17 junho 2016

Resenha Crítica: "The Insider" (O Informador)

 Num determinado momento de "The Insider", a sexta longa-metragem realizada por Michael Mann, Lowell Bergman (Al Pacino), um jornalista e produtor da CBS, que trabalha no programa "60 Minutes", efectua uma defesa apaixonada da sua profissão e da sua fonte, enquanto questiona os critérios dos seus superiores: "You pay me to go get guys like Wigand, to draw him out. To get him to trust us, to get him to go on television. I do. I deliver him. He sits. He talks. He violates his own fucking confidentiality agreement. And he's only the key witness in the biggest public health reform issue, maybe the biggest, most-expensive corporate-malfeasance case in U.S. history. And Jeffrey Wigand, who's out on a limb, does he go on television and tell the truth? Yes. Is it newsworthy? Yes. Are we gonna air it? Of course not. Why? Because he's not telling the truth? No. Because he is telling the truth. That's why we're not going to air it. And the more truth he tells, the worse it gets!". Al Pacino domina por completo o ecrã quando profere estas palavras, enquanto protagoniza um dos vários momentos marcantes de "The Insider", uma obra cinematográfica que aborda temáticas como as dificuldades inerentes à investigação jornalística rigorosa e competente, a necessidade de proteger as fontes, as pressões que podem existir sobre estas últimas e os jornalistas, os bastidores de um programa televisivo, entre outras. Embora apresente diversos elementos ficcionais, algo que assume no final, "The Insider" é inspirado no caso que envolveu Jeffrey Wigand, um indivíduo que trabalhou como chefe do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Brown & Williamson, uma empresa do sector tabaqueiro. Após ter sido despedido da empresa e assinado acordos de confidencialidade, Jeffrey tomou a opção corajosa de revelar que a Brown & Williamson aumentava propositadamente o efeito da nicotina nos cigarros. As revelações de Wigand, efectuadas publicamente no programa "60 Minutes", permitiram expor diversas práticas perpetradas por algumas empresas do sector tabaqueiro e mexer com diversos lobbies associados a esta área. A transmissão da entrevista concedida por Wigand ao "60 Minutes" foi antecedida de uma série peripécias intrincadas, algo que é exibido, ainda que de forma ficcional, em "The Insider". Veja-se que Jeffrey foi supostamente ameaçado de morte, o programa esteve em risco de não ser transmitido na sua totalidade, entre outros episódios que são abordados ao longo de "The Insider", com Michael Mann a permitir ainda que Al Pacino e Russel Crowe componham personagens complexos e marcantes. Al Pacino transmite a paixão, o rigor, a intensidade e a humanidade de Lowell Bergman, com Michael Mann a contribuir para mais uma interpretação de peso por parte do actor. Russell Crowe interpreta Jeffrey Wigand com enorme acerto, com o actor a conseguir expor os dilemas internos que atormentam o personagem a quem dá vida, bem como a complexidade desta figura que decide correr uma série de riscos, tendo em vista a desmascarar uma mentira.

Jeffrey Wigand está longe de ser representado como um herói perfeito, embora tenha uma coragem inolvidável e uma personalidade forte, com esta mescla de virtudes e defeitos a contribuir para atribuir densidade ao personagem, algo que é potenciado pelo talento e carisma de Crowe. Se "All the President's Men" colocava-nos diante de uma investigação jornalística intrincada, através da perspectiva dos jornalistas, já "The Insider" procura ainda realçar o papel da fonte e o seu "lado humano", enquanto deixa o espectador perante uma narrativa intensa, marcada por elementos de thriller e suspense, com o argumento a nunca descurar as dificuldades conhecidas por elementos como Wigand e Bergman. A banda sonora permite exacerbar alguns episódios que nos são apresentados, algo latente quando a canção "Sacrifice" de Pieter Bourke e Lisa Gerrard invade "The Insider" e contribui para atribuir uma força inexorável, quase épica, a uma das cenas, com Michael Mann a saber dinamizar e gerir os ritmos de uma obra cinematográfica que nos envolve e inquieta. No início de "The Insider", Michael Mann apresenta-nos Jeffrey e Lowell de forma rápida e eficaz. Lowell reúne-se com Sheikh Fadlallah, um dos "mentores espirituais" do Hezbollah. O encontro é marcado por enormes restrições, com Lowell a encontrar-se de olhos vendados, enquanto procura garantir que Fadlallah seja entrevistado por Mike Wallace (Christopher Plummer) no programa "60 Minutes". Mike é um jornalista veterano, sem papas na língua, ou problemas em fazer perguntas difíceis, com Christopher Plummer a conseguir transmitir a experiência e credibilidade deste indivíduo que conta com um currículo de respeito, embora tome algumas atitudes a pensar no seu legado. É também no início do filme que encontramos Jeffrey Wigand a ser despedido da Brown & Williamson, tendo recebido uma indemnização e assinado um acordo de confidencialidade. Jeffrey é casado com Liane (Diane Venora), com o casal a contar com duas filhas e uma relação que se prepara para conhecer um período conturbado, ou o personagem interpretado por Russell Crowe não se preparasse para tomar uma série de decisões que prometem mudar a vida de todo o seu núcleo familiar, em particular, a partir do momento em que é contactado por Bergman, tendo em vista a interpretar alguns documentos relacionados com a Philip Morris. Jeffrey rejeita inicialmente qualquer tipo de contacto com Lowell, embora acabe por ceder aos pedidos de encontro efectuados pelo jornalista, com ambos a formarem uma relação de respeito ao longo do filme, embora não deixem de protagonizar algumas discussões mais acesas, sobretudo quando existe o risco da entrevista não ser transmitida.

A interacção entre os personagens interpretados por Al Pacino e Russell Crowe é um dos pontos fortes de "The Insider", com Wigand e Lowell a surgirem como homens experientes, que procuram cuidar das suas famílias embora nunca descurem o lado profissional. Michael Mann procura conceder alguma atenção à vida pessoal dos personagens principais, algo que já tinha efectuado em "Heat", embora no caso de "The Insider" a relação entre Wigand e Liane seja mais convincente e intrincada do que o envolvimento entre Lowell e Sharon Tiller (Lindsay Crouse). Wigand e a família conhecem uma série de episódios adversos, com Michael Mann a criar toda uma atmosfera de paranóia e suspeição em volta do primeiro, com este indivíduo a ser alvo de ameaças a partir do momento em que começa a contactar com Lowell e pondera quebrar os acordos de confidencialidade que assinou antes de ser despedido. Esses perigos são particularmente notórios quando Jeffrey e a sua família recebem ameaças de morte quer no computador, quer na caixa de correio, com a banda sonora, as tonalidades frias, o trabalho de montagem e a cinematografia e contribuírem para a tensão que envolve o episódio mencionado. Não vão faltar momentos intensos ao longo de "The Insider", com a câmara de filmar a acompanhar o ritmo dos mesmos (bom trabalho de Dante Spinotti na cinematografia). Veja-se quando encontramos a entrevista concedida por Wigand a ser gravada, com o trabalho de montagem e a cinematografia a sobressaírem, bem como o trabalho dos actores. O personagem interpretado por Russell Crowe surge praticamente coberto pelas sombras, como alguém que se prepara para trazer à luz do dia alguns segredos que prometem abalar a indústria do tabaco. Por sua vez, Christopher Plummer incute toda uma seriedade e carisma a Mike Wallace, enquanto o jornalista efectua as questões. Nesses momentos da gravação da entrevista, por vezes ficamos diante de planos que focam o personagem interpretado por Al Pacino, com o actor a evidenciar a admiração que Lowell nutre pela coragem de Jeffrey, mas também a perplexidade em relação a tudo aquilo que está a ouvir e o orgulho por saber que está a contribuir para o público receber informação relevante. Michael Mann aproveita ainda para exibir os bastidores de uma entrevista televisiva, com o cineasta a aproveitar o cenário do estúdio e as suas câmaras, enquanto cria um dos momentos de maior impacto de "The Insider". A relevância daquilo que Jeffrey tem para revelar contribui e muito para as dificuldades que este personagem encontra, enquanto "The Insider" exibe quer o lado positivo, quer o lado negativo da imprensa. Veja-se quando os elementos das empresas ligadas ao sector do tabaco tentam desacreditar Jeffrey junto da opinião pública, procurando difamar o protagonista através da imprensa sensacionalista, ou menos cuidadosa a analisar as fontes. Lowell tenta proteger a sua fonte e encontrar medidas legais para "fintar" as cláusulas assinadas por Jeffrey, enquanto este último procura regressar ao mercado de trabalho, revelar alguns segredos que o atormentam e manter a relação com a sua família.

Diane Verona, tal como em "Heat", assume o papel de uma esposa que lida constantemente com as decisões complicadas do marido, com Liane a começar a ceder do ponto de vista emocional. Liane é uma das várias personagens secundárias que ganham algum destaque em "The Insider", embora não seja a única. Veja-se o caso de Ron Motley (Bruce McGill), um advogado que processou as tabaqueiras em nome do Estado do Mississippi, ao lado de elementos como Richard Scruggs (Colm Feore). Bruce McGill destaca-se sobretudo no trecho onde Motley enfrenta um advogado que representa as empresas ligadas ao sector do tabaco, com este último a procurar silenciar Wigand, quando o protagonista prestava depoimento. Não faltam ainda personagens com Thomas Sandefur (Michael Gambon), o CEO da Brown & Williamson, um indivíduo frio que procura proteger a sua empresa; Helen Caperelli (Gina Gershon), uma executiva que representa o Conselho de Administração da CBS, que tenta evitar a transmissão do programa que conta com a presença do personagem interpretado por Russell Crowe; Don Hewitt (Philip Baker Hall), o criador do "60 Minutes", um produtor que parece apresentar algum receio em relação às repercussões da entrevista a Jeffrey Wigand, entre outros. Estes personagens são apresentados com diversas liberdades criativas à mistura, entre os quais Mike Wallace, algo apontado por Roger Ebert na sua crítica a "The Insider", com Michael Mann a preferir concentrar os seus esforços em Lowell e Wigand, embora essas diferenças entre a realidade e a ficção beneficiem a fluidez narrativa e os ritmos do filme. Se diversos personagens secundários conseguem destacar-se ao longo de "The Insider", bem como os seus intérpretes, já Sharon Tiller surge representada como o estereótipo da esposa compreensiva que procura apoiar o marido em todas as ocasiões. Esse apoio é visível quando existe o perigo da entrevista não ser transmitida na sua totalidade, com a estação a temer as repercussões de hostilizar as empresas ligadas ao sector do tabaco, enquanto o personagem interpretado por Al Pacino procura fazer de tudo para que o programa seja exibido na íntegra. Al Pacino incute um estilo emotivo, teimoso e credível a Lowell, enquanto Russell Crowe consegue explanar os receios e vulnerabilidades do personagem que interpreta, com a dupla a contar com interpretações de relevo. Michael Mann surge como o grande maestro desta orquestra, com o cineasta a conduzir os ritmos da narrativa de forma sublime, enquanto incute um tom inquietante e envolvente a uma obra cinematográfica que aborda temáticas relevantes sobre o jornalismo e o trabalho dos jornalistas com as fontes.

Título original: "The Insider".
Título em Portugal: "O Informador".
Realizador: Michael Mann.
Argumento: Eric Roth e Michael Mann.
Elenco: Al Pacino, Russell Crowe, Christopher Plummer, Diane Venora, Michael Gambon, Lindsay Crouse, Philip Baker Hall, Bruce McGill, Colm Feore.

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