21 julho 2016

Resenha Crítica: "Mediterranea" (2015)

 Estreia de Jonas Carpignano na realização de longas-metragens, "Mediterranea" surge como um drama relevante sobre os migrantes que atravessam o deserto do Sáara e o Mar Mediterrâneo para chegarem a Itália, com o cineasta a abordar a temática com uma mescla de optimismo e pessimismo, enquanto desfere alguns murros no estômago do espectador e dos personagens. A temática dos imigrantes clandestinos que se deslocam para alguns países da Europa em busca de melhores condições de vida continua na ordem do dia e a despertar as opiniões mais díspares (algumas a roçar a xenofobia), com Jonas Carpignano a realizar uma obra cinematográfica que deveria ser de visualização obrigatória quer para os cidadãos que recebem migrantes no seu país, quer para os elementos que partem em busca de uma aventura que pode correr muito mal. É, também, um retrato sobre a intolerância, com "Mediterranea" a abordar o racismo de alguns elementos em relação aos migrantes, bem como as dificuldades que os imigrantes ilegais encontram para se conseguirem integrar no interior da sociedade da qual sonharam fazer parte. Diga-se que não é preciso visionarmos "Mediterranea" para nos apercebermos da intolerância em relação aos migrantes e aos homens e mulheres de religião muçulmana, com as redes sociais a serem um "antro" de tesourinhos deprimentes, bem como a aderência despertada por candidatos políticos como Donald Trump ou Marine Le Pen. No caso de "Mediterranea", Jonas Carpignano utiliza a ficção para abordar algumas problemáticas inerentes à imigração ilegal e aos refugiados, com o cineasta a explorar temáticas como as dificuldades de integração, a xenofobia, a procura de encontrar melhores condições de vida, as situações extremas com que os migrantes são confrontados, sempre sem esquecer de expor que estamos diante de uma sociedade supostamente globalizada, com as redes sociais, a música e os aparelhos electrónicos a terem um papel importante no quotidiano dos dois protagonistas, uma situação que contribui para que a dupla forme uma ideia errada da Europa e da vida em Itália. "Mediterranea" deixa-nos diante de Ayiva (Koudous Seihon) e Abas (Alassane Sy), dois amigos de longa data, que partem do Burkina Faso em direcção a Itália, tendo em vista a lutarem por melhores condições de vida. A jornada que antecede a chegada de Ayiva e Abas a Itália é atribulada, com estes a contarem com a companhia de diversos migrantes, enquanto atravessam países, caminham pelo deserto, são assaltados, lidam com mentiras e mortes inesperadas, com a entrada na Europa a estar longe de ser pontuada pela felicidade. A morte é o destino de imensos migrantes ilegais, com "Mediterranea" a não esconder essa realidade, algo que conduz Ayiva a tentar evitar que a irmã e a filha se desloquem para Itália em condições precárias. Carpignano expõe de forma precisa e concisa algumas das dificuldades que os protagonistas enfrentam até chegarem ao destino pretendido, bem como a crueza que envolve toda esta jornada, embora o cineasta pareça estar sempre mais interessado em abordar o choque que a dupla sente ao deparar-se com uma realidade hostil em Itália. Ayiva e Abas conseguem um visto de três meses, com ambos a terem de conseguir um contrato de trabalho antes desse prazo terminar, uma tarefa que parece deveras difícil de concretizar. As dificuldades sentidas por estes dois migrantes são mais do que muitas, com Ayiva a ter de optar por alguns actos que certamente não o deixarão orgulhoso, tais como roubar uma mala para tentar vender um mp3 e ficar com a roupa que se encontra no interior da mesma, enquanto Abas assume uma postura mais orgulhosa e hostil.

 Ayiva é pai de uma jovem de sete anos de idade, que se encontra a viver com a irmã do primeiro no Burkina Faso, com o pouco que o protagonista ganha em Itália a ser essencial para a família. Abas é um indivíduo relativamente mulherengo e arrogante, que apresenta um conjunto de atitudes mais ariscas do que Ayiva quando é confrontado com abusos de poder. A cumplicidade entre Ayiva e Abas é latente, com Koudous Seihon e Alassane Sy a transmitirem que existe uma amizade forte a ligar a dupla de protagonistas, apesar destes migrantes contarem com diferenças notórias a nível de personalidade. Em Itália, Ayiva e Abas contactam com uma série de conhecidos, embora fiquem praticamente a viver no meio da rua, até conseguirem encontrar trabalho, nomeadamente, a recolherem laranjas e a carregarem caixas. As condições de trabalho são miseráveis, com Ayiva e Abas a encontrarem-se a laborar de forma ilegal, bem como outros migrantes, apesar do primeiro cair nas boas graças de Rocco (Davide Schipilliti), o seu chefe, devido a estar sempre disponível para trabalhar. Ayiva chega a contactar com a família de Rocco e sonha conseguir um contrato de trabalho, mas o seu optimismo é constantemente rechaçado pela realidade. Rocco parece demonstrar uma certa abertura para com Ayiva, embora, num momento fulcral para o segundo, exponha que existem diferenças profundas a separá-los. O personagem interpretado por Davide Schipilliti parece contar com ligações com a máfia (algo que não é muito abordado, embora fique subentendido numa festa que organiza), com o crime a fazer parte do seu quotidiano, ou não explorasse regularmente os trabalhadores ilegais, apesar de a espaços apresentar uma ou outra amostra de humanidade. Diga-se que o crime é algo que parece marcar o território de Rosarno, uma comuna italiana da região da Calábria, com Abas e Ayiva a habitarem e trabalharem neste local. Veja-se o caso do jovem Pio (Pio Amato), um gangster em miniatura, que conta com cerca de dez anos de idade. Pio Amato é um dos vários elementos que se destacam no elenco de "Mediterranea", com o jovem a incutir um tom rebelde e decidido a este vendedor de produtos roubados. Quando encontramos Pio a fumar, ou a roubar bebidas alcoólicas, ou a vender produtos roubados, ou a dialogar como se fosse um adulto, percebemos que a crueza é algo impregnado neste território, com os próprios jovens a terem de gerar anticorpos para se safarem no interior desta região da periferia que está longe de ser aprazível. Essas dificuldades podem ajudar a explicar a rejeição de alguns elementos em relação aos migrantes, embora a situação seja bem mais complexa. O caso de Rocco é paradigmático dessa situação intrincada, com este personagem a representar os elementos que lucram com o facto de contarem com migrantes ilegais como trabalhadores, preferindo abusar do esforço dos mesmos ao invés de tentar legalizá-los. Temos ainda elementos que pura e simplesmente são xenófobos ou racistas, com Jonas Carpignano a procurar despertar a atenção para uma série de problemáticas que merecem ser alvo de reflexão e debate por parte do espectador. No território de Rosarno, Ayiva e Abas encontram alguns elementos conhecidos, tais como Mades (Adam Gnegne), um amigo de ambos, embora a vida deste indivíduo esteja longe de ser tão aprazível como este exibira no Facebook.

 As redes sociais contam com um papel relevante no interior da narrativa de "Mediterranea", com Jonas Carpignano a exibir que estas permitem transmitir ideias enganadoras, algo latente quando encontramos Ayiva a dialogar com a irmã e a filha, com este a procurar esconder as agruras pelas quais passou quando percebe que o dinheiro que enviou contribuiu e muito para o bem estar de ambas. É um dos momentos mais poderosos e comoventes de "Mediterranea", com Koudous Seihon a transmitir a alegria de Ayiva por conseguir dialogar com a filha, mas também a tristeza por não estar junto desta, enquanto exibe a incapacidade deste migrante em desabafar sobre as agruras com que se deparou em Itália. A certa altura, Zeina, a filha de Ayiva, começa a dançar ao som de "We Found Love" de Rihanna, utilizando o mp3 oferecido pelo pai. As lágrimas começam a descer pelo rosto de Ayiva, com este a desligar temporariamente a câmara do computador, enquanto Jonas Carpignano efectua um contraste entre o ritmo festivo da canção "We Found Love" e a tristeza do protagonista, com o cineasta a utilizar mais uma vez uma música popular ao serviço do enredo. Veja-se quando encontramos uma migrante a dançar ao som de "S&M" de Rihanna, ou a canção "Got to Love You" de Sean Paul e Alexis Jordan a invadir o ecrã, com Jonas Carpignano a saber utilizar a banda sonora ao serviço da narrativa, com as músicas a contrastarem muitas das vezes com a conclusão dos episódios que as acompanham. As músicas de Rihanna servem ainda para Carpignano expor o entusiasmo que a cantora desperta ao redor do Mundo, com o cineasta a abordar como a cultura pop influencia a população mundial, uma situação que parece ter contribuído para Ayiva e Abas criarem uma ideia completamente errada da Europa. Essa situação é visível quando a dupla sai com Mades e os amigos deste último e se deparam com um carro a avançar em alta velocidade, com os condutores a fazerem questão de voltar atrás para tentarem atropelá-los. O olhar de Ayiva transmite uma certa apreensão (Koudous Seihon não precisa de muitas palavras para exibir os sentimentos do personagem que interpreta), com este e Abas a conhecerem um dos primeiros dissabores no território, com "Mediterranea" a fazer questão de contrastar as pequenas conquistas dos protagonistas com os enormes revezes que conhecem ao longo do filme. Num determinado momento de "Mediterranea", encontramos Ayiva, Abas, Mades e um grupo de amigos a divertirem-se. Não falta uma migrante a dançar e a salientar que Rihanna é a sua irmã, muita música, diversão e consumo de álcool. O local onde estes homens e mulheres encontram-se reunidos é praticamente uma espelunca, mas aquilo que importa é que se encontram felizes. No entanto, tudo termina rapidamente quando as mulheres são chamadas para um "serviço", ou seja, prostituírem-se, com este a ser o destino mais provável para algumas migrantes ilegais. É mais um momento onde Carpignano mostra quer a camaradagem entre alguns migrantes, ou seja, algo positivo, quer as agruras que estes conhecem no território, com o cineasta a não efectuar um retrato unidimensional do quotidiano destes personagens em Rosarno.

 A escolha do território de Rosarno como cenário primordial da narrativa não parece ter sido efectuada ao acaso, com este espaço a conhecer uma entrada numerosa de migrantes, mas também episódios violentos, algo retratado em "Mediterranea". Veja-se os confrontos no último terço, ou as notícias de que alguns negros foram assassinados, uma situação que gradualmente gera revoltas impossíveis de controlar, com Jonas Carpignano a abordar uma série de temáticas que estão longe de poderem ser analisadas de forma linear, sobretudo quando nos questionamos sobre como reagiríamos numa situação similar àquela que é encontrada pelos protagonistas. Em "La Loi du Marché", o personagem interpretado por Vincent Lindon procura manter a dignidade e a compostura mesmo quando é confrontado com situações-limite. No caso de "Mediterranea", Ayiva procura manter algum optimismo e sobreviver num meio hostil onde a intolerância e a violência acabam por influenciar os comportamentos de tudo e todos. Diga-se que Rosarno conta com um historial de episódios de intolerância para com os migrantes, bem como de confrontos, com "Mediterranea" a abordar um protesto mais musculado por parte dos imigrantes clandestinos, após terem sido despejados e agredidos. A violência do protesto é exposta, com este acto a surgir como uma resposta a uma série de agressões e humilhações, embora Jonas Carpignano não aborde eficientemente as consequências políticas destas revoltas. Os excessos a nível dos movimentos de câmara nas cenas que envolvem o protesto também estão longe de ser os mais inspirados ou eficazes, com o trabalho de Wyatt Garfield na cinematografia a não primar pela subtileza. Carpignano e Garfield ficam a meio caminho entre a tentativa de atribuir um tom quase documental e "realista" a "Mediterranea" e trazer as atenções para o seu trabalho, com a câmara de filmar a parecer completamente descontrolada nos momentos dos protestos. No entanto, Jonas Carpignano é bem mais eficaz a expor uma situação que deveria ser relativamente fácil de perceber, ou seja, uma parte significativa destes migrantes procuram acima de tudo encontrar melhores condições de vida em relação ao meio onde habitavam, algo representado nos personagens interpretados por Koudous Seihon e Alassane Sy. "Mediterranea" beneficia ainda de contar com um elenco competente, composto maioritariamente por actores e actrizes não profissionais ou estreantes nestas lides, embora Koudous Seihon e Pio Amato já tivessem colaborado com Carpignano na curta-metragem "A Ciambra", com o cineasta a conseguir extrair boas interpretações por parte destes elementos, algo que permite elevar o enredo do filme. Koudous Seihon e Alassane Sy são os intérpretes que mais sobressaem, embora Pio Amato, Ousman Sabre (como o tio de Ayiva, o elemento que pagou parte da viagem do protagonista e de Abas para Itália) e Zakaria Kbiri (como Mehdi, um vendedor marroquino que ferve em pouca água) também se consigam destacar ao longo de "Mediterranea", um drama relevante, pontuado por temáticas que merecem reflexão, uma banda sonora poderosa e um argumento competente, com Jonas Carpignano a convencer na sua estreia na realização de longas-metragens.

Título original: "Mediterranea".
Título em Portugal: "Mediterreânea".
Realizador: Jonas Carpignano.
Argumento: Jonas Carpignano.
Elenco: Alassane Sy, Koudous Seihon, Pio Amato, Zakaria Kbiri, Ousman Sabre, Davide Schipilliti.

Trailer de "Mediterranea":

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