A verdade interessa a poucos personagens de "A ciascuno il suo",
que o diga Paolo Laurana (Gian Maria Volontè), o protagonista desta
recomendável obra cinematográfica realizada por Elio Petri. Laurana é um
professor que procura descobrir quem assassinou Arturo Manno (Luigi
Pistilli) e
Antonio Roscio (Franco Tranchina), dois dos seus amigos, um desiderato
que
promete trazer-lhe alguns dissabores. Diga-se que Paolo Laurana descobre
da
pior maneira que habita num espaço marcado pela corrupção, onde o
estatuto
social parece contar imenso e as ligações entre os diferentes círculos
de poder
acontecem de forma promiscua. No início do filme, Manno é apresentado
como um
farmacêutico que se encontra a ser alvo de ameaças anónimas, sendo
conhecido
pela personalidade mulherenga, bem como por trair a esposa (Anna Rivero)
por
diversas vezes, inclusive com Rosina (Luciana Scalise), uma jovem
adolescente.
Por sua vez, Roscio é um médico casado com Luisa (Irene Papas), uma
mulher
misteriosa, de enorme beleza e presença, sobrinha do Arcipreste (Carmelo
Olivero). Manno e Roscio foram assassinados quando se encontravam a
caçar, algo
que gera uma enorme comoção no interior deste pequeno espaço situado na
Sicília, um território pontuado por gentes com códigos de honra muito
próprios
e um grupo poderoso que parece inicialmente pouco preocupado com o facto
do pai
e os dois irmãos de Rosina terem sido detidos, ainda que não existam provas, ou indicadores paradigmáticos, de que o trio cometeu o duplo homicídio. Os familiares de Rosina
são
considerados os principais suspeitos do assassinato de Manno e Roscio,
embora
Paolo Laurana duvide desta possibilidade. O personagem interpretado por
Gian Maria Volontè conseguiu ler as cartas que
continham ameaças dirigidas
a Arturo Manno, tendo percebido que as palavras de uma missiva foram
recortadas
do "Osservatore Romano", um jornal de circulação restrita. Diga-se
que a juntar a essa pouca circulação da publicação, o pai e os irmãos de
Rosina
são analfabetos, ou seja, é praticamente impossível que tenham sido
estes
elementos a enviarem as cartas, ou a cometerem o assassinato, algo que aguça a curiosidade de Laurana em relação a
todo
este caso. Quase todos pensam que o alvo dos
assassinos era Arturo Manno, ou este não tivesse recebido diversas
ameaças de
morte, sendo conhecido pelos diversos casos que manteve com mulheres
comprometidas. Em contrapartida, Antonio Roscio é considerado um pai de
família
exemplar, pelo menos até Laurana descobrir que algo não bate certo em
relação a
todo este caso. Laurana demonstra o seu descontentamento devido ao facto
do pai e
dos irmãos de Rosina terem sido detidos sem provas, algo que remete para
o
abuso de poder por parte das autoridades, bem como para a pretensão dos
responsáveis deste espaço citadino em fecharem rapidamente o caso, mesmo
que
isso implique prender inocentes. A temática dos abusos de poder por
parte das
autoridades é algo que atravessa obras cinematográficas de Elio Petri
como
"L'assassino" e "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni
sospetto", com "A ciascuno il suo" a mesclar elementos de filmes
de investigação criminal e de gangsters, com Gian Maria Volontè a ter a
oportunidade de sobressair como um professor de valores morais elevados,
aparentemente pouco dado a grandes amizades, antigo membro do Partido
Comunista,
que procura aferir a verdade sobre o duplo homicídio. Outro dos
elementos do elenco que se encontra em destaque é Gabriele
Ferzetti, com o actor a dar vida a Rosello, um advogado que é primo de
Luisa.
Rosello procura defender os elementos que foram detidos e ajudar Laurana
na
investigação, embora o protagonista comece a perceber, ainda que
gradualmente,
que praticamente não pode confiar em ninguém.
Paolo
Laurana é um professor relativamente solitário, que vive com a
mãe e a avó, surgindo como um intelectual algo inconsciente em
relação à sociedade que o rodeia, tendo no seu quarto, um local recheado
de
livros e posters, um espaço para se abstrair de tudo e todos. Se Volontè
incute um estilo
determinado e algo naïf a Laurana, um professor que não conhece quase
nada
sobre os podres da cidade onde habita, já Ferzetti surge como um
advogado
confiante e bem falante, que conta com ambições políticas e apresenta um
poder
notório no interior deste pequeno espaço urbano. No entanto, a
determinação de Laurana e a sua enorme curiosidade conduzem a que o
protagonista consiga reunir algumas pistas que começam a incomodar uma
série de figuras poderosas. O protagonista descobre que o
carteiro enviou exemplares do "Osservatore Romano" para duas pessoas: o pároco de Sant'Amo (Mario Scaccia) e o
Arcipreste, embora não consiga retirar informações relevantes destes
dois
indivíduos, apesar deste último não ter problemas em condenar a conduta
que
Manno tinha em vida. A banda sonora de Luis Enríquez Bacalov é essencial
para
adensar a atmosfera de perigo, receio e ironia que a espaços envolve a
narrativa, sobretudo a partir do momento em que Laurana descobre que
Antonio
Roscio contactou um deputado da extrema esquerda, tendo em vista a
colocar a
hipótese de divulgar informações confidenciais sobre um elemento
poderoso que
se encontrava a ameaçá-lo. Roscio guardou a informação num local
secreto, algo
que conduz o protagonista a procurar os documentos na casa de Luisa, bem
como
na habitação do pai do falecido. O progenitor de Antonio é um antigo
oftalmologista que perdeu a visão, sendo interpretado por Salvo Randone,
um colaborador
habitual de Elio Petri, com o actor a ter um papel secundário com algum
relevo.
Por sua vez, Gian Maria Volontè tem em "A ciascuno il suo" a primeira
participação num filme de Elio Petri, um cineasta com quem colaboraria
no
marcante "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto",
entre outros filmes, com ambos a serem dois artistas de esquerda,
politicamente
engajados, algo que evidenciam em "A ciascuno il suo". Volontè é o
motor de "A ciascuno il suo", com o actor a prender a nossa atenção
em relação aos próximos passos de Laurana, um indivíduo bem intencionado
mas
aparentemente inconsciente das redes de poder e influências que envolvem
esta
pequena cidade siciliana. A investigação
iniciada por Laurana adquire contornos deveras perigosos, com Elio Petri a
expor a mesma com algum acerto, enquanto o protagonista exibe pelo caminho que se
sente atraído por Luisa, embora esta espécie de tentativa de romance nem sempre
funcione no interior da narrativa, com o interesse do primeiro a parecer
relativamente forçado, ou introduzido de forma demasiado brusca. Luisa e
Laurana ainda chegam a efectuar uma espécie de parceria num determinado momento
da narrativa, embora esta figura feminina também conte com diversos segredos,
com Paolo Laurana a envolver-se no interior de um caso intrincado e
problemático. Diga-se que é raro encontrar um personagem em "A
ciascuno il suo" que não conte com segredos ou esqueletos no armário, algo
que Paolo Laurana vai perceber da pior forma, com este a entender tardiamente
que está a lidar com uma perigosa teia que se estende por diversos sectores da
sociedade. Elio Petri consegue manter o mistério e as dúvidas em relação aos
personagens em quem devemos ou não confiar, embora transmita diversos sinais
para o espectador, enquanto mantém a intriga e brinda-nos com um final recheado
de ironia e acidez. Laurana parece querer perturbar uma estranha ordem dominada
pela corrupção, enquanto Elio Petri insere uma série de reviravoltas que
permitem dar a conhecer facetas distintas de alguns personagens. O caso de Luisa é
paradigmático dessa situação, com esta a não ser tão frágil e inocente como
indica, bem pelo contrário, tal como Rosello está longe de ser um exemplo
moral. Diga-se que Rosello é um dos representantes desta sociedade corrupta,
pronta a manter as aparências, tendo uma série de ligações a indivíduos
poderosos, com o próprio a contar com um estatuto elevado no interior deste
espaço da Sicília.
O argumento, escrito por Elio Petri, Ugo Pirro, Jean Curtelin, procura
incutir alguma complexidade a toda esta teia narrativa, tendo sido baseado na
obra literária "A ciascuno il suo" de Leonardo Sciascia. O enredo é
pontuado pela determinação de Laurana e pela procura daqueles que o rodeiam em
evitarem que este continue a "chafurdar" em informação considerada
incómoda, com o protagonista a investigar um caso que se revela deveras
complexo e perigoso. A utilização dos zooms permite a espaços adensar a carga
dramática em volta dos acontecimentos, com Elio Petri a usar imenso este
recurso, bem como os close-ups nos momentos mais intensos. Veja-se quando
Laurana e Luisa encontram-se no interior do carro desta última, com a viúva a
ler uma parte do diário do falecido esposo. A banda sonora, as expressões dos
actores, os close-ups adensam a carga quase melodramática do episódio, com Elio
Petri a não ter problemas em exagerar um momento que talvez pedisse um pouco
mais de contenção. Diga-se que não faltam exemplos para os close-ups e para os
zooms em momentos de maior tensão, algo notório quando Laurana recebe uma carta
anónima para se deslocar ao tribunal de Palermo, tendo em vista a deparar-se
com uma surpresa. Veja-se ainda quando Laurana se desloca até à casa de Rosina,
tendo em vista a falar com a jovem, com o trabalho de câmara a permitir
incrementar a tensão em volta deste momento e adensar as dúvidas sobre o
silêncio daqueles que poderiam falar às autoridades e contribuírem para que o
progenitor e os irmãos da jovem fossem ilibados. O silêncio parece ser de ouro
para diversos personagens, sobretudo para se protegerem uns aos outros ou
evitarem represálias dos mais poderosos. Todos parecem estar conscientes que
falar demais, ou questionar aquilo que é dito pelos mais poderosos, pode ser
perigoso, com excepção de Laurana, ou o protagonista não surgisse como o
intelectual alienado do espaço que o rodeia, algo que talvez explique o
interesse que demonstra por Luisa. A certa altura, Laurana começa a descobrir
cada vez mais informações, algo que coloca a sua vida em perigo. Este percebe
isso, embora não tenha a perfeita consciência do "polvo" que o
rodeia, enquanto Elio Petri joga com as nossas expectativas. O cineasta lança
as peças, mexe com as mesmas de forma eficaz e aproveita para criar alguns
momentos marcantes. O final é impossível de esquecer, simultaneamente negro e
mordaz, tal como uma explosão que dinamita as hipóteses da verdade surgir ao de
cima, com Elio Petri a colocar-nos diante de um meio onde a corrupção moral
permeia boa parte dos personagens. Diga-se que existe ainda uma espécie de
comentário sobre o protagonista, um intelectual de esquerda que parece incapaz
de compreender a realidade que o rodeia, algo que pode ser encarado como uma
crítica à inacção deste grupo. Esta inacção é particularmente notória na
representação do deputado com quem Laurana dialoga, um elemento da extrema
esquerda que tenta não se envolver no caso quando deveria surgir como um
agente de mudança, com Elio Petri a não ter problemas em efectuar comentários
do foro político e social. Ficamos entre o filme de máfia e investigação
criminal, com Gian Maria Volontè e Gabriele Ferzetti a surgirem como os
elementos do elenco em maior destaque, enquanto Elio Petri aproveita para
efectuar alguns comentários do foro político e social, contando com o apoio de
um argumento sólido e uma banda sonora pronta a adensar as emoções.
Título original: "A ciascuno il suo".
Título em Portugal: "Crimes à moda antiga".
Realizador: Elio Petri.
Argumento: Elio Petri, Ugo Pirro e Jean Curtelin.
Elenco: Gian Maria Volontè, Irene Papas, Gabriele Ferzetti, Salvo Randone, Luigi Pistilli, Luciana Scalise.
Vale a pena ouvir este Q&A conduzido por Alan O'Leary e Nico Marzano: https://www.ica.org.uk/whats-on/elio-petri-we-still-kill-old-way-qa

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