02 maio 2016

Resenha Crítica: "Truman" (2015)

 "Truman" é uma pequena preciosidade que se encontra escondida no interior da sua falsa simplicidade, com esta co-produção entre a Espanha e a Argentina a contribuir para muitos risos, várias lágrimas e reforçar a noção de que Ricardo Darín é um actor soberbo. É um filme que está longe de ser simples, com Cesc Gay, o realizador, a abordar temáticas relacionadas como o aproximar da morte, uma doença terminal, a cumplicidade inerente a uma amizade de longa duração, a paternidade, o papel que um cão pode ganhar no quotidiano de um ser humano, entre outras que são desenvolvidas com uma sinceridade desarmante. Dois dos pontos fortes de "Truman" passam pela sinceridade dos diálogos e pela dinâmica sublime entre Ricardo Darín e Javier Cámara, a dupla de protagonistas. É um filme onde o trabalho dos actores é valorizado e dignificado, com Cesc Gay a deixar muitas das vezes que as atenções recaiam na dupla de protagonistas, enquanto estes protagonizam uma série de episódios marcantes e envolventes. Cesc Gay não deixa que o filme descaia por completo para o drama, nem utiliza a comédia nos momentos mais inapropriados, conseguindo mesclar a faceta cómica e dramática de "Truman" com uma naturalidade surpreendente, ao mesmo tempo que dá espaço para os seus intérpretes brilharem, incluindo o canino que encarna o personagem do título, o animal de estimação de Julián (Ricardo Darín). Este é um actor na casa dos quarenta e poucos, ou cinquenta anos de idade, que padece de cancro nos pulmões, encontrando-se em estado terminal, tendo decidido não avançar para a quimioterapia devido a não pretender gastar os últimos dias da sua vida em tratamentos dolorosos. O actor é sublime na forma como transmite os sentimentos, com um simples diálogo, ou um abraço, a ganharem outra dimensão graças à arte de Darín, enquanto este nos compele a querer seguir Julián, um solteirão que tem dois filhos, Nico (Oriol Pla), um jovem que se encontra a estudar em Amesterdão e Truman, um cão simpático e afável. A relação entre Julián e Truman é desarmante, com uma cena onde o primeiro se dirige ao veterinário, tendo em vista a procurar aferir a forma como um cão lida com a perda do dono, a surgir como um momento que tanto tem de humano como promete dizer imenso a quem encara o seu cachorro praticamente como se fosse um membro da família. Julián procura uma família, ou alguém de confiança, que acolha Truman, embora pareça devastado com a possibilidade de ter de se afastar do seu grande companheiro de todas as horas, com quem fala e lida como se estivesse diante de um ser humano. Se Julián é um actor argentino, outrora um galã, que se encontra a viver e trabalhar em Madrid, embora conte com algumas dificuldades financeiras, já Tomás (Javier Cámara) habita e labora no Canadá (como professor), onde formou família, apesar dos melhores anos da sua juventude terem sido passados em Espanha, com o primeiro a ser um dos seus melhores amigos.

Tomás e Julián já não dialogavam há algum tempo, embora o primeiro conseguisse obter informações sobre o amigo através de Paula (Dolores Fonzi), a prima do actor, uma mulher temperamental e divorciada, que apresenta uma enorme intimidade com o personagem interpretado por Javier Cámara. O actor consegue transmitir a maior ponderação de Tomás em relação a Julián, com Cámara e Darín a apresentarem uma dinâmica desarmante, com ambos a convencerem que são amigos de longa data. Um simples olhar, ou uma curta troca de palavras permite exprimir essa cumplicidade entre Julián e Tomás, com este último a preparar-se para passar quatro dias junto do amigo, tendo em vista a formar novas memórias, despedir-se do mesmo e celebrar a vida. Diga-se que "Truman" tem o condão quer de nos confrontar com o aproximar da morte e a inevitabilidade da mesma, quer com a alegria de viver, com Cesc Gay a conseguir conciliar estes momentos de forma delicada e inspirada. A reunião entre Julián e Tomás é marcada pela dificuldade inicial do segundo em lidar com a doença do primeiro, embora admire a coragem do amigo, com Ricardo Darín a incutir um carisma indelével ao personagem que interpreta. "Truman" consegue que os personagens e os episódios protagonizadas pelos mesmos pareçam credíveis e sinceros, pelo menos para esta pessoa que escreve o texto, mesmo quando Cesc Gay cede aos lugares-comuns ou a uma ou outra opção mais fácil (sobretudo no último terço), embora o trabalho do cineasta mereça ser valorizado e elogiado. Entre uma visita ao médico, uma reunião para decidir a urna de Jávier, uma viagem à Holanda para o personagem interpretado por Ricardo Darín se reunir com o filho, festas e momentos mais depressivos, a dupla de protagonistas vive uma miríade de episódios ao longo destes quatro dias, enquanto o espectador é transportado para o interior do dia-a-dia destas duas figuras masculinas que facilmente despertam a nossa atenção e curiosidade. Num determinado momento de "Truman", Tomás salienta que os quatro dias passaram demasiado depressa, um sentimento que é partilhado pelo espectador, ou a duração do filme praticamente não se fizesse notar. Aos poucos, parece que também somos amigos de Tomás e Julián, que partilhamos os seus momentos de cumplicidade, seja de dor ou alegria, com "Truman" a abordar a questão da doença e da decisão do personagem interpretado por Ricardo Darín com uma complexidade latente. Essa complexidade fica particularmente visível na demonstração das diversas formas como os vários conhecidos de Julián lidam com o facto deste padecer de uma doença terminal: uns fingem que não o vêem para não terem de falar sobre a doença, outros procuram transmitir palavras de conforto, com "Truman" a abordar esta situação de forma delicada e inspirada. Tomás procura apoiar o amigo quer a nível moral, quer financeiro (é sempre o professor quem paga as contas), com ambos a protagonizarem alguns episódios que tanto despertam risos como um nó na garganta, com a narrativa a contar com uma estrutura relativamente episódica. Veja-se quando encontramos Julián e Tomás numa consulta, com o primeiro a rejeitar recorrer à quimioterapia e aos tratamentos que apenas prometem adiar o inevitável, enquanto o segundo fica sem saber lá muito bem aquilo que deve dizer ou pensar, num trecho onde Darín exibe quer o carácter bem disposto do personagem que interpreta, quer o seu lado mais dramático, quer a sua coragem.

Temos ainda a reunião entre Julián e o filho, com Cesc Gay a criar um dos momentos mais intensos e comoventes de "Truman", com poucas palavras sobre a doença a serem trocadas, embora um abraço prometa dizer mais do que longos diálogos. Não poderíamos ainda deixar de realçar, mais uma vez, a relação peculiar entre Julián e Truman, com o animal de estimação a ganhar um destaque especial em diversos momentos da narrativa, bem como Paula, a prima do protagonista. Dolores Fonzi tem alguns momentos para se destacar como esta mulher que parece ter um passado em comum com Tomás, com a actriz e Javier Cámara a apresentarem uma química convincente, embora, a espaços, a decisão tomada por Cesc Gay, em relação aos personagens, num determinado momento do enredo, pareça demasiado fácil e preguiçosa. Já a relação de amizade entre Tomás e Julián é abordada com enorme arte e engenho, com a dupla a contar com uma cumplicidade latente. A dinâmica entre Darín e Cámara é essencial para "Truman" funcionar, com os actores a contribuírem para que os diálogos pareçam completamente sinceros, enquanto elevam o argumento e a colocam o espectador diante de situações que tanto prometem despertar risos como a queda de uma lágrima (ou mais) de tristeza. Darín sobressai como este actor que outrora fora um galã, que se depara com o aproximar do "final da linha", enquanto tenta aproveitar as últimas semanas que lhe restam. O actor consegue transmitir a incerteza que a espaços paira na mente de Julián, com o protagonista a exibir alguns sinais de fragilidade, algo notório quando se urina nas calças antes de chegar à casa de banho. Veja-se ainda quando reencontra a ex-mulher (Elvira Mínguez), num momento onde fica clara a capacidade de Cesc Gay em reunir as várias peças da narrativa de forma quase sempre harmoniosa, enquanto coloca Julián a procurar organizar e viver os últimos momentos da sua existência. Cámara destaca-se como um indivíduo que inicialmente não sabe como lidar com o facto da morte se estar a aproximar de um dos seus melhores amigos, com o intérprete a exibir uma dinâmica com Darín que é praticamente irrepreensível. Julián procura organizar o tempo que falta da sua vida, enquanto Tomás tenta reavivar uma amizade de longa data, com ambos a trocarem diálogos que vão desde o mais simples ao mais filosófico. Veja-se quando Julián comenta que se encontra a sonhar constantemente com os pais, ou salienta que deixou de ser ateu, com "Truman" a abordar os efeitos que a doença terminal provoca na mente e no corpo do protagonista. A amizade entre Julián e Tomás é uma das pedras basilares desta obra cinematográfica, enquanto Cesc Gay nos deixa diante de dois amigos que são colocados diante de dificuldades, episódios que variam entre o agradável e o desagradável, embora a união de ambos nunca seja colocada em causa, com "Truman" a surgir como uma surpresa que é capaz de envolver, comover e fazer rir o espectador.

Título original: "Truman".
Realizador: Cesc Gay.
Argumento: Tomàs Aragay e Cesc Gay.
Elenco: Ricardo Darín, Javier Cámara, Dolores Fonzi.

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