12 julho 2016

Resenha Crítica: "Io la conoscevo bene" (I Knew Her Well)

 A entrada e saída de personagens sucede-se em grande ritmo ao longo de "Io la conoscevo bene", a penúltima longa-metragem realizada por Antonio Pietrangeli, embora o quotidiano aparentemente vazio e sem rumo de Adriana (Stefania Sandrelli), a protagonista do filme, pareça uma constante. Esta é uma aspirante a actriz, que deseja ser famosa, embora apenas perceba tardiamente que o mundo no qual pretende entrar está longe de ser um local aprazível. A queda em desgraça é fácil de "conquistar", enquanto o acesso aos luxos e à fama apenas está ao alcance de um núcleo restrito de homens e mulheres, com "Io la conoscevo bene" a transmitir eficazmente o espírito de uma época (lançado em 1965), com o aparente "milagre económico italiano" a mexer com a sociedade, os costumes e os valores deste país. A presença regular dos carros (símbolo de prosperidade nesta fase), da rádio, das grandes marcas internacionais, das mini-ventoinhas, dos discos em vinil, a organização de festas de luxo, os apartamentos modernos, permitem que "Io la conoscevo bene" transmita algumas dessas mudanças que ocorreram no seio da sociedade italiana, com uma boa parte da população a não querer perder o comboio da prosperidade, embora nem todos consigam ser bem sucedidos. Adriana gosta de dar nas vistas, estar bem vestida, expor o seu corpo esbelto, utilizar os penteados mais diversificados, participar em festas, coleccionar casos amorosos, dançar e ouvir música (a banda sonora tem um papel fundamental no interior da narrativa), embora não pareça saber muito bem aquilo que pretende para o futuro, com os seus planos a limitarem-se a querer ser actriz e famosa. É o cocktail quase perfeito para tudo terminar mal para Adriana, com esta a surgir como uma jovem relativamente ingénua e infantil, que acaba muitas das vezes por sofrer uma série de reveses pouco agradáveis. Acima de tudo, Adriana pretende divertir-se, embora esse desiderato apenas seja alcançado de forma temporária, ou esta não acabasse muitas das vezes por ser enganada, parecendo ser encarada como uma figura descartável por parte de vários elementos masculinos. O quotidiano desta mulher é praticamente tão vazio como as suas ideias para o futuro, algo que é exposto por um escritor (Joachim Fuchsberger), que se inspira em Adriana para criar uma personagem para um dos seus livros. Adriana apenas se apercebe da puerilidade do seu estilo de vida, bem como das consequências dos seus fracassos, perto do final do filme, embora as palavras do escritor, um dos muitos homens que se envolvem com a protagonista ao longo de "Io la conoscevo bene" e a tratam de forma fria, apareçam como um descrição crua daquilo que conhecemos desta figura feminina até esse momento: "(...) sempre contente, não quer nada, não inveja ninguém, não é curiosa, não se surpreende com nada, não sente as humilhações. Entretanto, pobre menina, acontecem coisas todos os dias. Ela livra-se de tudo sem deixar marca, como em certos tecidos impermeáveis. Ambição, zero. Moral, nenhuma (...)". Stefania Sandrelli incute um tom simultaneamente sedutor e ingénuo a esta figura feminina que parece iludida em relação à vida, com esta descrição efectuada pelo escritor a não fazer totalmente justiça à complexidade da jovem, embora Adriana apresente um conjunto de comportamentos que se adequam à interpretação efectuada pelo personagem interpretado por Joachim Fuchsberger.

 O que motiva Adriana? Quais as ambições da protagonista? Qual o rumo que esta vai escolher para a sua vida? Será que os reveses vão deixar uma marca indelével nesta figura feminina? Estas são questões que colocamos, ainda que silenciosamente, ao longo da duração de "Io la conoscevo bene", com Antonio Pietrangeli a realizar um drama que é capaz de captar parte das inquietações de uma geração e de uma época a partir da sua protagonista e das figuras que a rodeiam. Adriana parece atraída pelos luxos e pela obtenção de fama fácil, pretendendo formar contactos relevantes e desfrutar dos prazeres da vida, enquanto colecciona casos amorosos que duram quase tão pouco tempo como os seus empregos, embora tarde em conseguir encontrar um rumo para a sua existência ou afirmar-se no interior de uma sociedade machista. É certo que Adriana encontra-se inicialmente pouco preocupada com o futuro, embora essa situação não seja assim tão linear no final do filme, sobretudo quando a realidade faz questão de entrar de rompante e desferir rudes golpes nos sonhos da protagonista. No início de "Io la conoscevo bene" (um título bastante enganador), encontramos Adriana na praia, a desfrutar de uns bons banhos de Sol, com a câmara a avançar delicadamente pelo corpo desta mulher e a expor a sua enorme beleza. Antonio Pietrangeli oferece-nos inicialmente uma noção da beleza, capacidade de sedução e ingenuidade desta jovem, até expor pequenos pedaços da personalidade de Adriana, uma personagem que nunca chegamos a conhecer na totalidade. Adriana trabalha inicialmente num cabeleireiro, embora esteja mais preocupada consigo própria do que com as clientes, mantendo um caso com o dono do estabelecimento, um homem casado que gosta de visitar regularmente a sua funcionária. Quando encontramos Adriana apenas com uma bata a cobrir o bikini, tendo em vista a atender apressadamente uma cliente, percebemos que esta jovem ainda apresenta uma enorme imaturidade, enquanto Antonio Pietrangeli aproveita para incutir algum humor a um enredo onde o drama predomina (a mescla entre a comédia e a tragédia é algo que os cineastas italianos sabem efectuar na perfeição, com o argumento a contar com um dos mestres nessa matéria, Ettore Scola). Adriana trabalha ainda numa sala de cinema (o contraste entre o cinema e a vida, entre o ecrã que seduz e traz um sabor amargo é algo exposto ao longo do filme), a guiar os clientes para os respectivos lugares, para além de desfilar em locais como um ringue de boxe e coleccionar uma série de trabalhos de pouca monta. A protagonista ainda tenta investir na sua formação, embora nada de muito sério, com Antonio Pietrangeli a deixar-nos diante desta mulher a ter lições de colocação de voz e dicção. É numa dessas aulas que encontramos Pietrangeli a utilizar mais uma vez os movimentos de câmara ao serviço do enredo, com a colaboração entre o cineasta e Armando Nannuzzi (director de fotografia) a contribuir para elevar a narrativa. Diga-se que o trabalho de Nannuzzi na cinematografia é muito assertivo, com os movimentos de câmara a surgirem certeiros, prontos a captarem os sentimentos e as características dos locais por onde a protagonista circula. No caso mencionado, a câmara gira de forma aparentemente imparável, pronta a expor a inquietação que percorre a mente da protagonista e a transpor uma sensação de desconforto para o espectador, com este último a sentir um efeito vertiginoso, tal como Adriana.

 A personagem interpretada por Stefania Sandrelli é oriunda de Pistoia, uma comuna italiana da região da Toscana, com Adriana a representar uma das muitas jovens que partem de um espaço rural, tendo em vista a tentarem triunfar na cidade. Adriana procura ser bem sucedida em Roma, um espaço urbano moderno mas cheio de história e monumentos, com o território a parecer contribuir para uma espécie de alienação do ser humano, algo que remete para diversas obras de Michelangelo Antonioni, tais como "La Notte", "L'eclisse" e "Il deserto rosso", que abordavam esta temática. A arquitectura de Roma é exposta, mas também a facilidade com que os homens e as mulheres se "perdem" neste local, com Adriana a surgir como uma jovem que se tarda em impor no interior de um território propício ao isolamento e ao fracasso. Se Adriana preferiu partir para Roma, já os pais e o irmão continuam a habitar em Pistoia, um local pontuado por gentes conservadoras. A casa dos pais de Adriana permite efectuar um contraste entre as habitações rurais isoladas e os apartamentos dos espaços citadinos, com "Io la conoscevo bene" exibir essa oposição entre o campo e a cidade quando a protagonista decide efectuar uma breve visita aos familiares. Note-se o contraste entre as cerimónias religiosas que decorrem no interior do espaço rural com as festas que Adriana visita em Roma, ou os valores conservadores dos progenitores da protagonista em oposição à maior abertura que esta apresenta (veja-se quando a mãe tapa o corpo da filha devido às vestimentas desta última não se adequarem àquele espaço rural). Adriana habita num apartamento de um prédio relativamente moderno, situado em Roma, embora esteja longe de viver em condições luxuosas. Diga-se que "Io la conoscevo bene" não tem problemas em expor os contrastes que existem no interior da cidade de Roma, com a protagonista a tanto aventurar-se por festas e espaços luxuosos como por locais degradados onde o elevador não funciona, com Adriana a tentar o sucesso neste espaço urbano embora a mudança não tenha corrido como esta planeava. Antonio Pietrangeli evitou incutir um tom próximo a um dramalhão a esta obra cinematográfica que aborda uma série de episódios protagonizados por uma jovem que tarda em concretizar os seus sonhos, com a narrativa de "Io la conoscevo bene" a contar com diversos momentos mais leves, seja uma aula onde a dicção dos alunos está longe de ser a mais eficaz, ou um interrogatório onde Adriana faz questão de expor o seu lado mais naïf. A personagem interpretada por Stefania Sandrelli tem uma propensão enorme para se envolver em situações caóticas, bem como em relacionamentos amorosos problemáticos. Veja-se a relação problemática e fugaz entre Adriana e Dario (Jean-Claude Brialy), um criminoso com uma personalidade extrovertida, que atrai facilmente a atenção da protagonista, embora seja um sacana de primeira. Jean-Claude Brialy consegue sobressair como este indivíduo que não resiste a efectuar uma boa conquista, com "Io la conoscevo bene" a contar com uma série de personagens secundários que se destacam, permitindo que os seus intérpretes componham algumas figuras que ficam na memória, enquanto ficamos diante de diversos fragmentos do quotidiano de Adriana, com esta figura feminina a circular por uma miríade de locais.

 Existe ainda um cuidado indelével no design de produção, com os cenários interiores a encontrarem-se decorados a preceito. O escritório do director da Week-end, a "rivista che lancia le dive", é um exemplo paradigmático desse cuidado, com esta pequena sala a contar com uma série de fotografias de mulheres que pretendem ascender ao estrelato, com todas a pagarem para contarem com artigos favoráveis neste tipo de publicações, algo revelador do desejo pela fama por parte de um sector alargado da sociedade. Adriana dirigiu-se a este espaço na companhia de Cianfanna, um empresário, produtor e proxeneta, que procura gerir a carreira da primeira a seu bel-prazer, seja para ajudar a mesma ou para a destruir, com Nino Manfredi a destacar-se como este indivíduo que pensa acima de tudo em si próprio. A protagonista começa a descobrir, ainda que gradualmente, o lado negro deste mundo, bem como a facilidade com que se pode cair no ridículo, com Sandrelli a transmitir as fragilidades desta figura feminina que facilmente prende a nossa atenção (aquele close-up no rosto de Adriana, quando esta descobre que desvirtuaram o conteúdo de uma entrevista, tendo em vista a ridicularizá-la publicamente, é simplesmente arrasador e inesquecível). Quando a câmara se foca no rosto de Stefania Sandrelli é quase certo que a actriz consegue dominar as atenções e despertar alguma simpatia, com a intérprete a convencer quer quando se encontra isolada, quer quando se encontra acompanhada. Adriana parece optimista em relação à vida ou, pelo menos, pouco preocupada com o futuro, até começarem a surgir os reveses indesejáveis. Diga-se que "Io la conoscevo bene" conta com uma série de personagens que levaram "pancada" da vida, entre os quais Emilio Ricci (Mario Adorf), um pugilista falhado, de personalidade introvertida, com quem Adriana tem alguns dos diálogos mais ternos e sinceros. Temos ainda Baggini, um antigo actor, outrora bem sucedido, que agora não tem problemas em humilhar-se publicamente, com Ugo Tonazzi a incutir um tom trágico a este personagem, algo latente quando suplica por um emprego a Roberto (Enrico Maria Salerno), um conhecido que alcançou o estatuto de estrela. A cena de Baggini a sapatear em cima de uma mesa, tendo em vista a expor o seu talento, representa paradigmaticamente a crueldade e as humilhações a que este indivíduo é sujeito, enquanto a câmara, as expressões e movimentos do actor, bem como o trabalho de montagem, adensam o esforço que este efectua para agradar a Cianfanna, com tudo e todos a divertirem-se das figuras feitas por este indivíduo no interior de uma festa em homenagem a Roberto. Diga-se que Baggini também se tenta aproveitar de Adriana, com este indivíduo a procurar utilizar a protagonista para cair nas boas graças de Roberto, enquanto a jovem parece destinada a ser um mero joguete daqueles que a rodeiam. Adriana queria apreciar os prazeres da vida, ser bem sucedida como actriz e desfrutar dos novos luxos que pontuam a sociedade italiana, embora encontre uma realidade bem distinta daquela que criara na sua mente quando saíra de casa dos pais. Antonio Pietrangeli coloca o espectador diante de uma série de episódios relacionados com a protagonista, enquanto ficamos com a sensação que o título nos engana e nem sempre conseguimos conhecer Adriana na sua totalidade, com esta a surgir como uma figura que tanto aprecia os prazeres fugazes como demonstra uma fragilidade latente. Entre sonhos desfeitos, embates dolorosos com a realidade, imensas festas, personagens pontuados pela vacuidade de valores, algum humor e elementos de tragédia, "Io la conoscevo bene" consegue captar o espírito da época, enquanto permite que Stefania Sandrelli tenha uma interpretação magnífica como uma jovem ingénua e sem grandes planos alternativos para o futuro, com Adriana a conhecer uma série de reveses que prometem ser desastrosos.

Título original: "Io la conoscevo bene". 
Título inglês: "I Knew Her Well".
Realizador: Antonio Pietrangeli.
Argumento: Antonio Pietrangeli, Ruggero Maccari, Ettore Scola.
Elenco: Stefania Sandrelli, Jean-Claude Brialy, Mario Adorf, Ugo Tognazzi, Nino Manfredi, Enrico Maria Salerno.

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