15 junho 2016

Resenha Crítica: "Breathe In" (Um Novo Fôlego)

 Como controlar o desejo pelo fruto proibido? É provável que Keith Reynolds (Guy Pearce), um dos personagens principais de "Breathe In", não consiga responder paradigmaticamente a esta questão, sobretudo quando Megan (Amy Ryan), a sua esposa, decide acolher Sophie (Felicity Jones), uma jovem de dezoito anos de idade, na habitação do casal. Sophie é uma estudante inglesa misteriosa, sensual e inteligente, que se encontra a estudar temporariamente nos EUA como aluna de intercâmbio. Junte-se um casamento a atravessar um desgaste latente e temos os condimentos para a "tempestade perfeita", com a casa de Megan e Keith a parecer um vulcão prestes a entrar em erupção. Drake Doremus, o realizador e co-argumentista, desenvolve a tensão sexual entre Keith e Sophie de forma ponderada e credível, com o cineasta a atribuir imensa atenção aos gestos e olhares dos personagens. As trocas de olhares entre Keith e Sophie deixam desde logo água no bico, com Guy Pearce e Felicity Jones a expressarem imenso através de pequenos gestos, algo aproveitado por Drake Doremus, com o cineasta a demonstrar mais uma vez que é exímio a extrair boas interpretações do elenco principal dos seus filmes (o cineasta volta a dar espaço para os intérpretes improvisarem). Veja-se a ponderação com que os close-ups são utilizados, com Drake Doremus e o seu director de fotografia a permitirem que os rostos de Felicity Jones e Guy Pearce exprimam uma multitude de sentimentos, com o cineasta a saber gerir os silêncios, os gestos e os olhares de forma exímia. Doremus deixa crescer a tensão sexual entre Keith e Sophie, com esta relação entre a dupla de protagonistas a prometer desestabilizar por completo o quotidiano de uma família que parecia unida por alicerces demasiado frágeis. Num determinado momento de "Breathe In", encontramos Keith e Megan a dialogarem no carro, enquanto Sophie se encontra no banco de trás, a escutar a conversa mantida pelo casal e a efectuar algumas questões. Keith salienta o desejo de tocar violoncelo na orquestra a tempo inteiro e deixar de dar aulas de piano no ensino secundário, enquanto Megan não tem problemas em procurar dissuadir o marido. É um momento fulcral para Drake Doremus expor que algo vai mal na relação deste casal, com o desgaste inerente a dezassete anos de matrimónio a ser notório, bem como as diferenças de objectivos entre os cônjuges. Megan gosta de coleccionar e vender frascos de biscoitos, conta com uma personalidade relativamente conservadora, procura controlar os ímpetos do esposo e não parece apreciar cometer riscos. Keith é um professor frustrado, que se deixou prender a um emprego desmotivante que permite pagar as contas da casa, embora ainda sonhe deixar tudo de lado e abraçar uma aventura. Veja-se quando encontramos Keith a observar as fotos dos tempos em que era jovem, quando tinha uma banda e mal podia pagar as contas, ou decide ouvir as canções desse grupo musical. Megan e Keith são pais de Lauren (Mackenzie Davis), uma jovem mimada, que se encontra prestes a completar dezoito anos de idade. Lauren é uma nadadora exímia, vencedora de medalhas, que gosta de nadar, embora não partilhe o interesse do pai pela música. Keith toca violoncelo na orquestra de Nova Iorque e tem um talento latente para o piano, com este a contar com uma enorme paixão pela música.  

Os Reynolds pareciam contar com um estilo de vida relativamente calmo, embora a chegada de Sophie prometa mexer e muito com o quotidiano destes elementos, que o diga Keith. A ideia de convidar Sophie partiu de Megan, embora Lauren não aprove totalmente a ideia, com as duas jovens a nunca conseguirem criar uma relação de proximidade, embora ainda tentem formar amizade. Se Felicity Jones consegue transmitir algum mistério, capacidade de sedução e segurança como Sophie, uma jovem com enorme talento para tocar piano e uma maturidade surpreendente, já Mackenzie Davis expõe o lado mimado e frágil de Lauren, uma nadadora exímia, que tarda em despertar a atenção de Aaron (Matthew Daddario), um colega de escola. Diga-se que o interesse de Aaron parece recair em Sophie, com esta jovem a atrair a atenção de quase todas as figuras masculinas. Tal como em "Like Crazy", Drake Doremus aborda as peripécias das relações amorosas e a complexidade das mesmas. É certo que falta alguma coragem a Drake Doremus para surpreender e entrar mais a fundo nas temáticas que lança para o interior da narrativa de "Breathe In", embora o cineasta e argumentista consiga gerir relativamente bem a tensão sexual que se gera entre Keith e Sophie, com a relação destes dois personagens a encontrar-se no centro do enredo. Inicialmente as conversas entre Sophie e Keith não parecem passar da mera cordialidade, embora as trocas de olhares indiquem que o professor e a estudante estão a conter um certo desejo e curiosidade. Keith atravessa uma crise típica dos quarenta e poucos anos de idade, questionando boa parte das decisões que tomou para a sua vida, enquanto Sophie surge como uma espécie de bálsamo que o desafia e seduz. Guy Pearce consegue expor a personalidade passiva, algo introvertida e aparentemente letárgica deste personagem que se expressa imenso através do seu olhar, com Keith a ter na música uma paixão, encontrando-se a ensaiar para efectuar os testes para integrar a orquestra. Escusado será dizer que Sophie estimula Keith a tentar novos desafios, bem como a seguir as suas convicções, algo latente quando comenta: "You just have to make sure that you're choosing it. I just don't wanna be living a life where I'm not choosing stuff". A relação que se forma entre Keith e Sophie é credível, embora Drake Doremus entre muitas das vezes por caminhos previsíveis, inclusive no último terço, quando os impulsos dos dois primeiros parecem ter tudo para dar em nada. Doremus falha ainda na abordagem de diversas subtramas, para além de denotar mais uma vez uma incapacidade notória em desenvolver e explorar alguns personagens secundários, algo que já tinha acontecido em "Like Crazy". Veja-se uma subtrama relacionada com Sophie, Lauren e Aaron, com a segunda a ter ciúmes da primeira, embora esta situação provoque pouco efeito no espectador, ou a incapacidade de "Breathe In" desenvolver as rotinas da protagonista na escola. Diga-se que Felicity Jones é a actriz que mais sobressai ao longo de "Breathe In", com a intérprete a incutir uma certa dose de mistério a esta figura feminina complexa que aos poucos se dá a conhecer ao espectador e àqueles que a rodeiam.

 Sophie foi praticamente educada pelos tios, com a morte do tio a contribuir para que esta tenha decidido viajar para os EUA e perdido o gosto por tocar piano. O tio de Sophie tocava piano, tendo contribuído para que a jovem procurasse seguir os seus passos, com esta a apresentar um talento notável, algo comprovado numa aula onde Keith pede para que a personagem interpretada por Felicity Jones se apresente à turma com uma demonstração ao piano. Sophie representa a mudança, a irreverência e a vontade de Keith colocar em prática os sonhos contido na sua alma, embora a estudante esteja longe de ser uma femme fatale. Megan significa a segurança, a responsabilidade e a certeza de que as opções tomadas no passado acabam por hipotecar os planos para o futuro. A certa altura de "Breathe In", Keith é praticamente obrigado a ter que se decidir entre manter a estabilidade do lar ou prosseguir com uma aventura, com Drake Doremus a semear o caos no quotidiano deste indivíduo e daqueles que o rodeiam. Tudo é exposto com alguma contenção e subtileza, com Drake Doremus a abordar a relação de Keith e Sophie com imensa inspiração, embora pudesse ter colocado um pouco mais de "pimenta" na mesma. Inicialmente tudo parece relativamente calmo, com Lauren e Megan a procurarem receber Sophie de forma cordial, embora esta situação mude com o avançar da narrativa, sobretudo quando os sentimentos de Keith e da protagonista começam a transparecer para o exterior. Megan aparece como a esposa conservadora que aos poucos começa a perceber que a sua casa é um vulcão prestes a entrar em erupção, algo notório quando observa Keith e Sophie, quando estes se encontram num baloiço. Lauren é uma jovem mimada, que não parece conviver muito bem com a entrada em cena de Sophie. É certo que Lauren procura integrar Sophie no seu círculo de amigos, ainda que a nível inicial, mas a relação entre ambas sofre rudes golpes que atomizam a possibilidade das jovens formarem amizade. O argumento nem sempre permite que Amy Ryan, Mackenzie Davis e Matthew Daddario sobressaiam, sobretudo este último que aparece com o estereótipo do adolescente idiota que finge ter ido para a cama com todas as colegas que saíram consigo. Já Mackenzie Davis interpreta uma adolescente que não parece saber lidar com as contrariedades, embora o argumento nunca consiga que Lauren atinja a mesma relevância e complexidade de Sophie. Se as temáticas relacionadas com o quotidiano de Sophie e Lauren na escola são abordadas de forma superficial, já a atenção aos pequenos gestos é exímia. Diga-se que Drake Doremus já tinha apresentado esta atenção aos pequenos gestos que ganham enorme significado em "Like Crazy". No caso de "Breathe In", é impossível esquecer quando encontramos Sophie a tocar piano ao lado de Keith, com as mãos de ambos a entrelaçarem-se, bem como os seus sentimentos, ou os personagens interpretados por Felicity Jones e Guy Pearce a baloiçarem de forma silenciosa, entre outros momentos. O momento no baloiço transmite alguma candura e melancolia, com Keith e Sophie a surgirem como personagens complexos, que guardam uma imensidão de sentimentos para expressar e a certeza de que não alcançaram tudo aquilo que pretendiam para as suas vidas. Com uma banda sonora pontuada pela delicadeza, uma atenção latente aos gestos, olhares e "pequenos pormenores", "Breathe In" confirma a habilidade de Drake Doremus para abordar temáticas relacionadas com a complexidade dos relacionamentos amorosos e dos sentimentos aparentemente incontroláveis, com o cineasta a aproveitar ainda para nos brindar com interpretações de bom nível de Guy Pearce e Felicity Jones, sobretudo desta última que entra de mansinho no enredo até provocar estrondo e aquecer a alma do filme e do espectador.

Título original: "Breathe In". 
Título em Portugal: "Um Novo Fôlego". 
Realizador: "Drake Doremus".
Argumento: Drake Doremus e Ben York Jones.
Elenco: Guy Pearce, Felicity Jones, Amy Ryan, Mackenzie Davis.

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