04 julho 2016

Resenha Crítica: "La Loi du Marché" (A Lei do Mercado)

 Vincent Lindon tem uma interpretação pontuada pela subtileza e pela contenção na exposição dos sentimentos em "La Loi du Marché", com o actor a transmitir a tentativa de Thierry Taugourdeau, o personagem que interpreta, um indivíduo na casa dos cinquenta anos de idade, em manter a humanidade num meio selvagem como o mercado de trabalho. Taugourdeau é um antigo operário que se encontra desempregado há quinze meses, sendo casado e pai de Matthieu (Matthieu Schaller), um adolescente que padece de paralisia cerebral, com "La Loi du Marché" a abordar assertivamente as preocupações profissionais e pessoais do protagonista. Thierry procura ultrapassar esta fase problemática da sua vida, algo que o conduz a desistir de lutar ao lado de antigos colegas e sindicalistas contra a empresa que o despediu, com o protagonista a preferir centrar os esforços na busca por um emprego. O antigo operário está consciente de que manter esta batalha quixotesca não vai resolver os seus problemas imediatos, ou seja, encontrar um novo trabalho e alcançar a estabilidade necessária para pagar as contas, sejam estas inerentes aos estudos do filho ou à renda da casa, com Thierry a ser obrigado a optar por uma atitude pragmática, embora tenha sentido na pele os efeitos do despedimento. O despedimento de Thierry reflecte toda uma problemática inerente à sociedade contemporânea, em particular, a procura das grandes empresas lucrarem cada vez mais, ignorando o trabalhador, algo que Stéphane Brizé salienta no press kit do filme: "This man is not kicked out because he didn’t do his job well. He’s kicked out because some people want to make more money. Thierry is the mechanical consequence of a few invisible shareholders whose bank accounts needed a  boost. He is the face of the unemployment statistics we hear about everyday in the news". A vida de Thierry não está fácil. No centro de emprego atiram com Thierry para o interior de cursos inúteis, as entrevistas de trabalho ganham contornos completamente desumanos e caricatos, as reuniões no banco atingem proporções revoltantes apesar do protagonista estar a pagar as contas, com as aulas de dança a parecerem os únicos momentos em que o personagem principal tem espaço para descontrair. Thierry procura manter a dignidade e a postura, mesmo quando se depara com situações delicadas e propiciadoras de outro tipo de comportamentos, com Vincent Lindon a compor um personagem que permite abordar uma série de questões sobre o mercado de trabalho, o capitalismo e a desumanização que por vezes paira pela nossa sociedade. A semelhança entre alguns episódios de "La Loi du Marché" e a realidade não são mera coincidência, com Stéphane Brizé a realizar uma obra cinematográfica com um forte pendor social, pouco dada a situações melodramáticas, com o exemplo de Thierry a servir para o cineasta abordar problemáticas mais latas. Nesse sentido, Stéphane Brizé aborda temáticas relacionadas com o desemprego, as políticas laborais desumanas (veja-se as tentativas gerência de um hipermercado para que os funcionários com mais tempo de duração sejam despedidos), a ineficácia dos centros de emprego e os seus cursos de formação, com o contexto francês a não ser assim tão distante do caso português. Stéphane Brizé realiza um filme de ficção que procura despertar a atenção do espectador para problemas reais, com o cineasta a problematizar as temáticas que apresenta, enquanto evita efectuar uma abordagem unidimensional sobre a nossa sociedade e o mercado laboral.

 Aquilo que nos é apresentado ao longo de "La Loi du Marché" é o reflexo de uma sociedade que tarda em recuperar de uma grave crise económica, social e de valores, com as medidas de combate ao desemprego a parecerem incapazes de surtirem efeito e desfasadas da realidade (ignorar as desistências de inscrições nos centros de emprego é "batota"), enquanto a precariedade no mercado laboral conduz a uma série de situações desagradáveis para aqueles que tardam em conseguir encontrar trabalho. Veja-se quando encontramos Thierry numa reunião caricata e humilhante no centro de emprego onde o seu modo de agir nas entrevistas é analisado e debatido quer pelo "professor", quer pelos colegas, com "La Loi du Marché" a exibir o desconforto do protagonista diante das críticas que lhe são feitas, embora este tente aceitar as mesmas de forma ponderada. É certo que Thierry não é a figura mais polida ou eloquente mas, na prática, aquilo que lhe pedem é para pura e simplesmente mentir nas entrevistas, tendo em vista a transmitir uma imagem que não corresponde à sua pessoa. Diga-se que este não é o único episódio caricato de Thierry no centro de emprego. No início de "La Loi du Marché", encontramos Thierry no interior do centro de emprego, a dialogar com o funcionário deste local. A troca de palavras não poderia ser mais honesta e devastadora, com "La Loi du Marché" a dar um murro no estômago do espectador desde o início, enquanto ficamos diante da realidade inerente à puerilidade como os cursos do centro de emprego são organizados, bem como das respostas padronizadas dos funcionários destes espaços. Na teoria, o curso que Thierry concluiu poderia e deveria ter servido para este encontrar uma solução profissional, embora o protagonista não consiga encontrar trabalho devido a não ter experiência na função, ou seja, andou a perder tempo para nada. O funcionário do centro de emprego (Yves Dry) faz questão de salientar que as entidades empregadoras é que fazem o recrutamento, enquanto assume o erro de terem colocado o protagonista (e várias outras pessoas sem experiência) no curso, apresentando uma postura própria de quem lida com diversos casos do género, com este a ser um dos muitos fragmentos do quotidiano de Thierry que nos é apresentado ao longo de "La Loi du Marché". Stéphane Brizé opta por uma estrutura narrativa relativamente episódica, que nos dá a conhecer um pouco da realidade que envolve o protagonista, algo que vai desde este episódio no centro de emprego, passando por uma entrevista escabrosa via Skype, até a uma incursão de Thierry pelo trabalho de segurança, com as elipses a serem utilizadas de forma praticamente irretocável. Filmado com um estilo quase documental, com o trabalho de Éric Dumont na cinematografia a contribuir e muito para o tom "realista" do filme (a câmara na mão é utilizada de forma amiúde), "La Loi du Marché" permite que Vincent Lindon sobressaia, bem como diversos elementos secundários, com Stéphane Brizé a optar regularmente por actores e actrizes não profissionais para acompanharem a estrela da companhia, algo que contribui para atribuir maior credibilidade à representação do quotidiano do protagonista, sobretudo quando Thierry trabalha como segurança de um hipermercado. Stéphane Brizé opta muitas das vezes por nos colocar diante das imagens a partir da perspectiva das câmaras de segurança, enquanto nos deixa perante as práticas dos seguranças, com estes a terem de lidar com uma série de situações que prometem provocar dilemas morais no interior da mente do protagonista. Tanto encontramos o chico-esperto que rouba um carregador de um telemóvel como somos colocados diante de um indivíduo que não tem dinheiro e rouba uma embalagem de carne, com os procedimentos para ambos os casos a serem semelhantes, enquanto Vincent Lindon exibe a procura de Thierry em manter a calma, com o protagonista a não parecer confortável nesta função.

  Stéphane Brizé desenvolve a história de Thierry de forma praticamente imaculada, com o cineasta a expor a série de problemas e humilhações com que o protagonista se deparou, até colocá-lo num emprego onde tem de aplicar actos quase tão desumanos como aqueles com os quais teve de lidar durante boa parte da narrativa. Essa situação é visível quando tem de confrontar colegas que trabalham na caixa, com estas a cometerem irregularidades que têm de ser denunciadas pelos seguranças, algo que coloca o emprego das mesmas em risco. Nesse sentido, Stéphane Brizé opta por expor quer a perspectiva da empresa que procura despedir funcionários, quer a do trabalhador que acaba por cometer erros que precipitam os intentos da entidade empregadora. Thierry nem sempre parece estar preparado para lidar com estas situações, embora não o demonstre de forma paradigmática, com Vincent Lindon a incutir algum mistério a este personagem bastante contido na exposição das emoções, com a nova parceria entre o actor e Stéphane Brizé a funcionar na perfeição. Diga-se que Stéphane Brizé soube rodear-se de uma equipa competente, com nada a parecer ter sido deixado ao acaso, algo latente na escolha do director de fotografia, uma situação comentada pelo cineasta: "(...) I chose to take on a cinematographer who had only made documentaries. I wanted someone who was used to being completely autonomous with framing, focussing and aperture. I worked with Éric Dumont, a young director of photography, who was barely 30 years old and had never shot a fiction film (...)". No entanto, um dos maiores poderes de "La Loi du Marché" é a sua capacidade de transmitir as temáticas sem contemplações ou falsos moralismos, com Stéphane Brizé a criar um drama poderoso, que nos faz reflectir sobre a nossa sociedade, bem como sobre qual seria a nossa reacção se estivéssemos na mesma situação de Thierry. A própria capacidade de fugir aos clichés é algo de elogiar, com "La Loi du Marché" a efectuar uma representação dos seguranças que foge aos estereótipos relacionados com esta profissão, com o protagonista e os colegas a procurarem evitar os furtos na loja, embora Thierry não pareça ter "estômago" para lidar com a aspereza do quotidiano neste espaço. O argumento é elevado pela realização segura de Stéphane Brizé, com "La Loi du Marché" a abordar com enorme acerto a procura de Thierry encontrar emprego, a relação deste com a esposa e o filho, a preocupação com o rendimento escolar do adolescente, os novos dilemas com que o protagonista se depara quando trabalha como segurança, enquanto o cineasta realiza um drama social que promete figurar nas listas os melhores filmes que estrearam nas salas de cinema portuguesas em 2016.

Título original: "La Loi du Marché".
Título em Portugal: "A Lei do Mercado".
Realizador: Stéphane Brizé.
Argumento: Stéphane Brizé e Olivier Gorce.
Elenco: Vincent Lindon, Matthieu Schaller, Karine De Mirbeck, Yves Ory.

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