23 junho 2016

Resenha Crítica: "The Big Lebowski" (O Grande Lebowski)

 Jeff Lebowski (Jeff Bridges), mais conhecido como The Dude, é um tipo pachorrento e preguiçoso, que gosta de beber as suas cervejas, fumar os seus charros e participar em torneios de bowling, com Jeff Bridges a incutir um estilo descontraído e carismático a este indivíduo peculiar. The Dude é o protagonista de "The Big Lebowski", uma das obras cinematográficas mais icónicas dos irmãos Coen, com os cineastas a voltarem a colocar o espectador diante de um suposto rapto, uma série de acontecimentos rocambolescos, muito humor negro, alguma violência e figuras sui generis, enquanto se divertem a jogar com as nossas expectativas em relação à narrativa. O enredo conta com diversos traços de "Fargo" (o rapto, o humor negro, a violência, alguns personagens movidos pelo dinheiro, as figuras peculiares), bem como de alguns filmes noir, com o protagonista a envolver-se numa série de problemas e situações intrincadas a partir do momento em que aceita entregar uma mala que supostamente continha uma verba para pagar um resgate. Diga-se que o início de "The Big Lebowski" é desde logo marcado por um mal-entendido, com dois criminosos a entrarem na casa de The Dude, prontos a espancá-lo e a destruírem os seus bens, pensando que o protagonista é Jeffrey Lebowski (David Huddleston), um suposto milionário, paraplégico, que se encontra casado com Bunny (Tara Reid), uma antiga actriz de filmes pornográficos. Bunny contraiu uma série de dívidas junto de Jackie Treehorn (Ben Gazzara), um produtor de filmes pornográficos que decidiu enviar dois capangas a casa de Lebowski, com a dupla a procurar recuperar o dinheiro em falta. Após perceberem que cometerem um erro, os dois criminosos decidem abandonar a habitação do protagonista, ainda que de mãos a abanar, embora um dos elementos faça questão de urinar no tapete da sala. Lebowski fica irritado com a situação, algo que comenta com Donny (Steve Buscemi) e Walter Sobchak (John Goodman), os seus dois melhores amigos e companheiros nos torneios de bowling. Donny é um indivíduo relativamente tímido, que chega quase sempre a meio das conversas e é constantemente censurado ou silenciado por Walter, com Steve Buscemi a repetir a parceria com os irmãos Coen, após terem colaborado no memorável "Fargo" (no caso de "Fargo", o personagem interpretado por Buscemi falava pelos cotovelos). Walter é um veterano da Guerra do Vietname, com John Goodman a ter a interpretação que mais se destaca a par de Jeff Bridges. Quase sempre de calções, com uma impulsividade latente, um estilo quezilento e um gosto notório pela utilização de armas, Walter é um dos vários personagens peculiares que povoam a narrativa de "The Big Lebowski", com John Goodman a conseguir que este indivíduo nunca resvale para a mera caricatura. Walter tanto é capaz de destruir um carro, ou atirar com um idoso para fora de uma cadeira de rodas, ou arrancar uma orelha a um gangster, como demonstra alguma sensibilidade quando transporta consigo o cão da ex-mulher ou procura não evidenciar os seus sentimentos em relação à morte de um personagem relevante.

 Lebowski por vezes quase que se passa de vez com Walter, embora acabe por recorrer de forma amiúde ao amigo, com quem partilha o gosto pelo bowling e a apetência por se envolver em problemas. Revoltado pelo facto de terem urinado no seu tapete, Lebowski decide dirigir-se a casa do seu homónimo, uma mansão onde se depara com o personagem interpretado por David Huddleston, um tipo relativamente repelente e pouco cordial, que conta quase sempre com a companhia de Brandt (Philip Seymour Hoffman), o seu assistente. Brandt é uma figura calma, que se deixa enganar com facilidade, algo notório quando o protagonista consegue ludibriá-lo e levar um tapete da casa do suposto milionário. Antes de sair da casa do personagem interpretado por David Huddleston, o protagonista depara-se ainda com Bunny. Os diálogos desta surpreendem The Dude e envergonham Brandt, com os irmãos Coen a não pouparem o espectador a algumas surpresas, algo latente a partir do momento em que Bunny é raptada, com Lebowski a acabar por se envolver numa miríade de situações rocambolescas. Lebowski apenas se deslocara à casa do seu homónimo para procurar uma compensação pelos estragos provocados no seu tapete, mas acaba por se envolver numa investigação com peripécias que não andam assim tão longe dos episódios vividos por diversos detectives dos filmes noir. A narrativa é convulsa, tal como em diversos filmes noir, com The Dude a protagonizar uma série de episódios que tanto têm de perigosos como de caricatos, enquanto se depara com uma miríade de figuras pontuadas por personalidades estranhas, com o argumento dos irmãos Coen a permitir que elementos secundários como Julianne Moore, John Turturro, Ben Gazzara, entre outros, tenham espaço para sobressair. Julianne Moore dá vida a Maude, a filha de Jeffrey Lebowski, uma artista feminista de personalidade dominadora, que apresenta um enorme à vontade a abordar assuntos de cariz sexual. Esta procura recuperar o tapete que The Dude retirou da casa do personagem interpretado por David Huddleston, mas também a verba despendida pelo seu progenitor para pagar o regaste de Bunny, com o protagonista a perceber que o rapto envolve uma série de mentiras. The Dude tem ainda que lidar com um grupo de alemães niilistas (interpretados por Peter Stormare, Torsten Voges e Flea), que supostamente raptaram Bunny, para além de ser confrontado por Jackie Treehorn. A juntar a tudo isto, The Dude procura ainda vencer um torneio de bowling, contando com Jesus Quintana (John Turturro) como um dos adversários. Quintana é um tipo excêntrico, tarado, acusado de actos criminosos, que provoca The Dude, Walter e Donny de forma amiúde, com John Turturro a parecer divertir-se imenso a dar vida a esta figura caricatural. Os irmãos Coen aproveitam paradigmaticamente esta miríade de personagens, bem como outras figuras que entram e saem da narrativa, enquanto nos colocam diante de um conjunto de situações completamente delirantes que vão desde o acto mais cómico ao mais violento. A partir do momento em que o carro de The Dude é assaltado, após Walter se ter envolvido no episódio do pagamento do resgate, o enredo ganha características ainda mais frenéticas e delirantes. A verba para o pagamento do resgate encontrava-se no interior do carro de The Dude, algo que conduz o personagem interpretado por Jeff Bridges a procurar descobrir o veículo e o paradeiro do dinheiro, enquanto tem de lidar com vários dos personagens mencionados.

A investigação nem sempre é fácil, sobretudo quando nos apercebemos que The Dude se encontra envolvido no interior de uma teia de mal-entendidos e mentiras, enquanto começa a descobrir mais elementos sobre os personagens que começaram a povoar o seu quotidiano. Com roupas quase sempre informais, cabelos compridos, um modo de falar muito próprio, um estilo descontraído e alucinações delirantes, The Dude surge como um personagem que desperta facilmente a atenção do espectador, algo que se deve e muito ao trabalho de Jeff Bridges e ao argumento de Joel e Ethan Coen. The Dude não é o indivíduo mais sagaz ou arguto, estando longe de surgir como um Philip Marlowe, embora Raymond Chandler, o autor que criou o célebre detective, tenha sido uma das fontes de inspiração dos irmãos Coen. Jeff Bridges apresenta ainda uma dinâmica convincente com John Goodman e Steve Buscemi, protagonizando diversos episódios marcantes que apresentam características distintas, ou Lebowski não se envolvesse em situações que tanto podem ser perigosas como cómicas e delirantes, seja quando está acompanhado pelos amigos ou quando se encontra sozinho. Veja-se quando The Dude alucina que atravessa uma pista de bowling e passa por baixo de mulheres com saias curtinhas (num número musical extravagante), ou quando é esmurrado por um dos homens de Maude e sonha estar a voar com o auxílio de uma bola de bowling, entre outros episódios, com estes delírios a apresentarem alguns toques de brilhantismo por parte dos irmãos Coen, bem como de Roger Deakins na cinematografia e de Carter Burwell na banda sonora. A narrativa tem como pano de fundo a cidade de Los Angeles em 1991, com The Dude a ter sido inspirado em algumas figuras que os irmãos Coen conhecerem, enquanto a dupla nos apresenta a uma miríade de personagens oriundos de grupos sociais distintos. A variedade a nível de personagens é latente, com os irmãos Coen a não terem problemas em explorar mais uma vez uma parte da História e da sociedade dos EUA, ainda que num jeito muito próprio, algo que é transversal a diversas obras cinematográficas que realizaram, tais como "Fargo", "No Country for Old Men", "Inside Llewyn Davis", "Hail, Caesar!", entre outras. No caso de "The Big Lebowski", ficamos diante do território de Los Angeles e das suas gentes, algo exposto não só através dos cenários e dos personagens, mas também pelo narrador (Sam Elliott) de serviço, com a presença deste último a ser sentida quer quando apresenta uma postura sardónica, quer quando surge diante do espectador a conversar com o protagonista ou a efectuar comentários sobre o enredo. Tudo começa quando confundem Jeff Lebowski com o seu homónimo, com o protagonista a acabar por se envolver numa série de peripécias, enquanto os irmãos Coen aproveitam para exibir que contam com um enorme talento para a escrita de argumentos e para a realização, com a dupla a elaborar uma obra cinematográfica dotada de alguns momentos marcantes e delirantes, onde existe espaço para diversos elementos do elenco sobressaírem e surpreenderem.

Título original: "The Big Lebowski".
Título em Portugal: "O Grande Lebowski".
Realizadores: Joel Coen e Ethan Coen.
Argumento: Ethan Coen e Joel Coen.
Elenco: Jeff Bridges, John Goodman, Julianne Moore, Steve Buscemi, David Huddleston, John Turturro.

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