07 junho 2016

Resenha Crítica: "Triple 9" (2016)

 A tonalidade vermelha remete para a violência, sangue, sentimentos fervilhantes e poder, algo que explica a utilização recorrente desta cor em "Triple 9", um thriller marcado por cenas de acção intensas e um elenco de luxo, embora o argumento esteja longe de primar pela originalidade ou pela coerência, contribuindo e muito para que a nova longa-metragem realizada por John Hillcoat não ultrapasse a mediania. A cor vermelha encontra-se presente quer na iluminação de um clube nocturno (a adensar a inquietação), quer nos sapatos de uma mafiosa russa (a simbolizar o poder), quer no sangue que escorre de forma amiúde, com John Hillcoat a não poupar na violência, enquanto nos coloca diante de assaltos intrincados, golpes mirabolantes e um grupo alargado de personagens. Não faltam polícias sérios, bem como alguns agentes corruptos, mafiosos russos, seguranças violentos, informadores, entre outros personagens, com "Triple 9" a contar com uma narrativa povoada por uma miríade de figuras que permitem que intérpretes como Casey Affleck, Chiwetel Ejiofor, Woody Harrelson, Kate Winslet e Anthony Mackie sobressaiam, bem como Michael Kenneth Williams numa curta mas inesquecível aparição. No entanto, actrizes como Gal Gadot e Teresa Palmer limitam-se apenas a servir de colírio para os olhos, com as personagens que interpretam a nunca ganharem relevância na narrativa, caindo por completo nos estereótipos fáceis, enquanto John Hillcoat denota uma falta de preocupação notória em relação ao desenvolvimento destas duas figuras femininas. Já Kate Winslet assume os estereótipos de mafiosa russa com gosto, exuberância, exagero propositado e um tom que surpreende, com a actriz a parecer desfrutar da oportunidade de interpretar Irina, a esposa de Vassili (Igor Komar), um poderoso chefe da máfia russa. Irina controla os negócios do esposo, enquanto este se encontra detido, com Kate Winslet a transmitir a frieza desta figura feminina forte, uma mafiosa que não tem problemas em mandar eliminar quase todos aqueles que lhe desobedecem. John Hillcoat não poupa na violência visceral e na brutalidade, algo visível nos momentos iniciais de "Triple 9", quando encontramos Michael Atwood (Chiwetel Ejiofor), Russell Welch (Norman Reedus), Gabe (Aaron Paul), Marcus Belmont (Anthony Mackie) e Franco Rodriguez (Clifton Collins, Jr.), a assaltarem um banco, em Atlanta, com a câmara a encontrar-se em constante movimento, pronta a adensar a inquietação em volta do furto. Os criminosos falam em espanhol, tendo em vista a confundirem inicialmente as autoridades, aproveitando o racismo que existe em relação aos latinos, levando consigo dinheiro e uma caixa que contém elementos relevantes para libertar Vassili. Michael e Russell são dois antigos Navy Seals que comandam a operação, a mando de Irina, com o primeiro a ter um filho e a manter uma estranha relação com a irmã da mafiosa (é uma das várias subtramas abordadas de forma pueril), nomeadamente, Elena (Gal Gadot). A juntar a estes elementos temos Gabe, o irmão de Russell, um antigo polícia, completamente destruído pelo consumo de álcool e drogas, com este a recomendar a presença de Marcus e Franco. Os personagens interpretados por Anthony Mackie e Clifton Collins, Jr. são dois polícias corruptos, com o primeiro a parecer recear cometer alguns actos mais violentos, enquanto o segundo apresenta uma atitude completamente niilista, representando o estereótipo do agente da autoridade corrupto.

O assalto ao banco é pontuado pela intensidade e violência, com a câmara na mão a ser utilizada com engenho, embora a fuga não decorra como os criminosos esperavam, ou o dinheiro não estivesse protegido com um dispositivo que solta tinta e fumo vermelho, algo que cobre as notas e as roupas dos protagonistas. A situação dos assaltantes piora quando Irina não paga a verba combinada, deixando Michael estarrecido, com a mafiosa a obrigar o grupo criminoso a efectuar um furto no Departamento de Segurança Nacional, tendo em vista a resgatar documentos que permitem a libertação definitiva de Vassili. Um dos elementos do grupo é morto, fruto da acção dos homens ao serviço de Irina, com a mafiosa a não ter problemas em jogar com Michael, procurando que este não visite o filho, enquanto ameaça constantemente a vida do criminoso. Chiwetel Ejiofor incute um tom duro e perigoso a Michael, embora exponha regularmente as fragilidades deste indivíduo, algo que contrasta com a frieza que Clifton Collins, Jr. transmite como Franco. Diga-se que o personagem interpretado por Clifton Collins Jr. parece ter sido criado com recurso a um ficheiro de powerpoint, onde se encontravam bullet points com os clichés do polícia corrupto que não tem problemas em eliminar os colegas. Por sua vez, Aaron Paul, embora tenha um personagem com umas pitadas de densidade, nem sempre convence como um antigo polícia que estorva mais os golpes do que ajuda os seus companheiros, tendo uma tendência latente para se destruir e àqueles que o rodeiam. Já Anthony Mackie interpreta um dos personagens mais carismáticos do filme, em particular, um polícia que se envolve pelo mundo do crime organizado, embora também procure cumprir as suas funções como agente da autoridade. Tendo em vista a dispersar a atenção da polícia e roubar a documentação necessária, o grupo decide simular um alerta de 999, um código que significa que um polícia foi ferido. O elemento seleccionado como alvo é Chris Allen (Casey Affleck), um polícia cumpridor, que é colocado como parceiro de Marcus, com a personalidade de ambos a ser bastante distinta, algo que é exposto por John Hillcoat numa subtrama que envolve uma investigação relacionada com três assassinatos que ocorreram num bairro povoado por latinos (desenvolvida de forma sensaborona). Escusado será dizer que Marcus fica numa situação pouco recomendável, sobretudo quando é salvo por Chris, com John Hillcoat a avançar muitas das vezes para caminhos previsíveis e para reviravoltas que a certa altura deixam de provocar efeito. Quem se encontra a investigar o assalto ao banco é Jeffrey Allen (Woody Harrelson), um inspector de personalidade peculiar que é tio de Chris, com a dupla a manter uma relação bastante próxima. Woody Harrelson não precisa de um argumento demasiado aprumado ou complexo para sobressair, com o actor a espelhar mais uma vez uma capacidade inexorável para criar personagens que deixam marca na narrativa. A investigação de Jeffrey conduz a que este descubra uma teia de mentiras, tal como Chris, com ambos a surgirem como figuras sérias que tentam cumprir nas suas funções profissionais. Se a relação entre Chris e Jeffrey é abordada com alguma eficácia, com o tio a procurar proteger o sobrinho, já o casamento entre o primeiro e Michelle (Teresa Palmer) praticamente não é desenvolvido de forma convincente, com Teresa Palmer a surgir como o estereótipo da esposa compreensiva que procura apoiar o marido.

A personagem interpretada por Teresa Palmer não é desenvolvida ao longo do enredo, algo que se repete no caso de Elena, com John Hillcoat a raramente conseguir dar a devida atenção às figuras femininas, com excepção de Irina, embora esta seja uma mafiosa completamente caricatural. O que faz Irina funcionar é Kate Winslet ou, talvez, nem seja a interpretação da actriz que eleve a personagem, mas sim a surpresa de ver a intérprete a assumir uma figura quase cartunesca, com o seu sotaque russo a raramente convencer. Já intérpretes como Michael Kenneth Williams conseguem efectuar muito com pouco. Veja-se quando Sweet Pea (Michael Kenneth Williams), um transexual e informador, contacta com Jeffrey, com Woody Harrelson e Michael Kenneth Williams a protagonizarem um dos bons momentos do filme. "Triple 9" conta ainda com uma série de personagens mal aproveitados, tais como Luis Pinto (Luis Da Silva), um latino que se envolve num desaguisado com Chris, tendo alguma relevância num episódio do último terço, ou Russell, um criminoso que "salta" cedo do enredo. A segunda metade de "Triple 9" é marcada pela investigação de Jeffrey, tendo em vista a descobrir quem roubou o banco no início do filme, bem como pela tentativa dos criminosos obterem a documentação pretendida por Irina e orquestrarem um golpe para dispersar a atenção das autoridades. No seio da polícia encontramos corruptos, mas também figuras cumpridoras, enquanto o grupo de criminosos conta quer com elementos frios, quer pontuados por alguma fragilidade emocional, com o argumento de Matt Cook a esboçar uma tentativa de incutir alguma densidade ao enredo de "Triple 9", embora o argumentista e John Hillcoat estejam longe de conseguirem abordar com sucesso as temáticas que lançam para o interior da narrativa. A corrupção no seio da polícia, as relações pessoais dos personagens principais, as reviravoltas excessivas, surgem como alguns exemplos de elementos que saem muitas das vezes ao lado desta narrativa, com John Hillcoat a ser bem mais assertivo a arquitectar as cenas de acção. A violência parece surgir como um modo do realizador conseguir expressar aquilo que tem para dizer e exibir a crueza do modo de vida dos personagens que povoam o enredo de "Triple 9", com John Hillcoat a não poupar em tiroteios, assaltos, perseguições e momentos inquietantes. Diga-se que "Triple 9" remete para diversos filmes do género, com a influência de "Heat" a parecer notória quer nas cenas de acção, sobretudo na brutalidade dos assaltos e tiroteios, quer na exposição do quotidiano dos criminosos e dos polícias, embora John Hillcoat esteja longe de apresentar o mesmo engenho de Michael Mann. Veja-se a abordagem da vida privada dos protagonistas, com as relações de Chris e Michael com as respectivas caras metades a raramente convencerem. John Hillcoat tem um trabalho irregular em "Triple 9", usando e abusando das reviravoltas e dos lugares-comuns dos filmes de assalto, policiais e thrillers, embora beneficie de um elenco de luxo para manter "Triple 9" no limiar da mediania, com a obra cinematográfica a contar com algumas doses de tensão e inquietação, embora deixe a amarga sensação de que o seu potencial não foi totalmente aproveitado.

Título original: "Triple 9"
Realizador: John Hillcoat.
Argumento: Matt Cook.
Elenco: Casey Affleck, Chiwetel Ejiofor, Anthony Mackie, Aaron Paul, Michael Kenneth Williams, Clifton Collins, Jr., Woody Harrelson, Kate Winslet, Norman Reedus.

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