31 julho 2016

Resenha Crítica: "Una vita tranquilla" (2010)

 Com uma interpretação de grande nível de Toni Servillo, uma realização segura de Claudio Cupellini e uma utilização assertiva da banda sonora ao serviço do enredo, "Una vita tranquilla" deambula entre os elementos dos filmes sobre a máfia e o drama familiar, enquanto nos coloca diante de um antigo membro da Camorra que se prepara para enfrentar os fantasmas do passado. Será possível escapar ao passado? Existe uma segunda oportunidade para um antigo assassino? Rosario Russo (Toni Servillo), o protagonista de "Una vita tranquilla", bem tenta fugir ao passado, embora seja atormentado pelo mesmo quando menos espera. Outrora conhecido como um mafioso chamado Antonio de Martino, o protagonista de "Una vita tranquilla" decidiu abandonar o espaço napolitano onde habitava, bem como a sua família, com quase tudo e todos a pensarem que o criminoso foi eliminado. Com uma nova identidade, Rosario conseguiu manter-se temporariamente afastado desse passado, tendo entretanto formado família e iniciado um negócio no sector hoteleiro na Alemanha. Diga-se que a morte continua a marcar o quotidiano de Rosario, embora num âmbito distinto, algo notório quando o encontramos a caçar um javali, ou a colocar pregos de cobre nas árvores que se encontram nas imediações do seu Hotel Restaurante. Rodeado por um espaço florestal, o Hotel Restaurante de Rosario encontra-se situado na cidade de Wiesbaden, com o protagonista a viver no local onde labora, contando com a companhia da esposa e do filho, bem como de uma série de funcionários. Este é o local onde o protagonista conseguiu refazer a sua vida, ou melhor, reformular a sua existência, embora seja praticamente impossível escapar ao passado, algo que Rosario vai perceber ao longo de "Una vita tranquilla". Toni Servillo consegue transmitir o peso dos segredos que Rosario guarda no interior da sua alma, com o actor a explorar quer o lado mais leve do antigo mafioso, quer a sua faceta mais pragmática, embora o quotidiano do protagonista sofra uma mudança notória a partir do momento em que Diego (Marco D'Amore) e Edoardo (Francesco Di Leva), dois jovens italianos, aparecem no Hotel Restaurante. Diego apresenta-se como um amigo de Rosario, com este último a ficar francamente abalado com a presença do primeiro. O momento é marcante e bem arquitectado, com Claudio Cupellini a deixar que Toni Servillo exponha o abalo sentido por Rosario, enquanto o actor demonstra mais uma vez que é exímio a atribuir uma dimensão extra aos momentos que protagoniza. O rosto do personagem interpretado por Toni Servillo transmite que este foi surpreendido pela chegada de Diego e Edoardo, a banda sonora muda de tom e contribui para adensar a sensação de que o protagonista se encontra com o batimento cardíaco acelerado, enquanto que a presença da dupla, no lado de fora do Hotel Restaurante, exacerba o mistério em relação aos pensamentos de Rosario e aos objectivos destes elementos. Os dois jovens italianos apareceram quando Rosario se encontrava a dividir as porções das refeições para uma série de clientes, após ter sido recebido em clima de festa, com o protagonista a contar com um espaço respeitável, embora o dia-a-dia do antigo mafioso se prepare para conhecer uma série de alterações a partir do momento em que Diego decide contactá-lo.

 Diego e Edoardo deslocaram-se para este território tendo em vista a eliminarem um indivíduo, com o primeiro a não escapar ao mundo do progenitor, ou seja, trabalhar para a máfia, em particular, para o pai do segundo. O personagem interpretado por Marco D'Amore é filho de Rosario, com este último a procurar recuperar o tempo perdido, embora desconheça inicialmente a personalidade do rebento e o facto deste se ter envolvido no interior do mundo do crime. Rosario formou família na Alemanha, sendo casado com Renate (Juliane Köhler), de quem tem um filho, o jovem Mathias (Leonardo Sprengler), embora a relação do casal pareça ter conhecido alguns problemas no passado. Esses problemas tornam-se particularmente evidentes quando Renate efectua um comentário relacionado com uma antiga amante de Rosario, com este último a estar longe de ser o marido e o pai ideal, embora se esforce para evitar repetir os erros de outrora. Claudio Cupellini é eficaz a explanar a situação intrincada em que se encontra o protagonista, com Rosario a procurar que Renate e Mathias não descubram informações relacionadas com o seu passado, enquanto tenta reacender os laços familiares com Diego, com o personagem interpretado por Toni Servillo a deparar-se com uma série de acontecimentos difíceis de gerir. Num determinado momento de "Una vita tranquilla", encontramos Rosario, Diego, Renate e Mathias num canil, com este último a procurar adoptar um cão. Claudio Cupellini e Gergely Pohárnok (director de fotografia que voltaria a colaborar com o cineasta em "Alaska") colocam o espectador diante de um plano que expressa paradigmaticamente a divisão entre a nova e a antiga família de Rosario, com o protagonista e Diego a encontrarem-se de um lado dos abrigos dos cães, enquanto Mathias e Renate estão do lado oposto. A oposição entre o presente e o passado é expressa de forma simples e concisa, com Rosario a perceber gradualmente que não pode apagar os actos de outrora, sobretudo quando a presença de Diego e Edoardo se faz sentir. Francesco Di Leva incute um tom extrovertido e mulherengo a Edoardo, um mafioso violento e abrutalhado que procura cumprir a sua missão e conquistar Doris (Alice Dwyer), uma das empregadas de Rosario. A dinâmica entre Doris e Edoardo permite que Claudio Cupellini a espaços incuta um tom mais leve ao filme, bem como as discussões entre Rosario e Claudio (Maurizio Donadoni), um dos funcionários do protagonista. Se a relação entre Doris e Edoardo permite atribuir algum humor à trama, já a dinâmica entre Rosario e Diego é bem mais complexa. Marco D'Amore consegue introduzir um tom misterioso a Diego, com os actos deste personagem a surpreenderem, sobretudo no último terço, quando parece relativamente óbvio que o protagonista não pode escapar ao passado. Diego demonstra por diversas vezes que não se esqueceu do facto de ter sido abandonado pelo pai, com os personagens interpretados por Marco D'Amore e Toni Servillo a contarem com uma dinâmica pontuada pelos receios de parte a parte, algo abordado de forma relativamente simples e eficaz ao longo de "Una vita tranquilla". Rosario ainda tenta ajudar o filho, embora não queira deitar a sua nova vida a perder ou colocar Mathias e Renate em perigo, com tudo a extremar-se no último terço. Diego e Edoardo surgem como os representantes do passado que chegam para atormentar o presente de Rosario, com o protagonista a procurar esconder que o primeiro é seu filho, embora esse desiderato seja praticamente impossível de alcançar.

 Toni Servillo é uma das pedras de toque do filme, com o actor a conseguir explanar as contradições e os dilemas do personagem que interpreta, um indivíduo na casa dos cinquenta e poucos anos de idade, que se procura redimir dos erros do passado embora esteja longe de conseguir cumprir esse desiderato de forma imaculada. Rosario passa boa parte do seu tempo na cozinha quer a confeccionar as refeições, quer a organizar as tarefas dos cozinheiros, mantendo uma relação laboral complicada com Claudio, um dos seus empregados mais fieis e amigo de longa data, com a dupla a protagonizar uma série de discussões. Se Rosario gosta de controlar tudo o que ocorre na cozinha, já a esposa apresenta um zelo latente como chefe de sala, com Renate a surgir como uma peça fundamental do Hotel Restaurante. Renate desconhece que Rosario cometeu uma série de crimes, bem como o facto deste último contar com outro filho, com o protagonista a procurar afastar a esposa de possíveis problemas, embora a relação do casal pudesse ser mais desenvolvida ao longo de "Una vita tranquilla", bem como a personagem interpretada por Juliane Köhler. O pouco desenvolvimento da relação entre Renate e Rosario é um dos pontos fracos do filme, com "Una vita tranquilla" a ser bem mais eficaz a abordar os dilemas morais e sentimentais do protagonista, bem como a dinâmica intrincada entre o antigo mafioso e Diego. Rosario encontra-se habituado ao estilo de vida na Alemanha, embora os actos que cometeu em Itália prometam trazer-lhe uma série de problemas, com os pecados do passado a parecerem persegui-lo para a vida e a deixarem marca na sua alma e no seu destino. A juntar a tudo isto, Rosario tem ainda de proteger a família que formou na Alemanha, com Diego e Edoardo a surgirem como duas fontes de perigo para a estabilidade do núcleo familiar do protagonista, sobretudo quando alguns segredos são revelados. "Una vita tranquilla" mistura elementos de drama familiar com ingredientes de filmes sobre a máfia, com Claudio Cupellini a tanto avançar pelos lugares-comuns e por caminhos relativamente previsíveis como a surpreender o espectador e a deixá-lo diante da crueza que rodeia o mundo do qual o protagonista chegou a fazer parte. Claudio Cupellini controla os ritmos do enredo e das revelações com alguma eficácia, com o mistério e a violência a pontuarem diversos momentos de "Una vita tranquilla", uma obra cinematográfica onde Toni Servillo exibe mais uma vez que é um actor brilhante. Com uma banda sonora que se destaca pela positiva, um conjunto de planos bem elaborados (a maioria de longa duração), um aproveitamento exímio do espaço hoteleiro que pertence ao protagonista, um elenco secundário competente, "Una vita tranquilla" brinda-nos com um Toni Servillo de grande nível, enquanto somos colocados diante dos dilemas do personagem que este interpreta e das consequências dos actos que Rosario cometeu no passado.
 
Título original: "Una vita tranquilla".
Realizador: Claudio Cupellini.
Argumento: Claudio Cupellini, Filippo Gravino, Guido Iuculano.
Elenco: Toni Servillo, Marco D'Amore, Francesco Di Leva, Juliane Köhler, Alice Dwyer, Leonardo Sprengler, Maurizio Donadoni.

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