25 julho 2016

Resenha Crítica: "Deadpool" (2016)

 Simultaneamente irreverente (qual é o anti-herói que guarda armas no interior de uma mala da Hello Kitty?) e convencional (é mais uma história de origem), "Deadpool" tanto utiliza as convenções dos filmes de super-heróis como ironiza e subverte as mesmas. Diga-se que "Deadpool" não tem problemas em ironizar com essas convenções, bem como com outros filmes de super-heróis, algo latente quando encontramos o personagem do título a efectuar piadas sobre as linhas temporais da saga cinematográfica de "X-Men", ou a satirizar "Green Lantern", um dos grandes fracassos da carreira de Ryan Reynolds, ou a expor os problemas a nível de orçamento da obra cinematográfica realizada por Tim Miller. Wade Wilson, mais conhecido como Deadpool, é um anti-herói falador, fã dos "Wham!", extrovertido e violento, sempre pronto a fazer piadas e desenhos manhosos, a utilizar palavrões e a quebrar a quarta parede, com Ryan Reynolds a aproveitar este personagem peculiar para brilhar e expor o seu talento para a comédia. Reynolds não tem problemas em satirizar alguns fracassos que têm marcado a sua carreira (como "Green Lantern"), bem como em escarnecer da sua própria persona, ou de Hugh Jackman (ou de Wolverine), com o actor a parecer divertir-se imenso e a divertir-nos pelo caminho como Deadpool, enquanto aproveita o argumento que tem à disposição. É a redenção de Reynolds, após uma série de fracassos a nível comercial e diversas tentativas para tirar "Deadpool" do papel, com o actor a dominar os timings nos momentos de humor, enquanto Tim Miller aproveita o talento do intérprete ao serviço da narrativa. Miller consegue mesclar o tom delirante que pontua "Deadpool" com alguns elementos mais convencionais, embora, em alguns momentos, pareça que o cineasta nos está a oferecer mais do mesmo. Veja-se o último terço do filme, com "Deadpool" a mesclar a irreverência e saudável parvoíce do protagonista com situações convencionais e cenas de acção completamente genéricas, ou o longo flashback que nos dá a conhecer como o anti-herói adquiriu os seus superpoderes e a capacidade de regeneração semelhante a Wolverine (ambos fizeram parte do projecto Weapon X). No início do filme, encontramos Deadpool em busca de Ajax (Ed Skrein), um dos responsáveis pelo "tratamento" do protagonista, e dos elementos que trabalham para o antagonista, com o personagem interpretado por Ryan Reynolds a exibir quer a sua capacidade para o combate, quer a sua personalidade sardónica, enquanto explica por diversas vezes que não é um super-herói. Deadpool não tem problemas em eliminar os inimigos, em cortar cabeças ou outras partes do corpo dos adversários, em disparar asneiras ou lançar piadas politicamente incorrectas, com o argumento de Rhett Reese e Paul Wernick a procurar aproveitar ao máximo as características peculiares deste personagem criado por Rob Liefeld e Fabian Nicieza. Os momentos de violência iniciais, protagonizados pelo personagem interpretado por Ryan Reynolds e os colaboradores de Ajax, são intercalados por alguns flashbacks, com Tim Miller a iniciar a narrativa a meio dos acontecimentos, até recuar para expor diversos elementos sobre o passado do protagonista. Os flashbacks nem sempre são utilizados na justa medida, com Tim Miller a quebrar em alguns momentos a fluidez da narrativa, enquanto usa e abusa da informação redundante, algo que a espaços contribui para atribuir um tom convencional a um filme que pretende ser irreverente (parte do contexto da "origem" dos poderes de Deadpool é um exemplo paradigmático dessas convenções). É certo que alguns momentos dos flashbacks funcionam e são necessários, sobretudo a exposição da relação entre Wade Wilson e Vanessa (Morena Baccarin), com Ryan Reynolds e Morena Baccarin a contarem com uma química latente, algo demonstrado ao longo do filme.

 Morena Baccarin incute um tom provocador e sarcástico a Vanessa, com a personalidade desta mulher a combinar praticamente na perfeição com o estilo sardónico de Wade. Esta química é particularmente notória quando Wade e Vanessa iniciam um jogo onde abordam quem teve uma infância pior, enquanto Tim Miller dá uma ajuda ao efectuar uma longa sequência de sexo entre o casal que permite dar a conhecer a passagem do tempo, com as datas especiais a serem comemoradas de forma muito peculiar. As mentes saudavelmente perturbadas de Wade e Vanessa parecem conjugar-se na perfeição, com ambos a contarem com um passado nem sempre recomendável (ele como mercenário, ela como prostituta), uma enorme dose de loucura e uma relação aparentemente perfeita. A felicidade de Wade e Vanessa não dura muito tempo, com a notícia de que o primeiro sofre de cancro e se encontra em estado terminal a mudar por completo o quotidiano do casal, com o protagonista a decidir recorrer a um projecto misterioso. Wade é contactado por um estranho com diversas semelhanças a Mister Smith de "The Matrix", algo que permite mais uma miríade de piadas, com o primeiro a ser inserido no interior de um projecto secreto do Governo que supostamente permitiria que o protagonista conseguisse uma cura para o cancro e adquirisse superpoderes. O mercenário percebe rapidamente que o projecto no qual foi envolvido está longe de ser algo legal ou do Governo, com o protagonista a ser constantemente torturado por Ajax, o médico responsável pelo "tratamento", com quem forma uma peculiar relação de inimizade. Wade fica completamente desfigurado, apesar de adquirir superpoderes e uma capacidade de regeneração surpreendente (que permite mais alguns momentos de humor), com o protagonista a perceber que fez parte de uma experiência que não visa criar super-heróis, mas sim mercenários que são obrigados a cometerem crimes. Sem outras opções, Wade consegue concretizar um plano de fuga, com o protagonista a procurar vingar-se a todo o custo de Ajax, começando uma perseguição a todos aqueles que se encontram ligados a este último. Outrora um elemento das forças especiais e, posteriormente, um mercenário a soldo, Wade Wilson tenta que Vanessa não o veja desfigurado, tendo em Weasel (T.J. Miller), o dono do Sister Margaret, um bar que é descrito pelo protagonista como "um centro de emprego para mercenários", um dos seus poucos amigos. Weasel descobre que Wade está vivo, procurando oferecer algum apoio ao amigo, enquanto este último cria um fato especial (vermelho, já que as vestimentas brancas sujam-se facilmente de sangue) e parte em busca dos elementos responsáveis pelo facto de ter ficado desfigurado. O protagonista pretende recuperar o aspecto físico de outrora, pensando que Ajax tem os conhecimentos necessários para esse feito, embora este último procure apenas eliminar o anti-herói, algo que promete um confronto violento e esperado quer pelo primeiro, quer pelo antagonista, quer pelo espectador. Se Ryan Reynolds tem espaço para sobressair, já Ed Skrein aparece com um antagonista completamente convencional e unidimensional, com o actor a interpretar um vilão que pouco ou nada evolui ao longo da narrativa. Diga-se que Ajax encontra-se quase sempre acompanhado por Angel Dust (Gina Carano), a sua ajudante, uma figura lacónica que também conta com superpoderes, embora esta personagem raramente seja aproveitada ao longo da narrativa.

 Gina Carano conta com uma personagem completamente unidimensional, com os vilões a não serem o ponto forte do filme, bem pelo contrário, sobretudo devido a nunca os encararmos como verdadeiras ameaças a Deadpool. Já Vanessa, Colossus (Stefan Kapičić), Negasonic Teenage Warhead (Brianna Hildebrand), Weasel, Blind Al (Leslie Uggams - uma senhora cega que divide o apartamento com Deadpool e é viciada em cocaína) e Dopinder (Karan Soni como um taxista que nunca é pago pelo protagonista, com o anti-herói a pagar em high fives) conseguem ter alguns momentos de destaque, sobretudo a primeira, enquanto Stan Lee tem uma das melhores participações especiais em filmes baseados em super-heróis da Marvel. O facto dos direitos deste personagem da Marvel estarem na posse da 20th Century Fox, bem como de o filme contar com um orçamento menor do que habitual para as obras cinematográficas do género, pode ajudar a explicar a irreverência e o tom que escapa à fórmula "pão com manteiga" que tem marcado diversas películas do género, com "Deadpool" a surgir como uma agradável surpresa. Diga-se que essas limitações a nível do orçamento são utilizadas ao serviço do humor, algo latente quando Deadpool demonstra a sua estranheza por Negasonic e Colossus serem os únicos membros dos X-Men que aparecem, com o protagonista a comentar: "Quase parece que a produção não pode pagar a mais X-Men". A relação entre Deadpool e estes dois membros dos X-Men proporciona alguns momentos de humor, com o choque a nível de personalidades entre o primeiro e Colossus a ser notório. Veja-se quando Colossus apresenta um discurso moralista junto de Deadpool até este último disparar sobre um inimigo só para que o membro dos X-Men não continue a falar, ou quando o personagem interpretado por Ryan Reynolds resolve esmurrar as partes baixas do primeiro, um mutante com corpo de aço. Já o visual de Negasonic é alvo de diversas piadas por parte de Deadpool, bem como os comportamentos desta adolescente que é constantemente comparada a Sinéad O'Connor, embora os poderes da jovem e de Colossus sejam uma ajuda relevante para o protagonista no último terço do filme. Não poderia faltar o confronto entre Ajax e Deadpool, bem como o facto do primeiro colocar Vanessa em perigo, algo que obriga o protagonista a voltar a contactar com a amada, com o último terço a ser pontuado por imensas cenas de acção, algum humor e romance (ou algo que se pareça a romance). Diga-se que "Deadpool" não poupa nas cenas de acção, com algumas a resultarem, enquanto outras surgem como disparos ao lado, sobretudo quando o CGI não convence. Tim Miller aposta imenso na técnica bullet time, enquanto nos deixa diante de tiroteios, lutas corpo a corpo e coloca-nos diante de um anti-herói delirante, que tem a sua primeira oportunidade para sobressair a sério no cinema (esqueçamos temporariamente "X-Men Origins: Wolverine"). A interacção entre Deadpool e os vários personagens que o rodeiam é essencial para o filme funcionar, com o mercenário a apresentar uma mente saudavelmente doente, enquanto nos diverte imenso pelo caminho com as suas falas e gestos politicamente incorrectos. Não faltam piadas de cariz sexual, diversas referências que remetem para a cultura pop (desde "Star Wars" a "The Lord of the Rings", passando pelos filmes de super-heróis e "Taken", até "Closer" e "Voltron"), com "Deadpool" a não poupar nada nem ninguém, com o humor a ser um dos pontos altos do filme. Pontuado por diversos momentos marcados pela estupidez, embora não seja totalmente desprovido de inteligência, "Deadpool" sabe perfeitamente aquilo que está a fazer, ou seja, tentar divertir o espectador, enquanto oferece algo que varia entre o convencional e o irreverente, com Tim Miller a realizar uma obra cinematográfica que, apesar das suas fragilidades, supera possíveis desconfianças iniciais e desperta imensos risos, surgindo como uma lufada de ar fresco no panorama dos filmes do género.

Título original: "Deadpool".
Realizador: Tim Miller.
Argumento: Rhett Reese e Paul Wernick.
Elenco: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Ed Skrein, Gina Carano, T.J. Miller, Leslie Uggams, Brianna Hildebrand.

Trailer de "Deadpool":

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