26 junho 2016

Resenha Crítica: "Public Enemies" (Inimigos Públicos)

  Tendo como pano de fundo os EUA durante a Grande Depressão, "Public Enemies" marca o regresso de Michael Mann aos filmes de gangsters, com o cineasta a apresentar uma versão romanceada, cheia de estilo e liberdades históricas de John Dillinger, bem como da procura do FBI em capturar este indivíduo perigoso e carismático. Johnny Depp interpreta Dillinger como se este fosse um anti-herói, um gangster simultaneamente violento e romântico, capaz de assaltar bancos e encetar as fugas mais intrincadas da prisão, mas fiel àqueles que lhe são próximos e apaixonado por Billie Frechette (Marion Cotillard). Este Dillinger que nos é apresentado em "Public Enemies" surge como um criminoso carismático, inteligente e hábil na arte do disparo, que gosta de vestir as melhores roupas e conduzir carros caros, com Johnny Depp a elevar e muito o personagem. No início de "Public Enemies" somos colocados diante de algumas cenas intensas que envolvem a fuga de Dillinger de uma prisão situada em Indiana, com o protagonista a fugir ao lado de alguns homens da sua confiança, tais como Red Hamilton (Jason Clarke) e Homer Van Meter (Stephen Dorff), enquanto Michael Mann deixa o espectador diante de uma evasão violenta, que permite expor o carácter implacável destes indivíduos. Diga-se que Michael Mann não poupa na exibição da violência, ou Dillinger e companhia não se envolvessem em diversos assaltos a bancos, enquanto granjeiam uma estranha popularidade junto da opinião pública. Um dos elementos que procuram travar o protagonista é Melvin Purvis (Christian Bale), um agente do FBI que foi promovido por J. Edgar Hoover (Billy Crudup) para liderar a caça ao "inimigo público número um" dos EUA, que é como quem diz, John Dillinger. Michael Mann procura a espaços efectuar algo como em "Heat", ou seja, colocar o espectador diante de ambos os lados da contenda, embora Purvis nunca obtenha a mesma relevância de Dillinger no seio da narrativa. Se Dillinger é um gangster recheado de contradições e humanidade, já Purvis aparece como um indivíduo idealista que representa uma das "novas caras" do FBI, com Michael Mann a procurar exibir as mudanças nesta instituição que se encontra em plena modernização. O primeiro contacto que temos com Purvis acontece quando este elimina Charles Floyd (Channing Tatum), um gangster procurado, com a popularidade do agente a subir devido a este feito, inclusive junto da imprensa, algo que é utilizado por J. Edgar Hoover para obter as verbas necessárias para a modernização do FBI. Os agentes começam a utilizar armas mais poderosas e carros mais potentes, dispondo de recursos que prometem contribuir e muito para dificultar a vida aos criminosos, com Melvin Purvis a recorrer a alguns destes elementos, enquanto "Public Enemies" exibe estas alterações no interior do FBI. Diga-se que "Public Enemies" também demonstra que o mundo do crime conheceu uma série de mudanças, algo que se torna notório quando Dillinger começa a tornar-se "incómodo" no interior do "sindicato", uma situação que a espaços promete facilitar a vida a Purvis.

 O assassinato de Floyd serve desde logo para transmitir a eficácia de Purvis, com Michael Mann a exibir rapidamente os traços fundamentais das personalidades dos personagens que povoam a narrativa. Billy Crudup incute um estilo dissimulado e frio a Hoover, enquanto Bale exibe que Purvis pretende travar os criminosos, embora não pareça totalmente à vontade para aplicar métodos como tortura para conseguir obter informações junto daqueles que são próximos a Dillinger (a tortura como um meio de obter informação continua uma temática bastante actual). Veja-se quando Frechette é brutalmente espancada, com o agente responsável pelo acto hediondo a parecer pouco preocupado com os direitos desta mulher, ou com o facto de estar a ferir brutalmente uma figura feminina. O quotidiano de Dillinger é pontuado pela violência, mas também por alguns momentos de acalmia, com este a procurar esconder-se das autoridades, enquanto tenta manter o romance com Frechette. Tal como em "Heat" e "The Insider", Michael Mann procura atribuir alguma atenção à vida pessoal do protagonista, algo latente no romance entre Dillinger e Frechette, uma dupla que se conhece no interior de uma superfície que funciona quer como bar, quer como restaurante. O bar é apresentado como um cenário onde os criminosos se reúnem e efectuam negócios, com as tonalidades vermelhas e a luz ambiente a contribuírem para Michael Mann criar uma atmosfera propícia ao estranho romantismo que envolve o primeiro encontro entre os personagens interpretados por Johnny Depp e Marion Cotillard. Ambos são misteriosos e apresentam um desejo indelével de mudar de vida, com Cotillard a expressar quer a sensualidade, quer a fragilidade, quer a força interior de Billie. A química entre Depp e Cotillard é convincente, com ambos a exporem os "ingredientes" que contribuem para o nascimento da atracção entre Dillinger e Frechette. Esta trabalha a arrumar os casacos e os chapéus num espaço onde os clientes pouco se importam com a sua presença, enquanto Dillinger exibe uma frontalidade desarmante quando está na presença desta mulher, algo que permite dar conhecer uma faceta distinta deste gangster que parece acreditar em demasia nas suas capacidades e qualidades. Essa confiança conduz Dillinger a descurar imensas vezes os planos a longo prazo, ou a capacidade de Purvis, embora o protagonista até pense em participar num último grande assalto tendo em vista a fugir para bem longe com a amada. Johnny Depp transforma Dillinger numa figura que é capaz de despertar a simpatia do espectador e criar empatia, embora o protagonista seja um criminoso procurado e perigoso, algo latente quando o encontramos de metralhadora em punho a aterrorizar os bancos ou a lutar pela sua vida e daqueles que lhe são próximos. Veja-se quando John Dillinger é encurralado pelos agentes de Purvis quando se encontrava num esconderijo situado em Little Bohemia, acompanhado por Red, Baby Face Nelson (Stephen Graham) e os homens deste último, com as luzes das metralhadoras e o som dos disparos a serem sentidos, bem como as consequências de uma das várias cenas de acção frenéticas, violentas e intensas que Michael Mann orquestra de forma exímia ao longo de "Public Enemies". O espaço do abrigo ganha características claustrofóbicas, o trabalho de Dante Spinotti na cinematografia (um dos colaboradores habituais de Mann) adensa a violência do momento, enquanto quase tudo parece funcionar neste trecho onde estilo e substância se reúnem.

 "Public Enemies" transporta-nos para uma era distinta dos EUA, sempre com algumas liberdades históricas à mistura, enquanto Michael Mann apresenta uma visão simultaneamente romântica e crua do gangster que se encontra no centro de boa parte da narrativa. Michael Mann e a sua equipa exibem todo um cuidado a nível dos cenários, guarda-roupa e referências populares, tendo em vista a criarem um ambiente que se assemelhe ao território dos EUA em plenos anos 30, embora o cineasta raramente consiga expor assertivamente o contexto de crise económica e social que envolveu o país durante o período representado (algo que contribuiu para a popularidade de gangsters como Dillinger). Diga-se que o cineasta denota também algumas dificuldades em desenvolver e explorar figuras históricas como Baby Face Nelson, Alvin Karpis (Giovanni Ribisi), entre outras, algo que conduz à parca relevância de diversos personagens secundários. Jason Clarke é uma das raras excepções, com o actor a sobressair como Red, um indivíduo leal a Dillinger, que aparece ao seu lado em diversos episódios de relevo e permite exibir um lado mais "humano" do protagonista. Entre os assaltos de Dillinger e o seu grupo, a relação entre o gangster e Billie Frechette, as tentativas de Purvis e os seus homens para capturarem o "inimigo número um dos EUA", "Public Enemies" expõe os dois lados da contenda, com os objectivos de ambos a serem bem distintos, uma situação que vai trazer consequências violentas e desastrosas quer para os representantes da lei, quer para os criminosos. "Public Enemies" não poupa na brutalidade, algo latente numa perseguição que os elementos do FBI efectuam a um espaço onde Dillinger se encontra supostamente escondido, bem como na segunda fuga deste gangster da prisão. A segunda vez em que encontramos Dillinger na prisão é marcada quer pela troca de diálogos entre o gangster e Purvis (um magnífico momento de cinema protagonizado por Depp e Bale), quer pelas tonalidades frias do local (bom aproveitamento da iluminação e das cores). Esta situação é sobretudo visível quando Dillinger é transferido para o interior de uma prisão no Estado do Indiana, com o espaço prisional a encontrar-se eivado de tonalidades frias e marcado por uma atmosfera inquietante, sobretudo quando o gangster consegue encetar a fuga. Depp convence quer quando Dillinger exibe a sua faceta mais brutal, quer nos episódios onde o gangster demonstra a sua lealdade para com aqueles que lhe são próximos, algo latente quando não procura deixar Red para trás, ou tenta reencontrar Frechette a todo o custo. Diga-se que não faltam assaltos a bancos, fugas violentas, imensas mortes e a noção de que o estilo de vida de Dillinger é recheado de riscos, com o trabalho de Dante Spinotti a incrementar diversos episódios. Veja-se a fuga da prisão de Indiana, com tudo a ser arquitectado e exposto de forma a transmitir a ferocidade e violência que envolveu este momento. O argumento foi inspirado no livro "Public Enemies: America's Greatest Crime Wave and the Birth of the FBI, 1933–34", escrito por Bryan Burrough, com "Public Enemies" a situar-nos desde o início no tempo da narrativa, ou seja, "(...) no quarto ano da Grande Depressão", com John Dillinger a surgir como uma das figuras centrais desta "idade de ouro dos assaltos a bancos". Intenso e violento, pontuado por algumas doses de romantismo, uma banda sonora que se parece adequar a cada momento, uma interpretação de grande nível de Johnny Depp e uma fotografia elegante, "Public Enemies" surge como mais um dos bons exemplares dos filmes de gangsters oriundos dos EUA, com Michael Mann a não desiludir e a proporcionar um espectáculo cinematográfico que fica na memória.

Título original: "Public Enemies".
Título em Portugal: "Inimigos Públicos".
Realizador: Michael Mann.
Argumento: Michael Mann, Ronan Bennett, Ann Biderman.
Elenco: Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, Billy Crudup, Jason Clarke, Giovanni Ribisi.

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