Davis decide escrever uma carta de reclamação e enviá-la para a empresa responsável pela gestão das máquinas. A missiva contém diversos pormenores relacionados com a vida de Davis, com o protagonista a parecer utilizar a mesma para desabafar, algo que se torna ainda mais notório quando decide enviar mais cartas para a Champion, a empresa que gere as máquinas de vendas do hospital. É através destas cartas, cujo conteúdo é exposto com recurso à narração em off, que descobrimos diversos elementos sobre o passado e o presente de Davis, com as missivas a exporem que a mente do protagonista encontra-se num estado caótico, enquanto parecem dar um estranho sentido à vida deste banqueiro. As cartas, ou melhor, os desabafos de Davis, mexem com os sentimentos de Karen Moreno (Naomi Watts), a representante do serviço de apoio ao cliente da Champion, com esta mulher a decidir entrar em contacto com o protagonista. Karen é uma mãe solteira que tem uma relação complicada com o filho (sim, "Demolition" utiliza uma miríade de lugares-comuns), o jovem Chris (Judah Lewis), um adolescente de quinze anos de idade que apresenta diversos sinais de rebeldia (eu avisei sobre os lugares-comuns). A personagem interpretada por Naomi Watts começa a dialogar por telefone com Davis, até se reunir com o mesmo, apesar de se encontrar envolvida com Carl (C.J. Wilson), o seu chefe, um indivíduo que não parece compreender totalmente esta mulher (ok, desisto de apontar os lugares-comuns de "Demolition", caso contrário o texto não avança). Por sua vez, Davis não conta com grandes amizades, ou pessoas de fora com quem desabafar, com Karen e Chris a trazerem algo novo à sua existência desprovida de algum sentido. "Demolition" não merecia Gyllenhaal e Watts, mas a verdade é que tem a dupla ao seu dispor, com o actor e a actriz a entregarem-se aos personagens que interpretam e a concederem alguma dimensão a situações que são abordadas de forma completamente pueril. Veja-se o possível envolvimento amoroso entre Davis e Karen, com Jean-Marc Vallée a não saber aproveitar as possibilidades inerentes à dinâmica convincente entre Jake Gyllenhaal e Naomi Watts. Diga-se que, tal como Davis, Vallée é muito mais rápido a destruir do que a construir algo útil, com o primeiro a decidir desconstruir objectos e partir casas para começar a descobrir mais sobre si próprio e os seus sentimentos, enquanto o segundo parece contar com um prazer especial em arrasar com a nossa boa vontade em relação a "Demolition". As atitudes erráticas de Davis são mais do que muitas, algo que o conduz a entrar em choque com o sogro, com este último a procurar abrir uma fundação em nome da filha para financiar bolsas de estudo para alguns estudantes. Chris Cooper transmite a dor do personagem que interpreta, embora o sogro do protagonista raramente evolua desde os momentos iniciais, com os seus comportamentos a serem praticamente os mesmos ao longo de "Demolition". Por sua vez, a esposa de Phil é chutada para um canto completamente secundário, com excepção de um momento onde efectua uma revelação relevante, embora Polly Draper nunca tenha espaço para criar uma personagem com dimensão (a revelação surge como mais um momento digno de uma telenovela mexicana dobrada em português do Brasil). Diga-se que C.J. Wilson também não tem espaço para compor um personagem com dimensão, com a relação entre Karen e Carl a ser completamente descurada. Já a relação entre Karen e Davis assume contornos peculiares, com este a procurar expor os seus sentimentos em relação à falecida, enquanto a primeira assume uma série de fragilidades emocionais, com as personalidades de ambos a parecerem completar-se. Naomi Watts consegue que acreditemos na personagem que interpreta, uma mãe solteira que é viciada em cannabis, com Karen a parecer incapaz de cuidar do filho, enquanto este último exibe uma personalidade difícil e um enorme apreço pela utilização da palavra "fuck". Diga-se que Davis forma uma relação de amizade com Chris, com ambos a protagonizarem episódios como disparos com armas, destruição de casas, enquanto o jovem exibe pelo caminho as suas dúvidas sobre a sua orientação sexual.
A temática da homossexualidade de Chris é abordada sem a mínima complexidade ou profundidade, com Jean-Marc Valée e Bryan Sipe a revelarem ainda uma incapacidade gritante para inserirem o tema de forma orgânica no interior da narrativa. Diga-se que pouco ou nada é abordado de forma subtil ao longo de "Demolition", parecendo que Vallée e Sipe decidiram recorrer a todos os lugares-comuns possíveis, impossíveis e estapafúrdios para abordarem as temáticas e exacerbarem o melodrama. Veja-se o momento no carrossel, que ocorre no último terço de "Demolition", com este trecho a ser simplesmente ofensivo e escancaradamente manipulador, enquanto revela mais uma vez a incoerência dos envolvidos em relação ao tom do filme. O problema não reside na mescla de ingredientes de diversos géneros cinematográficos, mas sim na incompetência apresentada por Jean-Marc Vallée, com o cineasta a não conseguir utilizar estes elementos de forma orgânica ou minimamente coerente. Mesmo as cartas escritas por Davis acabam por se tornar num recurso preguiçoso para Vallée apresentar o protagonista e o estado de espírito do mesmo, com o realizador a usar e abusar da utilização da narração em off. Salvam-se Jake Gyllenhaal e Naomi Watts, bem como o trabalho efectuado na decoração das casas de Karen e Davis. A casa de Davis é moderna, apresenta largas dimensões e transmite uma frieza latente. A habitação de Karen é mais desorganizada e diminuta, embora transmita mais calor humano do que a casa de Davis. As dicotomias entre as habitações exacerbam o estilo de vida distinto de Davis e Karen, com esta última a ter um papel fundamental na vida do primeiro ao escutar o mesmo quando o banqueiro de investimento mais precisa. A relação entre Davis e Karen poderia e deveria ter sido mais aproveitada, bem como a amizade que se forma entre o primeiro e Chris, embora "Demolition" prefira utilizar boa parte das suas fichas a repetir que o protagonista precisa destruir para reconstruir, apesar dos métodos utilizados pelo personagem principal sejam acima de tudo ridículos. Davis parte casas, dança no meio da rua, é afastado do emprego, leva pancada, discute com o sogro, desmonta objectos, assume atitudes erráticas, coloca em causa os sentimentos que nutria pela esposa, ensina Chris a utilizar a palavra "fuck" de forma adequada, enquanto Jake Gyllenhaal procura dar alguma dignidade a este personagem. O humor é utilizado de forma estapafúrdia, os momentos melodramáticos são inseridos a martelo (a cena do protagonista no cemitério, o carrossel, os post-its deixados pela falecida), as recordações que Davis tem da esposa pouco ou nada acrescentam, com "Demolition" a conseguir ainda o "feito" de abordar temáticas relevantes com uma leveza e puerilidade surpreendentes. Veja-se o caso da descoberta que Chris efectua em relação à sua orientação sexual, ou a depressão de Davis e a incapacidade inicial do protagonista em demonstrar os seus sentimentos, ou a forma como o personagem interpretado por Judah Lewis parece encarar o protagonista como uma figura quase paternal, entre outros exemplos. Perto do final do filme, Chris escreve uma carta a Davis, onde consta o seguinte: "(...) P.S. Go fuck yourself". No final do filme fiquei na dúvida se esta não seria a grande mensagem de Jean-Marc Vallée para o espectador que aguentou ver "Demolition" até ao final.
Título original: "Demolition".
Título em Portugal: "Demolição".
Realizador: Jean-Marc Vallée.
Argumento: Bryan Sipe.
Elenco: Jake Gyllenhaal, Naomi Watts, Chris Cooper, Judah Lewis.

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