02 junho 2016

Resenha Crítica: "Hail, Caesar!" (2016)

 Entre a sátira e a homenagem a um período marcante da História de Hollywood, "Hail, Caesar!" conta com o estilo de humor muito próprio dos irmãos Coen, um guarda-roupa merecedor de todos os elogios, um trabalho notável na concepção dos cenários, um elenco de luxo que nem sempre é aproveitado, enquanto a dupla de cineastas e argumentistas volta a inserir um rapto num dos seus filmes. É certo que não existe sentido de urgência, ou perigo, em volta do rapto, com Joel e Ethan Coen a preferirem seguir um rumo distinto, disparando para várias direcções, embora nem sempre acertem no alvo, enquanto aproveitam Hollywood dos anos 50 como se fosse um brinquedo que manuseiam a seu bel-prazer e exibem para os amigos ou, neste caso, para os espectadores. Não faltam filmagens de musicais, westerns, dramas de prestígio, estrelas fabricadas pelos estúdios, um "fixer" a procurar controlar os rumores relacionados com as vedetas e as películas, a paranóia anti-Comunista, quase tudo tendo como de pano de fundo o Capitol Pictures, um estúdio de cinema, enquanto Joel e Ethan Coen demonstram de forma amiúde que se inspiraram em diversas obras cinematográficas e a figuras associadas a Hollywood. No centro de quase tudo está a figura de Eddie Mannix (Josh Brolin), um indivíduo católico que é conhecido pela sua eficiência implacável quer como head of physical production, quer como "fixer". Eddie procura coordenar o desenvolvimento de todas as produções cinematográficas, tendo em vista a que estas sejam filmadas dentro dos prazos e orçamentos estipulados, para além de "cuidar" da imagem pública das estrelas de cinema. Nesse sentido, logo no início de "Hail, Caesar!", encontramos Mannix a evitar que Gloria DeLamour, uma actriz, seja fotografada por um indivíduo aproveitador, quando se encontrava aparentemente alcoolizada. Outra das estrelas que entra na esfera do trabalho de Eddie é DeeAnna Moran (Scarlett Johansson), uma actriz conhecida pela sua beleza e suposta ingenuidade, que se encontra a trabalhar num filme onde interpreta uma sereia. No entanto, DeeAnna Moran encontra-se grávida, fruto de um caso com Arne Slessum (Christopher Lambert), um realizador europeu, que é casado e conta com dois filhos. Tendo em conta os falsos moralismos da época, Eddie procura que esta informação sobre DeeAnna e Arne não salte para a imprensa e para o público, enquanto tenta encontrar uma solução que agrade quer à actriz, quer ao realizador. Johansson é exímia a desfazer a falsa imagem de castidade e ingenuidade associada a Moran, com a actriz a parecer divertir-se imenso a dar vida a esta figura que representa os falsos mitos criados em volta de algumas estrelas de Hollywood, embora os irmãos Coen nem sempre aproveitem esta subtrama, com os cineastas a fazerem questão de introduzir e retirar personagens da narrativa sem que estas tenham tempo de "crescer" no interior do filme. Scarlett Johansson destaca-se no pouco tempo que tem no grande ecrã, com DeeAnna a ter de interpretar uma sereia, algo que remete para a imagem "pura" que o Capitol Pictures criou à sua volta, com os irmãos Coen a exibirem como os estúdios procuravam utilizar e forjar a reputação das estrelas. Eddie tem a tarefa de evitar que essa imagem das estrelas se desfaça, ou de criar vedetas junto da opinião pública, ou simplesmente de prever os problemas antes que estes aconteçam, com "Hail, Caesar!" a transportar-nos para outros tempos de Hollywood que, em certa medida, não andam assim tão distantes da actualidade.

Os problemas parecem chegar a Eddie com facilidade ou, quando assim não acontece, é o próprio a chamar pelas confusões. Veja-se quando reúne elementos de diversas crenças religiosas para tentar perceber se o retrato que efectuam de Jesus Cristo em "Hail, Caesar!", uma obra cinematográfica na qual o estúdio depositou enormes expectativas, não ofende ninguém dos diferentes espectros religiosos. A obra cinematográfica que partilha o título com o novo trabalho dos irmãos Coen é um épico religioso, um subgénero que se encontrava em voga na época representada, com "Hail, Caesar!" a colocar-nos diante de episódios das filmagens e de alguns trechos deste filme ficcional, bem como dos seus cenários, com tudo a parecer decorrer conforme as previsões iniciais. No entanto, tudo se descontrola quando Baird Whitlock (George Clooney), a principal estrela do Capitol Pictures e protagonista do filme, é raptado por alguns figurantes. Eddie tenta esconder o rapto orquestrado por um grupo de argumentistas comunistas, bem como por uma estrela de cinema, com o "fixer" a procurar evitar que a informação salte para a imprensa, enquanto envida esforços para resolver todo este caso e conseguir que Whitlock regresse a tempo de concluir as filmagens de "Hail, Caesar!". A juntar a tudo isto, Eddie tem ainda de lidar com uma miríade de episódios a rodearem as diversas produções cinematográficas, algo que possibilita que intérpretes como Alden Ehrenreich sobressaiam, com este a dar vida a Hobie Doyle, um actor pouco talentoso, meio parolo, incapaz de proferir falas longas, que é alçado a estrela pelo estúdio. Perante a falta de actores disponíveis, Eddie obriga Laurence Laurentz (Ralph Fiennes), um realizador europeu, conhecido pelo seu enorme prestígio, a utilizar Hobie Doyle como protagonista, algo que coloca os nervos em franja ao cineasta, sobretudo quando percebe que o actor, uma estrela dos westerns, é incapaz de proferir as falas de forma correcta. Entretanto seleccionado para interpretar Han Solo no filme a solo do personagem, Alden Ehrenreich é, muito provavelmente, a maior surpresa de "Hail, Caesar!", a par da faceta "Gene Kelly" de Channing Tatum. Alden Ehrenreich transmite a inocência e o carisma de Hobie, um actor pouco competente e ingénuo, mas bem intencionado, que se envolve no caso da investigação do rapto de Whitlock. George Clooney interpreta um actor carismático mas pouco inteligente, que contacta pela primeira vez com os ideias do Comunismo, acabando por se encontrar num estranho cativeiro, onde é colocado diante de um grupo que se sente marginalizado em Hollywood. Baird Whitlock gosta de falar sobre os bastidores dos filmes que protagonizou, bem como dos episódios da vida privada, enquanto demonstra interesse pelos valores do Comunismo e George Clooney aproveita para incutir um tom delirante a um personagem que poderia perfeitamente ser um parente de Everett, um dos protagonistas de "O Brother, Where Art Thou?". Tanto Everett como Baird procuram parecer mais inteligentes do que realmente são, enquanto protagonizam alguns momentos caricatos, com Joel e Ethan Coen a aproveitarem o carisma de Clooney ao serviço do humor em ambos os filmes mencionados.

O rapto de Whitlock permite que Joel e Ethan Coen abordem e satirizem as teorias da conspiração contra os comunistas durante o período da Guerra Fria e do Macartismo (o grupo de raptores também é alvo do humor dos Coen, ou os seus integrantes não se reunissem num espaço luxuoso e contassem com um cão chamado Engels), algo que afectou diversos elementos ligados ao cinema (ainda este ano estreou nas salas de cinema nacionais um filme biográfico sobre Dalton Trumbo). Diga-se que "Hail, Caesar!" apesar de perder excessivamente o foco, sobretudo no que diz respeito ao rapto do personagem interpretado por George Clooney, apresenta um argumento de excelência a nível do aproveitamento das referências e da História de Hollywood e dos EUA. Diversos actores e actrizes foram inspirados em figuras reais (Whitlock em Robert Taylor; Hobie Doyle em Kirby Grant; DeeAnna Moran em Esther Williams; Carlotta Valdez  - aqui poderá existir ainda uma referência a "Vertigo" - em Carmen Miranda, entre outros exemplos), enquanto as referências às obras cinematográficas da época são mais do que muitas, algo que enriquece a narrativa. Para além das diversas menções efectuadas ao longo do texto, essas referências utilizadas em "Hail, Caesar!" são ainda visíveis quando encontramos Channing Tatum como Burt Gurney, um actor e dançarino misterioso, a protagonizar um número musical muito "à Gene Kelly" em "Anchors Aweigh", com os irmãos Coen a brindarem o espectador com um trecho memorável e subversivo, que pouco ou nada acrescenta ao enredo, embora faça parte do pacote integral desta louca viagem à história de Hollywood dos anos 50 que é oferecida pela dupla de cineastas aos espectadores. Joel e Ethan Coen funcionam como guias turísticos, enquanto reverenciam e ironizam com Hollywood, onde se encontram inseridos nos dias de hoje, embora não tenham perdido o cunho autoral. A procura de encontrar traços próprios de locais e da sociedade dos EUA é algo comum nos filmes dos irmãos Coen, com estes a abordarem diversos elementos deste país recheado de dicotomias, onde a realidade ultrapassa muitas das vezes a ficção, enquanto observam as suas transformações e as suas gentes. Veja-se o caso de "Fargo" ou "The Big Lebowski", onde tínhamos personagens bem peculiares, o humor típico dos Coen e ingredientes de neo-noir, ou "No Country for Old Men" no qual ficamos entre as dicotomias e semelhanças entre o passado e o presente no Texas. Nos casos de "Fargo" e "The Big Lebowski", tal como em "Hail, Caesar!" também contamos com raptos, bem como com figuras peculiares, mal-entendidos e situações rocambolescas, com o novo filme dos irmãos Coen a inserir-se ainda nas obras cinematográficas sobre Hollywood. Nesse sentido, quase que podemos colocar "Hail, Caesar!" como um ramo de uma linhagem que conta com obras cinematográficas como "The Bad and the Beautiful", onde um produtor conhece a ascensão e a queda, com Vincente Minnelli a abordar diversos episódios relacionados com os bastidores dos filmes; "The Big Knife", uma obra cinematográfica realizada por Robert Aldrich que expunha de forma bem viva a coerção efectuada pelos grandes estúdios aos actores; "Sunset Boulevard", um filme no qual Gloria Swanson interpreta uma estrela do tempo do cinema mudo que perdeu a relevância com o advento dos talkies, embora continue a pensar que é recordada por tudo e todos, entre outros exemplos.

 "Hail, Caesar!" consegue simultaneamente homenagear e satirizar Hollywood e os seus bastidores, com algumas temáticas retratadas a continuarem ainda na ordem do dia. A forma como os escândalos da vida privada podem afectar a carreira de um intérprete, a procura dos estúdios que os filmes de largo orçamento não ofendam ninguém e agradem a tudo e a todos, a criação de uma "imagem" em volta dos actores e actrizes, entre outros exemplos. Em "Hail, Caesar!" a imprensa surge representada através de Thora Thacker e Thessaly Thacker (ambas interpretadas pela brilhante Tilda Swinton), irmãs gémeas e rivais, que trabalham como colunistas de fofocas, com ambas a procurarem saber toda a informação sobre as estrelas, embora Eddie procure controlar ao máximo o trabalho de ambas. Veja-se como controla um possível escândalo relacionado com Baird Whitlock, ou tenta lançar os rumores sobre um hipotético romance entre Hobie Doyle e Carlotta Valdez. Josh Brolin é o actor que mais se destaca ao longo de "Hail, Caesar!", conseguindo incutir um estilo duro e inflexível a Mannix, mas também transmitir as suas dúvidas e inquietações. Brolin cria um personagem católico, que acredita ou tenta acreditar nos valores de Hollywood, ou na falta deles, enquanto gere os ritmos de produção do estúdio com enorme vigor e envolve-se nos episódios mais estapafúrdios. No entanto, a vida matrimonial de Mannix pouco é aproveitada e desenvolvida, com os irmãos Coen a apresentarem-nos à esposa do mesmo (Alison Pill), embora pouco abordem a relação, parecendo um daqueles trechos que poderiam ter caído por completo na sala de edição sem que ninguém tivesse dado pela sua falta. A estrutura da narrativa é propositadamente caótica, com os irmãos Coen a atirarem com diversos personagens e subtramas para o interior de "Hail, Caesar!", embora nem sempre consigam aproveitar todos os elementos que utilizaram, algo latente nos casos dos personagens interpretados por Channing Tatum, Scarlett Johansson, Ralph Fiennes, Alison Pill, entre outros, que apenas aparecem para um ou outro momento marcante que "salva o dia". O elenco é competente, tal como a equipa que trabalhou nos bastidores para conseguir transmitir a visão dos cineastas em relação à época representada, algo evidente na concepção dos cenários, bem como no guarda-roupa e maquilhagem dos personagens. Veja-se o caso dos cenários que envolvem a gravação do filme que empresta o seu nome ao título da nova obra cinematográfica dos Coen, com o guarda-roupa, o número de figurantes, a paleta cromática, o modo de falar dos personagens, a remeter para as filmagens de um épico neste período. Os diálogos são típicos das comédias dos irmãos Coen, com "Hail, Caesar" a inserir-se mais na senda de "The Big Lebowski", "O Brother, Where Art Thou?" do que de filmes da dupla como "Inside Llewyn Davis" ou "No Country for Old Men", com o enredo a contar com alguns momentos delirantes onde muito e pouco é para levar totalmente a sério. Com um cuidado notório no guarda-roupa, bem como nos cenários e nos diálogos, diversas referências cinéfilas (consultar neste link), um rapto rocambolesco e situações completamente delirantes, "Hail, Caesar!" nem sempre consegue parece fazer justiça a todo o seu potencial, ou aproveitar o elenco de luxo que os irmãos Coen têm à sua disposição, embora contenha elementos de sobra para merecer ser catalogado como uma das boas obras cinematográficas que chegaram às salas de cinema portuguesas em 2016.

Título original: "Hail, Caesar!".
Título em Portugal:
Realizadores: Joel Coen e Ethan Coen.
Argumentistas: Joel Coen e Ethan Coen.
Elenco: Josh Brolin, George Clooney, Alden Ehrenreich, Scarlett Johansson, Tilda Swinton, Channing Tatum, Ralph Fiennes.

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