01 julho 2016

Resenha Crítica: "Anime Nere" (Almas Negras)

 É praticamente impossível começar a abordar "Anime Nere", a terceira longa-metragem realizada por Francesco Munzi, sem destacar a interpretação notável de Fabrizio Ferracane como Luciano, um pastor que procura fugir aos problemas inerentes ao facto de quase toda a sua família contar com ligações ao mundo do crime. Curiosamente, ou talvez não, Luciano é um dos personagens mais lacónicos de "Anime Nere", com o pastor a surgir como um elemento de poucas falas, contido na exposição dos sentimentos, aparentemente ponderado nas suas acções, com Fabrizio Ferracane a conseguir transmitir paradigmaticamente as características deste indivíduo veterano, que habita em Africo, uma aldeia montanhosa da Calábria. Africo encontra-se afastada da confusão dos grandes espaços urbanos, transmitindo a falsa ideia de que estamos diante de um local idílico e pacífico, embora "Anime Nere" exiba que a realidade no interior deste território difere imenso da primeira impressão que podemos formar em relação ao mesmo. Os momentos de acalmia escondem a aproximação de algumas explosões pontuais de violência, com Francesco Munzi a saber gerir os ritmos da narrativa de forma exímia, algo que atribui um poder indelével aos trechos de maior aspereza. A violência surge muitas das vezes quando menos se espera, embora não seja por falta de aviso de Francesco Munzi, com o cineasta a não poupar nas cenas que contam com a noite como pano de fundo, com as sombras a cobrirem este cenário onde decorrem jogos de poder, diversos assassinatos e um poderoso drama familiar. As montanhas marcam este território de forma indelével, bem como os seus acessos, algo exposto em alguns planos bem abertos que transmitem uma certa sensação de isolamento, quase como se estivéssemos numa aldeia que fica relativamente à parte de tudo e todos. As características do território parecem influenciar as suas gentes, com a maioria dos habitantes a contar com valores religiosos vincados (a presença da cruz de Cristo em diversos cenários é exemplo disso), a desprezar a polícia e os políticos e a atribuir uma relevância indelével à família, embora exista uma ou outra excepção. A casa de Luciano evidencia exactamente estas características do território, com a passagem do tempo a fazer-se notar neste cenário rústico, pontuado por diversas fotografias nas paredes (de familiares do pastor), iconografia religiosa e um núcleo familiar em crise, com Leo, o filho do primeiro, a desrespeitar constantemente o progenitor. As fotografias de familiares de Luciano transmitem algum apego ao passado, embora o pastor procure evitar relacionar-se com Luigi (Marco Leonardi) e Rocco (Peppino Mazzotta), os seus irmãos mais novos, dois indivíduos ligados ao mundo do crime. Diga-se que o crime parece impregnado no interior do território de Africo, com a 'Ndrangheta, uma associação criminosa, a dominar o local (Rocco e Luigi fazem parte deste grupo criminoso), ainda que nas sombras, com "Anime Nere" a apresentar semelhanças latentes com "Gomorra". Não falta um território dominado por um grupo criminoso (no caso de "Gomorra", a Camorra), o fascínio de alguns personagens pelo mundo do crime, as rivalidades entre clãs/famílias, a forma crua como o espaço onde se desenrola boa parte do enredo é representado, o tom quase documental, a procura de diversos elementos manterem o poder e o respeito, com Francesco Munzi a realizar um filme negro, cru, pontuado por um doses consideráveis de pessimismo, que surge praticamente como um dardo que nos atordoa com os episódios que nos apresenta.

A violência assombra o quotidiano dos personagens que povoam a narrativa, com quase todos os elementos masculinos a envolverem-se ou a serem envolvidos em episódios onde a morte parece surgir como o destino mais provável. Aceitar o destino ou contrariá-lo? Luciano procura contrariar o passado da sua família e evitar o estilo de vida dos seus dois irmãos, mas Leo admira Luigi e pretende seguir os passos do tio, algo que estraga os planos deste pastor que assume estranhos hábitos religiosos. Diga-se que os hábitos religiosos de Luciano surgem como um meio para Francesco Munzi expor algumas das tradições locais, algo mencionado pelo cineasta em entrevista ao Cineuropa: "I had to choose a certain number of beliefs from the region for realism’s sake, and I elected to film the one about the saint’s ashes, which, once swallowed by a believer, are said to cure you of your spiritual ills. Luciano drinks them by diluting them in a glass of water, but they’re not pure. He mixes them with a drug – he combines the old with the new". Se Luciano é um elemento veterano, na casa dos cinquenta e poucos anos de idade, oriundo de uma família da máfia, já Leo representa uma nova geração, embora o crime pareça estar no sangue deste jovem interpretado por Giuseppe Fumo, com o actor a transmitir a rebeldia do aspirante a criminoso. As gerações sucedem-se mas o crime tarda em sair das entranhas da família de Luciano, uma situação que talvez ajude a explicar o acto desesperado deste personagem no final do filme. Leo é um jovem adulto que se encontra constantemente revoltado com a inércia do pai, parecendo fascinado pelo mundo do crime, embora não tenha maturidade para se mover nos meandros deste meio cruel e implacável. Luciano tenta evitar que o filho siga os passos de Luigi, embora seja incapaz de convencer o jovem a mudar de ideias, com ambos a protagonizarem uma série de discussões. O enredo de "Anime Nere" é pontuado por diversos ingredientes de drama familiar, com Francesco Munzi a colocar-nos diante das divergências entre elementos de diferentes gerações, discussões entre um pai e o seu filho, conflitos entre irmãos, com esta família que nos é apresentada a nunca parecer conseguir encontrar a estabilidade necessária para que os seus integrantes consigam conviver pacificamente. Leo abomina o trabalho no campo, descura os estudos e promete colocar o quotidiano de tudo e todos em polvorosa quando decide destruir as janelas do bar de Ferraro, um indivíduo protegido por Don Nino Barreca, um mafioso poderoso. Barreca foi o responsável pelo assassinato do pai de Luciano, Luigi e Rocco, com o acto de Leo a parecer reacender ódios antigos que nunca foram totalmente esquecidos. Se Luciano procura controlar os ímpetos violentos de Don Nino e acalmar Luigi, já este último, um traficante financeiramente abonado, conhecido por ser o líder da família Carbone, decide dirigir-se a Africo, acompanhado por Rocco e diversos elementos da sua confiança, tendo em vista a exibir um sinal de força. Luciano discorda desta atitude de Luigi, antevendo as possíveis consequências do irmão parecer estar a tentar apagar fogo com gasolina, ou Barreca não surgisse como uma das figuras mais temidas da região. Veja-se o diálogo entre Luciano e Don Nino, com o primeiro a apresentar uma postura receosa, enquanto o segundo procura utilizar o acto intempestivo de Leo para efectuar negociatas com Luigi e Rocco, embora estes últimos estejam longe de apresentarem a passividade do pastor.

No início do filme encontramos Luigi a exibir as suas habilidades negociais como traficante de droga, contando com ajudantes fiéis como Nicola (Stefano Priolo), um indivíduo calmo, de feições rígidas e experiente a tratar de situações complicadas. Os momentos iniciais permitem que Marco Leonardi exiba desde logo a personalidade carismática deste mafioso que gosta de apreciar os luxos inerentes ao dinheiro que granjeia como traficante de armas e drogas, parecendo pouco preocupado com os perigos do seu ofício, enquanto o actor consegue compor um personagem que gera alguma empatia com o espectador. Luigi encontra-se relativamente afastado de Luciano, embora respeite o irmão, com os dois a contarem com objectivos de vida completamente antagónicos. Rocco nem sempre aprecia os actos de Luigi, apesar de também estar envolvido em negócios obscuros, com Peppino Mazzotta a interpretar um indivíduo relativamente calmo, que é casado com Valeria (Barbora Bobulova), de quem tem uma filha. Valeria não aprecia o espaço de Africo, em particular os perigos que este representa, algo exposto de forma paradigmática quando a primeira se dirige a esta aldeia. Africo é representado como um território pontuado por gentes conservadoras, onde as mulheres contam com um papel muito secundário, embora Rosa (Aurora Quattrocchi), a mãe de Rocco, Luigi e Luciano protagonize um momento marcante quando toca no caixão de um personagem relevante. Rosa é uma mulher simples e conservadora, que ama os filhos e odeia a polícia, com este núcleo familiar a sofrer uma série de rudes golpes ao longo do enredo, algo que devasta esta veterana. Os laços de sangue parecem ser relativamente respeitados pela maioria dos personagens principais, embora a espaços este elo de ligação pareça funcionar mais como uma maldição para Luciano, Luigi, Rocco e Leo do que como uma bênção, com "Anime Nere" a mesclar assertivamente alguns ingredientes de filmes de gangster com elementos de drama familiar. A chegada de Luigi, Rocco, Nicola, Cosimo (Cosimo Spagnolo como um traficante ao serviço de Luigi), Pasquale (Vito Facciolla - um dos homens da confiança de Rocco) a Africo promete colocar este espaço em polvorosa. Luciano não aprecia a presença de Luigi, enquanto este último procura ganhar influência junto dos diversos criminosos locais, entre os quais os Tallura, tendo em vista a amedrontar Don Nino. Esta não parece ser a opção mais acertada, com Luciano a procurar avisar o irmão, embora Luigi tente desafiar o poder de Barreca. Luigi opera a partir de espaços como Amesterdão e Milão, com estas cidades a contarem com características muito distintas de Africo, algo evidenciado ao longo de "Anime Nere". Note-se a casa de Rocco, um cenário decorado com algum requinte, situado em Milão, onde o personagem interpretado por Peppino Mazzotta vive de forma aparentemente calma ao lado da esposa e da filha, procurando que estas duas estejam afastadas dos problemas. A modernidade de Milão e da habitação de Rocco é contrastada com o espaço rural onde decorre boa parte da narrativa de "Anime Nere", bem como com a casa de Luciano, um cenário rústico, situado no campo, permitindo que este trabalhe a cuidar das suas cabras e das suas plantações. Os próprios acessos ao território de Africo evidenciam o isolamento desta aldeia, com as montanhas a permearem as redondezas deste espaço onde quase tudo e todos se conhecem.

O facto de Francesco Munzi ter filmado "Anime Nere" no espaço de Africo é fulcral para termos a noção das especificidades deste território e das suas gentes, bem como para atribuir maior credibilidade aos episódios representados, com o cineasta a conseguir ainda abordar a acção dos tentáculos da máfia quer no interior de um espaço citadino, quer numa região rural, embora no cerne da narrativa estejam as relações intrincadas dos Carbone. Africo e Milão partilham as "almas negras" de Luigi, Rocco, Leo e até Luciano, com este último a conter uma revolta que promete ser exposta de forma inesperada, intensa, violenta e brutal no último terço de "Anime Nere". O argumento, inspirado no livro "Anime Nere" de Gioacchino Criaco, contribui para que Munzi consiga desenvolver assertivamente a personalidade de Luciano, bem como as relações familiares intrincadas dos personagens principais e a violência que permeia o território de Africo. O trabalho de Vladan Radovic na cinematografia contribui para a crueza que a espaços toma conta da narrativa, com "Anime Nere" a conseguir captar as especificidades muito próprias deste território de Africo, tais como a dicotomia entre as características aparentemente idílicas desta aldeia e a violência que permeia a mesma. As tonalidades frias parecem a espaços tomar conta do enredo, inclusive na preparação de um assassinato que tem tudo para correr mal, com a noite a surgir muitas das vezes como uma (má) companheira destes personagens. As vinganças sucedem-se, enquanto um desejo revanchista perigoso parece tomar de assalto as almas de alguns personagens e enchê-las de negrume, com o acto imponderado de Leo, de disparar sobre um bar, a trazer consequências mortais para vários elementos, com tudo e todos a procurarem mostrar "quem manda" naquela zona específica do território. Luigi não renega o seu passado e o seu território, com este e o seu grupo a regerem-se por regras ancestrais que prometem causar estragos. A confiança de Luigi é latente, embora esta situação conduza a que descure os perigos inerentes à sua conduta, uma característica que parece ser partilhada por Leo. Veja-se a suposta amizade entre Leo e Peppe, com o primeiro a confiar em demasia no segundo, algo latente no último terço, num momento onde a parca iluminação e a inquietação tomam conta do enredo. A morte parece o destino mais provável para a maioria dos personagens principais de "Anime Nere", com Francesco Munzi a transportar o espectador para o interior de um território onde as tradições, os laços de sangue e os jogos de poder trazem uma série de problemas a alguns dos protagonistas, sobretudo quando as emoções toldam a razão. Num determinado momento de "Anime Nere", encontramos Rosa a tocar num caixão negro, onde se encontra o corpo de um ente querido, que esta classifica como alguém que é do "seu sangue". Os valores tradicionais contam e muito para os protagonistas de "Anime Nere", com o título a não enganar o espectador em relação a diversos personagens. As almas de Luigi, Luciano, Rocco e Leo são negras desde a nascença, embora alguns personagens procurem evitar que esse negrume consuma o seu âmago e tolde a razão, com "Anime Nere" a fazer justiça ao título e a surgir como um filme negro que apresenta um tom seco e evita falsos sentimentalismos.

Título original: "Anime Nere".
Título em Portugal: "Almas Negras".
Realizador: Francesco Munzi.
Argumento: Francesco Munzi, Maurizio Braucci e Fabrizio Ruggirello.
Elenco: Marco Leonardi, Peppino Mazzotta, Fabrizio Ferracane, Barbora Bobulova, Giuseppe Fumo.

Texto escrito no âmbito da cobertura da Nona edição do 8½ Festa do Cinema Italiano.

Sem comentários: