conservador, onde a ascensão social parece praticamente impossível e o machismo parece inculcado em diversas figuras masculinas. Ettore Scola expõe-nos aos espaços degradados das margens de Roma, enquanto nos apresenta a um grupo peculiar de personagens, com Nino Manfredi a sobressair acima de todos os outros elementos do elenco ao dar vida a Giacinto, numa obra cinematográfica que tem muito das comédias à italiana, ou seja, pontuada por muito humor mas também por situações trágicas e dramáticas.  

Título original: "Brutti, sporchi e cattivi".
Título em Portugal: "Feios, Porcos e Maus".
Realizador: Ettore Scola.
Argumento: Sergio Citti, Ettore Scola, Ruggero Maccari.
Elenco: Nino Manfredi, Marcella Michelangeli, Marcella Battisti, Francesco Crescimone, Silvia Ferluga, Zoe Incrocci, Adriana Russo, Franco Merli, Maria Bosco, Clarisse Monaco,
Marina Fasoli.

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