11 junho 2016

Resenha Crítica: "Like Crazy" (2011)

 Parte do enredo de "Like Crazy" é inspirado em episódios vividos por Drake Doremus, o realizador e co-argumentista do filme, algo que parece ser fundamental para a sinceridade que é transmitida por este romance terno e delicado. Diga-se que sinceridade é a palavra-chave para definir este romance que é capaz de encantar, desferir rudes golpes e embalar o espectador para o interior da história dos personagens principais. A banda sonora "dialoga" com o enredo e os sentimentos dos personagens, com canções como "I Guess I'm Floating" dos M83, a permanecerem na nossa mente, bem como diversos momentos vividos pelos protagonistas. Drake Doremus concede atenção aos pequenos pormenores, aos objectos que ganham valor sentimental, aos gestos que possuem enorme significado, bem como aos diálogos e aos silêncios entre Anna Gardner (Felicity Jones) e Jacob Helm (Anton Yelchin), a dupla de personagens principais. Felicity Jones e Anton Yelchin convencem e contam com uma química que nos faz acreditar na relação de Anna e Jacob, com Drake Doremus a permitir que o actor e a actriz improvisem, enquanto estes transmitem uma sinceridade e credibilidade desarmantes na exposição dos sentimentos dos protagonistas. É a história de Anna e Jacob, dois jovens adultos na casa dos vinte e poucos anos de idade, que acompanhamos em "Like Crazy", em particular, a partir do momento em que estes se conheceram e iniciaram uma relação, quando ainda eram estudantes universitários relativamente ingénuos. Felicity Jones destaca-se como Anna, uma inglesa que se encontra a estudar numa universidade de Los Angeles, que pretende trabalhar como jornalista e conta com uma enorme apetência para a escrita. A actriz consegue transmitir as dúvidas, certezas e paixões desta jovem que tem uma relação muito próxima com os pais e inicia um romance intrincado com Jacob. Anna gosta de elaborar livros onde reúne informações, fotografias e documentos relacionados com episódios protagonizados ao lado de Jacob, com estes "anuários" a surgirem como uma forma da protagonista preservar alguns momentos que foram relevantes para o casal. Jacob é um jovem adulto relativamente introvertido, que estuda na mesma universidade de Anna, pretende trabalhar no design e construção de móveis, gosta de viver nos EUA e fica encantado com a personalidade peculiar da protagonista. Drake Doremus desenvolve esta relação com enorme graciosidade, candura, sinceridade e crueza, com o trabalho do cineasta e dos actores a contribuir para que acreditemos nos sentimentos de Anna e Jacob quer quando os protagonistas conhecem um período positivo, quer quando atravessam fases mais complicadas. Todas as relações atravessam fases menos positivas, ou de menor fulgor, algo que não é diferente no namoro de Anna e Jacob, com "Like Crazy" a colocar-nos diante de fragmentos da vida destes personagens. Anna tem de partir para Londres, após terminar o seu visto de estudante, embora esta quebre as regras para poder desfrutar do Verão ao lado de Jacob. Este acto aparentemente inconsequente promete trazer graves consequências para Anna, bem como para a relação que esta mantém com Jacob. Anna é temporariamente proibida de entrar nos EUA, após ter quebrado as regras do visto de estudante, enquanto Jacob fica desesperado, com o imbróglio legal a trazer consequências para esta relação que parecia quase perfeita.

 A distância parece impossibilitar a relação, com Jacob e Anna a decidirem manter a amizade, embora tentem terminar o namoro. Será possível que estes dois continuem separados? A relação à distância é uma possibilidade viável? Drake Doremus consegue transmitir a passagem do tempo, bem como os efeitos desta separação temporária, até expor que este desiderato da dupla de protagonistas é praticamente impossível de ser cumprido, algo visível quando Anna quebra por completo e exibe as suas fragilidades emocionais. Anna pede para Jacob visitá-la em Londres, enquanto este parece sentir uma alegria imensa por poder voltar a estar diante da amada. Ambos tiveram casos com outras pessoas, mas nada tão forte como o namoro que mantiveram quando viviam em Los Angeles, embora algo pareça diferente. Jacob sente que é um estranho em Londres, enquanto Anna sabe que tudo aquilo que estão a viver é temporário. Será que o casamento poderá resolver o problema? A distância e as ausências parecem minar a relação destes personagens, bem como os envolvimentos que estes iniciaram com outras pessoas. Veja-se quando Jacob inicia uma relação com Samantha (Jennifer Lawrence), uma funcionária da oficina onde trabalha, ou Anna começa a namorar com Simon (Charlie Bewley). Jennifer Lawrence, ainda numa fase pré-sucesso, raramente consegue sobressair, com a actriz a interpretar uma personagem que pouco ou nada é aproveitada ao longo da narrativa (não ajuda Felicity Jones brindar o espectador com uma interpretação que arrasa por completo a "concorrência"). Charlie Bewley tem o "mérito" de ter aceite interpretar o estereótipo do tipo que ganha muito mais respeito quando está calado, com Simon a surgir como um indivíduo bem intencionado mas completamente idiota. Simon e Samantha nunca ganham relevância na narrativa, com ambos a funcionarem como um mero artifício para Drake Doremus expor que a dupla de protagonistas tentou seguir em frente, embora esse objectivo pareça deveras complicado, sobretudo quando a relação anterior foi marcada por sentimentos bem fortes. "Like Crazy" está longe de apresentar apenas os momentos de felicidade entre Anna e Jacob. A relação da dupla de protagonistas é bem mais complexa, algo notório com o avançar da narrativa, quando a candura inicial dá lugar a um envolvimento marcado pelas feridas que tardam em sarar. Será possível que ambos voltem a ser felizes? Torcemos que sim, ou melhor, somos compelidos a isso, com Drake Doremus a criar uma obra cinematográfica capaz de enternecer ou despertar um aperto no coração, sempre sem fugir aos convencionalismos, embora estes sejam superados por um argumento pontuado por falas dotadas de enorme sinceridade, intérpretes capazes de elevarem os diálogos (diga-se que muitos dos diálogos são improvisados, com Drake Doremus a exibir uma competência notória a conduzir a sua dupla de protagonistas) e momentos que facilmente ganham um significado especial. Num determinado momento de "Like Crazy", Jacob oferece uma cadeira de madeira a Anna. Este é o primeiro móvel criado por Jacob, com Anna a habituar-se a escrever na cadeira que conta com a inscrição "Like Crazy", algo que diz muito da relação deste casal, com o objecto a ganhar um significado especial para os protagonistas e para o espectador.

Se Jacob oferece uma cadeira, já Anna prefere elaborar um "livro de amor" com cartas, fotografias, textos e apontamentos relacionados com o quotidiano do casal. Diga-se que Jacob oferece ainda uma pulseira a Anna, um objecto que tarda em sair do pulso desta personagem, mesmo quando a relação parece ter sido atomizada pelas decisões da dupla de protagonistas. Anna e Jacob expõem os sentimentos de forma muito própria, com ambos a apresentarem personalidades distintas apesar de contarem com diversos gostos em comum, algo visível quando o segundo descobre que a primeira é fã de Paul Simon. Anton Yelchin incute uma certa melancolia a Jacob, um personagem relativamente solitário e pouco falador, que ama Anna, embora nem sempre pareça conseguir conviver com os revezes que a relação conhece. Felicity Jones convence em relação à personalidade delicada e encantadora de Anna, com esta a parecer atrair facilmente as atenções para a sua pessoa, enquanto a actriz quase que enfeitiça o espectador com uma interpretação que provoca impacto. Anna é bastante próxima de Bernard (Oliver Muirhead) e Jackie (Alex Kingston), os seus pais (provavelmente os personagens secundários que mais se destacam ao longo do filme), um casal extrovertido que aprecia imenso a presença de Jacob. Um erro, daqueles habitualmente cometidos pelos jovens, promete trazer consequências gravosas para Jacob e Anna, com a burocracia inerente à obtenção e desbloqueamento dos vistos para a entrada nos EUA a ser criticada, enquanto os protagonistas são obrigados a ficarem temporariamente separados devido a essas regras. É certo que ambos poderiam ter ido viver para Londres e ficavam com o problema resolvido mas, ao sairmos da faculdade, quantos de nós é que optamos pelas decisões mais pragmáticas para a vida? Jacob e Anna ainda são inexperientes e demonstram isso por diversas vezes ao longo de "Like Crazy" quer quando estão juntos, quer quando estão separados. O problema é que a experiência e a aprendizagem com os erros tiram parte do brilho daquela relação que começara de forma meio impulsiva, louca e sonhadora, com Jacob e Anna a conhecerem longos períodos de afastamento e aproximação. A certa altura de "Like Crazy", Jacob liga para Anna, com esta a tentar manter a calma, enquanto esconde que se encontra emocionalmente arrasada. Pouco tempo depois, Anna liga a Jacob e pede se este pode viajar para Inglaterra. Ambos parecem arrasados do ponto de vista emocional e desejosos para que esta reunião se torne realidade, enquanto Drake Doremus consegue compelir-nos a torcer por estes personagens ao ponto de querermos que este reencontro seja feliz. No entanto, nada é assim tão simples. É certo que o reencontro é pontuado por momentos de felicidade, tais como Jacob trazer a cadeira que construiu para Anna e ambos partilharem alguns episódios em conjunto, embora o personagem interpretado por Anton Yelchin se sinta um estranho no meio dos amigos da amada. Tudo piora quando começam a surgir as dúvidas. Veja-se quando Simon toca à porta do apartamento de Anna, com esta última a não revelar que Jacob está em casa, enquanto a câmara de filmar se move em direcção a este último (o trabalho de John Guleserian é bastante competente, com o director de fotografia a contribuir para o tom romântico e sincero do filme), com Anton Yelchin a transmitir as dúvidas que assolam a mente deste designer e construtor de móveis.

 Jacob e Anna chegam a ponderar a possibilidade de contraírem matrimónio, um acto que oficializaria a união de ambos e poderia facilitar algumas questões do foro legal. Será que o matrimónio resolveria todos os problemas de Jacob e Anna? A resposta a esta questão é deveras complicada e Drake Doremus não parece estar disponível para nos facilitar a vida e aos seus protagonistas. Anna encontrou estabilidade profissional em Inglaterra. Jacob encontrou estabilidade profissional nos EUA. Ao longo do filme, Anna e Jacob reúnem-se, separam-se, vivem episódios em conjunto ou sem contarem com a companhia um do outro, embora pareçam tardar em esquecer aquele romance meio louco que conduziu a primeira a furar a lei. Na sua crítica a "Like Crazy", Roger Ebert, um crítico que respeito imenso, salientou que o enredo do filme "(...) tilts too much in the direction of a weepie and not enough in the direction of the facts of life". É provável que "Like Crazy" seja irrealista, ou não caminhe na direcção dos "factos da vida", sejam estes quais forem, mas, num filme, aquilo que me interessa é se o realizador e a restante equipa conseguem criar uma narrativa que funcione. O cinema não tem que dar o real, ou procurar imitar uma ideia de realidade. Diga-se que a realidade atinge situações bem mais caricatas, absurdas e "irreais" do que "Like Crazy", com Drake Doremus a criar uma obra cinematográfica capaz de conseguir que nos identifiquemos regularmente com a sua dupla de protagonistas e os seus actos. Veja-se quando Anna está no metro, acompanhada por Jacob, com a viagem de ida a ser bem distinta da volta, ou esta não fosse levar o amado até ao aeroporto. No regresso, Anna aparece sozinha, a observar os outros no metro, enquanto a sua mente parece recheada de incertezas. O momento no metro, no qual a melancolia e tristeza parecem tomar conta do estado de espírito de Anna, é um dos diversos trechos de "Like Crazy" onde Drake Doremus consegue criar algo que é desferido de forma certeira no "coração" do espectador, com este último a conseguir rever-se na situação da protagonista. Quantos locais aparentemente banais não ganham um significado distinto consoante a nossa companhia? A própria atenção a um simples entrelaçar dos pés, ou a duas mãos que se encontram separadas por um espelho, dizem muito da candura e humanismo que Drake Doremus incute a "Like Crazy", com o cineasta a realizar um romance que nos consome, faz apaixonar pelos seus personagens e pelos momentos protagonizados pelos mesmos, enquanto assistimos aos avanços e recuos de uma relação. O argumento permite que Anton Yelchin e Felicity Jones componham personagens credíveis, com a dupla a explanar assertivamente as características distintas dos elementos que interpretam e o modo como os acontecimentos protagonizados por Anna e Jacob contribuem para modificar a personalidade dos protagonistas e a maneira como estes encaram a relação que formaram e o mundo que os rodeia. É certo que "Like Crazy" conta com algumas situações convencionais e Drake Doremus apresenta uma certa preguiça no desenvolvimento de personagens secundários como Simon e Samantha, com estes a constarem na narrativa apenas com o propósito de expor que Anna e Jacob não conseguem encontrar parceiros que os façam esquecer daquela relação que começou com uma carta deixada pela personagem interpretada por Felicity Jones no carro do protagonista. Ela pede para que este não a ache louca. Ele está longe de pensar isso. Tudo aquilo que é exibido em "Like Crazy" está longe da loucura, com Drake Doremus a envolver-se pelos meandros dos sentimentos humanos e pela complexidade que envolve uma relação sentimental, enquanto cria um pedaço de cinema que tem o condão de encantar e apaixonar.

Título original: "Like Crazy".
Realizador: Drake Doremus.
Argumento: Drake Doremus e Ben York Jones.
Elenco: Felicity Jones, Anton Yelchin, Jennifer Lawrence, Oliver Muirhead, Alex Kingston, Charlie Bewley.

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