14 julho 2016

Resenha Crítica: "No Country for Old Men" (Este País Não É Para Velhos)

  A violência, a ganância, a morte e os longos silêncios permeiam a narrativa de "No Country for Old Men", bem como as interpretações de grande nível, com Joel e Ethan Coen a colocarem o espectador diante de um enredo pontuado por personagens dotados de valores muito próprios. A ganância tolda a racionalidade de alguns personagens, enquanto outros parecem encontrar motivação na morte alheia, apesar de diversos elementos apresentarem fortes valores morais, com "No Country for Old Men" a contar com um enredo pontuado por uma miríade de figuras complexas. O enredo tem inicialmente como pano de fundo o território do Texas, em meados da década de 80, com os irmãos Coen a explorarem mais uma vez alguns espaços bastante específicos dos EUA, enquanto observam as suas transformações e as suas gentes. No início de "No Country for Old Men" ficamos exactamente diante dessas dicotomias entre o passado e o presente, com o Xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), um veterano de Guerra, a narrar o seguinte: "Some of the old time sheriffs never even wore a gun. A lotta folks find that hard to believe. Jim Scarborough'd never carried one; that's the younger Jim. Gaston Boykins wouldn't wear one up in Comanche County. I always liked to hear about the oldtimers. Never missed a chance to do so. You can't help but compare yourself against the oldtimers. Can't help but wonder how they would have operated these times. (...) The crime you see now, it's hard to even take its measure. It's not that I'm afraid of it. I always knew you had to be willing to die to even do this job. But, I don't want to push my chips forward and go out and meet something I don't understand. (...)". Ed Tom Bell é um indivíduo lacónico e ponderado, que conta com valores morais elevados, aprecia a companhia da sua esposa e exibe algum orgulho no seu ofício. O Xerife parece deveras cansado e frustrado em relação às mudanças negativas que ocorrem no território onde trabalha e habita, algo que expressa de forma paradigmática nos momentos iniciais de "No Country for Old Men", quando expõe que se encontra preocupado com os crimes bizarros que se encontram a ser cometidos. Ed Tom Bell é claramente o representante do passado, um Xerife que parece saído do Velho Oeste, com Tommy Lee Jones a conseguir transmitir a sapiência ao personagem que interpreta e espelhar as preocupações que atormentam a mente deste veterano que a espaços entra em divagações que dizem muito sobre a sua pessoa. Ao longo do filme, Bell prepara-se para sentir a ameaça de uma dessa figuras que não compreende, nem provavelmente será capaz de entender, embora tente travar o criminoso. Essa figura que Ed não consegue compreender é Anton Chigurh (Javier Bardem), um assassino a soldo que mata quer pelo dinheiro, quer por prazer, com Javier Bardem a interpretar um criminoso soturno que atormenta tudo e todos. Anton Chigurh promete ser recordado como um dos personagens mais relevantes da carreira de Javier Bardem, com o actor a contar com um trabalho brilhante. Bardem praticamente não tem de dialogar ao longo do filme. As suas expressões, o seu olhar e a aura que transmite permitem incutir um tom ameaçador a Chigurh, um assassino de tez pálida, aparentemente impassível na hora da matança, que conta com um conjunto de valores bizarros e parece ter um certo prazer em jogar com a vida dos seus interlocutores. Veja-se quando se encontra num estabelecimento comercial e obriga o dono a escolher entre cara ou coroa, com uma simples moeda a poder decidir o destino do indivíduo que teve o azar de se deparar com o personagem interpretado por Javier Bardem.

Anton Chigurh protagoniza uma espécie de jogo entre o gato e o rato com Llewelyn Moss (Josh Brolin), um indivíduo que estava no local errado à hora errada, ou se preferirem, decidiu tomar a pior das decisões quando presenciou uma situação macabra (o destino volta a fazer das suas num filme dos irmãos Coen, bem como a sede pelo dinheiro fácil). Quando se encontrava a caçar no meio do deserto, Llewelyn depara-se com alguns mortos, um indivíduo gravemente ferido, uma quantidade assinalável de droga e uma mala com dois milhões de dólares. O que fazer numa situação destas? Llewelyn decide levar a mala, desconhecendo inicialmente que esta conta com um aparelho que permite rastrear a sua localização. O dinheiro pertence a um grupo de traficantes, com o negócio a não ter sido concluído da melhor maneira, algo que conduziu a uma onda de violência e mortes. Llewelyn poderia apenas ter chamado as autoridades. Ao invés disso, Llewelyn preferiu seguir um caminho mais negro que promete colocar a sua vida em perigo. Llewelyn é um veterano de Guerra (esteve na Guerra do Vietname, sendo um velho conhecido de Ed), que trabalha como soldador e é casado com Carla Jean Moss (Kelly Macdonald), uma mulher aparentemente ingénua, embora esta figura feminina surpreenda no último terço de "No Country for Old Men" ao assumir uma demonstração de força que promete deixar marca no espectador (é um grande momento de interpretação de Kelly Macdonald). O protagonista ainda envia Carla Jean para Odessa, o local onde habita a mãe da esposa, embora a vida deste núcleo familiar esteja em perigo, sobretudo quando Chigurh começa a perseguir o soldador. No início do filme, encontramos Chigurh a ser detido, embora elimine facilmente o polícia, espalhando a morte por onde circula. A arma primordial do personagem interpretado por Javier Bardem é uma espécie de tanque de oxigénio que se encontra acompanhado por um tubo, com o assassino a eliminar de forma brutal aqueles que se atravessam no seu caminho. Chigurh é contratado para recuperar o dinheiro, embora elimine dois indivíduos que o contrataram, com o assassino a iniciar uma perseguição a Llewelyn, enquanto este último percebe que entrou num jogo perigoso e violento. Estão lançados os dados: morrer ou matar. Não existe outra escolha para Llewelyn e Chigurh, com este último a não dar outra opção ao primeiro. Josh Brolin interpreta um indivíduo complexo que, tal como diversos personagens que povoam a narrativa dos filmes dos irmãos Coen, acaba por sucumbir aos encantos e ao engodo do dinheiro fácil, tendo de lidar com as consequências dessa decisão. Tal como Javier Bardem, também Josh Brolin consegue destacar-se por conseguir transmitir imenso com poucas falas, com Chigurh e Llewelyn a protagonizarem momentos de enorme tensão e inquietação, enquanto os irmãos Coen se "divertem" a despertar um nervoso miudinho no espectador. Brolin interpreta uma espécie de cowboy que se deparou com uma situação que mexeu com os seus valores morais. Dois milhões de dólares é muito dinheiro, sobretudo para alguém como Llewelyn, que vive com a sua esposa numa habitação pouco luxuosa, de forma remediada, algo que pode ajudar a explicar a decisão do protagonista. Os actos de Llewelyn colocam-no numa zona cinzenta entre o bem e o mal, algo que contrasta com Ed Tom Bell (representante dos bons valores morais) e Chigurh (o representante do mal, ou não estivesse muitas das vezes envolvido pelas sombras), com "No Country for Old Men" a abordar as idiossincrasias destes personagens.

A vida de Llewelyn muda por completo a partir do momento em que resolve ficar com a mala e iniciar um plano para permanecer com o dinheiro. Entramos no território de Joel e Ethan Coen, com a imprevisibilidade a tomar conta da narrativa, bem como a violência, com esta a ser exposta de forma amiúde, ou a ficar implícita, com a morte a fazer parte do quotidiano de diversos personagens. Os cineastas jogam com as nossas expectativas, enquanto exibem a brutalidade do universo narrativo que rodeia estas figuras, com a narração inicial a dar o mote para aquilo que vai ocorrer, assim como acontecera em "Blood Simple", a primeira longa-metragem realizada por Joel e Ethan Coen. Se "Blood Simple", "Fargo", "The Big Lebowski", entre outros trabalhos de Joel e Ethan Coen, partiram de argumentos originais, já "No Country for Old Men" é inspirado no livro homónimo da autoria de Cormac McCarthy, com a dupla a incutir um estilo muito próprio ao enredo deste neo-western onde assistimos ao choque entre o presente e o passado, com o território do Texas a parecer inóspito para "Velhos" e "Novos". Este é ainda um filme de grandes interpretações, com os irmãos Coen a valorizarem novamente o trabalho do elenco que têm à disposição quer por fornecerem um argumento coeso, bem estruturado e recheado de personagens com dimensão, quer por deixarem os actores e actrizes brilharem. Javier Bardem, Josh Brolin, Tommy Lee Jones e Kelly Macdonald já foram elogiados, embora "No Country for Old Men" ainda deixe espaço para elementos como Woody Harrelson sobressaírem. Harrelson interpreta Carson Wells, um caçador de recompensas com uma personalidade sardónica e confiante, que conhece Chigurh, tendo sido contratado para recuperar o dinheiro que se encontra na posse de Llewelyn. Carson ainda contacta com Llewelyn e Chigurh, intrometendo-se por breves momentos neste jogo perigoso entre o gato e o rato que os dois últimos protagonizam por diversos espaços dos EUA e do México. Diga-se que Harrelson interpreta um personagem que contrasta com as figuras lacónicas que permeiam a narrativa, com Carson a surgir como um indivíduo falador e excessivamente confiante. O elenco sobressai, mas também a dupla de realizadores e Roger Deakins. O trabalho de Roger Deakins na cinematografia contribui para incrementar a tensão que invade quase todos os poros do filme e a atmosfera claustrofóbica de alguns momentos. Veja-se os momentos no deserto, quando Llewlyn se depara com os mortos e a mala, com as cores quase esbatidas, inerentes ao calor excessivo, a contrastarem com o aparecimento de nuvens cinzentas que prometem atacar o cenário e a vida do protagonista. O céu é colocado regularmente em destaque, em planos bem abertos, seja quando as nuvens estão carregadas, ou o Sol brilha, ou o azul nocturno toma conta dos cenários, algo que permite transmitir a passagem do tempo, com a noite a parecer trazer sempre mais perigos. Diga-se que Llewelyn ainda regressa ao "local do crime", embora este trecho seja marcado por uma fuga violenta, com os irmãos Coen a aproveitarem os momentos sem diálogos de forma exímia, bem como a pouca iluminação desta cena que decorre durante a noite.

 O trabalho sublime dos irmãos Coen é ainda visível noutros momentos marcantes do filme. Veja-se quando encontramos Chigurh e Carla Jean isolados no mesmo cenário fechado (com a dicotomia entre as luzes e as sombras a ser representada em cada um dos personagens, com a personagem interpretada por Kelly Macdonald a encontrar-se envolvida pelas primeiras, enquanto o assassino é "absorvido" pelas segundas), ou a cena em que Ed Tom Bell decide entrar num local escuro onde o primeiro se encontra presente, ou a tensão numa chamada telefónica que envolve o assassino e Llewelyn, entre outras situações. Os cenários interiores são aproveitados com precisão, bem como os exteriores, algo latente na forma como o deserto é exposto, com a hostilidade, mistério e estranha beleza deste espaço a ser explanada de forma sublime. No caso dos cenários interiores, a decoração da habitação de Carla Jean e Llewelyn permite explanar que o casal não conta com uma situação financeira próspera, enquanto os espaços por onde este último circula permitem adensar a tensão em volta dos episódios que protagoniza. Veja-se quando o personagem interpretado por Javier Bardem se encontra à porta do quarto que Llewelyn alugara, apagando as luzes que permitiam observar a sua sombra através da fresta inferior da porta, com a inquietação e o perigo a serem exacerbados, enquanto o contraste entre luz e sombras é utilizado com enorme primor e precisão (algo recorrente ao longo do filme, bem como a boa utilização da iluminação). O duelo entre os personagens interpretados por Javier Bardem e Josh Brolin é pontuado pela violência física e psicológica, com o segundo a ser obrigado a lidar com as opções que tomou e a lutar pela sobrevivência, enquanto o primeiro exibe o seu carácter praticamente frio e implacável. O destino tem um papel fulcral nas escolhas de Llewelyn. Se Llewelyn não estivesse a caçar naquela hora, muito provavelmente não se iria deparar com aquela maleta com dois milhões de dólares. É certo que poderia ter ignorado a mala, mas será que isso seria possível? É improvável que nós próprios não nos sentíssemos tentados a pegar na maleta, a não ser que soubéssemos todos os efeitos colaterais dessa decisão. Ed Tom Bell ainda tenta proteger Llewelyn, enquanto Carla Jean teme pela vida do esposo. Diga-se que Ed não chega a encontrar Llewelyn, com "No Country for Old Men" a jogar muitas das vezes com as nossas expectativas e a subverter aquilo que poderia ser esperado, enquanto tudo parece funcionar. As dinâmicas entre os elementos do elenco são bem aproveitadas, o trabalho a nível do design de produção é praticamente imaculado, os sotaques dos personagens funcionam e contribuem para atribuir credibilidade aos mesmos, com os irmãos Coen a parecerem ter em atenção todos os pequenos detalhes que, ao serem reunidos, permitem criar uma obra cinematográfica magnífica. Entre dilemas morais, decisões questionáveis, imensa violência e situações perturbadoras, planos bem arquitetados e interpretações memoráveis, "No Country for Old Men" é um hino ao trabalho dos actores e ao cinema, com os irmãos Coen a realizarem uma obra cinematográfica pontuada por momentos marcantes onde exibem um domínio praticamente imaculado do seu ofício.

Título original: "No Country for Old Men". 
Título em Portugal: "Este País Não É Para Velhos".
Título no Brasil: "Onde os Fracos não Têm Vez".
Realizador: Joel Coen e Ethan Coen.
Argumento: Joel Coen e Ethan Coen.
Elenco: Josh Brolin, Javier Bardem, Tommy Lee Jones, Kelly Macdonald, Woody Harrelson.

Trailer de "No Country for Old Men":


Sem comentários: