03 julho 2016

Resenha Crítica: "O Filho de Saul" (Saul fia)

 Saul Ausländer (Géza Röhrig) é o rosto do desespero, do descontrolo, da dor, de alguém que é obrigado a trabalhar num campo de concentração, em Auschwitz, um espaço onde a morte e os actos atrozes fazem parte da ordem do dia. É o quotidiano deste personagem que acompanhamos em "O Filho de Saul", uma obra cinematográfica emocionalmente devastadora, que nos arrasa com uma história que tem como pano de fundo um dos capítulos mais negros da História da Humanidade, em particular, o Holocausto. É o rosto de Saul que nos intriga, persegue, inquieta e marca em "O Filho de Saul", com László Nemes, o realizador, a pontuar a narrativa com um conjunto de planos fechados, maioritariamente de longa duração, compostos de forma exímia (magnífico trabalho de Mátyás Erdély na cinematografia), enquanto Géza Röhrig transforma-se em Saul e protagoniza alguns momentos poderosíssimos. O olhar de Géza Röhrig parece muitas das vezes vazio, com o intérprete a transmitir que estamos diante de um personagem habituado a esconder os sentimentos, pronto a obedecer a ordens, com os gestos do actor a contribuírem para atribuir algum mistério a Saul, um indivíduo aparentemente comum, que está longe de ser apresentado como uma figura heróica. Saul é um judeu de nacionalidade húngara, membro de um Sonderkommando, um grupo de prisioneiros que é forçado a trabalhar em campos de concentração, com o quotidiano destes elementos a ser exposto através do primeiro. Tal como é explicado no início de "O Filho de Saul", os integrantes dos Sonderkommando não permaneciam muito tempo nas suas funções, sendo exterminados após alguns meses de serviço, com os nazis a procurarem eliminar aqueles que presenciavam o extermínio dos judeus. É um trabalho cruel e desumano, algo exposto de forma crua e claustrofóbica em "Saul fia", com o protagonista e diversos integrantes dos Sonderkommando a serem obrigados a lavarem as câmaras de gás, a tirarem as roupas e os bens dos prisioneiros, a arrastarem os corpos para serem autopsiados ou cremados, com este espaço do campo de concentração a parecer uma fábrica onde a morte e a desumanização são produzidas em massa (junte-se a esta situação o facto dos nazis procurarem colocar judeus contra judeus). A vida parece ter sido expurgada das paredes do campo de concentração, com este cenário a apresentar uma atmosfera lúgubre, onde a felicidade foi eliminada, enquanto a violência, a frieza e a morte parecem preencher todos os poros deste local. Os prisioneiros entram em grande número, tendo na morte o destino mais provável, com "O Filho de Saul" a abordar estes episódios negros a partir da perspectiva de Saul, com a câmara de filmar a acompanhar regularmente o protagonista. Muito do poder de "O Filho de Saul" está naquilo que László Nemes não exibe, com o cineasta a manter o personagem interpretado por Géza Rörhig em foco, enquanto desfoca regularmente aquilo que o rodeia ou deixa alguns acontecimentos decorrerem no fora de campo. Veja-se quando Saul aguarda no espaço exterior de uma câmara de gás, enquanto ouvimos os gritos de desespero oriundos do fora de campo, com László Nemes a não exibir as mortes, mas sim como o protagonista vive toda esta situação desumana (uma situação que exponencia o efeito destes episódios, com o realizador a deixar a mente do espectador a funcionar). Os judeus são colocados contra judeus, algo adensado pelos estatutos hierárquicos nos Sonderkommando, com a morte a ser aguardada a qualquer momento, enquanto os representantes nazis não têm problemas em exibir a sua frieza, com László Nemes a transmitir o quotidiano negro dos campos de concentração. 

 O trabalho de Tamás Zányi no design de som contribui e muito para adensar a atmosfera lúgubre e claustrofóbica que domina a narrativa e o espaço do campo de concentração, uma situação notória quer nos gritos que ouvimos, quer nas vozes anónimas que surgem sem aviso. Os gritos oriundos do interior da câmara de gás (em fora de campo), os corpos que se encontram amontados pelo chão e são exibidos de forma desfocada, o fumo proveniente da incineração dos cadáveres, as vozes e os sons que marcam o espaço do campo de concentração, bem como outras situações igualmente negras, surgem como elementos que parecem praticamente saídos de um filme de terror, embora aquilo que nos é apresentado seja inspirado em factos, com László Nemes a respeitar a gravidade e complexidade dos episódios representados. László Nemes evita "embelezar" o filme ou transformar o protagonista num herói trágico, com o cineasta a transmitir que estamos diante de um cenário atroz, onde decorrem actos que representam um capítulo negro da História Mundial, com Saul a surgir quase como o nosso guia para o terror. É através dos actos de Saul e do seu quotidiano que começamos a conhecer os espaços e as gentes que rodeiam o protagonista, com a vida deste indivíduo a mudar a partir do momento em que encontra o corpo de um jovem que foi eliminado após ter sobrevivido à câmara de gás. Saul pensa que o jovem é o seu filho, algo que o leva a tentar que Miklós (Sándor Zsótér), o médico, não autopsie o petiz. O médico reluta mas não fica indiferente ao pedido de Saul, enquanto este último procura encontrar um rabino e conceder um funeral relativamente digno ao filho. Inicialmente não sabemos ao certo se o corpo pertence ao filho de Saul ou se estamos diante de um delírio do protagonista, embora a descoberta do cadáver permita que László Nemes alargue o foco da narrativa. A busca por um rabino conduz Saul a contactar com uma multitude de personagens, bem como a envolver-se por diferentes locais do campo de concentração, com Géza Rörhig a transmitir a estranha obsessão do protagonista, enquanto László Nemes nos dá a conhecer pequenos fragmentos da realidade que envolve o quotidiano do personagem principal. A tentativa de sepultar condignamente o jovem parece dar um algum sentido à vida de Saul, com o protagonista a procurar encontrar paz interior, enquanto anseia alcançar o feito de ver um corpo a ser enterrado de forma respeitável. Saul contacta inicialmente com Frankel (Jerzy Walczak), o rabino que se encontra na sua unidade, embora este rejeite correr o risco de enterrar o jovem, apesar de se oferecer para recitar o Kadish, algo que não satisfaz as pretensões do protagonista. A rejeição de Frankel conduz Saul a procurar por outro rabino, em particular, um grego conhecido como "Renegado", que se encontra a trabalhar na unidade do Oberkapo Mietek (Kamil Dobrowolski). Saul obtém esta informação graças a Abraham (Levente Molnár), um membro do Sonderkommando que defende uma atitude musculada contra os elementos das SS, procurando formar um grupo que se revolte e fuja do campo de concentração, algo que envolve a participação de homens e mulheres de outras unidades. O protagonista acaba por se envolver nos eventos que Abraham organiza com Biedermann (Urs Rechn), uma dupla que procura tomar medidas contra as atrocidades perpetradas pelos nazis, embora a preocupação principal de Saul seja encontrar um rabino e enterrar o filho. Biedermann é um Oberkapo que lidera a unidade onde se encontra Saul, com Urs Rechn a transmitir a credibilidade deste indivíduo que procura manter uma postura discreta, enquanto tenta encontrar um meio de fotografar os acontecimentos que decorrem nos campos de concentração, tendo em vista a divulgá-los para o Mundo. Saul acaba por se oferecer para ajudar Abraham e Biedermann, enquanto procura penetrar na unidade de Mietek e dialogar com o "Renegado", uma tarefa assaz complicada.

  A reunião entre Saul e Mietek não é pacífica, com este último a exibir um desprezo indelével para com os judeus, enquanto tenta conservar o seu poder e estatuto no interior deste espaço. Mesmo quando assume contornos que parecem demasiado particulares, a jornada do protagonista ganha, ainda que gradualmente, toda uma dimensão alargada, ou não estivéssemos diante de alguém que procura efectuar um "acto humano" após participar em episódios completamente desumanos. A câmara de filmar segue atentamente o protagonista, parecendo movimentar-se muitas das vezes ao ritmo do mesmo, com a vida deste indivíduo a conhecer um "abanão" quando se depara com o corpo de um jovem. Esta busca de Saul, tendo em vista a conceder um enterro condigno ao filho, conduz o protagonista a participar em situações como ajudar a tirar fotografias das cremações, atirar as cinzas dos mortos para o rio, ameaçar denunciar o "Renegado" quando este se recusa a auxiliá-lo, transportar pólvora, entre outros episódios, com László Nemes a apresentar esta jornada de forma crua, conseguindo transmitir a atmosfera claustrofóbica que rodeia o dia-a-dia do personagem principal. László Nemes consegue criar a sensação de que estamos praticamente ao lado de Saul e a presenciar os acontecimentos de "O Filho de Saul" bem de perto, uma medida fulcral para potenciar o poder dos episódios exibidos, parecendo praticamente impossível ficar indiferente quer em relação àquilo que é exibido, quer aos elementos que são sugeridos. No início do filme, o espectador é colocado diante da chegada de um comboio com judeus que são obrigados a deslocarem-se para o interior dos campos de concentração, sendo guiados por membros dos Sonderkommando. Os movimentos das gentes anónimas são quase mecânicos, com os prisioneiros a surgirem propositadamente desfocados, com László Nemes a expor o enredo a partir de uma perspectiva muito particular, enquanto reproduz o quotidiano num campo de concentração. Veja-se a forma como Saul evita olhar os elementos das SS nos olhos, ou o seu modo submisso de andar, ou a maneira muito própria como este encara os episódios que o rodeiam. O próprio foco ou falta do mesmo remete a espaços para aquilo que Saul observa e concede relevância, com este a encontrar-se num meio onde a brutalidade impera. A pouca profundidade de campo contribui para adensar a atmosfera claustrofóbica que envolve o enredo, com "O Filho de Saul" a criar a incómoda situação de parecer que estamos a presenciar alguns actos atrozes que ganham um poder acrescido devido a sabermos que existiram situações iguais ou piores àquelas que são representadas ao longo do filme. Nemes procura inserir diversos elementos do contexto histórico no interior do enredo, algo mencionado no press kit de "O Filho de Saul", em particular, quando o cineasta aborda a questão das fotografias que Biedermann pretende tirar para expor aquilo que acontecia nos campos de concentração: "Something that was strictly forbidden by the SS, of course. In Birkenau, the Polish resistance was able to get one or a few cameras to the Sonderkommando in order to document the extermination. At unbelievably great risk, they were able to take a photograph just before the doors to a gas chamber were closed and then immediately afterwards: naked women approaching the shot; then their piled-up corpses, which were taken outside and burned right there on the ground. And the four photographs shown".

 A noção de que esta história ficcional é inspirada em factos históricos contribui para atribuir um poder acrescido à jornada do protagonista, com László Nemes a ter a inteligência de criar um personagem principal que está longe de ser infalível ou incapaz de ser influenciado pelo meio que o rodeia. A humanidade de Saul, as suas qualidades e defeitos, a sua jornada pessoal que a espaços é entrelaçada por missões mais latas, contribuem e muito para que este personagem nos intrigue e desperte a nossa atenção, com Géza Röhrig, um actor não profissional, a contar com uma interpretação notável. Com uma marca vermelha nas costas do seu casaco, tal como diversos elementos judeus, Saul é um alvo em movimento, com este indivíduo a apresentar uma postura reservada, pouco dada a grandes ligações, uma situação notória nos diálogos curtos que troca com Abraham e Biedermann, parecendo certo que o quotidiano destes elementos é pontuado pela frieza. As hierarquias entre judeus parecem contribuir para aumentar as divisões, com cada membro dos Sonderkommando a reagir de forma distinta às contingências encontradas no interior deste antro da morte. Biedermann tenta lutar por uma causa mais lata, bem como Abraham. Saul inicia uma jornada muito pessoal, que envolve uma certa dose de egoísmo, com o protagonista a colocar muitas das vezes o seu plano acima dos objectivos de todos aqueles que o rodeiam, embora esteja em causa a salvação de um corpo, de uma alma, de alguém que procura a redenção ao sepultar um jovem de forma condigna. A certa altura do filme, parece que Saul está a procurar a sua própria salvação, com a defesa do corpo do jovem a indicar uma espécie de revolta contra a destruição de todos os outros cadáveres, embora não seja algo premeditado, com este indivíduo a surgir simultaneamente como vítima, testemunha e protagonista das atrocidades cometidas pelos nazis. A procura de Abraham organizar uma revolta e a forma como o protagonista acaba envolvido nesses planos, nomeadamente, devido à sua jornada pessoal, é um exemplo dessa procura de László Nemes distanciar Saul do estereótipo do herói, embora o cineasta nunca se esqueça de nos relembrar que o quotidiano no campo de concentração não se cinge ao personagem interpretado por Géza Röhrig. O enredo desenrola-se em Outubro de 1944, uma data que não foi seleccionada ao acaso, algo comentado por Nemes: "(...) And there are several ways to resist. In the film, we witness an attempted rebellion, which in fact took place in 1944, the only armed revolt in the history of Auschwitz". O argumento entrelaça assertivamente a jornada de Saul com este episódio da fuga, com László Nemes e Clara Royer a terem bebido alguma da sua inspiração no livro "We Wept Without Tears: Testimonies of the Jewish Sonderkommando from Auschwitz", da autoria de Gideon Greif, com "O Filho de Saul" a evidenciar que a dupla efecutou um bom trabalho de pesquisa. No final, a morte parece o destino mais certo para estes personagens, com "O Filho de Saul" a apresentar-nos ao quotidiano de Saul de forma crua, claustrofóbica, pouco dada a falsos optimismos, enquanto nos deixa diante de uma realidade que representa um dos capítulos negros da História da Humanidade, com László Nemes a ter uma estreia notável na realização de longas-metragens.

Título original: "Saul fia".
Título em Portugal: "O Filho de Saul".
Realizador: László Nemes.
Argumento: László Nemes e Clara Royer.
Elenco: Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn, Sándor Zsótér.

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