30 junho 2016

Resenha Crítica: "8½" (1963)

 Quando conhecemos Guido Anselmi (Marcello Mastroianni), o protagonista de "8½", o quotidiano deste realizador de cinema encontra-se num estado caótico. Não faltam episódios do passado que são recordados no presente, sonhos, devaneios, ilusões, situações rocambolescas, pressões externas e internas, crises existenciais, bloqueios criativos, relacionamentos conturbados, com Guido Anselmi a parecer incapaz de encontrar inspiração e tranquilidade para desenvolver a sua nova obra cinematográfica. Guido é um realizador famoso, que se encontra instalado temporariamente numa estação termal, tendo em vista a efectuar tratamento para o corpo e para a alma, enquanto procura superar o bloqueio criativo que afecta a sua mente, algo que impede o desenvolvimento da sua nova obra cinematográfica. Aos quarenta e três anos de idade, Guido procura desenvolver um filme "sincero", inspirado em diversos episódios da sua vida, com Federico Fellini a parecer criar "8½" com base nas suas experiências pessoais e no seu trabalho como realizador e argumentista. Como superar um bloqueio criativo? Fellini lança a pergunta ao espectador, embora não tente responder paradigmaticamente à mesma, ou Guido não parecesse incapaz de ultrapassar esta fase complicada. Guido pretende realizar um filme que seja simultaneamente simples e sincero, com o cineasta a procurar seguir as suas ideias e incutir o seu cunho autoral, embora tarde em encontrar um rumo para a seu nova obra cinematográfica, algo que preocupa tudo e todos. Diga-se que, com o avançar de "8½" parece relativamente certo que Guido não sabe aquilo que pretende para o seu novo filme, com o protagonista a perder-se no interior das suas ideias e memórias, embora já conte com uma série de actores e actrizes contratados para participarem na obra cinematográfica, bem como um cenário construído a partir do zero, em particular, uma nave espacial (a ideia inicial passava por incutir elementos de ficção-científica ao filme, embora essa situação pareça ter sido totalmente descartada, apesar do realizador tardar em revelar a decisão ao produtor). A pressão exercida sobre Guido contribui para adensar as dificuldades sentidas pelo realizador, com o protagonista a parecer incapaz de tomar opções quer para o seu filme, quer para a sua vida pessoal, encontrando-se num labirinto difícil de sair, com Federico Fellini a explorar esta situação de forma criativa e exuberante. O produtor e financiador do filme (Guido Alberti) desespera e impacienta-se perante a falta de certezas, com Guido a não revelar aquilo que pretende efectuar para a sua nova obra cinematográfica, uma situação que seria praticamente impossível de acontecer nos dias de hoje. Guido representa um autor em crise, um artista que procura incutir sinceridade ao enredo da sua nova obra cinematográfica e transmitir esse sentimento para os seus espectadores, embora as suas inquietações e dúvidas pareçam incapacitá-lo de cumprir esse desiderato. O personagem interpretado por Marcello Mastroianni exaspera produtores, actores, actrizes, empresários, entre outros elementos que se encontram a trabalhar no desenvolvimento da obra cinematográfica, tais como Daumier (Jean Rougeul), um escritor e crítico de cinema que foi contratado pelo primeiro para efectuar anotações no argumento do filme que se encontra a ser desenvolvido por Guido.

Daumier personifica não só aqueles que criticam os trabalhos de Guido, mas também os críticos das obras cinematográficas de Federico Fellini, com o personagem interpretado por Jean Rougeul a surgir como uma figura arrogante e recheada de "certezas absolutas", embora tenha pouco sentido prático. Veja-se quando encontramos Daumier a questionar a estrutura narrativa caótica que Guido idealizou para o filme, bem como a puerilidade dos símbolos inseridos na história, tais como a presença de uma jovem misteriosa que surge nas proximidades de uma fonte (um símbolo de pureza que o protagonista procura encontrar, ainda que de forma Quixotesca). Guido aparece quase como um alter-ego de Federico Fellini, com este último a realizar uma obra cinematográfica onde aborda uma série de questões associadas aos seus filmes, ao processo de criação artística e ao trabalho do realizador. Não faltam as dificuldade inerentes à procura de expressar algo pessoal numa obra cinematográfica, as pressões no interior do set de filmagens, a tentativa de efectuar um filme relevante, os problemas pessoais que influenciam e muito no trabalho, entre outros exemplos, embora, ao contrário do protagonista, Federico Fellini apresente uma criatividade intensa e fervilhante. O final de "8½" demonstra paradigmaticamente essa criatividade e saudável loucura de Fellini, bem como a sua capacidade de nos surpreender, com o cineasta a criar uma obra cinematográfica brilhante, pronta a desafiar a nossa capacidade de interpretação e a estimular o debate. É muito mais do que um filme sobre um cineasta que tarda em tomar opções para a sua nova obra cinematográfica e para a sua vida, com Federico Fellini a abordar questões ligadas à psicologia, à religião, à arte, às relações matrimoniais, ao desejo, enquanto evita dar mais do mesmo ao espectador, com "8½" a surgir como uma experiência que nos marca de forma indelével. No entanto, regressemos a Guido, um cineasta atormentado, que parece incapaz de "cortar o nó górdio", com Federico Fellini a permitir que Marcello Mastroianni componha mais um personagem marcante. De cabelo grisalho, muitas das vezes de óculos escuros, Marcello Mastroianni consegue transmitir as incertezas, o cansaço e o estranho sentido de humor de Guido, com o actor a incutir carisma e dimensão a este cineasta que parece questionar tudo aquilo que alcançou (a fazer recordar Marcello, o personagem principal de "La dolce vita", quando aborda o rumo da sua carreira). Guido é um mulherengo que desperta facilmente a atenção das mulheres, embora nem sempre consiga demonstrar o afecto que nutre pelas figuras que marcam e marcaram a sua vida, algo paradigmaticamente representado na relação complicada entre o protagonista e Luisa (Anouk Aimée), a sua esposa. Num determinado momento do filme, Luisa expressa de forma bem viva que se encontra desgastada com os avanços e recuos da relação, com Guido a evidenciar constantemente o desejo de "começar tudo de novo", embora tarde em conseguir cumprir essa promessa. O matrimónio de Luisa e Guido está em risco de desabar por completo, com o protagonista a parecer incapaz de estar em paz consigo próprio, descurando pelo caminho aqueles que o rodeiam, algo latente nas relações com as figuras femininas. Veja-se o modo como Guido recebe Carla (Sandra Milo), a sua amante, com o protagonista a desejar esta mulher, embora descure constantemente a presença da mesma.

Carla é uma mulher casada, que gosta de cantar, conta com uma personalidade extrovertida, aprecia dar nas vistas, veste-se quase sempre como se fosse desfilar numa passagem de modelos, tendo decidido visitar Guido, embora este não apresente grande disponibilidade para estar junto desta figura feminina. O affair entre Guido e Carla está longe de atravessar uma fase fulgurante, tal como o casamento de Guido e Luisa. A relação entre Guido e Luisa traz à memória a crise no interior do casamento de Giovanni (Marcello Mastroianni) e Lidia (Jeanne Moreau), os protagonistas de "La Notte", um filme realizado por Michelangelo Antonioni. "La Notte" partilha diversas temáticas e elementos que constam nas obras cinematográficas de Michelangelo Antonioni como "L'Avventura", "L'eclisse" e "Il deserto rosso" que, em certa medida, podem ser encontrados em "8½". Não falta a alienação do ser humano diante do Mundo que o rodeia, a vacuidade da sociedade burguesa, o casal que atravessa uma crise, os planos de longa duração, os silêncios que tanto conseguem exprimir, um aproveitamento notável dos cenários exteriores e interiores, a atenção à arquitectura local, o sentimento de vazio que permeia a mente e o corpo do protagonista, a entrada em cena de figuras que nos surpreendem pela sua importância na narrativa, entre outros elementos. Guido permite que Federico Fellini volte a abordar o sentimento de alienação no espaço urbano, a mudança de valores na sociedade italiana após o chamado "milagre económico", algo possível de encontrar em "La Dolce Vita", com o cineasta a brindar o espectador com um enredo estimulante, inebriante e envolvente. A entrada e saída de personagens sucede-se em grande ritmo, com quase tudo e todos a ganharem alguma relevância, embora Guido seja o elemento essencial e fulcral da narrativa. O protagonista decidiu adiar o início das filmagens do seu novo filme, embora os quinze dias que pediu pareçam poucos, com Guido a ter de lidar com os seus receios, sonhos, devaneios, paixões e angústias. Os sonhos, as ilusões e os devaneios invadem a mente de Guido Anselmi. Um desses sonhos recorrentes incluem a presença de Claudia (Claudia Cardinale), uma mulher que aparece na mente de Guido, que este considera perfeita para o seu filme, surgindo como a jovem misteriosa mencionada por Daumier. Claudia Cardinale incute algum mistério a esta personagem de enorme beleza, que chega a aparecer na forma de uma actriz que dialoga com Guido, com Federico Fellini a jogar com as barreiras da narrativa, com os sonhos e as ilusões dos personagens a confundirem-se com aquilo que acontece na "realidade". O quotidiano de Guido é pontuado pelo contacto regular com um número alargado de personagens, algo inerente ao facto de quase toda a equipa do realizador se ter deslocado para as imediações do espaço onde este se encontra instalado, enquanto Federico Fellini explora esta situação para criar uma miríade de episódios memoráveis. O espaço das termas é marcado por um jardim de dimensões enormes, recheado de bancos, arvoredos, freiras que servem água benta, uma fonte e um conjunto alargado de pacientes. É no espaço das termas que Guido encontra Mario Mezzabotta (Mario Pisu), um amigo de longa data, que se encontra acompanhado de Gloria Morin (Barbara Steele), a namorada, uma estudante de filosofia e aspirante a actriz que apenas parece estar envolvida com este último devido ao dinheiro.

Barbara Steele interpreta uma das várias personagens de "8½" que contam com uma série de dilemas, contradições e problemas existenciais, com a actriz a ter espaço para sobressair, seja numa situação mais melindrosa onde proíbe que um amigo de Guido leia os seus pensamentos, ou num sonho extravagante do protagonista. Por sua vez, Anouk Aimée incute um tom desencantado a Luisa, uma mulher elegante, que sabe na perfeição quando o esposo está a mentir, ou o casamento de ambos não atravessasse uma crise indelével. Essa situação é paradigmaticamente demonstrada numa discussão entre Guido e Luisa, com esta última a perceber que o primeiro se encontra envolvido com Carla, ou quando a personagem interpretada por Anouk Aimée salienta que já não dançavam há cerca de um ano. Quem começa a perder gradualmente a confiança em Guido é o produtor e financiador interpretado por Guido Alberti, com o actor a conseguir exibir os nervos deste indivíduo que teme estar a investir dinheiro num caso perdido, ou melhor, num filme que ainda nem se encontra no papel. Essas dúvidas em relação ao argumento e ao conteúdo do mesmo também afectam Madeleine (Madeleine LeBeau), uma actriz francesa que não aprecia o facto de não saber como se deve preparar para compor a personagem que vai interpretar. As dúvidas e peripécias que envolvem o desenvolvimento da nova obra cinematográfica de Guido são mais do que muitas, com as memórias do passado a afectarem o realizador, surgindo regularmente na mente do mesmo, com o protagonista a procurar inserir essas recordações no interior do argumento que está a escrever. Veja-se que Guido contou com educação católica, algo que procura transportar para o protagonista do seu filme, com esta influência religiosa a afectar quer o personagem que o cineasta pretende desenvolver, quer o realizador. Federico Fellini aborda as temáticas associadas à religião com algum humor à mistura, com essa mordacidade a ser visível num diálogo mantido entre o protagonista e um representante da Igreja, com a mente do cineasta a começar a divagar quando observa uma mulher que o conduz a relembrar alguns episódios da infância, em particular, quando este e os amigos pagavam a Saraghina (Eddra Gale) para dançar a rumba. Saraghina é uma prostituta de cabelos desgrenhados, que dança de forma desajeitada e provoca um efeito indelével nos jovens, com o protagonista a ter sido apanhado em flagrante pelos responsáveis da escola religiosa onde estudava, tendo sido castigado devido a esse acto. A intenção de Guido colocar elementos de teor religioso no filme é censurada pelo crítico, que não tem problemas em salientar "Se quiser realmente problematizar sobre o catolicismo em Itália, meu caro amigo, acredite, é necessário em primeiro lugar um nível cultural muito mais elevado e uma lógica de lucidez inexorável. Perdoe-me, mas a sua tenra ignorância é totalmente negativa". Os comentários do crítico de cinema permitem desde logo discernir que este considera que é intelectualmente superior ao cineasta, enquanto expõe sem contemplações que Guido está a deixar o filme seguir um rumo demasiado pessoal, algo que pode ser prejudicial para o desenvolvimento da obra cinematográfica.

Os temas que Guido pondera colocar no filme acabam quase sempre por remeter para a sua vida pessoal (tal como Fellini efectua com "8½"), com esta situação a contribuir para o avivar de episódios que este protagonizou no passado, ou o nascimento de sonhos que muito dizem sobre a sua conduta ao longo da sua existência. Os sonhos de Guido são expostos de forma recorrente, com Federico Fellini a utilizar os mesmos para dar a conhecer um pouco mais sobre o protagonista, desenvolver o personagem e expor a sua personalidade (a relação afastada dos pais, o desejo de quebrar as regras religiosas, o sentimento de culpa, os relacionamentos problemáticos com as figuras femininas e a visão peculiar que Guido tem das mulheres). Veja-se quando Guido sonha que conversa quer com o pai, quer com a mãe, até Luisa aparecer no sonho, parecendo certo que o personagem interpretado por Marcello Mastroianni descurou a presença de quase todos aqueles que o rodearam. A presença no espaço das termas não parece trazer paz ao protagonista, com tudo e todos a aproximarem-se do mesmo, sejam elementos reais ou fruto da sua imaginação, enquanto Federico Fellini desenvolve alguns momentos inesquecíveis. A banda sonora de Nino Rota ajuda e muito o trabalho de Federico Fellini, bem como o trabalho de Gianni Di Venanzo na cinematografia. Veja-se quando Luisa se depara com a presença de Carla nas proximidades de um espaço semelhante a uma esplanada, com a banda sonora a contribuir inicialmente para o tom fervilhante do momento, bem como os close-ups nos rostos das actrizes, até tudo acalmar um pouco quando as duas personagens dialogam. Temos ainda os diversos momentos de dança, sejam bailes ou situações completamente delirantes, com Federico Fellini a aproveitar o bloqueio criativo de Guido para abordar esta problemática de forma criativa, desafiadora, estimulante, recheada de metáforas e simbolismos. Fellini aproveita ainda para abordar diversas temáticas e problemáticas relacionadas com o trabalho do realizador, tais como as expectativas daqueles que rodeiam os cineastas, a relação com os jornalistas, as decisões que têm de ser tomadas, a dificuldade em deixar cair algumas subtramas que pareciam relevantes, as crises criativas, entre outras. Aos poucos, "8½" dá-nos a conhecer Guido, aqueles que o rodeiam, os espaços por onde este circula e as pessoas que o marcaram, enquanto nos brinda com alguns planos e momentos magníficos. Veja-se quando Guido finalmente fala com Claudia, com o momento a tanto ter de mágico e cândido como de cru e realista. Guido parece incapaz de tomar decisões, sejam estas simples ou complicadas, com o medo de errar a consumir a alma e a mente deste realizador atormentado, algo que afecta o desenvolvimento do seu novo trabalho, uma situação exposta de forma criativa, complexa, exuberante e estimulante por Federico Fellini em "8½", uma obra-prima que merece ser vista, revista, apreciada e reverenciada.

Título original: "8½".
Título em Portugal: "Fellini 8½".
Realizador: Federico Fellini.
Argumento: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli, Brunello Rondi.
Elenco: Marcello Mastroianni, Anouk Aimée, Sandra Milo, Claudia Cardinale, Barbara Steele, Guido Alberti, Jean Rougeul, Eddra Gale, Mario Pisu.

Texto escrito no âmbito da cobertura da Nona edição do 8½ Festa do Cinema Italiano.

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