21 junho 2016

Resenha Crítica: "The Diary of a Teenage Girl" (O Diário de Uma Rapariga Adolescente)

 Perto do final de "The Diary of a Teenage Girl", Minnie Goetze (Bel Powley), a protagonista do filme, uma adolescente com quinze anos de idade, salienta o seguinte: "I always thought I wanted to be exactly like my mom. But she thinks she needs a man to be happy. I don't". Este comentário demonstra o amadurecimento da protagonista, algo inerente aos episódios que a adolescente protagonizou ao longo do filme, com "The Diary of a Teenage Girl" a surpreender pela maturidade, complexidade e criatividade com que desenvolve as suas temáticas. "The Diary of a Teenage Girl" aborda o quotidiano de uma adolescente que se encontra a descobrir o seu corpo, a iniciar a sua vida sexual, a afirmar a sua personalidade e a enfrentar dúvidas que a inquietam, até perceber algo óbvio, ou seja, não precisa da companhia de um homem para ser feliz. A mensagem de pendor feminista é óbvia e merecedora de elogios, sobretudo pela sinceridade com que é transmitida, com "The Diary of a Teenage Girl" a abordar temáticas complexas, polémicas e pertinentes, sempre de forma bastante aberta e humana. Ao longo do filme, acompanhamos Minnie a envolver-se numa miríade de relações sexuais, a experimentar drogas, a desenhar, a falar de forma minuciosa para o seu gravador, com este aparelho a surgir praticamente como um diário desta adolescente que se inicia sexualmente com Monroe (Alexander Skarsgård), o namorado da sua mãe. Minnie vive com Charlotte, a sua mãe, bem como com Gretel, a irmã mais nova, com a casa a receber regularmente a visita de Monroe. Charlotte trabalha numa biblioteca, passa boa parte do seu tempo livre a organizar festas, a beber e a consumir droga, com Kristen Wiig a transmitir a irresponsabilidade da personagem que interpreta, bem como as fragilidades desta mulher que parece tardar em conseguir assumir uma postura mais madura. O quotidiano de Minnie muda quando Charlotte resolve que não pretende sair à noite, deixando a filha mais velha acompanhar Monroe a um bar. Conversa puxa conversa, a cerveja parece demasiado agradável para ser bebida de forma ponderada, o espaço do bar conta com uma atmosfera propício ao engate, enquanto uma série de brincadeiras acabam por conduzir Monroe a dizer que Minnie lhe provocou tesão. Esta também não se fica atrás e pede para que Monroe faça sexo consigo. Ainda se beijam, mas a relação sexual surge mais tarde, com Minnie a perder a virgindade com Monroe. O desejo tolda o bom senso destes personagens, com Minnie a sentir-se finalmente desejada, enquanto Monroe parece incapaz de travar os seus ímpetos. A personagem interpretada por Bel Powley é uma adolescente insegura, com uns olhos azuis marcantes, que se considera gorda (a sua relação com o corpo é algo problemática), apresenta uma imaginação e criatividade fora do comum, pretendendo ser uma artista, embora tarde em encontrar um rumo para a sua existência.

Aos poucos, Minnie começa a ganhar alguma confiança em si própria e algum amor próprio, apesar de contar com uma série de dúvidas que apoquentam a sua mente. Será que se tornou uma ninfomaníaca? Será que Monroe a ama? Estará a ser enganada? Será que está a confundir os conceitos de desejo e amor? É exequível avançar com uma carreira a desenhar livros de banda-desenhada? As respostas surgem com o desenrolar da narrativa, com Marielle Heller a dar espaço para Bel Powley compor uma personagem que vive uma miríade de experiências que lhe permitem ganhar alguma maturidade. Minnie é uma jovem relativamente solitária, que não forma grandes amizades e gosta de faltar às aulas, tendo em Kimmi Minter (Madeleine Waters) uma das suas poucas amigas. Kimmi e Minnie vivem uma série de experiências marcantes que vão desde saídas a clubes nocturnos, passando por um episódio onde fingem que são prostitutas, até a um ménage à trois com Monroe. As duas amigas nem sempre se orgulham dos seus feitos, mas parte da aprendizagem e do processo de amadurecimento de Minnie passa por cometer erros e aprender com os mesmos. Veja-se a relação intrincada que Minnie inicia com Monroe, com a primeira a amar o segundo, enquanto este último apresenta uma atitude muito mais vaga. Bel Powley consegue transmitir as incertezas, a curiosidade e o amadurecimento de Minnie Goetze, uma jovem que se encontra a descobrir o poder e o prazer do sexo e a lidar com uma série de dúvidas, enquanto revela uma curiosidade típica da adolescência. "A Royal Night Out" demonstrou algum do talento de Bel Powley, enquanto "The Diary of a Teenage Girl" deixa a certeza que a actriz merece toda a nossa atenção, bem como a realizadora Marielle Heller. Estreante na realização de longas-metragens, Marielle Heller surpreende pela segurança, criatividade e audácia com que aborda temáticas complexas e extremamente pertinentes, com a cineasta a conseguir incutir um tom bastante feminino ao filme, enquanto nos transporta para San Francisco, em 1976, o ano em que decorre o enredo. O guarda-roupa (não faltam calças à boca de sino e sapatos típicos da época), as músicas, os bares e a decoração da casa de Minnie remetem para esta época, com Marielle Heller e a sua equipa a fazerem maravilhas com um orçamento a rondar os dois milhões de dólares. A cineasta consegue explorar temáticas universais sobre as adolescentes a partir de um contexto específico, sempre com alguma dose de polémica à mistura, ou "The Diary of a Teenage Girl" não abordasse uma relação entre uma adolescente e um indivíduo com cerca de trinta e poucos anos de idade. Marielle Heller tem o cuidado de não abordar esta questão de forma sensacionalista, embora também não fuja às questões difíceis. Bel Powley consegue transmitir o desejo sentido por Minnie e o gosto que a protagonista começa a sentir por fazer sexo, enquanto Alexander Skarsgård evidencia a incapacidade de Monroe em conseguir optar por uma atitude pragmática. Monroe é um indivíduo mais alto do que Minnie, com um bigode saliente, que ambiciona deixar de trabalhar relativamente cedo, enquanto tenta manter uma relação com Charlotte e a protagonista, ou seja, está a meter-se num "caldinho" que promete trazer problemas.

Alexander Skarsgård incute algum mistério aos objectivos deste indivíduo que se envolve com uma menor, com Monroe a tanto parecer apenas desejar Minnie como indica sentir algo mais pela adolescente. Nesse sentido, "The Diary of a Teenage Girl" aborda ainda a dificuldade de se conseguir controlar os sentimentos amorosos e/ou o desejo (com o desejo a não invalidar o amor), algo notório em personagens como Minnie e Monroe. Esta parece gostar de ter uma vida sexual activa, pelo menos a nível inicial, algo que assusta Ricky (Austin Lyon), um dos seus colegas de escola, um adolescente que fica surpreendido com a capacidade de Minnie conseguir "controlar as operações". Minnie envolve-se ainda com Tabatha (Margarita Levieva), para além de experimentar uma série de drogas, enquanto se procura encontrar, até chegar à conclusão citada no início do texto. O quarto de Minnie diz muito da personalidade desta jovem e do cuidado colocado no design de produção, com esta divisória da casa da protagonista a permitir explanar o estado caótico da mente da adolescente, mas também as características e os gostos desta figura feminina. As paredes do quarto encontram-se preenchidas por desenhos e posters, o restante espaço parece relativamente desorganizado, apesar do fiel companheiro da protagonista ser bem visível, ou seja, o gravador. As gravações de Minnie permitem que esta seja praticamente a narradora de serviço, com o espectador a ser "obrigado" a ouvir aquilo que a protagonista coloca nas suas cassetes. Diga-se que esta também não prima pelo tom discreto a gravar os episódios no seu "diário", uma situação que percebemos de forma paradigmática quando Minnie fala sobre a sua vida sexual quando se encontra no interior do autocarro. É uma situação nova para Minnie, com esta a sentir o prazer do sexo, os efeitos de ser desejada e as "dores de crescimento", parecendo inicialmente incapaz de lidar de forma pragmática com uma nova realidade, sobretudo quando anteriormente pensava que não despertava o interesse dos elementos masculinos. A certa altura do filme, encontramos Minnie a observar o seu corpo, enquanto se encontra nua, em frente ao espelho. Minnie pensa que a sua fisionomia não é agradável ao olhar daqueles que a rodeiam, algo que não se verifica, enquanto observamos o processo de crescimento desta jovem que sonha fazer carreira a escrever e desenhar livros de banda-desenhada, tal como Aline Kominsky, uma profissional da área que a protagonista encara como um modelo a seguir. O quotidiano de Minnie é ainda marcado pela faceta disfuncional da sua família, com esta a não parecer contar com uma figura mais experiente com quem consiga desabafar sobre as suas dúvidas e problemas (a mãe é uma irresponsável e o interesse de Monroe é sobretudo de cariz sexual). A relação entre Minnie e a mãe é pontuada por uma abertura fora do comum, embora isso não signifique que sejam bastante íntimas, enquanto a irmã é demasiado nova para partilhar confidências com a protagonista. Pascal MacCorkill (Christopher Meloni), o padrasto de Minnie, um indivíduo que foi casado durante muito tempo com Charlotte, ainda contacta com a jovem e procura ajudá-la nas despesas com os estudos, procurando incentivá-la para ir viver consigo para Nova Iorque, algo que esta recusa.

A relação amorosa que se forma entre Minnie e Monroe parece trazer mais confiança a esta jovem, mas também mais problemas. Minnie sabe que se pode magoar a si própria, bem como à sua mãe, enquanto tarda em conseguir perceber os sentimentos verdadeiros de Monroe, algo que nem o próprio parece saber. Este tem uma faceta de sacana, ou não se envolvesse com a filha da namorada, embora também não desperte a nossa total antipatia, parecendo uma figura que ficou parada no tempo, que aos poucos começa a desenvolver sentimentos mais fortes por uma jovem. Por sua vez, Minnie tem todo um futuro pela frente, com os episódios que vive ao longo de "The Diary of a Teenage Girl" a surgirem como uma fonte de aprendizagem relevante. Os desenhos efectuados por Minnie reflectem parte dessa jornada emocional da protagonista, uma jovem que protagoniza uma série de episódios que vão desde situações mais sérias até a alguns momentos cómicos (Marielle Heller não descura o humor). Minnie é o nosso ponto de contacto em "The Diary of a Teenage Girl", com Marielle Heller a colocar o espectador diante de uma personagem que se procura encontrar a si própria, uma tarefa que se revela deveras complicada. Nem sempre é fácil perceber aquilo que percorre a mente de Minnie. Diga-se que nem a própria Minnie deve saber totalmente, ou não estivesse em plena adolescência. A ideia de um indivíduo mais velho interessar-se por si é algo que parece deixar Minnie agradada, enquanto a adolescente desperta o desejo do namorado da progenitora de forma indelével, com toda esta situação complexa a conduzir a uma relação de cariz sexual. Inicialmente parece que o desejo predomina em relação ao amor, embora Minnie e Monroe surjam como personagens capazes de nos surpreender, que apresentam uma evolução notória ao longo do filme, sobretudo a primeira. As experiências que Minnie decide protagonizar são mais do que muitas. Veja-se quando finge que é uma prostituta, contando com a companhia de Kimmie, com ambas a fazerem sexo por dinheiro, ou a experiência sexual que Minnie inicia com Tabatha. O argumento de Marielle Heller, inspirado na graphic novel "The Diary of a Teenage Girl: An Account in Words and Pictures", apresenta a subtileza e a irreverência suficiente para desenvolver estas temáticas, enquanto a cineasta não tem problemas em expor diversos episódios da narrativa de forma criativa e dinâmica, procurando deixar bem claro que não pretendeu realizar uma "dramédia" convencional. Veja-se quando encontramos os desenhos de Minnie a "ganharem vida", ou a adolescente a levitar quando ingere ácidos, com o corpo da personagem interpretada por Bel Powley a encontrar-se coberto de penas pintadas como se estivéssemos num misto de desenho animado e filme em live-action, ou a protagonista a imaginar que se encontra a dialogar com uma versão em animação 2D de Aline Kominsky. Com uma interpretação notável de Bel Powley, uma actriz que promete alcançar uma carreira de sucesso, "The Diary of a Teenage Girl" aborda eficazmente temáticas como a sexualidade na adolescência, a miríade de experiências que se vive neste período complexo da nossa existência, sempre tendo em atenção que o enredo tem os anos 70 como pano de fundo, com Marielle Heller a surpreender-nos com uma primeira longa-metragem de excelente nível.

Título original: "The Diary of a Teenage Girl".
Título em Portugal: "O Diário de Uma Rapariga Adolescente".
Realizador: Marielle Heller.
Argumento: Marielle Heller.
Elenco: Bel Powley, Alexander Skarsgård, Kristen Wiig, Madeleine Waters, Christopher Meloni, Margarita Levieva, Austin Lyon.

Sem comentários: