08 julho 2016

Resenha Crítica: "Tangerine" (2015)

 Entre a comédia e a tragédia, os exageros e a contenção, os diálogos expostos de forma exuberante e os silêncios cortantes, os palavrões disparados com uma enorme naturalidade e as falas mais brandas, discussões e momentos de acalmia, "Tangerine" merece ser recordado pela forma sagaz como Sean Baker joga com as emoções do espectador, extrai uma interpretação inesquecível de Kitana Kiki Rodriguez e realiza um obra cinematográfica que se envolve sem medos ou receios pelo submundo de Los Angeles. A prostituição, a transfobia, a pobreza, o crime, as repressões sexuais, as traições amorosas e o poder da amizade são temáticas abordadas com acerto e inspiração, com Sean Baker a incutir um ritmo latente a "Tangerine", uma situação que advém das características do espaço citadino onde se desenrola o enredo, bem como da personalidade de Sin-Dee (Kitana Kiki Rodriguez), a protagonista, uma prostituta transexual afro-americana que saiu da prisão na véspera de Natal. Kitana Kiki Rodriguez incute carisma e uma energia aparentemente inesgotável a Sin-Dee, com a actriz a disparar as falas a uma velocidade impressionante, enquanto a protagonista grita, pragueja e exibe as suas emoções de forma bem viva. No final do filme, Rodriguez surpreende ainda pela capacidade de expor as emoções de forma contida, com a actriz a ter uma estreia de grande nível nas lides cinematográficas, compondo uma personagem que promete não ser esquecida com facilidade. Após sair da prisão, onde cumpriu uma pena de vinte e oito dias, Sin-Dee reúne-se com Alexandra (Mya Taylor), a sua melhor amiga, uma prostituta transexual afro-americana, com esta última a revelar que Chester (James Ransone), um proxeneta que namora com a primeira, iniciou um affair com outra mulher. A reacção de Sin-Dee não se faz esperar, com esta a tentar encontrar Chester ou a amante deste, tendo em vista a "esclarecer" tudo. Sin-Dee descobre que o namorado se encontra envolvido com Dinah (Mickey O'Hagan), uma prostituta, com a protagonista a procurar confrontar todas as partes envolvidas nesta traição. Alexandra ainda ajuda inicialmente a amiga a procurar por Dinah, embora desista da ideia devido a ter alguns trabalhos confirmados, tais como cantar num bar que se encontra praticamente vazio. A personagem interpretada por Mya Taylor é uma prostituta que sonha iniciar uma carreira como cantora, embora tarde em concretizar esse desejo, com Alexandra a contar com uma forte relação de amizade com Sin-Dee, enquanto colecciona revezes e episódios peculiares com clientes. Veja-se quando um cliente não quer pagar devido a não ter conseguido ejacular, com Alexandra a não ter problemas em reagir de forma enérgica para receber pelo serviço que prestou. A história de Sin-Dee e Alexandra é intercalada com a de Razmik (Karren Karagulian), um taxista arménio, introvertido, casado e pai de uma jovem rapariga, que conta com uma série de clientes peculiares. A trama de Razmik é inicialmente exposta de forma relativamente desconjuntada em relação à história de Sin-Dee e Alexandra, até Sean Baker exibir o gosto que o taxista tem por prostitutas transexuais, algo que lhe promete trazer uma série de problemas, sobretudo quando a sogra e a esposa descobrem esse segredo, com o personagem interpretado por Karren Karagulian a contar com uma proximidade notória com a dupla de protagonistas.

 Os acontecimentos sucedem-se em grande ritmo, com os destinos de Sin-Dee, Alexandra, Razmik, Dinah e Chester a acabarem por se cruzar, uma situação que conduz a momentos emocionalmente explosivos, ou a primeira não procurasse vingar a traição. Sean Baker incute um tom enérgico à narrativa de "Tangerine", com o cineasta a abordar os arcos dos personagens principais de forma eficaz, enquanto aproveita as possibilidades inerentes ao facto de filmar com recurso a três iPhones 5. A mobilidade da câmara é bem utilizada, a fotografia é propositadamente saturada, pronta a captar as cores quentes que envolvem o território de Los Angeles durante o dia, com as tonalidades a contribuírem para exacerbar os sentimentos fervilhantes que permeiam o quotidiano das protagonistas. A ideia de visionar uma obra cinematográfica que foi filmada com iphones (ainda que propositadamente alterados para o efeito) parece inicialmente estranha, ou dada a provocar preconceitos prévios, embora o resultado final seja extremamente eficaz, com o método de filmar combativo a ajustar-se aos ritmos e personalidades dos personagens que nos são apresentados, enquanto ficamos diante de uma série de temáticas associadas a estas mulheres que procuram viver para o momento, bem como da jornada de Sin-Dee, tendo em vista a confrontar Dinah e Chester. O encontro entre Sin-Dee e Dinah é marcado pela violência, com a primeira a arrastar a segunda pela cidade, enquanto trocam diálogos menos simpáticos e protagonizam episódios que variam entre o rocambolesco e o tocante. Simultaneamente cómica, trágica e violenta, a relação entra estas duas mulheres é complicada, sobretudo quando algumas revelações incómodas começam a surgir ao de cima, embora a dupla ainda protagonize um ou outro momento de acalmia. Veja-se quando Sin-Dee percebe que está atrasada para o concerto de Alexandra, obrigando Dinah a deslocar-se consigo até ao bar onde a amiga se prepara para cantar. Sean Baker deixa a narrativa "respirar", com Alexandra a assumir temporariamente o destaque do enredo, com as cortinas vermelhas do palco do bar a atribuírem uma atmosfera quente a este momento, enquanto Mya Taylor se destaca. Diga-se que Mya Taylor interpreta uma personagem com uma história semelhante à sua, ou a actriz não tivesse trabalhado como prostituta e contasse com talento para a cantoria, com Alexandra a tomar conta das atenções quando se encontra a cantar no clube nocturno. O espaço do bar é desolador, com quase todos os elementos que foram convidados por Alexandra a não aparecerem, apesar desta contar com o forte apoio de Sin-Dee. O momento de cantoria é contrastado com a confusão que envolve a reunião entre Sin-Dee, Dinah, Alexandra e Chester. A reunião acontece no interior de uma loja de donuts chamada "Donut Time", com estes personagens a transformarem este cenário num pandemónio (digno das confusões das comédias screwball), algo que piora quando Razmik se junta à confusão, bem como a sogra e a esposa do taxista, enquanto tudo e todos parecem falar ao mesmo tempo. Diversos segredos são revelados, os sentimentos ficam à flor da pele, enquanto os personagens procuram expor aquilo que pensam e sentem, com o elenco e o argumento a sobressaírem. Sean Baker procura que as actrizes e os actores dialoguem como se vivessem neste meio citadino que rodeia os personagens que interpretam, algo que explica o vernáculo de Sin-Dee e a sua personalidade arisca, com quase todos estes elementos a conhecerem dificuldades para se imporem no interior deste território que se revela abrasivo. Sin-Dee e Alexandra são alvo de transfobia, Dinah é encarada como uma mulher descartável, enquanto Razmik procura reprimir os seus instintos e desejos de cariz sexual, ou seja, estamos longe de nos encontrarmos diante de figuras vencedoras e bem-sucedidas.

 Se James Ransome incute um tom sacana a Chester, um proxeneta que gosta de testar o "produto" que tem para fornecer aos clientes, já Karren Karagulian tem uma interpretação pontuada pela sobriedade, com o actor a conseguir exprimir que Razmik é um indivíduo introvertido, criado e educado numa sociedade conservadora, que se encontra furtivamente com prostitutas transexuais para praticar sexo oral com as mesmas. Sean Baker aborda ainda um pouco do núcleo familiar de Razmik e expõe mais uma vez a mescla de culturas no interior de Los Angeles, com este indivíduo a fazer parte da comunidade arménia que vive no território (os clientes do táxi de Razmik são outro exemplo dessa heterogeneidade). A relação de Razmik com a esposa é pontuada por alguma frieza, enquanto a sogra praticamente não o pode ver à frente, com a filha a ser demasiado nova para perceber que a sua casa parece um vulcão prestes a entrar em erupção. Temos ainda Mickey O'Hagan como uma prostituta que perde um sapato, é alvo de agressões, apresenta um tom mordaz, embora as suas atitudes menos polidas pareçam acima de tudo um meio para se defender do destino. A maneira como Sin-Dee fala e reage parece exactamente advir do contexto que a rodeia, bem como do seu quotidiano, uma situação que se torna bem evidente no último terço, quando a sua energia inesgotável é contrastada com a crueza da realidade. A banda sonora e o trabalho de montagem contribuem para essa energia emanada por "Tangerine", com Sean Baker a saber juntar os ingredientes e a desenvolver uma obra cinematográfica onde os elementos aparentemente à parte da sociedade ganham protagonismo e ficamos diante da violência, o humor, a tensão e as amizades que se formam no interior deste mundo onde Alexandra e Sin-Dee se encontram inseridas (a dinâmica entre estas duas figuras femininas é essencial para elevar a narrativa). Sean Baker aproveita ainda os cenários citadinos ao serviço da narrativa, com estes espaços a parecerem contribuir para a ostracização de Sin-Dee e Alexandra, bem como de outras figuras, com o cineasta a explorar as idiossincrasias deste território e das suas gentes. Veja-se ainda a forma exímia como Baker utiliza e conduz os actores e as actrizes nas cenas que decorrem no interior da loja de donuts, com o elenco a destacar-se pela positiva, enquanto o espírito natalício parece ter sido ignorado pela maioria dos personagens. Entre a capacidade de despertar o mais largo dos sorrisos e uma estranha sensação de tristeza, "Tangerine" surge como um feito assinalável de Sean Baker, com o cineasta a ter o mérito de extrair interpretações de bom nível por parte de Kitana Kiki Rodriguez, Mya Taylor e Karren Karagulian, enquanto nos coloca diante de um enredo enérgico, intenso, trágico e envolvente.

Título original: "Tangerine".
Realizador: Sean Baker.
Argumento: Sean Baker e Chris Bergoch.
Elenco: Kitana Kiki Rodriguez, Mya Taylor, Karren Karagulian, James Ransone e Mickey O'Hagan.

Trailer de "Tangerine":

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