13 junho 2016

Resenha Crítica: "As Good as It Gets" (Melhor É Impossível)

 Comédia romântica dotada de um argumento relativamente coeso, uma interpretação marcante de Jack Nicholson, uma dinâmica assinalável entre a dupla de protagonistas e um trabalho inspirado de James L. Brooks na realização, "As Good as It Gets" é um triunfo para todos os envolvidos. É certo que conta com alguns lugares-comuns associados aos romances, mas estes são aproveitados de forma assertiva, com James L. Brooks a conseguir algo essencial: criar personagens que conquistam a nossa atenção. Jack Nicholson e Helen Hunt conseguem que os lugares-comuns e os momentos a descair para o melodrama sejam facilmente esquecidos ou perdoados, enquanto desfrutamos desta comédia romântica capaz de nos envolver com uma facilidade indelével, com "As Good as It Gets" a despertar alguns risos, comover e apresentar uma figura que promete permanecer na nossa memória. Essa figura é Melvin Udall (Jack Nicholson), um escritor de sucesso, que vive num apartamento de luxo em Nova Iorque. Melvin é um individuo misantropo, homofóbico, xenófobo, misógino e anti-social, que padece de Perturbação Obsessivo-Compulsiva, ou seja, um conjunto de atributos pouco recomendáveis. Diga-se que, quando conhecemos Melvin, este não conta com um único amigo, mantendo uma relação conturbada com os vizinhos, sobretudo com Simon Bishop (Greg Kinnear), um pintor homossexual. Simon tem um cachorrinho chamado Verdell, que o protagonista não suporta, algo que podemos comprovar no início do filme quando Melvin despeja o animal de estimação do vizinho na conduta do lixo. Esta situação desperta a fúria de Frank Sachs (Cuba Gooding, Jr. num papel secundário de luxo), um vendedor de obras de arte, que mantém uma relação de grande proximidade com o pintor. Melvin costuma frequentar regularmente um restaurante, embora apenas goste de ser atendido por Carol Connelly (Helen Hunt), a única empregada de mesa que parece capaz de aturar o protagonista e despertar o lado menos antipático do mesmo. Carol é uma mãe solteira que vive com Spence (Jesse James), o seu rebento, um jovem que padece de debilidades no sistema imunitário e problemas respiratórios. A vida social de Carol é praticamente nula, com esta mulher a dedicar boa parte do seu tempo ao trabalho e ao filho, contando ainda com a ajuda da progenitora. James L. Brooks aborda o quotidiano da personagem interpretada por Helen Hunt com alguma delicadeza, evitando transformar a vida pessoal de Carol em algo digno de pertencer a uma telenovela mexicana, com esta figura feminina a assumir um destaque indelével no interior da narrativa. A paciência de Carol é enorme, embora tenha limites, algo que Melvin vai perceber quando efectua um comentário indelicado sobre Spence, com a personagem interpretada por Helen Hunt a ameaçar expulsar o protagonista do estabelecimento. Esta ameaça deixa Melvin melindrado, embora o protagonista coloque-se imensas vezes a jeito, com o escritor a parecer incapaz de se preocupar com o impacto negativo das suas palavras e dos seus actos, algo que acaba por magoar ou irritar aqueles que o rodeiam.

James L. Brooks não nos faz rir dos elementos que são alvo dos comentários pouco agradáveis de Melvin, mas sim do próprio escritor e da sua personalidade, algo que contribui para atenuar o efeito de algumas falas pouco recomendáveis do protagonista. Jack Nicholson é fundamental para o personagem funcionar, com o actor a incutir carisma, humanidade, energia e um tom sardónico a este escritor peculiar, que tanto nos repele como prende a nossa atenção. Nicholson domina na perfeição os timings para expor as falas de Melvin, incutindo um carisma indelével a este escritor de cinquenta e poucos anos de idade, que parece apresentar mais habilidade para escrever do que para contactar directamente com a humanidade. Apesar de contar com uma inabilidade notável para se expressar de forma delicada, pelo menos a nível oral, Melvin começa a tentar mudar os seus comportamentos, ainda que gradualmente, com "As Good as It Gets" a avançar muitas das vezes por "terrenos" relativamente previsíveis, embora tudo seja elevado pelo trabalho de Jack Nicholson e Helen Hunt. Não são pouco os diálogos de "As Good as It Gets" que são elevados pela interpretação marcante de Jack Nicholson, com o actor a apresentar uma química convincente com Helen Hunt, algo notório durante o desenrolar do filme. Hunt não se apaga diante de Nicholson, bem pelo contrário, com a actriz a responder com uma interpretação de peso, embora Carol apresente uma personalidade distinta de Melvin. Helen Hunt consegue transmitir as fragilidades emocionais e inseguranças da personagem que interpreta, uma mulher que nem sempre é compreendida por aqueles que a rodeiam, com Melvin a surgir como um estranho interesse amoroso. A certa altura do filme, Melvin decide ajudar esta mulher ao enviar um médico privado (Harold Ramis) a casa de Carol, um especialista que detecta o problema de Spence. Esta subtrama relacionada com o tratamento de Spence é exposta e abordada de forma algo simplista, embora permita efectuar uma crítica aos serviços de saúde dos EUA e expor uma faceta mais agradável do personagem interpretado por Jack Nicholson. Com o problema de saúde de Spence controlado, Carol começa a ficar com a vida mais desafogada, uma situação que permite o regresso desta ao trabalho, algo que alivia Melvin. Este apenas pretende ser atendido por Carol, uma figura feminina com quem forma uma estranha relação de proximidade, apesar desta não estar totalmente certa se deve aceitar a aproximação do protagonista. Melvin começa a procurar mudar os seus comportamentos, ainda que apresente um conjunto de atitudes destrambelhadas, enquanto Carol procura compreender este estranho indivíduo que a espaços contribui para melhorar a sua vida. É a típica relação improvável, com diversos avanços e recuos, embora o argumento de Mark Andrus e James L. Brooks consiga explorar as dinâmicas entre Carol e Melvin com alguma inspiração.

As mudanças de Melvin não se limitam ao relacionamento com Carol. Veja-se quando Simon é assaltado e agredido, com Melvin a tomar conta de Verdell e a demonstrar um estranho afecto pelo cão. No entanto, é importante realçar que alterações comportamentais do protagonista não são bruscas, com Melvin a parecer gostar de exibir uma postura anti-social e puxar pelos limites daqueles que o rodeiam. Essa situação é paradigmaticamente visível quando Melvin é praticamente obrigado a transportar Simon até Baltimore, quando o personagem interpretado por Greg Kinnear (outro dos destaques do filme) se encontra na falência e decide recorrer aos progenitores. O momento é delicado, embora Melvin não tenha problemas em colocar a canção "Y.M.C.A." dos Village People a tocar no rádio do carro, apenas para gozar com o facto de Simon ser homossexual. Simon é um indivíduo sensível, que apresenta uma relação complicada com os pais e atravessa um bloqueio criativo após ter sido brutalmente agredido por um grupo de assaltantes. Melvin convida Carol para participar nesta viagem até Baltimore, com esta a aceitar acompanhar o escritor e Simon, com o trio a formar estranhos laços de amizade. O personagem interpretado por Jack Nicholson é bem sucedido na escrita, embora seja infantil nos seus gestos, acabando por magoar ou irritar boa parte daqueles que o rodeiam, parecendo incapaz de expressar aquilo que sente em relação a Carol. Veja-se quando se encontram num restaurante de luxo, em Baltimore, com Melvin a exibir um lado completamente destrambelhado. Carol surge como uma mulher de personalidade relativamente vincada, capaz de desafiar e despertar a atenção de Melvin, embora também conte com as suas fragilidades. Esta situação fica particularmente latente quando o filho melhora e Carol não sabe como gastar o tempo livre, com "As Good as It Gets" a colocar-nos diante de várias figuras solitárias, que contam com diversos dilemas, receios, ansiedades e sentimentos para expressar. Simon também conta com os seus problemas, em particular uma grave crise financeira e criativa, encontrando um apoio inesperado na figura de Melvin, com James L. Brooks a aproveitar para desenvolver, ainda que gradualmente, uma amizade improvável entre estes dois indivíduos. A transformação de Melvin está longe de ser original num filme do género, embora o argumento seja inteligente o suficiente para jogar com as nossas expectativas até "oferecer" aquilo que estamos muitas das vezes à espera. Diga-se que, a certa altura, Melvin surpreende Simon e o espectador com a sua humanidade, com "As Good as It Gets" a colocar-nos diante de uma figura complexa e solitária, que inicialmente procura afastar tudo e todos. James L. Brooks não tem problemas em usar e abusar das situações previsíveis, algo latente nestas mudanças que o protagonista conhece ao longo do filme, embora as convenções sejam relativamente bem utilizadas ao serviço da narrativa, com "As Good as It Gets" a beneficiar imenso de contar com uma dupla de protagonistas talentosa. Jack Nicholson e Helen Hunt convencem como estes personagens pontuados por personalidades muito próprias, com Melvin e Carol a protagonizarem uma série de episódios que ficam na memória e conquistam o espectador, enquanto James L. Brooks cria um romance convincente e envolvente.

Título original: "As Good as It Gets".
Título em Portugal: "Melhor É Impossível".
Realizador: James L. Brooks.
Argumento: Mark Andrus e James L. Brooks.
Elenco: Jack Nicholson, Helen Hunt, Greg Kinnear, Cuba Gooding, Jr., Jesse James.

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