13 maio 2016

Resenha Crítica: "Sedotta e abbandonata" (1964)

 Recheado de episódios farsescos, diversos momentos de drama, situações rocambolescas, sentimentos expostos de forma exagerada, traições e figuras conservadoras, "Sedotta e abbandonata" aborda e satiriza algumas das tradições associadas à sociedade siciliana, um pouco a fazer recordar "Divorzio all'italiana", uma "comédia à italiana" realizada por Pietro Germi. "Sedotta e abbandonata" é o segundo volume da trilogia informal sobre a "Itália provinciana", iniciada em "Divorzio all'italiana", com Pietro Germi, o realizador, a colocar o espectador diante de um núcleo familiar que entra em polvorosa perante a descoberta de que Agnese Ascalone (Stefania Sandrelli), uma adolescente que conta com quinze anos de idade, teve relações sexuais com Peppino Califano (Aldo Puglisi), um estudante universitário que se encontrava noivo de Matilde (Paola Biggio), a irmã da personagem interpretada por Stefania Sandrelli. A notícia causa uma enorme comoção junto de Don Vincenzo Ascalone (Saro Urzì), o patriarca desta família, um empresário conservador e rígido, que procura evitar que Matilde descubra esta informação, enquanto tenta forçar Peppino a casar com Agnese, uma tarefa que promete ser deveras complicada. A jovem procura cumprir penitência e esconder este "pecado" dos pais, embora o segredo não dure muito tempo. A penitência não é obra do acaso, com os valores religiosos a estarem bastante impregnados nas figuras que vivem em Sciacca, o território siciliano onde se desenrola boa parte da narrativa de "Sedotta e abbandonata", com Pietro Germi a utilizar alguns estereótipos associados a este espaço ao serviço do humor, enquanto expõe vários problemas ligados às leis e práticas locais no período em que a obra cinematográfica foi lançada. O conservadorismo e a violência deste território surgem como temáticas presentes em comédias à italiana como "Divorzio all'italiana", "La ragazza con la pistola", entre outras, algo que se repete em "Sedotta e abbandonata". Veja-se que a jovem é agredida e trancada no quarto pelo pai, com o casamento a ser visto como o único meio desta poder "limpar o nome da família", independentemente de Agnese pretender ou não esta opção. Diga-se que o filme aborda ainda o facto caricato do casamento anular crimes como um rapto, ou uma menor ter mantido relações com um indivíduo maior de idade. Este indivíduo é Peppino, um estudante universitário imaturo, irresponsável e incoerente, que não pretende casar com Agnese devido ao facto desta ter sido "desonrada" antes do matrimónio. Pietro Germi recorre ao exagero para acentuar os momentos de humor, aliviar as situações mais dramáticas e satirizar alguns costumes, beneficiando do facto de contar com um argumento coeso e um elenco competente, com diversas das situações mais cómicas a resultarem da interacção entre os vários personagens. Veja-se quando Vincenzo entra pela casa de Peppino e começa a agredir o jovem, com Amalia (Lola Braccini) e Orlando Califano (Rocco D'Assunta), os pais do estudante universitário, a serem apanhados de surpresa. Diga-se que Amalia também começa a agredir Peppino quando descobre que o filho engravidou a jovem Agnese, com Pietro Germi a não ter problemas em abraçar os exageros e despertar o sorriso do espectador com alguns momentos de humor bem elaborados.

 Se Agnese é uma jovem bela, insegura, impulsiva e aparentemente algo frágil, já Vincenzo é um indivíduo violento, retrógrado e expansivo na exposição das suas emoções, não tendo problemas em gritar, cometer agressões e colocar o quotidiano da primeira e de Peppino em polvorosa. Nesse sentido, Vincenzo obriga Peppino a escrever uma carta a Matilde, tendo em vista a terminar o noivado, enquanto procura unir esta última a Rizieri (Leopoldo Trieste), um barão suicida, desdentado, falido e destrambelhado. Rizieri é uma das várias figuras secundárias que sobressaem ao longo do filme, tal como Matilde, uma jovem sonolenta, anafada e pouco inteligente, que pensa ter sido abandonada por Peppino devido ao facto da irmã ter sido "desonrada" por um estranho. Para além de Matilde e Agnese, Vincenzo Ascalone e Francesca Ascalone (Lina Lagalla) contam ainda com mais duas filhas e um filho, com este último a ganhar algum destaque a partir da segunda metade da narrativa. O filho é Antonio (Lando Buzzanca), um indivíduo algo cobarde e pouco expedito, que é designado por Vincenzo para assassinar Peppino, embora não pareça muito convencido desta ideia. Vincenzo pretende aproveitar a lei e os costumes locais, que permitem uma pena entre três a sete anos de prisão para crimes relacionados com ofensas à honra familiar, tendo em vista a eliminar o personagem interpretado por Aldo Puglisi e limpar o nome da jovem Agnese. Diga-se que este é o argumento utilizado por Ferdinando Cefalù (Marcello Mastroianni), o protagonista de "Divorzio all'italiana", para se tentar livrar da esposa, procurando que esta inicie um caso extraconjugal para contar com uma justificação para eliminá-la. Os personagens de "Sedotta e abbandonata" são movidos por um estranho sentimento de honra, talvez com excepção de Peppino, um jovem que procura evitar contrair matrimónio com Agnese, embora Vincenzo não esteja para brincadeiras, tal como a protagonista não parece entusiasmada com a ideia de casar com alguém que foge da sua pessoa. A narrativa torna-se gradualmente mais rocambolesca e recheada de exageros, com Pietro Germi a não poupar os personagens a uma miríade de episódios marcantes. Veja-se quando os elementos das duas famílias e os respectivos advogados encontram-se junto de um juiz, algo que promete contar com situações delirantes, recheadas de gritaria, emoções à flor da pele e muito humor. "Sedotta e abbandonata" coloca o espectador diante de uma sociedade patriarcal e machista, que valoriza imenso as aparências, com a virgindade das figuras femininas a surgir quase como um estranho troféu. Vincenzo é o paradigma desse conservadorismo, com este indivíduo a procurar que as filhas não "manchem" a "honra" da família, ou seja, que não lhe proporcionem problemas que contribuam para ser alvo dos comentários e má língua dos habitantes desta cidade. Saro Urzì é um dos elementos em destaque, com o actor a ter momentos dignos de atenção, sobretudo quando Vincenzo exprime as suas emoções de forma bem viva, com este personagem a surgir como uma das várias figuras conservadoras desta sociedade que aparece representada com recurso a diversos estereótipos.

O enredo conta com diversas situações delirantes. Veja-se quando encontramos Vincenzo no comboio a cogitar a identidade do indivíduo com quem a sua filha terá mantido relações sexuais, num trecho pontuado pelo bom humor e imaginação, enquanto a expressividade de Saro Urzì, bem como o trabalho de som e montagem ajudam e muito para tudo funcionar. O trabalho de montagem sobressai ainda num delírio de Agnese, com esta a sonhar que se encontra a ser perseguida pelos locais, após saberem a verdade sobre a gravidez e perda da virgindade, com a banda sonora, a expressividade da actriz e a cinematografia a contribuírem para que este momento cause impacto e exponha os receios da personagem interpretada por Stefania Sandrelli. Esta parece destinada a interpretar jovens sedutoras nos filmes de Pietro Germi, ou não tivesse integrado o elenco principal de "Divorzio all'italiana", onde deu vida a Angela, a sobrinha e interesse amoroso de Ferdinando. A actriz é um dos vários nomes do elenco que sobressaem, com os momentos de humor a beneficiarem da interacção entre estas estranhas figuras que povoam o enredo de "Sedotta e abbandonata", uma das várias comédias recomendáveis realizadas por Pietro Germi. O cineasta tanto aposta no humor mais físico ou de situação, como procura utilizar a sátira para evidenciar alguns problemas na sociedade retrógrada que retrata (a reunião entre tragédia e comédia é algo muito comum nas "comédias à italiana"). O caso do rapto de Agnese, tendo em vista a esta "ser desonrada" publicamente para ser obrigada a casar é exemplo disso, com "Sedotta e abbandonata" a exibir a prática transviada de fuitina, algo que também aconteceu em filmes do género como "La Ragazza con la Pistola". Diga-se que os espaços exteriores são essenciais para incrementar a narrativa, com Pietro Germi a não ter problemas em exibir alguns territórios de Sciacca, com os personagens a circularem regularmente pelos mesmos, enquanto ficamos diante destas gentes que deliram com um bom rumor (não faltam figuras algo "tacanhas"). O cineasta aproveita ainda os cenários interiores de forma bastante assertiva, algo notório no caso da habitação dos pais de Agnese, com esta casa a contar com uma dimensão assinalável, embora os efeitos da passagem do tempo sejam latentes, algo que permite criar uma ligação interessante e mordaz entre os valores ancestrais e as habitações deste território siciliano. Com diversos momentos de humor bem arquitectados, boas interpretações, a procura destrambelhada de um indivíduo em manter o "bom nome" da sua família, "Sedotta e abbandonata" aproveita alguns dos estereótipos associados ao território siciliano e aos seus habitantes tendo em vista a denunciar e satirizar algumas situações merecedoras de serem questionadas, enquanto diverte o espectador e exibe o talento de Pietro Germi para a realização de "comédias à italiana".

Título original: "Sedotta e abbandonata".
Título em Portugal: "Seduzida e Abandonada".
Realizador: Pietro Germi.
Argumento: Pietro Germi, Agenore Incrocci, Furio Scarpelli, Luciano Vincenzoni.
Elenco: Stefania Sandrelli, Saro Urzì, Aldo Puglisi, Lando Buzzanca, Lola Braccini.

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