22 julho 2016

Resenha Crítica: "99 Homes" (99 Casas)

 Os momentos iniciais de "99 Homes", a quinta longa-metragem realizada por Ramin Bahrani, colocam o espectador diante de um cenário desolador, com o cineasta a provocar desde logo o choque ao exibir o corpo de um indivíduo que cometeu suicídio ao saber que chegou o dia do arresto da sua casa. Estamos no âmbito da ficção, embora "99 Homes" tenha como pano de fundo as consequências do rebentamento da bolha imobiliária nos EUA, algo que ocorreu entre 2007 e 2008 (a narrativa decorre em 2010), com o enredo a desenrolar-se primordialmente no território de Orlando, na Florida, um local bastante afectado por esta crise. Imensas casas são arrestadas, diversas famílias perdem os seus lares, alguns corretores imobiliários lucram com a situação, bem como outros elementos que gravitam à volta destes últimos, com "99 Homes" a abordar toda esta problemática sem procurar soluções fáceis ou confortáveis. O cenário inicial é desolador, com a família do falecido a encontrar-se em pânico, enquanto Richard Carver (Michael Shannon), um corretor imobiliário, procura despachar todo este imbróglio, encontrando-se acompanhado pelos representantes das autoridades. Carver demonstra uma frieza surpreendente, indo ao ponto de fazer piadas com a situação, com Michael Shannon a compor um personagem que é implacável nos negócios relacionados com as casas arrestadas, parecendo demasiado consumido pelo poder e pelos luxos proporcionados por estas negociatas, embora também conte com os seus receios e fragilidades emocionais. Diga-se que Carver joga com as condições do mercado imobiliário, bem como com as regras dos bancos e do Governo dos EUA, enquanto lucra imenso com a desgraça alheia. Para Richard, as casas não passam de "caixotes", com o empresário a apresentar um desapego latente em relação às habitações. No entanto, Ramin Bahrani faz questão de contrariar este personagem logo no início do filme, em particular, ao exibir a casa do elemento que cometeu suicídio, um espaço dotado de um conjunto de objectos com enorme valor sentimental. Os momentos iniciais são marcados por um plano de longa duração, onde podemos observar quer o corpo do falecido, quer as autoridades, quer Carver, bem como a decoração da habitação do proprietário deste espaço arrestado. A habitação conta com diversas fotografias de família, uma série de objectos pessoais e uma decoração muito própria, ou seja, reflecte o valor sentimental deste espaço para aqueles que o possuíam, com "99 Homes" a expor que muitos destes elementos não só perdem o seu lar mas também um "pedaço" das suas vidas. O trabalho exímio na decoração dos cenários permite atribuir ainda mais credibilidade ao apego que diversos personagens evidenciam em relação às suas casas, com estes espaços a contarem não só com valor material mas também com valor sentimental, algo que dificulta ainda mais a contingência de perder a habitação de forma forçada. 

 Quem também perde a sua casa é Dennis Nash (Andrew Garfield), o protagonista de "99 Homes", um trabalhador da construção civil que é despejado de forma implacável. A casa pertence a Lynn (Laura Dern), a mãe de Dennis, uma cabeleireira que utiliza a habitação como local de trabalho, embora um empréstimo bancário no valor de oitenta mil dólares, contraído pelo protagonista, coloque a propriedade em risco de ser arrestada. O sector onde Dennis trabalha está em crise, em particular, a construção civil, bem como as finanças deste pai solteiro que tem de sustentar o seu filho, o jovem Connor (Noah Lomax). Dennis habita com Connor e Lynn, com estes a serem despejados de forma desumana, após o primeiro falhar o pagamento de três prestações bancárias, algo exposto de forma crua por Ramin Bahrani. Veja-se quando encontramos Dennis e Lynn a procurarem retirar alguns bens de forma rápida, até o recheio da casa ser despejado para a parte exterior da habitação, com o desespero dos personagens interpretados por Andrew Garfield e Laura Dern a ser latente. Os movimentos de câmara adensam essa inquietação, bem como a banda sonora, o trabalho de montagem e os gestos dos actores, com Andrew Garfield a expor a revolta de Nash, enquanto Michael Shannon transmite a indiferença com que Carver encara o despejo, com o corretor imobiliário a apresentar um discurso de circunstância que é simultaneamente frio e paternalista. Perante a perda da casa, Dennis, Lynn e Connor não têm praticamente outra solução para além de irem habitar num quarto diminuto de um motel barato. O espaço do motel permite que Ramin Bahrani exponha o choque da família de Dennis em relação à nova realidade, bem como o número elevado de pessoas que foram despejadas das suas casas, com o estabelecimento a contar com uma miríade de arrendatários que perderam as suas habitações para os bancos, após terem entrado em incumprimento para com as entidades bancárias. É o oposto ao "american dream", com uma fatia importante da população a deparar-se com a perda das suas casas e do seu emprego, uma situação que conduz Dennis Nash a envolver-se numa actividade profissional improvável. Numa reviravolta inesperada, Dennis começa a trabalhar para Richard Carver, uma situação aparentemente improvável no início do filme, sobretudo devido ao facto do segundo ter contribuído para o primeiro perder a casa, embora as parcas condições financeiras do protagonista e a dificuldade em encontrar emprego ajudem a explicar esta parceria laboral improvável. A atitude trabalhadora e profissional de Dennis agrada a Richard, com o primeiro a efectuar pequenas obras até começar a trabalhar no negócio de arresto de casas e a assumir uma postura semelhante ao segundo, com "99 Homes" a entrar por um caminho surpreendente e intrincado. O dilema moral existe, algo latente quando Dennis esconde inicialmente a identidade da sua entidade empregadora e a sua profissão da mãe e do filho, embora o salário seja demasiado apelativo para que o protagonista consiga resistir à tentação de efectuar um "acordo com o Diabo". Seria possível resistir? É provável que sim, mas também seria algo improvável de acontecer, com Dennis a ser praticamente obrigado a escolher este caminho, enquanto o destino revela toda a sua ironia.

 O personagem interpretado por Andrew Garfield sofreu na pele a perda da habitação e a humilhação inerente ao processo do despejo, embora acabe por contribuir para que outros elementos se deparem com situações do género. Dennis não apresenta uma adaptação imediata à profissão, algo visível no desconforto que denota quando tem de efectuar o primeiro despejo, com o rosto de Andrew Garfield a explanar esse sentimento. O protagonista encara este ofício como um meio para conseguir uma condição financeira relativamente segura, pensando inicialmente em comprar a casa que perdeu, embora, aos poucos, os comportamentos de Dennis pareçam demasiado influenciados pela frieza do meio do qual começa a fazer parte. Dennis parece ficar gradualmente mais à vontade com a nova profissão, conseguindo aproveitar-se de algumas vantagens da mesma, até constatar que este ofício acarreta uma miríade de perigos e exige um controlo emocional acima da média, com o protagonista a nem sempre conseguir manter o sangue frio, algo latente no último terço de "99 Homes". Nash fica numa espécie de zona cinzenta, enquanto forma uma estranha relação de respeito, ou de mestre e pupilo, com Carver, algo que é bem aproveitado por Ramin Bahrani. Carver alcançou uma fortuna considerável ao envolver-se no negócio das casas arrestadas, assumindo quase sempre uma postura mais fria e ponderada do que Nash, com o personagem interpretado por Michael Shannon a parecer não olhar a meios para atingir os fins. Michael Shannon é fundamental para Carver funcionar no interior da narrativa, bem como a sensibilidade de Ramin Bahrani a abordar as temáticas, com o corretor imobiliário e Nash a não serem representados como figuras unidimensionais, bem pelo contrário. Shannon desarma-nos por completo quando Carver exibe uma postura afável junto das filhas, com o actor a transmitir quer o lado implacável e imoral do corretor imobiliário, quer a faceta protectora quando se encontra junto das petizes. Diga-se que Nash também apresenta um enorme zelo em relação ao filho, embora nem sempre pareça compreender que o jovem ainda não tem maturidade para perceber todas as transformações que ocorrem no seu quotidiano. Os personagens interpretados por Andrew Garfield e Michael Shannon pertencem a grupos sociais distintos, embora o primeiro comece a galgar terreno quando assume praticamente a função de "pupilo" do segundo, apesar de não ter a frieza do corretor imobiliário. Nash e Carver apresentam inicialmente diversas diferenças, algo latente na forma de se vestirem (Nash utiliza roupas mais simples, enquanto Carver aparece quase sempre com vestimentas mais fomais), de fumarem (o personagem interpretado por Andrew Garfield fuma tabaco, enquanto o corretor imobiliário anda quase sempre acompanhado de cigarros electrónicos) e dialogarem (o antigo trabalhador da construção civil apresenta um estilo mais simples, algo que diverge da faceta sardónica e ríspida do personagem interpretado por Michael Shannon), entre outros exemplos, embora o primeiro comece a inserir-se, ainda que de forma gradual, no mundo do segundo. Andrew Garfield e Michael Shannon contribuem e muito para elevar os diálogos entre Nash e Carver, embora fique particularmente na memória uma troca de palavras sincera quando ambos se encontram relativamente embriagados, após uma festa organizada pelo corretor imobiliário. Tanto Nash como Carver exibem os seus receios em relação à profissão que praticam, com o segundo a estar habituado às ameaças à sua integridade física, enquanto o primeiro encara esta situação como uma desagradável surpresa que parece trazê-lo de volta para a realidade. No entanto, se Carver não parece ter um travão nas suas ambições, procurando aproveitar-se de todas as brechas legais, já Nash começa a demonstrar que não está disposto a tudo para enriquecer, sobretudo a partir do momento em que Lynn e Connor descobrem a sua profissão. Laura Dern interpreta o barómetro moral do protagonista, uma mulher de personalidade forte, que cuida do neto com apreço, com a actriz a conseguir sobressair como esta personagem secundária que a espaços ganha alguma relevância. Connor é uma das maiores preocupações do protagonista, algo que ajuda e muito a explicar algumas das decisões de Dennis, embora este último nem sempre pareça compreender os seus familiares.

 A certa altura de "99 Homes", Ramin Bahrani deixa-nos diante de um plano de Dennis Nash a observar a piscina da sua nova casa, após descobrir que a mãe e o filho decidiram abandonar este local. É uma imagem fortíssima, com a solidão de Dennis a ser representada de forma paradigmática, bem como o facto deste perceber a desilusão que provocou junto daqueles que o amam. A habitação que Nash adquiriu, após desistir da ideia de comprar a casa que perdera, é mais um exemplo da forma paradigmática como Ramin Bahrani volta a utilizar os cenários ao serviço do enredo, com este espaço a surgir como o símbolo do descontrolo do protagonista, com o seu novo lar a assemelhar-se bastante ao espaço habitacional de Richard Carver (algo que não parece ser obra do acaso). A própria exposição dos cenários exteriores permite exacerbar o número elevado de casas que se encontram prestes a ser arrestadas, enquanto "99 Homes" nos deixa diante de uma miríade de figuras que perdem as habitações. Nash esteve do lado de quem perdeu a casa e ironicamente começa a ganhar a vida a contribuir para que outros elementos sejam despejados e expulsos das suas habitações, uma ironia que este certamente preferia ter evitado, embora seja impossível de condenar. Este percebe que o sistema que o rodeia é corrupto, algo que o conduziu a perder a casa, ao não contar com apoio legal, embora acabe por contribuir para mais situações do género. O que faríamos na mesma situação do protagonista? É muito provável que optássemos pela mesma solução de Nash, com "99 Homes" a colocar-nos diante de um indivíduo que acima de tudo precisa de pagar as suas contas. "99 Homes" aborda ainda temáticas como a incapacidade do Governo em proteger os cidadãos que se encontram em situações mais frágeis, a facilidade com que se concediam empréstimos bancários, bem como o desemprego, as desigualdades sociais e a necessidade de diversos elementos terem de mudar de rumo a nível profissional, entre outras. Carver lucrou imenso com a crise, embora não tenha pejo em colocar o dedo na ferida em relação a alguns problemas que contribuíram para toda esta situação: "Putting people in homes, speculating on property, that was my job. Now, in 2006 Robert and Julia Tanner borrowed $30,000 to put an enclosed patio on their home that they had somehow managed to live without for 25 years. Why don't you ask them about that when they're spitting in your face while you walk 'em to the kerb? Why don't you ask the bank what they were thinking giving them an adjustable-rate mortgage? Then you can go to the government and ask why they lifted every regulation and sat there like a retarded stepchild. You, Tanner, the banks, Washington, every other homeowner and investor from here to China turned my life into evictions (...)". Estas palavras exibem paradigmaticamente aquilo que o empresário pensa, mas também a situação complexa que rodeia estes personagens, com Ramin Bahrani a não optar por soluções fáceis, enquanto expõe a corrupção moral que pontua alguns sectores da nossa sociedade.

"99 Homes" não esconde que é uma obra cinematográfica de forte pendor social, com Ramin Bahrani a envolver-se pelo interior de uma realidade incómoda e cruel, enquanto procura colocar o espectador a pensar sobre as temáticas abordadas e alertar o mesmo para algo que se encontra a acontecer. Diga-se que o contexto que envolve a narrativa é inspirado em factos reais, ou a crise financeira e do mercado imobiliário não tivesse contribuído para a perda de um número elevado de lares, com Ramin Bahrani a expor esta situação sem grandes contemplações. Bahrani concede ainda uma atenção indelével ao desenvolvimento dos personagens, com Andrew Garfield a beneficiar e muito do bom argumento que tem à sua disposição, enquanto assistimos à entrada de Nash num mundo de que certamente não pretenderia fazer parte, embora o dinheiro fale mais alto, pelo menos a nível inicial. Nash é um indivíduo simples, que parece contar com uma relação relativamente próxima com a mãe e o filho, embora, aos poucos, comece a lidar com toda uma realidade marcada pela frieza, algo que afecta os seus gestos, com Andrew Garfield a ter espaço para compor um personagem complexo, enquanto brinda o espectador com uma interpretação de bom nível. Pontuado por interpretações de bom nível de Michael Shannon e Andrew Garfield, um desenvolvimento eficaz das temáticas abordadas, uma utilização assertiva do trabalho de câmara para adensar a inquietação em volta de alguns acontecimentos, "99 Homes" surge como um drama competente, dotado de uma atmosfera próxima de um thriller e uma realização bastante segura de Ramin Bahrani, com o cineasta a envolver-se no interior das consequências da crise do mercado imobiliário e financeiro dos EUA, enquanto coloca o espectador e o protagonista diante de uma miríade de dilemas morais.

Título original: "99 Homes".
Título em Portugal: "99 Casas".
Realizador: Ramin Bahrani.
Argumento: Ramin Bahrani e Amir Naderi.
Elenco: Andrew Garfield, Michael Shannon, Laura Dern, Connor Nash.

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