05 julho 2016

Resenha Crítica: "Equals" (Iguais)

 Drake Doremus é um cineasta competente a conceder uma atenção indelével aos "pequenos gestos" que contam com um enorme significado, bem como a abordar a complexidade dos sentimentos humanos e das relações amorosas. Foi assim em "Like Crazy" e "Breathe In", dois filmes pontuados por uma enorme atenção aos gestos, aos olhares e aos silêncios dos personagens, com o cineasta a repetir a façanha em "Equals", uma obra cinematográfica que reúne elementos de ficção-científica e romance (mais romance do que ficção-científica). Doremus percebe o poder dos close-ups, das mãos que se entrelaçam, dos pés que se tocam, dos olhares que tanto transmitem, do desejo que nasce e do amor que floresce, enquanto aproveita a química convincente entre Kristen Stewart e Nicholas Hoult, a dupla de protagonistas. O romance entre os protagonistas é bem desenvolvido e aproveitado por Drake Doremus, embora o cineasta pareça estar sempre mais à vontade a abordar esta relação do que a explorar o contexto e os elementos que rodeiam os personagens interpretados por Kristen Stewart e Nicholas Hoult. Este contexto futurista permite que Drake Doremus efectue alguns comentários sobre a sociedade actual, com "Equals" a abordar temáticas como a solidão, a necessidade de sentirmos e expormos as nossas emoções, o excesso de rotinas, enquanto nos apresenta a um futuro distópico onde o planeta Terra se encontra dividido em duas zonas, nomeadamente, o "Colectivo" e a Península. Esta divisão ocorreu após um conflito bélico que destruiu boa parte da Terra, com a Península a ser descrita como uma área selvagem e primitiva, onde os seres humanos vivem de acordo com as emoções e os desejos. Por sua vez, o espaço do "Colectivo" é dominado pela frieza, com tudo e todos a estarem proibidos de evidenciarem sentimentos ou emoções. As tonalidades azuis, brancas e cinzentas dominam este local, com a arquitectura a transmitir a frieza do espaço onde os protagonistas habitam e laboram (bom trabalho na elaboração dos cenários e no aproveitamento dos mesmos ao serviço do enredo). Quase todos os habitantes do "Colectivo" vestem-se de branco, procuram dialogar de maneira lacónica, escolhem as suas refeições de forma praticamente mecânica, com as rotinas dos personagens a serem maioritariamente seleccionadas pelos elementos que regem este espaço, embora as "anomalias" comecem a surgir em grande número. De acordo com os responsáveis deste espaço, as "anomalias" acontecem devido a uma doença denominada de S.O.S. (Switched on syndrome), com os sintomas a consistirem no facto dos personagens começarem a sentir emoções, uma situação aparentemente inesperada. Todos os habitantes do "Colectivo", denominados de "iguais", são incentivados a evitarem o toque e as emoções, bem como a denunciarem aqueles que necessitam de "tratamento", com o território a encontrar-se dotado de enormes medidas de segurança. As alterações genéticas (tendo em vista a "adormecer" a capacidade dos "iguais" sentirem emoções), as apertadas regras de segurança, a proibição de relações amorosas, surgem como medidas repressivas que foram criadas pelos líderes do "Colectivo", com estes elementos a procurarem evitar novos conflitos bélicos, embora privem os habitantes desta área territorial de algo essencial, ou seja, sentirem emoções, com a dupla de protagonistas a quebrar estes regulamentos.

 As relações amorosas e o sexo são proibidos, com as mulheres a terem filhos por inseminação, enquanto tudo e todos são sujeitos a regras rígidas que apenas são questionadas por uma minoria. Os cidadãos desta sociedade repressiva são considerados quase todos como "iguais", com o seu quotidiano a ser excessivamente controlado, embora a dupla de protagonistas consiga transgredir as leis locais e iniciar um romance "proibido". O contexto que rodeia os protagonistas é exposto logo nos momentos iniciais, com Drake Doremus a aproveitar para informar o espectador sobre as regras e o quotidiano dos habitantes e trabalhadores do "Colectivo", enquanto nos apresenta a Silas (Nicholas) e Nia (Kristen Stewart), os personagens principais. Um dos personagens que começa a "padecer" da suposta "anomalia" é Silas, um ilustrador que sente uma estranha atracção por Nia, uma escritora que desperta as emoções adormecidas deste indivíduo. Nia e Silas laboram no Atmos, um jornal dedicado às ciências e recolha de informação, com a a nova condição do segundo a começar afectar o seu desempenho no local de trabalho. Nicholas Hoult efectua uma composição competente do personagem que interpreta, com o actor a convencer em relação ao arco de Silas e às mudanças conhecidas pelo protagonista ao longo de "Equals" (a ambiguidade transmitida por Silas nos momentos finais do filme exibem paradigmaticamente o bom trabalho de Hoult). Silas é apresentado inicialmente como uma figura fria, que conta com um quotidiano monótono e desprovido de sentimento, fruto da educação que teve desde a infância e do facto dos seus genes terem sido modificados antes de ter nascido, algo que supostamente permitiria evitar que este contasse com "emoções" (um método aplicado a todos os habitantes do "Colectivo"). Tudo muda quando Silas começa a sentir emoções e depara-se com uma série de sensações novas, algo expresso de forma muito assertiva por Nicholas Hoult. O design sonoro contribui para adensar estas mudanças de Silas, algo notório quando encontramos o protagonista a mastigar os alimentos ou a cheirar Nia, com os sons destes gestos a serem bem audíveis. A própria voz da personagem interpretada por Kristen Stewart começa a provocar um estranho fascínio em Silas, com este a apreciar a presença de Nia como provavelmente nunca esperaria. A dinâmica entre a dupla de protagonistas não é estabelecida de forma imediata e extemporânea, com Drake Doremus a dar tempo para Silas conviver com a estranha sensação de sentir, ter dúvidas e questionar toda a realidade que o rodeia. Como conviver com algo considerado proibido? Como encarar o despertar de sensações até então desconhecidas? Silas procura conter as suas emoções e escondê-las daqueles que o rodeiam, tal como Nia. Kristen Stewart tem mais uma interpretação de bom nível, com a actriz a surgir como o exemplo paradigmático de uma intérprete que soube contornar o estigma negativo que existia sobre a sua pessoa e utilizar algumas das suas limitações ao serviço do seu trabalho. Nesse sentido, Kristen Stewart surpreende com uma interpretação pontuada pela subtileza, pela capacidade de expor e esconder imenso com o seu olhar, ou Nia não surgisse como uma personagem que procura ludibriar tudo e todos. Nia pode e consegue sentir, embora evite demonstrar as suas emoções, apesar de Silas colocar os seus planos em causa, com ambos a formarem uma relação secreta que tem tudo para correr mal.

 A certa altura de "Equals", um indivíduo comete suicídio. Tudo e todos observam o acontecimento como se nada de relevante tivesse acontecido. No entanto, Silas repara em Nia, enquanto a câmara de filmar expõe aquilo que este personagem observa. O olhar da personagem interpretada por Kristen Stewart demonstra que esta sentiu algo e sabe mais do que pode falar, enquanto um plano fechado sobre a mão de Nia exibe que a protagonista não ficou indiferente ao episódio. Diga-se que a cinematografia, a banda sonora, o trabalho de montagem, as interpretações de Hoult e Stewart contribuem para a relevância deste momento, com "Equals" a alternar entre close-ups extremos dos olhos e lábios de Nia, bem como das mãos desta, mesclados com planos aproximados de Silas, enquanto ficamos ainda diante de algumas explicações sobre o suicídio, com tudo a contribuir para que este trecho se torne num dos pedaços mais memoráveis do filme. Drake Doremus deixa-nos diante de um momento-chave de "Equals", com o cineasta incutir uma relevância notória aos gestos e aos olhares da dupla de protagonistas. É nesse momento que Silas percebe definitivamente que Nia é diferente, que esta nutre emoções, embora tente controlar as mesmas, com o próprio ilustrador a começar a deparar-se com um conjunto de sentimentos que desconhecia e parece incapaz de conter. Aos poucos, Silas procura conhecer mais informações sobre Nia, até iniciarem um romance no interior deste espaço pontuado pela alta vigilância, onde aqueles que quebram as regras são "convidados" a cometerem suicídio, embora a dupla de protagonistas procure fintar essa possibilidade. Os cenários e a sociedade quase totalitária que rodeia Nia e Silas contribuem para toda uma atmosfera de frieza, embora os sentimentos partilhados por esta dupla estejam longe de ser desprovidos de calor, amor e desejo. É certo que o contexto que rodeia Nia e Silas poderia e deveria ter sido abordado com mais complexidade e irreverência, mas Drake Doremus prefere apostar quase todas as suas fichas no desenvolvimento da relação da dupla de protagonistas, acertando por completo neste quesito, embora exija muitas das vezes que desliguemos o nosso lado mais pragmático quando se trata de conseguir que acreditemos no meio que rodeia os personagens principais (o argumento de Nathan Parker conta com alguns desequilíbrios). Veja-se a facilidade com que a dupla de protagonistas se reúne de forma furtiva, uma situação relativamente incoerente com o contexto que nos é apresentado, sobretudo se tivermos em conta que Nia e Silas vivem no interior de uma sociedade distópica, altamente vigiada, onde a exibição das emoções são proibidas. As temáticas abordadas por "Equals" não são propriamente novas, com Drake Doremus a estar consciente disso, com "Equals" a sobressair exactamente pela sua dupla de protagonistas. Diga-se que as referências de "Equals" parecem ir desde "1984, passando por "Fahrenheit 451", até "Romeu e Julieta", com o filme realizado por Drake Doremus a abordar temáticas como a repressão protagonizada por um Governo excessivamente controlador, a proibição do livre arbítrio, entre outras, não faltando pelo caminho a simulação de uma morte, um acto que pode trazer consequências desastrosas.

 Doremus demonstra novamente que é um excelente condutor de actores, com Kristen Stewart e Nicholas Hoult a beneficiarem não só de contarem com uma química indelével, mas também de um argumento que constrói uma dupla de protagonistas que capta facilmente a atenção e um cineasta que sabe explorar as especificidades das relações amorosas. No entanto, Doremus volta a exibir um dos seus calcanhares de Aquiles, em particular, a falta de desenvolvimento de personagens secundários, algo que remete intérpretes como Bel Powley (como uma habitante do "Colectivo") para um degradante plano secundário, bem como David Selby (como um dos elementos que coordenam o Atmos). Já Guy Pearce ("a musa" de Doremus) tem melhor sorte, bem como Jacki Weaver. Pearce interpreta um elemento que "padece" de S.O.S., com o actor a exibir a simpatia e as fragilidades emocionais deste personagem que participa num grupo de apoio secreto onde consta Bess (Weaver), uma Médica da DEN (Unidade de Neuropatias Emocionais Defeituosas). Bess consegue esconder que é capaz de sentir emoções, tal como Nia, com a primeira e Jonas (Pearce) a contarem com alguma relevância no último terço, embora Doremus nem sempre explore assertivamente a trama do grupo de apoio. Nia e Silas estão no centro de tudo, com Kristen Stewart e Nicholas Hoult a assumirem a responsabilidade desta tarefa e a convencerem em relação aos sentimentos que se desenvolvem entre estes personagens. O local onde Silas e Nia se reúnem habitualmente, pontuado pelas tonalidades azuis, ganha características especiais devido aos momentos românticos protagonizados por estes personagens, com Drake Doremus a entrar num terreno onde é perito. Um simples abraço, uma mão que toca na outra, um beijo, um olhar trocado entre Nia e Silas, tudo parece ganhar um poder e romantismo notório graças à atmosfera criada por Drake Doremus e à sua capacidade em compreender a complexidade das relações amorosas. No caso de "Equals", a relação da dupla de protagonistas conhece ainda alguns perigos, sobretudo se ambos forem descobertos ou obrigados a tomarem inibidores que adormecem a capacidade de sentir, com Drake Doremus a fazer questão de nos relembrar regularmente destas possibilidades, algo latente quando diversos elementos descobrem que Silas padece de S.O.S. Esta "doença" conta com diferentes estágios, com "Equals" a simular que vai entrar pelo caminho de uma alegoria à SIDA, embora Nathan Parker e Drake Doremus não estejam para aí virados (a falta de complexidade e ambição é um dos problemas de "Equals"). O cineasta incute ainda algum lirismo a esta obra cinematográfica pontuada por alguns planos requintados, com Drake Doremus a completar com algum sucesso esta sua trilogia informal sobre o "amor". Em "Moulin Rouge", Christian, o personagem interpretado por Ewan McGregor salienta que "The greatest thing you'll ever learn is just to love and be loved in return". Duvido muito que o personagem principal de "Equals" discorde desta frase de Christian, com o romance da dupla de protagonistas a convencer e de que maneira, com Nia e Silas a mudarem a vida um do outro. Romance terno e delicado, pontuado por alguns elementos de ficção-científica, "Equals" compensa a sua falta de ambição com a capacidade de Drake Doremus desenvolver o relacionamento da dupla de protagonistas e atribuir uma atenção notória às "pequenas" subtilezas que envolvem a relação de Nia e Silas, com Kristen Stewart e Nicholas Hoult a convencerem como este casal que desperta a simpatia do espectador.

Título original: "Equals".
Título em Portugal: "Iguais".
Realizador: Drake Doremus.
Argumento: Nathan Parker.
Elenco: Nicholas Hoult, Kristen Stewart, Guy Pearce, Jacki Weaver.

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