27 julho 2016

Resenha Crítica: "A ciascuno il suo" (1967)

 A verdade interessa a poucos personagens de "A ciascuno il suo", que o diga Paolo Laurana (Gian Maria Volontè), o protagonista desta recomendável obra cinematográfica realizada por Elio Petri. Laurana é um professor que procura descobrir quem assassinou Arturo Manno (Luigi Pistilli) e Antonio Roscio (Franco Tranchina), dois dos seus amigos, um desiderato que promete trazer-lhe alguns dissabores. Diga-se que Paolo Laurana descobre da pior maneira que habita num espaço marcado pela corrupção, onde o estatuto social parece contar imenso e as ligações entre os diferentes círculos de poder acontecem de forma promiscua. No início do filme, Manno é apresentado como um farmacêutico que se encontra a ser alvo de ameaças anónimas, sendo conhecido pela personalidade mulherenga, bem como por trair a esposa (Anna Rivero) por diversas vezes, inclusive com Rosina (Luciana Scalise), uma jovem adolescente. Por sua vez, Roscio é um médico casado com Luisa (Irene Papas), uma mulher misteriosa, de enorme beleza e presença, sobrinha do Arcipreste (Carmelo Olivero). Manno e Roscio foram assassinados quando se encontravam a caçar, algo que gera uma enorme comoção no interior deste pequeno espaço situado na Sicília, um território pontuado por gentes com códigos de honra muito próprios e um grupo poderoso que parece inicialmente pouco preocupado com o facto do pai e os dois irmãos de Rosina terem sido detidos, ainda que não existam provas, ou indicadores paradigmáticos, de que o trio cometeu o duplo homicídio. Os familiares de Rosina são considerados os principais suspeitos do assassinato de Manno e Roscio, embora Paolo Laurana duvide desta possibilidade. O personagem interpretado por Gian Maria Volontè conseguiu ler as cartas que continham ameaças dirigidas a Arturo Manno, tendo percebido que as palavras de uma missiva foram recortadas do "Osservatore Romano", um jornal de circulação restrita. Diga-se que a juntar a essa pouca circulação da publicação, o pai e os irmãos de Rosina são analfabetos, ou seja, é praticamente impossível que tenham sido estes elementos a enviarem as cartas, ou a cometerem o assassinato, algo que aguça a curiosidade de Laurana em relação a todo este caso. Quase todos pensam que o alvo dos assassinos era Arturo Manno, ou este não tivesse recebido diversas ameaças de morte, sendo conhecido pelos diversos casos que manteve com mulheres comprometidas. Em contrapartida, Antonio Roscio é considerado um pai de família exemplar, pelo menos até Laurana descobrir que algo não bate certo em relação a todo este caso. Laurana demonstra o seu descontentamento devido ao facto do pai e dos irmãos de Rosina terem sido detidos sem provas, algo que remete para o abuso de poder por parte das autoridades, bem como para a pretensão dos responsáveis deste espaço citadino em fecharem rapidamente o caso, mesmo que isso implique prender inocentes. A temática dos abusos de poder por parte das autoridades é algo que atravessa obras cinematográficas de Elio Petri como "L'assassino" e "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", com "A ciascuno il suo" a mesclar elementos de filmes de investigação criminal e de gangsters, com Gian Maria Volontè a ter a oportunidade de sobressair como um professor de valores morais elevados, aparentemente pouco dado a grandes amizades, antigo membro do Partido Comunista, que procura aferir a verdade sobre o duplo homicídio. Outro dos elementos do elenco que se encontra em destaque é Gabriele Ferzetti, com o actor a dar vida a Rosello, um advogado que é primo de Luisa. Rosello procura defender os elementos que foram detidos e ajudar Laurana na investigação, embora o protagonista comece a perceber, ainda que gradualmente, que praticamente não pode confiar em ninguém.

 Paolo Laurana é um professor relativamente solitário, que vive com a mãe e a avó, surgindo como um intelectual algo inconsciente em relação à sociedade que o rodeia, tendo no seu quarto, um local recheado de livros e posters, um espaço para se abstrair de tudo e todos. Se Volontè incute um estilo determinado e algo naïf a Laurana, um professor que não conhece quase nada sobre os podres da cidade onde habita, já Ferzetti surge como um advogado confiante e bem falante, que conta com ambições políticas e apresenta um poder notório no interior deste pequeno espaço urbano. No entanto, a determinação de Laurana e a sua enorme curiosidade conduzem a que o protagonista consiga reunir algumas pistas que começam a incomodar uma série de figuras poderosas. O protagonista descobre que o carteiro enviou exemplares do "Osservatore Romano" para duas pessoas: o pároco de Sant'Amo (Mario Scaccia) e o Arcipreste, embora não consiga retirar informações relevantes destes dois indivíduos, apesar deste último não ter problemas em condenar a conduta que Manno tinha em vida. A banda sonora de Luis Enríquez Bacalov é essencial para adensar a atmosfera de perigo, receio e ironia que a espaços envolve a narrativa, sobretudo a partir do momento em que Laurana descobre que Antonio Roscio contactou um deputado da extrema esquerda, tendo em vista a colocar a hipótese de divulgar informações confidenciais sobre um elemento poderoso que se encontrava a ameaçá-lo. Roscio guardou a informação num local secreto, algo que conduz o protagonista a procurar os documentos na casa de Luisa, bem como na habitação do pai do falecido. O progenitor de Antonio é um antigo oftalmologista que perdeu a visão, sendo interpretado por Salvo Randone, um colaborador habitual de Elio Petri, com o actor a ter um papel secundário com algum relevo. Por sua vez, Gian Maria Volontè tem em "A ciascuno il suo" a primeira participação num filme de Elio Petri, um cineasta com quem colaboraria no marcante "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", entre outros filmes, com ambos a serem dois artistas de esquerda, politicamente engajados, algo que evidenciam em "A ciascuno il suo". Volontè é o motor de "A ciascuno il suo", com o actor a prender a nossa atenção em relação aos próximos passos de Laurana, um indivíduo bem intencionado mas aparentemente inconsciente das redes de poder e influências que envolvem esta pequena cidade siciliana. A investigação iniciada por Laurana adquire contornos deveras perigosos, com Elio Petri a expor a mesma com algum acerto, enquanto o protagonista exibe pelo caminho que se sente atraído por Luisa, embora esta espécie de tentativa de romance nem sempre funcione no interior da narrativa, com o interesse do primeiro a parecer relativamente forçado, ou introduzido de forma demasiado brusca. Luisa e Laurana ainda chegam a efectuar uma espécie de parceria num determinado momento da narrativa, embora esta figura feminina também conte com diversos segredos, com Paolo Laurana a envolver-se no interior de um caso intrincado e problemático. Diga-se que é raro encontrar um personagem em "A ciascuno il suo" que não conte com segredos ou esqueletos no armário, algo que Paolo Laurana vai perceber da pior forma, com este a entender tardiamente que está a lidar com uma perigosa teia que se estende por diversos sectores da sociedade. Elio Petri consegue manter o mistério e as dúvidas em relação aos personagens em quem devemos ou não confiar, embora transmita diversos sinais para o espectador, enquanto mantém a intriga e brinda-nos com um final recheado de ironia e acidez. Laurana parece querer perturbar uma estranha ordem dominada pela corrupção, enquanto Elio Petri insere uma série de reviravoltas que permitem dar a conhecer facetas distintas de alguns personagens. O caso de Luisa é paradigmático dessa situação, com esta a não ser tão frágil e inocente como indica, bem pelo contrário, tal como Rosello está longe de ser um exemplo moral. Diga-se que Rosello é um dos representantes desta sociedade corrupta, pronta a manter as aparências, tendo uma série de ligações a indivíduos poderosos, com o próprio a contar com um estatuto elevado no interior deste espaço da Sicília.

O argumento, escrito por Elio Petri, Ugo Pirro, Jean Curtelin, procura incutir alguma complexidade a toda esta teia narrativa, tendo sido baseado na obra literária "A ciascuno il suo" de Leonardo Sciascia. O enredo é pontuado pela determinação de Laurana e pela procura daqueles que o rodeiam em evitarem que este continue a "chafurdar" em informação considerada incómoda, com o protagonista a investigar um caso que se revela deveras complexo e perigoso. A utilização dos zooms permite a espaços adensar a carga dramática em volta dos acontecimentos, com Elio Petri a usar imenso este recurso, bem como os close-ups nos momentos mais intensos. Veja-se quando Laurana e Luisa encontram-se no interior do carro desta última, com a viúva a ler uma parte do diário do falecido esposo. A banda sonora, as expressões dos actores, os close-ups adensam a carga quase melodramática do episódio, com Elio Petri a não ter problemas em exagerar um momento que talvez pedisse um pouco mais de contenção. Diga-se que não faltam exemplos para os close-ups e para os zooms em momentos de maior tensão, algo notório quando Laurana recebe uma carta anónima para se deslocar ao tribunal de Palermo, tendo em vista a deparar-se com uma surpresa. Veja-se ainda quando Laurana se desloca até à casa de Rosina, tendo em vista a falar com a jovem, com o trabalho de câmara a permitir incrementar a tensão em volta deste momento e adensar as dúvidas sobre o silêncio daqueles que poderiam falar às autoridades e contribuírem para que o progenitor e os irmãos da jovem fossem ilibados. O silêncio parece ser de ouro para diversos personagens, sobretudo para se protegerem uns aos outros ou evitarem represálias dos mais poderosos. Todos parecem estar conscientes que falar demais, ou questionar aquilo que é dito pelos mais poderosos, pode ser perigoso, com excepção de Laurana, ou o protagonista não surgisse como o intelectual alienado do espaço que o rodeia, algo que talvez explique o interesse que demonstra por Luisa. A certa altura, Laurana começa a descobrir cada vez mais informações, algo que coloca a sua vida em perigo. Este percebe isso, embora não tenha a perfeita consciência do "polvo" que o rodeia, enquanto Elio Petri joga com as nossas expectativas. O cineasta lança as peças, mexe com as mesmas de forma eficaz e aproveita para criar alguns momentos marcantes. O final é impossível de esquecer, simultaneamente negro e mordaz, tal como uma explosão que dinamita as hipóteses da verdade surgir ao de cima, com Elio Petri a colocar-nos diante de um meio onde a corrupção moral permeia boa parte dos personagens. Diga-se que existe ainda uma espécie de comentário sobre o protagonista, um intelectual de esquerda que parece incapaz de compreender a realidade que o rodeia, algo que pode ser encarado como uma crítica à inacção deste grupo. Esta inacção é particularmente notória na representação do deputado com quem Laurana dialoga, um elemento da extrema esquerda que tenta não se envolver no caso quando deveria surgir como um agente de mudança, com Elio Petri a não ter problemas em efectuar comentários do foro político e social. Ficamos entre o filme de máfia e investigação criminal, com Gian Maria Volontè e Gabriele Ferzetti a surgirem como os elementos do elenco em maior destaque, enquanto Elio Petri aproveita para efectuar alguns comentários do foro político e social, contando com o apoio de um argumento sólido e uma banda sonora pronta a adensar as emoções.

Título original: "A ciascuno il suo".
Título em Portugal: "Crimes à moda antiga".
Realizador: Elio Petri.
Argumento: Elio Petri, Ugo Pirro e Jean Curtelin.
Elenco: Gian Maria Volontè, Irene Papas, Gabriele Ferzetti, Salvo Randone, Luigi Pistilli, Luciana Scalise.

Vale a pena ouvir este Q&A conduzido por Alan O'Leary e Nico Marzano: https://www.ica.org.uk/whats-on/elio-petri-we-still-kill-old-way-qa

Sem comentários: