09 junho 2016

Resenha Crítica: "Layer Cake" (2004)

 Depois de ter produzido obras cinematográficas realizadas por Guy Ritchie, tais como "Lock, Stock and Two Smoking Barrels" e "Snatch", Matthew Vaughn aventurou-se na realização de longas-metragens com "Layer Cake", um thriller protagonizado por Daniel Craig, com o estilo do primeiro a parecer ter influenciado o estreante de forma indelével. Não faltam reviravoltas delirantes, traições, cenas de acção estilizadas, violência, personagens que se encontram envolvidos no mundo do crime, uma criatividade notória na utilização da banda sonora, enquanto estilo e substância se reúnem de forma explosiva. Matthew Vaughn não tem problemas em exibir e explorar a violência e os perigos que envolvem o quotidiano do protagonista, um traficante de cocaína que conhece paradigmaticamente as regras do seu ofício e o modo de operar no mundo do crime. Esse conhecimento não implica que o protagonista esteja completamente livre de ser surpreendido, bem pelo contrário, com "Layer Cake" a conseguir transmitir a sensação dos perigos que envolvem o quotidiano deste indivíduo e daqueles que o rodeiam. Aos poucos, as mortes, traições, enganos, revelações e reviravoltas avolumam-se de tal maneira que parece praticamente impossível que o protagonista e boa parte daqueles que o rodeiam consigam sobreviver, com Matthew Vaughn a explanar que os personagens que povoam a narrativa bailam muitas das vezes ao lado da morte, com esta a não ser propriamente a parceira ideal para dançar o tango. O protagonista é interpretado por Daniel Craig, com o actor a ter espaço para sobressair e exibir o seu carisma como um traficante arguto e cheio de estilo, que não gosta de utilizar armas e evita negociar com elementos que dão muito nas vistas, embora nem sempre consiga fugir à obrigação de lidar com tipos completamente chanfrados. O nome do personagem interpretado por Daniel Craig nunca é revelado, com os créditos finais a mencionarem o traficante de cocaína como XXXX, algo que diz muito do modo de actuar deste indivíduo que, com o avançar do enredo, é obrigado a gerir toda uma situação intrincada para conseguir o melhor negócio possível e sobreviver. XXXX não se descreve a si próprio como um gangster, mas sim como um homem de negócios, sendo conhecido como um dos melhores da sua área, embora pretenda abandonar este ofício e desfrutar dos recursos financeiros que alcançou. Durante a chamada "lei seca", diversos gangsters e traficantes aproveitaram para vender bebidas alcoólicas ilegalmente e enriquecerem. Por sua vez, XXXX procura lucrar com as drogas antes que estas sejam legalizadas, algo exposto pelo próprio na introdução de "Layer Cake". A introdução serve para Matthew Vaughn agarrar desde logo o espectador e aproveitar para expor o tom do filme: cheio de estilo, pontuado por boa música, consumo de drogas, violência e a certeza de que o protagonista vive de forma arriscada. O protagonista trabalha para Jimmy Price (Kenneth Cranham), um fornecedor de droga, aparentemente bem relacionado, que é respeitado por quase todos os seus funcionários e se encontra no "topo da pirâmide", embora conte com uns quantos esqueletos no armário e esconda um lado traiçoeiro.

O braço direito de Jimmy é Gene (Colm Meaney), um tipo duro e inflexível que lida de perto com XXXX, bem como com os elementos que colaboram com este último, em particular, Morty (George Harris), Terry (Tamer Hassan) e Clarkie (Tom Hardy). Morty é um antigo presidiário, leal, aparentemente calmo, que trabalha com Terry, um indivíduo relativamente apagado; Clarkie é um licenciado em química que trata das substâncias estupefacientes, com Tom Hardy a praticamente não ter espaço para sobressair. Morty é o elemento do grupo que parece mais próximo do protagonista, com o personagem interpretado por George Harris a apresentar uma personalidade relativamente discreta, embora seja capaz de cometer actos completamente brutais. O quotidiano de XXXX fica ainda mais movimentado a partir do momento em que Jimmy incumbe o protagonista de cumprir duas missões: negociar e vender um milhão de comprimidos de ecstasy que se encontram na posse de Duke (Jamie Foreman), um traficante conhecido pela sua personalidade irritadiça e pela parca inteligência; encontrar a filha de Eddie Temple (Michael Gambon), uma toxicodependente que se encontra desaparecida. Eddie é um mafioso que supostamente mantém uma relação de amizade com Jimmy, uma situação que conduz este último a incumbir XXXX de realizar uma missão diferente em relação às ordens que o protagonista costuma cumprir. Sem grande paciência, ou engenho para descobrir o paradeiro da filha de Eddie, o protagonista decide contratar os serviços de Cody (Dexter Fletcher - num papel secundário de alguma relevância) e Tiptoes (Steve John Shepherd), dois vigaristas com enormes conhecimentos no submundo de Londres, tendo em vista a que estes encontrem a jovem. Por sua vez, o próprio XXXX assume as negociações com Duke, com o primeiro a exibir a sua faceta de negociador nato e uma inteligência superior à do seu interlocutor, enquanto este último demonstra que é um barril de pólvora prestes a explodir. Tudo piora quando XXXX descobre que os comprimidos de ecstasy pertenciam a Slavo (Marcel Iureş), um chefe da máfia sérvia, que opera a partir da Holanda. Duke e o seu gang roubaram o gangster sérvio, algo que desperta a fúria deste indivíduo que incumbe Dragan (Dragan Mićanović), um assassino letal, de "resolver" o problema e trazer a cabeça do responsável por este golpe. A vida de XXXX fica em risco, tal como a de Duke, com o protagonista a ter de enganar Dragan, resolver uma série de problemas que envolvem Eddie, Jimmy, entre outros personagens, enquanto Matthew Vaughn dá espaço para uma miríade de elementos secundários sobressaírem. Daniel Craig é a figura central de "Layer Cake", com o actor a convencer nas facetas distintas de XXXX, com o protagonista a surgir quer como negociador implacável, quer como uma figura vulnerável que parece ter receio de utilizar uma arma, quer como um elemento recheado de dúvidas quando percebe que tudo está a sair do seu controlo, quer como um conquistador nato. O lado conquistador é visível quando XXXX contacta com Tammy (Sienna Miller), uma mulher ousada que se encontra envolvida com Sidney (Ben Whishaw), o sobrinho de Duke, um indivíduo falador e algo atrapalhado que tem uma relevância surpreendente no final de "Layer Cake".

Sienna Miller incute um estilo sensual e provocador a Tammy, com esta a seduzir e deixar-se seduzir pelo protagonista, com Daniel Craig a exibir uma série de atributos que demonstram algumas das razões para ter sido seleccionado para interpretar James Bond. No entanto, o protagonista praticamente não tem tempo para estar com mulheres, com este a envolver-se num jogo perigoso onde a melhor estratégia nem sempre parece ser suficiente para conseguir sobreviver. Veja-se quando é obrigado a contactar de perto com Eddie, com Michael Gambon a incutir um estilo altivo e pragmático ao personagem que interpreta, com o mafioso a surgir como um dos elementos que personificam o perigo que rodeia o protagonista. Essa ameaça é ainda visível na figura de Dragan, um indivíduo que praticamente não aparece fisicamente diante do espectador, embora os efeitos da sua faceta implacável sejam bem sentidos. Matthew Vaughn consegue criar uma certa tensão em volta da figura de Dragan, com a violência a fazer parte do quotidiano destes personagens, que o diga XXXX. A violência é exposta em grande estilo, embora seja sentida, com Matthew Vaughn a conseguir mesclar assertivamente estilo e substância. Veja-se quando Morty agride brutalmente um indivíduo que contribuíra para o gangster ter sido preso por um crime que não cometeu, naquele que é um momento inspiradíssimo de "Layer Cake", com George Harris a surpreender pelo sadismo que incute ao personagem que interpreta, enquanto o criminoso expele o ódio que tinha contido e Matthew Vaughn utiliza a canção "Ordinary World" com grande estilo e significado. Na cena mencionada, ficamos muitas das vezes diante da perspectiva do agredido, com o trabalho de câmara, montagem, a banda sonora e os gestos de George Harris a contribuírem para um dos vários trechos marcantes de "Layer Cake". Também Gene não tem problemas em utilizar a violência para resolver os problemas, com Matthew Vaughn a exibir que o quotidiano destes personagens é marcado pela brutalidade. O personagem interpretado por Daniel Craig está longe de surgir como o estereótipo do criminoso simplesmente frio, com XXXX a apresentar alguns receios e fragilidades emocionais, sendo enganado algumas vezes pelo caminho devido a confiar em demasia em alguns elementos, embora seja um estratega hábil e inteligente. O protagonista procura desenvencilhar-se dos vários imbróglios nos quais se encontra envolvido, com o seu destino a ser incerto até ao último segundo, enquanto Matthew Vaughn se parece divertir a jogar com a vida deste traficante. O argumento é sólido o suficiente para conseguir que a miríade de personagens que povoa a narrativa de "Layer Cake" ganhe credibilidade, enquanto o pulso forte de Matthew Vaughn é sentido, com o cineasta a realizar um thriller enérgico, dinâmico, violento e pontuado por alguns momentos de humor.

Título original: "Layer Cake".
Título em Portugal: "Layer Cake - Crime Organizado".
Realizador: Matthew Vaughn.
Argumento: J. J. Connolly.
Elenco: Daniel Craig, George Harris, Kenneth Cranham, Michael Gambon, Sienna Miller, Tom Hardy, Colm Meaney, Jamie Foreman, Ben Whishaw, Dexter Fletcher.

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