05 junho 2016

Resenha Crítica: "Louder Than Bombs" (Ensurdecedor)

 Depois de realizar "Reprise" e "Oslo, 31. august", Joachim Trier teria sempre uma tarefa hercúlea pela frente, ou seja, manter a toada de sucesso e continuar a marcar território como uma das vozes a ter em clara atenção. "Louder Than Bombs" (em Portugal estreou com o título "Ensurdecedor"), a terceira longa-metragem realizada por Joachim Trier, a primeira fora da Noruega, não está ao nível dos dois trabalhos anteriores do cineasta (confesso que "Reprise" ganha uma simpatia crescente da minha parte a cada nova visualização), embora surja como um drama sensível e delicado, que aborda as temáticas com classe e sobriedade. Se "Reprise" e "Oslo, 31. august" abordavam temáticas relativamente universais, embora inseridas no contexto muito específico da Noruega, já "Louder Than Bombs" é falado em inglês e conta com Nova Iorque como pano de fundo, com Joachim Trier a efectuar a transição com alguma eficácia, embora não consiga captar as especificidades do território com a mesma arte que demonstrara nas longas-metragens que realizara anteriormente. O enredo de "Louder Than Bombs" deambula entre o presente e o passado, entre a sensação da presença daqueles que já não estão vivos e a noção de que a dor provocada pela morte de um ente querido é difícil de superar, enquanto ficamos diante de personagens que desafiam muitas das vezes as nossas expectativas e nos compelem a reflectir sobre os seus dilemas. "Louder Than Bombs" aborda temáticas e elementos como um núcleo familiar que lida com as dores provocadas por uma perda relevante, a solidão, a depressão, a falta de comunicação, os problemas existenciais, as dificuldades no seio do casamento, as divergências entre pais e filhos, a amizade entre dois irmãos, o poder da memória, entre outros exemplos. Joachim Trier volta a colocar-nos diante de personagens principais que se encontram a atravessar uma fase menos positiva das suas vidas, ou lidam com problemas existenciais, algo latente nas figuras de Gene Reed (Gabriel Byrne), Jonah (Jesse Eisenberg) e Conrad (Devin Druid), uma trio que conta com uma relevância indelével no enredo de "Louder Than Bombs". Gene é um professor do ensino secundário, viúvo de Isabelle (Isabelle Huppert), uma repórter fotográfica, com quem teve dois filhos, Jonah e Conrad. Gabriel Byrne tem uma interpretação convincente como Gene, com o actor a conseguir expressar as dúvidas e inquietações que assolam a mente deste professor de personalidade relativamente discreta. Nos flashbacks, ou nas memórias do passado que nos são exibidas em pequenos fragmentos, percebemos que a relação entre Gene e Isabelle conheceu alguns problemas. Gene por vezes estava ausente, tal como Isabelle, com a vida profissional de ambos a ditar esta situação, sobretudo no caso desta última. Isabelle fez carreira como repórter fotográfica, tendo trabalhado em territórios marcados por conflitos bélicos, com Huppert a incutir um tom simultaneamente frágil e forte a esta personagem ambiciosa que marcou de forma indelével aqueles que a rodearam. Isabelle Huppert dá um ar da sua graça, transmitindo imenso apenas com alguns gestos, ou quando a câmara se fecha sobre o seu rosto e permite que a intérprete exiba o poder do seu olhar.

Joachim Trier percebe o poder dos close-ups e o efeito que estes podem provocar no espectador, com o cineasta a utilizar esta técnica de forma amiúde. Veja-se quando encontramos Conrad na sala de aulas, a pensar na mãe, ou o personagem interpretado por Jesse Eisenberg a ler um texto escrito pelo irmão, ou o rosto de Isabelle após ficarmos diante da exposição de algumas das inquietações desta mulher. A personagem interpretada por Isabelle Huppert permite que Joachim Trier e Eskil Vogt, a dupla de argumentistas (trabalharam juntos em "Reprise" e "Oslo, 31. august"), abordem temáticas relacionadas com a depressão e os efeitos desta doença. Isabelle começou a padecer de depressão a partir do momento em que decidiu efectuar uma pausa na carreira profissional ou, pelo menos, este episódio pareceu agravar a doença. Gene nunca impôs esta paragem, embora tenha exibido a sua preocupação em relação ao futuro da esposa, com a presença de Isabelle nos palcos de guerra a apoquentar este indivíduo, bem como as ausências constantes da fotógrafa. Diga-se que Gene apresentou algumas dificuldades a lidar com a depressão de Isabelle, algo que levou esta última a procurar conforto junto dos filhos, desabafando sobre os seus problemas com Jonah, o mais velho. Esta situação conduz a que Gene, Conrad e Jonah recordem Isabelle de forma distinta, enquanto ficamos diante de pequenos fragmentos das memórias conservadas por estes personagens, com "Louder Than Bombs" a apresentar uma estrutura narrativa que ziguezagueia entre episódios do presente, recordações do passado e sonhos que assolam a mente dos protagonistas. Gene recorda Isabelle como uma mulher de contradições, que tanto era capaz de apresentar uma personalidade forte e decidida como exibia uma fragilidade notória. Jonah lidou de perto com o lado mais frágil da progenitora, pensando ser aquele que conhece melhor a mesma, enquanto Conrad recorda-se da mãe como uma figura protectora. Todos os personagens principais guardam recordações de momentos que viveram na companhia uns dos outros, mas também de episódios muito particulares com Isabelle e das suas longas ausências, embora tardem em abrir o jogo. A falta de comunicação é uma das temáticas centrais do filme, algo bem expresso no quotidiano deste núcleo familiar, com tudo e todos a parecerem condenados a cometerem os mesmos erros, apesar de se encontrarem unidos por laços de sangue e sentimentos fortes. No presente, ou seja, três anos após a morte de Isabelle, Gene mantém um caso com Hannah (Amy Ryan), uma das professoras de Conrad, embora procure esconder o namoro, algo que promete minar a relação. Gene procura não magoar Conrad, embora a relação entre ambos seja problemática, uma situação que podemos observar quer quando somos colocados do ponto de vista do primeiro, quer do segundo, com ambos a parecerem ainda marcados pela morte de Isabelle. Veja-se quando encontramos Gene a observar Conrad à distância, enquanto este último percebe que está a ser seguido e resolve efectuar um acto delirante para inquietar o progenitor. Gene não sabe que o filho percebeu que estava a ser seguido, com Gabriel Byrne a expressar a dificuldade que este professor tem em dialogar com os rebentos, sobretudo após a morte da esposa.

 Os momentos de dor são reavivados devido à organização de uma exposição em homenagem à carreira de Isabelle. Esta atingiu uma fama indelével como fotógrafa, com Joachim Trier a povoar a narrativa de fotografias captadas por Isabelle, mas também de alguns trechos nos quais a falecida assume a narração. A juntar à exposição, que se encontra a ser organizada por uma galeria, Richard (David Strathairn), um antigo colega e amante de Isabelle, pretende publicar um artigo sobre a fotógrafa para o New York Times. Richard vai aproveitar este artigo para revelar que Isabelle cometeu suicídio, algo que expõe ao viúvo. Gene e Jonah sabem que Isabelle pode ter cometido suicídio, embora o primeiro não tenha revelado essa informação a Conrad, algo que pretende efectuar, embora o filho mais velho rejeite essa ideia. Conrad pensa que a mãe faleceu num acidente de viação, algo que pode não ser verdade. A publicação do artigo promete mudar um pouco a percepção que a opinião pública tinha em relação a Isabelle, com Gene e Jonah a temerem a reacção de Conrad, embora Joachim Trier se prepare para surpreender o espectador. O suicídio de Isabelle permite que "Louder Than Bombs" aborde os efeitos gravosos da depressão, bem como a possibilidade de podermos mudar a nossa opinião sobre uma determinada pessoa devido a descobrirmos um episódio que desconhecíamos sobre a mesma. Veja-se quando Erin (Rachel Brosnahan), uma ex-namorada de Jonah, descreve a fotógrafa como frágil, algo que provavelmente não efectuaria se desconhecesse que Isabelle cometeu suicídio. Isabelle trabalhou em diversos palcos de guerra e apresentou uma coragem indelével, embora não tenha resistido a uma espiral depressiva que contaminou o seu gosto pela vida, com o último acto da sua existência a ser relevante para interpretarmos a fotógrafa, embora não retire o enorme valor dos seus feitos pessoais e profissionais. Jonah regressa a casa para ajudar o pai a seleccionar os negativos, os ficheiros e as fotografias que Isabelle não chegou a publicar ou a divulgar publicamente, tendo em vista a enviar o material para os elementos que se encontram a organizar a exposição. O regresso de Jonah permite ainda que este surja como uma espécie de apoio a Conrad, um adolescente problemático, que tanto é capaz de cometer o acto mais grosseiro como consegue apresentar uma criatividade e sensibilidade notórias. Conrad é um adolescente de quinze anos de idade, relativamente solitário, que gosta de jogar computador e dançar, raramente consegue comunicar com o pai e tem uma paixoneta por Melanie (Ruby Jerins), uma colega de escola que praticamente não sabe da sua existência. Gene mantém uma relação relativamente distante com os filhos, apesar de tentar comunicar com os mesmos, algo que permite um momento cómico onde o personagem interpretado por Gabriel Byrne explica a Hannah que criou um avatar, tendo em vista a jogar online com Conrad, embora os resultados não sejam os pretendidos. Conrad tarda em perceber o progenitor, algo que é recíproco, com "Louder Than Bombs" a aproveitar para abordar as relações complicadas entre pais e filhos.

 A morte de Isabelle marcou Jonah, Conrad e Gene, com o aproximar da exposição e da publicação do artigo a fazerem regressar memórias que nunca serão totalmente esquecidas. Veja-se quando encontramos Jonah, em plena sala de revelação, a mexer na máquina fotográfica utilizada pela mãe e a cheirar um pano ou uma peça de roupa que pertencia a Isabelle. A presença de Jonah neste espaço da habitação permite que Jesse Eisenberg exiba de forma subtil como este regresso a casa mexeu com o personagem que interpreta, enquanto Joachim Trier aborda a maneira específica como cada elemento encara a perda e enfrenta o luto. Embora tenha falecido, Isabelle continua bastante presente quer nas recordações e nos sonhos daqueles que continuam vivos, quer nos objectos que permaneceram na casa, com "Louder Than Bombs" a evitar abordar o luto a partir do período imediatamente posterior à morte de um ente querido, algo que permite explorar os efeitos sentidos a longo prazo. Joachim Trier desenvolve a narrativa a partir das perspectivas distintas dos três protagonistas, quase como se cada um surgisse como uma peça de um puzzle que é impossível de completar, ou não faltasse uma das peças fulcrais deste núcleo familiar. Esta decisão permite que Gabriel Byrne, Jesse Eisenberg e Devin Druid construam personagens pontuados por idiossincrasias, que se encontram a enfrentar uma série de problemas e dilemas. Conrad tem uma relação problemática com o pai, pensa regularmente na mãe e tarda em conseguir meter conversa com Melanie. Gene procura dialogar com os filhos embora falhe imensas vezes nesse quesito, tendo outrora desistido da carreira de actor para se dedicar à família. Jonah é um professor universitário que se encontra a viver a seis horas de distância (de carro) do pai, embora pouco contacte com o mesmo. A relação conjugal de Jonah e Amy (Megan Ketch) está longe de atravessar uma fase positiva. Joachim Trier procura enganar o espectador ao exibir inicialmente um diálogo recheado de humor e intimidade entre Amy e Jonah, quando ainda se encontram no hospital, devido à esposa do personagem interpretado por Jesse Eisenberg ter dado à luz uma rapariga, embora o cineasta e argumentista logo desfaça esse possível engano. É no hospital que Jonah reencontra Erin, uma ex-namorada que deixou marca na sua pessoa. Erin encontra-se a visitar a mãe, uma doente em estado terminal, enquanto um mal-entendido conduz a primeira a pensar que a esposa de Jonah contou com um destino trágico, algo que o primeiro não tenta esclarecer no imediato. Diga-se que o contacto entre o antigo casal não se limita a esta breve conversa no espaço do hospital, com Jonah e Erin a protagonizarem um episódio mais intimo quando regressam temporariamente a casa dos pais.

A estadia de Jonah em casa do pai demora mais tempo do que aquilo que estava inicialmente programado, com o personagem interpretado por Jesse Eisenberg a apresentar imensas dúvidas em relação ao futuro. Estas incertezas tornam-se particularmente visíveis quando encontramos Jonah a visitar Erin, ou a mentir a Amy e evitar dialogar com a esposa. Erin representa o passado, uma figura que conviveu com a mãe do protagonista e parece mexer com os sentimentos do professor universitário. Amy representa o presente, bem como um período com o qual o protagonista parece ter problemas em conviver, em particular, após a morte da mãe. Este ama a filha e a esposa, embora pareça demasiado preso ao passado, com Erin a representar esse período da vida de Jonah. O regresso a casa permite ainda que Jonah volte a conviver com Conrad. A relação de amizade entre Jonah e Conrad é exposta e desenvolvida de forma credível, com Jesse Eisenberg e Devin Druid a convencerem quer nos momentos de maior leveza, quer quando dialogam sobre situações mais sérias, com o primeiro a procurar evitar que o irmão mais novo se magoe. Num determinado momento de "Louder Than Bombs", encontramos Jonah a ler um texto escrito por Conrad no qual este último expõe muito da sua personalidade e do seu modo de ser. É um dos momentos mais inspirados e inspiradores do filme, com Devin Druid a narrar o texto em voice-over (um recurso muito utilizado por Trier ao longo de "Louder Than Bombs" para expor algumas das inquietações e estados de espírito dos personagens, com o cineasta a repetir algo efectuara nas suas duas primeiras longas-metragens), enquanto a banda sonora e o trabalho de montagem contribuem para um trecho simultaneamente frenético e poético. Neste trecho, Joachim Trier coloca-nos ainda diante do poder da fotografia, em particular, como o significado de uma foto pode mudar consoante o enquadramento ou a edição da mesma. Diga-se que Joachim Trier efectua este "jogo" entre a fotografia, a vida e o cinema quando coloca Gene a observar o filho, enquanto este último procura trocar as voltas ao pai, com o cineasta a expor quer a perspectiva do personagem interpretado por Gabriel Byrne, quer do adolescente, com ambos a interpretarem os acontecimentos de forma distinta, enquanto "Louder Than Bombs" demonstra paradigmaticamente que é uma obra cinematográfica bem mais complexa e intrincada do que uma leitura superficial do filme poderá indicar. Essa complexidade é visível na representação que Joachim Trier efectua de Isabelle, com esta mulher a surgir como uma fotografia impossível de interpretar e decifrar na totalidade, enquanto permanece viva nas memórias dos filhos e do esposo. "Louder Than Bombs" demonstra que "Respire" e "Oslo, 31. august" não foram um mero acaso no currículo de Joachim Trier, com o cineasta a realizar um drama delicado e envolvente, pontuado por uma estrutura narrativa dinâmica, interpretações convincentes e um trabalho de montagem competente.

Título original: "Louder Than Bombs".
Realizador: Joachim Trier.
Argumento: Joachim Trier e Eskil Vogt.
Elenco: Gabriel Byrne, Isabelle Huppert, Jesse Eisenberg, Devin Druid, Rachel Brosnahan, Ruby Jerins, David Strathairn, Amy Ryan.

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